Por que o Deus israelita e cristão iria escolher só alguns para dar sua graça?

Deus de israel

Reflexões sobre o Deus voluntarioso de Israel e dos cristãos

Luiz Felipe Pondé
Folha

O Deus de Israel e dos cristãos é um Deus voluntarioso. Ele escolhe os seus. E, quando o faz, o objeto da sua escolha é tomado de assalto, sem que se possa oferecer resistência. Este é um traço deste que é o maior personagem da literatura ocidental — não falo aqui do ponto de vista da fé, não porque a negue como experiência humana essencial, mas, sim, porque não é o meu ponto de vista.

Se ampliarmos o olhar sobre a história das religiões, veremos que esse caráter voluntarioso é um traço comum aos deuses e deusas em geral. Por exemplo, na tragédia de Eurípides, “Fedra”, Afrodite decide castigar Hipólito pelo fato de ele adorar apenas a deusa Ártemis. Esse castigo virá pela paixão por ele que ela lançará sobre sua madrasta Fedra, causando muita destruição.

VONTADE DIVINA – Uma causa possível desse elemento voluntarioso das divindades pode ser a experiência que temos, desde sempre, de que estamos à mercê de elementos exteriores e interiores que nos assolam. No limite, sentimos que não escapamos da “vontade dos deuses” e, portanto, buscamos negociar com essa vontade via sacrifícios, oferendas, orações, liturgias e lágrimas.

Temor e tremor são nossa sina. Atribuímos uma intenção a tudo o que nos acontece e que não podemos controlar. Decifrar essa intenção é parte do exercício da fé nos deuses. O ato de decifrar sua vontade é fundamental para atribuirmos sentido às coisas que nos acontecem ao longo da vida e da história. Precisamos de água, comida e sentido para viver.

Assim sendo, o Deus israelita não é absolutamente original no seu caráter voluntarioso. Se olharmos para o personagem em questão, principalmente no Velho Testamento ou na Bíblia hebraica, ele apresenta traços comuns aos deuses da Antiguidade, a começar pelo fato de que ele escolhe um povo e combate ao lado dele. Esse mesmo povo será aquele que narrará a história desse Deus e das suas escolhas, envolvendo o chamado povo eleito.

ELEITOS POR DEUS – Se mergulharmos nessa narrativa, veremos que ele tem seus eleitos. Abel, filho de Adão e Eva, morto pelo irmão Caim, desprezado por Deus. Noé e sua família, os eleitos para sobreviver ao dilúvio. Os profetas, vítimas da mão pesada de Deus sobre suas cabeças, mensageiros de tantas notícias devastadoras.

O rei Davi, o bem-amado de Deus, apesar do seu caráter libidinoso, ambicioso e violento, muitas vezes. Nos Salmos atribuídos a ele —provavelmente não escritos por ele, pelo menos na sua totalidade—, percebem-se já traços da doçura de Deus, assim como da sua misericórdia, ao lado do seu duro julgamento dos ímpios.

SOMOS PÓ – No Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão, filho do rei Davi e Bate-Seba, é muito claro que somos pó ou nuvem de nadas diante da vontade de Deus. Este acima do Sol, e nós abaixo do Sol. Vaidade das vaidades, tudo não passa de vazio.

Quando o salmista diz que sua vida não passa de uma sombra que passa, cuja grandeza ínfima cabe na palma da mão de Deus, trata-se da mesma “cosmologia bíblica”, descrita no Eclesiastes, em que somos pó diante da vontade infinita de Deus. O Eclesiastes fala do nosso lugar no universo, uma nuvem de nadas.

Essa condição cosmológica fere nosso orgulho e nossa pretensão de suficiência. Determina, assim, nossa insuficiência diante do mundo e de Deus. Enfim, nossa vulnerabilidade estrutural, ou ontológica, como se costuma dizer em filosofia.

No Novo Testamento, repete-se esse caráter voluntarioso, mesmo que de algum modo atenuado na sua violência —se excluirmos a paixão de Cristo, em si, um ato de enorme violência, reconhecido pelo próprio Cristo, seja em Getsêmani, seja na cruz.

PAIXÃO DE CRISTO – Maria, mãe de Jesus, “teotókos” —mãe de Deus—, como dizem os gregos ortodoxos, também é escolhida à revelia da sua vontade e sofrerá por ver o martírio do seu filho amado. Jesus escolhe seus apóstolos de forma voluntariosa, arrancando-os das suas vidas comuns e lançando-os ao martírio.

Ao longo da história posterior ao período bíblico, o dito povo eleito será lançado aos leões inúmeras vezes, culminando no Holocausto — que recebe esse nome, justamente, pelo caráter teológico atribuído ao massacre dos judeus pelos nazistas — e no Sete de Outubro. A suspeita de que a mão de Deus se manifesta em toda a história do povo eleito revela o peso desta mesma mão sobre a cabeça desse povo feito de sacerdotes.

Já no cristianismo, a ideia de graça —”cháris”, nas cartas de Paulo— virá coroar a vontade de Deus com uma beleza que lhe é peculiar. A gratuidade ou contingência da graça encanta e atordoa a consciência cristã. Por que Deus escolheria alguns para dar a sua graça e não a todos?

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