Lula leva a disputa eleitoral à ONU enquanto o Brasil se despede de Zuenir Ventura

Trajetória de Zuenir é um marco na imprensa brasileira

Pedro do Coutto

A abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas colocou a eleição brasileira no centro de um palco tradicionalmente dedicado à política internacional. Ao discursar em Nova York, Lula combinou a defesa da soberania, do multilateralismo e da democracia com referências que, embora não citassem nominalmente Flávio Bolsonaro, dialogavam diretamente com a disputa presidencial.

A poucos dias do primeiro turno, o presidente afirmou que os brasileiros terão de escolher entre “democracia e negacionismo” e alertou para os riscos da desinformação e de interferências externas no processo eleitoral.

POSIÇÃO DO BRASIL – O discurso teve, portanto, duas dimensões. Para o público internacional, Lula procurou reafirmar a posição do Brasil diante de um ambiente marcado por conflitos e disputas de influência. Para o eleitor brasileiro, a fala funcionou como extensão da campanha. A frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” sintetizou a mensagem dirigida ao exterior, enquanto a oposição entre democracia e negacionismo ajudou a estabelecer o eixo político que Lula pretende levar para a reta final.

Há, nesse movimento, uma característica importante da eleição de 2026: a disputa não se resume ao confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro. O campo da direita chega ao primeiro turno fragmentado entre diferentes candidaturas, entre elas as de Flávio, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Os levantamentos de setembro mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio nos diferentes cenários, embora os números variem conforme o instituto e a metodologia.

Essa fragmentação ganha importância na passagem do primeiro para o segundo turno. Os votos obtidos pelos candidatos que eventualmente não avançarem não constituem um bloco automático. Eleitores de Caiado e Zema podem se distribuir de maneiras diferentes entre os dois finalistas, assim como optar pela abstenção, pelo voto nulo ou branco. Não existe transferência integral e mecânica de votos.

COALIZÃO ELEITORAL – É justamente aí que a eleição ganha uma dimensão menos previsível. O primeiro turno mede a força das candidaturas; o segundo mede também a capacidade de ampliar uma coalizão eleitoral. O campo oposicionista a Lula possui pontos de convergência, mas não é inteiramente homogêneo. Caiado e Zema representam segmentos da direita que não necessariamente se identificam com todos os elementos do bolsonarismo. A forma como essas diferenças serão administradas poderá influenciar alianças e a distribuição dos votos.

O discurso de Lula revela que a campanha já entrou numa fase em que a disputa por identidade política se torna tão importante quanto a discussão sobre propostas. Ao falar em democracia, soberania, desinformação e interferência estrangeira, o presidente procura estabelecer uma moldura para a eleição. A campanha de Flávio reagiu ao pronunciamento acionando o Tribunal Superior Eleitoral para impedir o uso de imagens ou trechos do discurso na propaganda, sob o argumento de que a fala teria sido transformada em instrumento eleitoral.

A eleição, assim, aproxima política interna e política externa. A relação com os Estados Unidos, as manifestações de Lula sobre soberania, as críticas à interferência estrangeira e a presença de Flávio no debate internacional passaram a integrar a narrativa eleitoral. O contexto também ajuda a explicar por que o discurso na ONU adquiriu relevância muito além da diplomacia.

DEMOCRACIA E JORNALISMO – É nesse ambiente que a morte de Zuenir Ventura, aos 95 anos, acrescenta outra camada à discussão sobre democracia e jornalismo. O jornalista e escritor morreu na terça-feira, 22 de setembro, deixando uma trajetória de várias décadas na imprensa brasileira. Seu nome está especialmente ligado a 1968: O ano que não terminou, publicado em 1988, obra que reconstruiu um dos períodos mais turbulentos da ditadura militar. Zuenir havia sido preso depois da edição do AI-5, em dezembro de 1968.

Sua importância, porém, não se limita ao livro. Zuenir passou por algumas das principais redações do país, trabalhou no Jornal do Brasil e em O Globo e construiu uma obra que aproximou jornalismo, literatura e interpretação social. Na cobertura do assassinato de Chico Mendes, produziu uma série de reportagens premiada. Em Cidade partida, voltou-se para a violência e a desigualdade no Rio de Janeiro.

Sua relação com a ditadura não foi apenas a de quem posteriormente escreveu sobre aquele período. Zuenir viveu parte daquela história. Foi preso em 1968, assim como sua mulher, a jornalista Mary Akiersztein. Décadas depois, transformou aquela experiência em investigação jornalística e memória coletiva. Seu trabalho mostrou que a imprensa não apenas registra acontecimentos: em determinados momentos, ela também ajuda uma sociedade a reconstruir aquilo que tentou ser silenciado.

ASSOCIAÇÃO – É por isso que a coincidência entre a morte de Zuenir e o discurso de Lula na ONU produz uma associação inevitável, embora as duas histórias pertençam a planos diferentes. De um lado, um presidente candidato que apresenta a eleição como uma escolha entre democracia e negacionismo. De outro, a morte de um jornalista que dedicou parte fundamental de sua obra a registrar o que acontece quando a democracia é interrompida e os direitos são submetidos ao arbítrio.

A eleição de 2026 ocorre, evidentemente, em outro contexto histórico. O Brasil tem instituições democráticas funcionando, eleições periódicas e um sistema eleitoral consolidado. Mas a memória do passado voltou a ocupar espaço no debate político. Quando candidatos disputam o significado de democracia, liberdade e soberania, disputam também a interpretação que o eleitor fará do presente.

DEDICAÇÃO – Talvez essa seja a ligação mais forte entre os acontecimentos desta semana. Enquanto Lula usava o maior palco diplomático do mundo para afirmar que a democracia brasileira não deve sofrer interferências, o país se despedia de um jornalista que dedicou sua vida a contar como essa mesma democracia foi perdida, restringida e reconstruída.

Entre a ONU e a memória de Zuenir Ventura, o Brasil reencontra uma questão que permanece atual: democracia não é apenas uma palavra de campanha ou um capítulo da história. É também a possibilidade de que as instituições funcionem, que o jornalismo registre os fatos e que o eleitor faça sua escolha sem que o passado seja apagado ou o presente seja deformado.

8 thoughts on “Lula leva a disputa eleitoral à ONU enquanto o Brasil se despede de Zuenir Ventura

  1. O Lula foi um anão na ONU e só aplaudiram os bostas comunistas de sempre. O cerco fechou e o Ladrão já está para onde vai fugir depois das eleições. Nem a Esbanja vai com ele.

  2. Sr. Pedro

    O povo está com a sensação de que o tomate estorou nas feiras e mercados

    preços em torno de 15,00 á 20,00 janjaus….

    Será que a Ecomunista Carniceira Stalinista do Òrgão de Propaganda Soviètica também está com essa sensação.??

    aquele abraço

  3. “Por um lado, um presidente candidato que apresenta a eleição como uma escolha entre democracia e negacionismo”

    Não é democracia.

    O radical demo aí não é sinônimo direto e inevitavel do demoníaco.

    É a mesma sujeitada dos privilégios.

    Nem república é.

    Lugar em que dinastias de toga são blindadas e fazem o que querem com sua liberdade, sua família, seu patrimônio.

    A pior relação entre carva tributária e retorno em toda Terra.

    Há péssimos exemplos.

    Mas o Brasil de hoje é uma terra de medo, de pavor, de insegurança total para o homem honesto perante esses ditadores

    Tal como…

    “Nunca antes na história universal…”

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