
Protestos contra feminicídio reúniram milhares de manifestantes
Pedro do Coutto
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas no último domingo para dizer, em voz alta e conjunta, aquilo que muitos relatórios frios e números procuram esconder: as mulheres do Brasil vivem sob uma ameaça que mata.
Em São Paulo, a Avenida Paulista reuniu milhares que caminharam com cartazes, flores e histórias — no Rio de Janeiro, pontos como Copacabana viraram ponto de encontro de quem exige medidas reais, não apenas notas oficiais. As imagens e o clamor nas ruas lembram que o problema não é episódico; é estrutural e cotidiano.
GRAVIDADE – Os números confirmam a gravidade que as vozes nas manifestações denunciam. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 o país registrou um número recorde de mulheres assassinadas por serem mulheres — cerca de 1.492 casos — e, em 2023, já haviam sido contabilizadas 1.463 vítimas. Essas cifras não são meras estatísticas: representam vidas interrompidas, famílias destroçadas e comunidades marcadas por medo.
Há padrões dolorosos por trás desses dados. A maioria esmagadora das vítimas conhece o agressor: em cerca de 8 em cada 10 casos o autor é companheiro ou ex-companheiro. A residência, que deveria ser o espaço de proteção, é o local onde muitas mulheres são mortas — quase dois terços dos casos ocorreram dentro de casa. A cor da pele também é um indicador brutal da desigualdade: a maioria das vítimas é negra. Esses recortes deixam claro que o feminicídio se entrelaça com desigualdade social, racismo e falhas das redes de proteção.
Dizer que “o Brasil mata mulheres” é chocante — e, por isso, necessário. As explicações não se reduzem a um único fator. Há uma confluência de elementos: uma cultura de normalização da agressão contra a mulher, sistemas de proteção pública muitas vezes ineficientes, ausência de políticas públicas contínuas e investimentos insuficientes em prevenção e atendimento, além de falhas no registro e na resposta imediata quando a mulher denuncia. Quando a denúncia não é seguida por proteção, criam-se condições para que a violência escale.
INDIGNAÇÃO – As ruas mostram algo que os gráficos também apontam: indignação e vontade de mudança. Mas o protesto não é substituto de política pública. Para transformar o grito das manifestações em políticas permanentes são necessárias ações concretas e integradas: formação de profissionais de segurança e saúde para atendimento com perspectiva de gênero; ampliação e qualificação das casas de acolhimento; investimentos em programas de prevenção nas escolas e comunidades; mecanismos ágeis para afastamento do agressor e monitoramento eletrônico quando cabível; e políticas que enfrentem o racismo e a vulnerabilidade econômica que aumentam o risco para tantas mulheres.
Também é preciso melhorar o registro e a coleta de dados: só com informações precisas será possível direcionar recursos e avaliar resultados. A própria evolução dos registros durante a última década mostra que, em parte, o aumento observado também se deve a melhores práticas de notificação — mas nem por isso o número deixa de ser uma tragédia. Entre 2015, quando a Lei do Feminicídio foi sancionada, e os anos mais recentes, contabilizam-se dezenas de milhares de vítimas; cada número carrega uma história que exige memória e justiça.
LONGO PRAZO – No campo da cultura e da educação, a transformação é de longo prazo, mas imprescindível. Campanhas públicas eficazes, educação nas escolas sobre respeito e igualdade, formação de masculinidades não violentas e responsabilização judicial são peças de um quebra-cabeça que, montado, pode reduzir a banalização da violência. Paralelamente, a imprensa, os espaços artísticos e as redes sociais têm papel central em manter a pauta viva e em dar voz às vítimas sem revitimização.
As manifestações recentes — de São Paulo ao Rio, de capitais a pequenas cidades — têm um papel simbólico e prático: mostram que a sociedade não aceita mais a normalização do assassinato de mulheres. Mas essa energia precisa encontrar concretude: projetos de lei que priorizem prevenção e proteção, orçamentos que garantam atendimento e abrigo, sistemas de justiça que agilizem medidas protetivas e uma política pública intersetorial que transforme a raiva em resultado eficaz. A urgência é evidente; a resposta não pode mais ser fragmentada.
Ao final, o que as ruas pedem é simples e humano: que as mulheres vivam. Não como estatística, mas como pessoas com sonhos, trabalho, afeto. É responsabilidade do Estado, da sociedade e de cada um de nós transformar o grito em medidas que salvem vidas — hoje, amanhã e sempre. Se queremos um país que se orgulhe de suas cidades, não podemos aceitar que parte delas continue marcada por medo; é preciso agir, já.
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Pedro do Coutto
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