
Segurança pública ganha peso na eleição de 2026
Pedro do Coutto
A segurança pública entrou definitivamente no centro da eleição de 2026. No Rio de Janeiro, porém, ela adquiriu uma dimensão que ultrapassa a escolha do próximo governador. A sensação de insegurança, os confrontos armados, o domínio territorial de organizações criminosas e a dificuldade do Estado de garantir a circulação cotidiana podem influenciar também a disputa presidencial, sobretudo porque o Rio é um dos maiores colégios eleitorais do país e hoje apresenta uma vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula nas pesquisas presidenciais.
Não se trata de afirmar que a segurança pública determinará o resultado das urnas. Eleições são formadas por múltiplos fatores — economia, renda, serviços públicos, rejeição, identidade política, desempenho dos governos e conjuntura nacional. Mas seria um erro subestimar o peso de um tema que afeta diretamente a vida cotidiana de milhões de pessoas e que, no Rio, possui uma dimensão territorial particularmente aguda.
CONFRONTOS — A realidade é visível nas ruas. Corredores importantes da Região Metropolitana podem ser interrompidos por operações policiais, confrontos ou ações criminosas. A Linha Vermelha, a Avenida Brasil e outros eixos fundamentais para a mobilidade da população tornaram-se parte de uma geografia em que o direito de ir e vir pode ser condicionado por acontecimentos que escapam ao controle do cidadão comum.
Na Baixada Fluminense, a situação também revela a dimensão econômica e territorial do problema. Em agosto, uma operação da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio investigou uma organização criminosa armada com influência territorial e econômica na região, identificando mais de R$ 350 milhões em movimentações financeiras suspeitas.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente policial. Quando grupos criminosos conseguem controlar territórios, impor atividades econômicas, cobrar por serviços, intimidar moradores ou interferir na circulação, o problema deixa de ser apenas a ocorrência de crimes. Passa a envolver a própria capacidade do Estado de exercer autoridade sobre o território.
ESCALA DO DESAFIO — A resposta, por isso, não pode ser medida somente pelo número de operações realizadas ou pela quantidade de armas apreendidas. A Polícia Militar do Rio informou ter alcançado, em julho, a marca de 400 fuzis apreendidos em 2026. É um dado expressivo sobre a dimensão do poder de fogo encontrado pelas forças de segurança, mas também revela a escala do desafio.
O governo federal, por sua vez, ampliou a participação na questão. Em julho, foi instalado no Rio o Escritório Nacional Antifacção, destinado a integrar União, Estado e municípios no enfrentamento ao crime organizado. Em setembro, Ministério da Justiça e governo fluminense assinaram acordos para estruturar operações conjuntas e retomar áreas sob influência de organizações criminosas. Poucos dias depois, as instituições avançaram para a elaboração de planos operacionais integrados destinados a proteger corredores estratégicos do Estado.
Essa movimentação é politicamente relevante porque demonstra que a segurança do Rio já não pode ser compreendida apenas como uma responsabilidade isolada do governo estadual. O combate ao crime organizado envolve inteligência financeira, fronteiras, armas, sistema prisional, lavagem de dinheiro, investigação, circulação de drogas e articulação entre diferentes forças policiais. Uma investigação da Polícia Federal sobre uma organização criminosa que atuava na Região Metropolitana, por exemplo, apontou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões em seis anos e suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis.
ROTINA — Há ainda uma dimensão menos espetacular, mas talvez mais importante para o eleitor: a criminalidade que entra na rotina. O roubo e o furto de celulares são um exemplo. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 registrou 792.284 ocorrências no país em 2025, uma redução de 7,7% em relação ao ano anterior e de 25% em relação ao pico de 2019. Ainda assim, a quantidade de ocorrências permanece elevada e mostra como um crime aparentemente banal pode produzir uma percepção permanente de vulnerabilidade.
