“Basta de feminicídio!” — este é o grito que o país não pode ignorar

Protestos contra feminicídio reúniram milhares de manifestantes

Pedro do Coutto

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas no último domingo para dizer, em voz alta e conjunta, aquilo que muitos relatórios frios e números procuram esconder: as mulheres do Brasil vivem sob uma ameaça que mata.

Em São Paulo, a Avenida Paulista reuniu milhares que caminharam com cartazes, flores e histórias — no Rio de Janeiro, pontos como Copacabana viraram ponto de encontro de quem exige medidas reais, não apenas notas oficiais. As imagens e o clamor nas ruas lembram que o problema não é episódico; é estrutural e cotidiano.

GRAVIDADE – Os números confirmam a gravidade que as vozes nas manifestações denunciam. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 o país registrou um número recorde de mulheres assassinadas por serem mulheres — cerca de 1.492 casos — e, em 2023, já haviam sido contabilizadas 1.463 vítimas. Essas cifras não são meras estatísticas: representam vidas interrompidas, famílias destroçadas e comunidades marcadas por medo.

Há padrões dolorosos por trás desses dados. A maioria esmagadora das vítimas conhece o agressor: em cerca de 8 em cada 10 casos o autor é companheiro ou ex-companheiro. A residência, que deveria ser o espaço de proteção, é o local onde muitas mulheres são mortas — quase dois terços dos casos ocorreram dentro de casa.  A cor da pele também é um indicador brutal da desigualdade: a maioria das vítimas é negra. Esses recortes deixam claro que o feminicídio se entrelaça com desigualdade social, racismo e falhas das redes de proteção.

Dizer que “o Brasil mata mulheres” é chocante — e, por isso, necessário. As explicações não se reduzem a um único fator. Há uma confluência de elementos: uma cultura de normalização da agressão contra a mulher, sistemas de proteção pública muitas vezes ineficientes, ausência de políticas públicas contínuas e investimentos insuficientes em prevenção e atendimento, além de falhas no registro e na resposta imediata quando a mulher denuncia. Quando a denúncia não é seguida por proteção, criam-se condições para que a violência escale.

INDIGNAÇÃO – As ruas mostram algo que os gráficos também apontam: indignação e vontade de mudança. Mas o protesto não é substituto de política pública. Para transformar o grito das manifestações em políticas permanentes são necessárias ações concretas e integradas: formação de profissionais de segurança e saúde para atendimento com perspectiva de gênero; ampliação e qualificação das casas de acolhimento; investimentos em programas de prevenção nas escolas e comunidades; mecanismos ágeis para afastamento do agressor e monitoramento eletrônico quando cabível; e políticas que enfrentem o racismo e a vulnerabilidade econômica que aumentam o risco para tantas mulheres.

Também é preciso melhorar o registro e a coleta de dados: só com informações precisas será possível direcionar recursos e avaliar resultados. A própria evolução dos registros durante a última década mostra que, em parte, o aumento observado também se deve a melhores práticas de notificação — mas nem por isso o número deixa de ser uma tragédia. Entre 2015, quando a Lei do Feminicídio foi sancionada, e os anos mais recentes, contabilizam-se dezenas de milhares de vítimas; cada número carrega uma história que exige memória e justiça.

LONGO PRAZO – No campo da cultura e da educação, a transformação é de longo prazo, mas imprescindível. Campanhas públicas eficazes, educação nas escolas sobre respeito e igualdade, formação de masculinidades não violentas e responsabilização judicial são peças de um quebra-cabeça que, montado, pode reduzir a banalização da violência. Paralelamente, a imprensa, os espaços artísticos e as redes sociais têm papel central em manter a pauta viva e em dar voz às vítimas sem revitimização.

As manifestações recentes — de São Paulo ao Rio, de capitais a pequenas cidades — têm um papel simbólico e prático: mostram que a sociedade não aceita mais a normalização do assassinato de mulheres. Mas essa energia precisa encontrar concretude: projetos de lei que priorizem prevenção e proteção, orçamentos que garantam atendimento e abrigo, sistemas de justiça que agilizem medidas protetivas e uma política pública intersetorial que transforme a raiva em resultado eficaz. A urgência é evidente; a resposta não pode mais ser fragmentada.

Ao final, o que as ruas pedem é simples e humano: que as mulheres vivam. Não como estatística, mas como pessoas com sonhos, trabalho, afeto. É responsabilidade do Estado, da sociedade e de cada um de nós transformar o grito em medidas que salvem vidas — hoje, amanhã e sempre. Se queremos um país que se orgulhe de suas cidades, não podemos aceitar que parte delas continue marcada por medo; é preciso agir, já.

