Direita aprendeu a falar com os evangélicos, diz antropólogo
Thiago Prado
O Globo
A disputa entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) chega na última semana de campanha indefinida, mas já é possível ter uma certeza sobre o resultado do próximo domingo: mais uma vez, a direita terá o dobro de votos que a esquerda entre os evangélicos — resultado que se repetiu em 2018 e 2022, quando quem estava concorrendo era o ex-presidente Jair Bolsonaro. Na pesquisa Quaest da semana passada, Flávio chegou a 60% das intenções de voto no segmento contra apenas 28% do petista.
O antropólogo Juliano Spyer está lançando “O Brasil dos Evangélicos: o que o crescimento pentecostal significa para o país”, livro em que reflete sobre a dificuldade da esquerda e parte da elite intelectual de compreender e se comunicar com o público que frequenta as igrejas brasileiras. É a terceira obra de Spyer que se dedica a estudar o segmento. Em 2020, já havia lançado “Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam” e, no ano passado, “Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno”. Abaixo, os principais trechos da conversa para a newsletter “Jogo Político”.
Por que mais uma vez a direita vai ganhar de lavada da esquerda na corrida presidencial entre os evangélicos?
Aquele desfile da Acadêmicos de Niterói homenageando o Lula com a ala “Família em Conserva” do início do ano foi simbólico para revelar uma incompatibilidade de hábitos e costumes. Ali, ampliou-se a sensação de antagonismo entre identidade religiosa e posição política. A verdade é que para uma esquerda intelectual brasileira o evangélico ou é um charlatão ou um coitadinho. Ou alguém mal-intencionado ou uma pessoa que estudou pouco. Paralelo a isso, houve uma habilidade desenvolvida pela direita na última década para dialogar com esse público.
Vamos aprofundar mais os deméritos da esquerda para depois falar das virtudes da direita. Embora haja de fato preconceito, também não é verdade que agendas de defesa da mulher e do público LGBT não acabam muitas vezes se chocando com valores pregados em determinadas igrejas?
Sim, estamos diante de um quadro ambivalente. Não acho que tudo seja demérito ou incompetência da esquerda. Há limitações, reconheço. A igreja evangélica é muitas coisas ao mesmo tempo. A conversão melhora a vida dos brasileiros pobres, oferecendo um ambiente protegido para momentos de crise e privação. As igrejas ajudam no combate ao alcoolismo, melhoram a escolaridade das pessoas ao estimular a leitura e promover até cursos de alfabetização de adultos, entre inúmeras outras iniciativas. Mas as igrejas também provocam sofrimento. Em muitos casos, aconselham-se as esposas a não romper o casamento com um homem abusivo. E há adolescentes sendo ensinados que Deus condena ao inferno quem não é heterossexual.
Então seguirei na provocação. Os críticos que sugerem um diálogo maior com os evangélicos na verdade não estão querendo que a esquerda deixe de ser esquerda?
Não. É tudo sobre como se colocar no debate. Vou dar um exemplo de como dialogar em temas delicados dentro do segmento. Em maio, viralizou um vídeo da pastora Helena Raquel no Congresso dos Gideões, em Santa Catarina, um dos maiores do Brasil entre os evangélicos. Usando a linguagem dos fiéis, atenta a referências bíblicas, ela orientou mulheres a buscar a delegacia ao invés de orar pelos companheiros agressores. Tem gente na esquerda no Brasil e no mundo que já entendeu isso. A católica Tabata Amaral (PSB) e o evangélico Pastor Henrique Vieira (PSOL) falam de temas complexos não usando apenas o idioma progressista. Usam o idioma bíblico. O democrata James Talarico, no Texas (EUA), faz o mesmo. A saída está aí.
Então, partindo dessa premissa, há um erro de comunicação da esquerda. Mas as cartas aos evangélicos do presidente Lula que aparecem de quatro em quatro anos funcionam?
Soa oportunista e não vejo possibilidade de ter impacto. Um pastor usou uma boa expressão comigo outro dia: parece que querem usar uma aspirina para tratar de um tumor. Deixa eu te dar outro exemplo de algo de baixa compreensão: uma amiga minha evangélica é mãe de uma criança de seis anos e estávamos conversando sobre o que ela quer para a filha. Por incrível que pareça, estar no céu é mais prioridade do que ter uma roupa melhor. E eu acho que a esquerda não trata com seriedade esse tipo de aspiração de parte relevante da sociedade brasileira.
No seu livro, o senhor pega emprestada a expressão ‘antipetismo pentecostal’ do cientista político Victor Araújo. Esse sentimento, contudo, nem sempre existiu nos governos Lula e Dilma Rousseff. O que aconteceu para haver a mudança?