Isso ajuda a explicar uma diferença fundamental entre estatística criminal e percepção de segurança. Mesmo quando determinados indicadores melhoram, o cidadão que muda de caminho para evitar uma determinada rua, deixa de usar o telefone na rua ou calcula o horário de saída de casa está tomando decisões a partir daquilo que percebe como risco. A política é particularmente sensível a essa percepção porque segurança pública não é apenas uma questão de números: é também uma questão de confiança. E o Rio chega à última semana da campanha presidencial justamente como um território em disputa.
DATAFOLHA — A pesquisa Datafolha realizada entre 22 e 24 de setembro mostra Flávio Bolsonaro à frente de Lula no Estado. Num eventual segundo turno, o senador aparece com 51%, contra 42% do presidente. No primeiro turno, a diferença é de 44% a 38%. O levantamento tem margem de erro de três pontos percentuais no Estado e ouviu 1.204 eleitores.
O dado ganha importância quando colocado ao lado dos outros grandes colégios eleitorais. São Paulo e Rio apresentam vantagem de Flávio no segundo turno, enquanto Minas Gerais aparece tecnicamente empatado. Juntos, os três Estados concentram cerca de 40% dos eleitores brasileiros.
Não significa que o resultado nacional possa ser deduzido do comportamento do eleitorado fluminense. Não pode. Mas significa que qualquer alteração significativa na distribuição dos votos nesses Estados tem potencial para repercutir na contagem nacional. É justamente aí que a segurança pública pode adquirir dimensão presidencial.
RELAÇÃO PARTICULAR — Flávio Bolsonaro possui uma relação política particular com o Rio. É senador pelo Estado e construiu boa parte de sua trajetória eleitoral dentro do ambiente político associado à família Bolsonaro. Para sua campanha, portanto, o tema da segurança encontra uma base política já estabelecida. Para Lula, o desafio é diferente: transformar a presença do governo federal na área de segurança em uma percepção concreta de capacidade de resposta, sem reduzir o debate à lógica de confronto permanente entre forças policiais e organizações criminosas.
Essa diferença de posicionamento tende a ganhar importância à medida que a campanha se aproxima do segundo turno. A segurança pública é um dos poucos temas capazes de atravessar fronteiras ideológicas com facilidade. Pode mobilizar eleitores que normalmente votam à esquerda, à direita ou que simplesmente não se identificam com nenhum dos dois campos.
MAIS SEGURANÇA — O que muda é a pergunta feita por cada grupo: quem oferece mais segurança, quem tem capacidade de enfrentar o crime organizado, quem consegue preservar direitos sem perder o controle do território e quem apresenta uma estratégia capaz de produzir resultados duradouros? São perguntas diferentes de uma simples disputa entre “linha dura” e “política social”. E essa distinção será importante para o debate eleitoral.
O cenário nacional reforça a importância dessa discussão. A nova pesquisa Quaest, divulgada nesta segunda-feira, mostra Lula com 39% no primeiro turno contra 34% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, entretanto, os dois aparecem empatados numericamente em 42%. Foram entrevistados 2.004 eleitores entre 24 e 27 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
A fotografia nacional, portanto, não autoriza conclusões definitivas. O primeiro turno apresenta uma vantagem de Lula superior à margem de erro, enquanto o segundo permanece num cenário de empate técnico. O Rio, por sua vez, apresenta uma configuração diferente, com vantagem de Flávio na pesquisa estadual. É nessa diferença entre o quadro nacional e o comportamento dos grandes colégios eleitorais que a eleição se torna particularmente interessante.
EQUAÇÃO — As eleições estaduais também entram nessa equação. No Rio, Eduardo Paes aparece na liderança da corrida pelo governo em pesquisas recentes, embora os levantamentos mostrem variações importantes e um contingente expressivo de eleitores ainda sem decisão. O Datafolha de setembro registrou Paes com 43% no primeiro turno, contra 25% de Douglas Ruas, enquanto a pesquisa Paraná Pesquisas realizada entre 20 e 22 de setembro encontrou percentuais bem mais baixos para os candidatos e 48,1% de eleitores que não declararam voto. Isso recomenda cautela diante de qualquer tentativa de tratar a disputa estadual como definida.