O risco de o país legitimar a aliança entre Estado, dinheiro e crime organizado

Dono da Refit, vive em Miami e influencia diferentes órgãos

Pedro do Coutto

As recentes revelações sobre o Grupo Refit — e, em particular, sobre seu proprietário, Ricardo Magro — expõem de modo estarrecedor como o entrelaçamento entre poder econômico, corrupção e possível envolvimento com redes criminosas ameaça corroer a integridade das instituições e o interesse público. Não é apenas mais um escândalo: é um alerta sobre os perigos de um capitalismo de laços em que o trânsito entre negócios, política e ilegalidade se torna quase invisível — até explodir em prejuízo da sociedade inteira.

A “Operação Poço de Lobato”, deflagrada em 27 de novembro de 2025, tornou público o que há muito vinha sendo investigado: o Grupo Refit seria responsável por um gigantesco esquema de sonegação fiscal, fraude tributária e lavagem de dinheiro. O conglomerado é apontado como o maior devedor de ICMS do estado de São Paulo, com débitos que, somados aos passivos de outros estados, ultrapassam a marca de R$ 26 bilhões.

REDE DE EMPRESAS – As autoridades identificaram uma extensa rede de empresas — algumas em outros países — usadas como veículos para ocultar patrimônio, disfarçar lucros ilícitos e blindar bens. Apenas entre 2024 e 2025, segundo a investigação, o grupo movimentou cifras impressionantes: empresas próprias, fintechs, fundos de investimento e offshores foram parte de uma estrutura projetada para driblar a fiscalização e manter níveis de riqueza e poder incompatíveis com a atividade declarada de uma refinaria.

Mas a gravidade do caso não está apenas na fraude tributária. Ricardo Magro não construiu sua fortuna apenas com operações empresariais. Ele tem histórico de articulação política: chegou a ser advogado do ex-deputado federal Eduardo Cunha, figura que carrega um pesado histórico de desvios e corrupção. Essa proximidade indica que o patrimônio e a influência do empresário sempre estiveram inseridos no tabuleiro da política nacional — o que torna mais grave sua ascensão financeira e a eventual reprodução de mecanismos de poder indevido.

Quando um empresário com débitos bilionários, suspeita de lavagem de dinheiro e redes de offshores mantém ligações com figuras influentes e conta com blindagem institucional, abre-se um precedente perigosíssimo: legitima-se a infiltração do dinheiro sujo nas estruturas do Estado, transformando a democracia em fachada para interesses privados e ilícitos.

SONEGAÇÃO – E o cenário se agrava ainda mais quando há suspeitas — já ventiladas em investigações recentes — de que a Refit não só sonegava impostos, mas poderia estar envolvida com o abastecimento de esquemas ligados ao crime organizado, especialmente após o desmonte da cadeia anterior de distribuição de combustíveis apontada em outra operação.

Se confirmada essa conexão, trata-se de algo ainda mais grave: não apenas um crime econômico, mas uma ponte concreta entre o poder econômico formal, o coração do Estado e redes criminosas, com potencial para corroer o tecido institucional e degradar a governança.

É como se um mesmo personagem — o empresário — transitasse simultaneamente por três mundos: o dos negócios, o da política e o do crime. E cada um desses mundos, sozinho, já demanda vigilância intensa; juntos, formam uma bomba combinada para a democracia brasileira.

BENEFICIADOS – Em nome de quem, afinal, foi construída essa fortuna? Quem se beneficiou com a cumplicidade política e com a blindagem institucional? Quantos cofres públicos foram saqueados — enquanto se mantinha a aparência de legalidade? E, acima de tudo: quantos direitos sociais deixaram de ser garantidos, que poderiam ser assegurados com o dinheiro furtado à sociedade?

Cobrar a resposta dessas perguntas não é mero ativismo: é um ato de cidadania. Permitir que continuem sem resposta é abrir caminho para o avanço da impunidade. A justiça e a democracia não podem conviver com privilégios construídos em cigarros apagados, empresas-fantasma e lavagem de dinheiro.

A operação contra a Refit não é apenas mais uma investigação: é um teste para a capacidade do Estado de proteger o interesse público, de garantir transparência e impedir que o crime — financeiro ou organizado — transforme o Brasil num terreno fértil para a corrupção institucionalizada.

O nó político de 2026 e a reconfiguração abrupta do tabuleiro

Estagnação é o alerta no convés da economia, embutido no PIB de apenas 0,1%

Dados foram divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE

Pedro do Coutto

O crescimento de apenas 0,1% do PIB brasileiro no terceiro trimestre de 2025, conforme revelado pelos dados recentes do IBGE, expõe de maneira clara e preocupante a perda de fôlego da economia nacional.