Olha, no meu trabalho de campo, pude conviver com evangélicos na Bahia que, em 2013, eram petistas e marineiros (referência a simpatizantes da ex-ministra Marina Silva, candidata à Presidência em 2010 e 2014). Mesmo beneficiados por políticas públicas do governo federal em bolsões de pobreza, muitos deles acabaram virando bolsonaristas com o tempo e aí está a segunda parte da minha resposta no início. Nasceu a habilidade do bolsonarismo de lidar com o segmento, em especial algumas figuras como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ela, o deputado federal Nikolas Ferreira, o governador Tarcísio de Freitas e outros estão semanalmente nas igrejas. Discursam e sabem citar versículos de cabeça. Já o PT lembra do assunto a cada quatro anos nas eleições. Quem quer falar com evangélicos sem saber corre o risco de passar vergonha. Falar rezar ao invés de orar, enfim, não respeitar as sutilezas da linguagem. Acaba sendo ridículo.
Como o senhor vê igrejas tradicionais como Assembleia de Deus, Universal e Internacional da Graça não conseguindo eleger representantes, e o PL batendo recordes de votação?
Vejo duas razões. As lideranças mais antigas estão sendo vítimas das redes sociais. A concorrência aumentou e há mais maneiras de se conectar com o segmento. Além disso, há uma saturação do público das igrejas de fazer o que o pastor quer. A pesquisa Quaest que O Globo publicou durante a campanha mostrou isso (o levantamento apontou que oito em cada dez brasileiros rejeitam a política dentro da igreja). O fiel até ouve quem o pastor indica, mas vai lá, exerce o direito do voto secreto, e escolhe outro no dia da eleição.
Será que esse cansaço com a politização dos cultos está por trás do crescimento abaixo do esperado dos evangélicos no Censo 2022 (O IBGE apontou que o segmento representa 26,9% da população; havia a estimativa de que o índice chegaria ao patamar de 30%)?
Há, sim, a hipótese colocada em cima desse excesso de exposição, mas também de uma resistência maior do catolicismo do que se esperava mesmo ainda tendo muitos não-praticantes.
Na série que estou fazendo com lideranças evangélicas na newsletter, os apóstolos Estevam Hernandes e César Augusto e o Bispo Robson Rodovalho admitiram que é difícil projetar o segmento evangélico nas próximas décadas devido à pulverização grande em curso, com novas igrejas e influenciadores. Como vê o fenômeno?
Existe um problema de sucessão nas grandes igrejas sim. A nova geração não se preparou para herdar as denominações de líderes do passado e as referências vão mudando. Agora, há também um aspecto natural do protestantismo. Ele é plástico por natureza. As pessoas vão sendo estimuladas a ler a Bíblia e interpretá-la de maneira diferente. Nos anos 90, um pastor que se separava não tinha mais lugar em uma igreja. Agora, já há vários que se mantêm mesmo depois do terceiro divórcio.
Não acha que boa parte da responsabilidade pelo preconceito contra evangélicos vem da atuação de figuras polêmicas como Edir Macedo e Silas Malafaia?
De fato, os dois se expuseram muito. Macedo, por ter transformado o seu empreendimento em um grande negócio. Está em 100 países e ficou muito rico. Malafaia, por estar há décadas na TV aberta e ter migrado para a internet. Concorde com ele ou não, é o rosto mais reconhecido do segmento evangélico. Ao mesmo tempo, levou a política às últimas consequências. Nessa eleição, ambos mantiveram uma distância de Flávio assim que saiu o áudio dele com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Foi um momento em que muitos evangélicos ensaiaram abandonar Flávio, mas com o tempo o apoio voltou. Por que o envolvimento com o caso Master deixou de incomodar quem frequenta igreja?
Havia o receio de vazamento de qualquer promiscuidade sexual. Viraram a chave quando o ministro André Mendonça, outra voz reconhecida no segmento, passou a ser atacado por expor o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro. E foi tudo perto do 7 de Setembro. Ali aqueceu a guerra do bem contra o mal e Flávio unificou o apoio nas igrejas.
Na emissora, as coisas também não parecem ir às mil maravilhas.
Criticado internamente pela condução da entrevista com o candidato Flávio no primeiro turno, Tralli — assim como Renata Vasconcellos — foi substituído por Renata Lo Prete nas entrevistas do segundo turno.
Resta saber se ele será o mediador do debate anunciado pela emissora para amanhã. Parece que continua “prestigiado”.
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Fonte: Folha de S. Paulo, Política, 21.out.2026 às 23h16
E lá se vão votos de evangélicos?