A disputa pelo Senado também permanece aberta. No Datafolha de setembro, Benedita da Silva liderava com 18%, mas cinco candidatos apareciam tecnicamente empatados na segunda posição: Carlos Jordy, Carlos Portinho, Pedro Paulo, Marcelo Crivella e Monica Benicio. Ou seja, também aqui a fotografia eleitoral não corresponde a uma classificação consolidada. O mais relevante, contudo, está na conexão entre essas eleições.
REFERÊNCIAS — O eleitor não necessariamente separa em compartimentos estanques o voto para presidente, governador e senador. Campanhas locais fornecem referências para a disputa nacional, enquanto a eleição presidencial pode reorganizar alianças, palanques e estratégias estaduais. O fenômeno é especialmente importante em Estados de grande peso eleitoral, nos quais candidatos presidenciais precisam construir redes políticas capazes de transformar identificação nacional em votos locais. Por isso, o Rio interessa a Lula e a Flávio Bolsonaro não apenas como Estado, mas como símbolo político.
Para Flávio, uma votação expressiva no Rio representaria a manutenção de uma base eleitoral associada à sua própria trajetória política. Para Lula, reduzir a diferença no Estado significaria disputar um território no qual o adversário possui uma vantagem política evidente. Nenhum desses movimentos, isoladamente, determina uma eleição nacional. Mas, numa disputa presidencial estreita, pequenas diferenças em grandes colégios eleitorais podem assumir peso considerável. É nesse ambiente que a segurança pública se transforma em questão eleitoral.
GUERRA RETÓRICA — O risco está em transformar um problema real numa guerra retórica. O Rio precisa de segurança, mas segurança não se resume à presença ostensiva de policiais. O combate ao crime organizado exige investigação, inteligência, controle financeiro, combate ao tráfico de armas, fortalecimento das polícias, coordenação entre instituições, controle do sistema prisional e capacidade de recuperar territórios sem abandonar a população depois da operação.
A experiência recente mostra que nenhuma dessas dimensões funciona isoladamente. O próprio esforço de integração entre União e Estado evidencia que a criminalidade organizada ultrapassou há muito tempo os limites de uma única comunidade ou município.
É por isso que o tema pode pesar tanto na eleição de 2026. Não apenas porque o eleitor está preocupado com a violência, mas porque a segurança se tornou uma medida da confiança que deposita no Estado.
EXPERIÊNCIA COTIDIANA — Quando uma pessoa não sabe se conseguirá chegar ao trabalho, atravessar determinada via, utilizar o transporte público ou simplesmente regressar para casa sem se deparar com um confronto, a discussão deixa de ser abstrata. Ela passa a fazer parte da experiência cotidiana.
Na reta final da campanha, Lula e Flávio chegam a um segundo turno ainda hipotético, mas eleitoralmente central, em situação de empate na pesquisa nacional. O Rio apresenta vantagem de Flávio e, ao mesmo tempo, uma disputa estadual em que as alianças ainda estão em movimento. Nesse quadro, a segurança pública pode funcionar como uma ponte entre as duas eleições: a estadual e a presidencial.
Não será necessariamente o único tema a decidir o voto. Talvez nem seja o principal para todos os eleitores. Mas seria um erro político imaginar que a insegurança vivida diariamente por parcelas importantes da população possa permanecer confinada à esfera policial. No Rio de Janeiro, a segurança já se tornou uma questão de poder. E, em 2026, a questão de poder do Rio pode ter consequências muito além das fronteiras do Estado.No Rio de Janeiro, a segurança já se tornou uma questão de poder. E, em 2026, a questão de poder do Rio pode ter consequências muito além das fronteiras do Estado.