
Lula e Janja no evento no Rio, quando chamou o pastor de 171
Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira
Gazeta do Povo
“Olha a cara dele. Cara de 171.” A frase foi pronunciada nesta semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, ao se referir ao pastor André Valadão, quando falava sobre um vídeo de Fábio Porchat envolvendo o Banco Master, políticos e a Igreja Batista da Lagoinha. Na sequência, vieram referências aos que pregam “em nome de Deus” e as expressões “lavador de dinheiro” e “bandido contumaz”.
Não se trata de conceder a André Valadão, ou a qualquer liderança religiosa, proteção contra crítica ou investigação. Pastor algum possui imunidade penal e igreja alguma está acima da lei. Havendo crime, deve haver investigação, prova, processo e responsabilização. O problema começa justamente quando esse caminho é encurtado e a suspeita passa a ser construída por imagens, associações e impressões.
DIZEM AS LEIS – O Estado de Direito existe para que ninguém responda pela cara que tem, pela igreja que frequenta ou pela impressão que uma autoridade pública forma a seu respeito.
A fala política, porém, não funciona como uma conversa comum. Ela é, por natureza, uma linguagem de projeção. Simplifica ideias complexas, acentua contrastes, cria antagonismos e frequentemente recorre à hipérbole para fixar uma imagem. Quem vive profissionalmente da política conhece esse código e sabe operar suas categorias. O cidadão que recebe a mensagem, no entanto, não necessariamente refaz esse percurso intelectual. Entre a intenção do emissor e a compreensão do receptor existe uma diferença decisiva. Portanto, muitas vezes, o que permanece não é o argumento, mas a imagem.
DISSE LULA – “Cara de 171”, como disse Lula, é particularmente expressivo. Não oferece fatos para serem examinados, documentos para serem confrontados ou argumentos para serem refutados. Convida o público a reconhecer um tipo. A suspeita deixa de decorrer da conduta e parece aderir à própria pessoa.
E quando, na mesma construção, aparecem igreja, pastor, pregação em nome de Deus, lavagem de dinheiro e criminalidade, as palavras então passam a produzir associações que podem sobreviver muito além do palanque em que foram pronunciadas.
Justamente por isso, há uma crescente disponibilidade da identidade evangélica como categoria útil para interpretar negativamente pessoas, relações e comportamentos públicos
RELATÓRIO DA PF – Outro exemplo é o relatório apócrifo da Polícia Federal utilizado por Alexandre de Moraes na controvérsia com André Mendonça. O material, de baixa confiança e sem valor probatório, chegou a utilizar a existência de uma “matriz religiosa comum” entre Mendonça e Jorge Messias para formular hipóteses sobre a atuação de ambos.
Poucos dias depois, no duro embate ocorrido dentro do Supremo, a religiosidade de Mendonça voltou a circundar o conflito. Assim, a questão aqui não é somar episódios diferentes para fabricar uma teoria de perseguição coordenada. Não há elementos para isso. O que merece atenção é outra coisa: a crescente disponibilidade da identidade evangélica como categoria útil para interpretar negativamente pessoas, relações e comportamentos públicos.
NOSSA SENHORA – Nesta mesma semana, outro episódio revelou a operação em sentido inverso. Circulou nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro, caso eleito presidente, pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. Não havia declaração ou proposta do candidato nesse sentido, e ele veio a público negar a informação.
O caso é especialmente interessante porque desloca a perspectiva. Já não se trata de apresentar o evangélico como alguém de quem se deve suspeitar, mas de apresentá-lo como alguém de quem outro grupo religioso deveria ter medo. A mensagem implícita é simples e emocionalmente eficiente: se eles chegarem ao poder, aquilo que é sagrado para você estará ameaçado.
A informação pode ser desmentida depois. O problema é que imagens políticas têm uma velocidade que a correção factual raramente acompanha. A mentira não precisa sobreviver intelectualmente para produzir efeito; às vezes basta deixar uma impressão.
E é justamente aí que “cara de 171” e a falsa ameaça a Nossa Senhora Aparecida, embora completamente diferentes em origem e conteúdo, revelam algo semelhante sobre o momento político: primeiro instala-se uma associação emocional, depois os fatos precisam correr atrás dela.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Excelente matéria enviada por Mario Assis Causanilhas. Com a frase de Lula sobre evangélicos e o episódio de Nossa Senhora, o PT ultrapassou todos os limites éticos que devem nortear uma campanha eleitoral. Além disso, confirmou aquela confissão pública feita pela então presidente Dilma Rousseff em 2013, ao admitir que o PT “faz o diabo” para ganhar uma eleição. Sinceramente, chega ser constrangedor esse tipo de campanha política. E a Justiça Eleitoral deixa rolar. (C.N.)