Embora tecnicamente positivo, esse número é tão baixo que se confunde com estagnação — e, na prática, funciona mais como um alerta do que como um indicador de avanço. O dado revela uma economia que se move, mas sem força, sem ritmo e sem capacidade real de induzir melhorias perceptíveis no bem-estar da população.

DESEMPENHO – Quando se observa os componentes desse resultado, a fotografia fica ainda mais nítida. O setor de serviços — que representa mais de 70% da atividade econômica brasileira — cresceu o mesmo que o PIB: 0,1%, ou seja, praticamente nada. É um desempenho muito distante do que se esperava de um segmento que vinha sendo o motor da recuperação pós-pandemia.

A indústria, com alta de 0,8%, e a agropecuária, com 0,4%, ofereceram algum alívio, mas não foram suficientes para puxar o conjunto para cima. A economia parece ter perdido tração justamente onde é mais vital — naquilo que movimenta o dia a dia das pessoas, das empresas e do comércio.

DEMANDA – O ponto mais preocupante desse cenário, porém, não está na produção, mas na demanda. O consumo das famílias cresceu apenas 0,1%, o menor ritmo em um ano. A retração do consumo tem efeitos diretos e imediatos sobre o PIB: famílias que compram menos pressionam toda a cadeia produtiva, dos serviços ao varejo, da indústria aos pequenos negócios.

É um ciclo que se retroalimenta. Com juros ainda elevados, crédito caro, renda comprimida e inflação que, mesmo moderada, corrói silenciosamente o poder de compra, o brasileiro comum se vê forçado a reduzir gastos, adiar compras e priorizar o básico.

E quando o consumo perde força, a economia como um todo perde direção. No Brasil, onde o mercado interno historicamente sustenta grande parte do crescimento, essa desaceleração indica que o país está avançando sem energia e sem sustentação. Não há dinamismo, não há impulso, não há perspectiva de aceleração espontânea. Mesmo o leve aumento dos investimentos — a Formação Bruta de Capital Fixo subiu 0,9% — não se traduz em otimismo suficiente para mudar o cenário no curto prazo.

CRESCIMENTO – O quadro geral, portanto, é de uma economia que cresce apenas no papel — e muito pouco — enquanto, na prática, permanece estacionada. O Brasil não está em recessão, mas também não está avançando o suficiente para sair do lugar. O risco de um longo período de “crescimento baixo crônico” se torna mais concreto a cada trimestre em que os números repetem essa mesma lógica: expansão mínima, consumo fraco, serviços enguiçados e investimentos tímidos.

O crescimento de 0,1% deve ser lido como um aviso. Ele mostra que o país está em marcha lenta e que, se não houver uma inflexão clara — com estímulos à produtividade, reforço da renda, redução sustentável dos juros, incentivo ao consumo e avanços estruturais — continuaremos presos ao mesmo ciclo de mediocridade econômica.

O Brasil tem condições para crescer mais — mas não crescerá por inércia. O dado de 0,1% é um pedido silencioso de mudança. É a economia dizendo que, do jeito que está, não basta. É um lembrete de que estagnação também traz custos — sociais, políticos e humanos — e de que é preciso agir antes que esse ritmo anêmico se torne a nova normalidade.

STF, Senado e o risco de erosão da legitimidade democrática

Na disputa pelo poder no Brasil, um simples detalhe vira crise nacional

Bolsonarismo em rota de colisão: a implosão familiar que expõe a crise no PL

STF, Planalto e o jogo de paciência — a novela da indicação de Messias

O triunfo que tomou as ruas do Rio, com a cidade rendida ao vermelho e preto

Vitória ficará inscrita na memória coletiva

Pedro do Coutto

O Rio de Janeiro viveu, na noite de sábado, uma daquelas jornadas que marcam uma geração inteira. A vitória monumental do Flamengo, que garantiu ao clube o tetracampeonato da Taça Libertadores da América, ultrapassou o território do esporte e se transformou em um fenômeno cultural, social e emocional. Não foi1 apenas um título. Foi um reencontro de um país com a sua paixão coletiva mais vibrante.

Desde a noite da final, quando o time dominou a partida de forma madura e segura — como destacaram análises de veículos como Globo Esporte, ESPN e Uol Esporte, apontando a superioridade técnica e a consistência tática do Flamengo — a sensação de que algo extraordinário estava acontecendo era evidente. A vitória começou no campo, mas se completou no coração dos torcedores. E isso ficou claro nas ruas.

MULTIDÃO – No domingo, um mar de gente tomou caminhos, avenidas e passarelas rumo ao Aeroporto Tom Jobim. Famílias inteiras deixaram suas casas nas primeiras horas do dia. Jovens com bandeiras amarradas ao corpo. Idosos que já testemunharam títulos antigos, mas que queriam ver de perto a nova geração de campeões.

A cena, registrada amplamente por jornalistas e transmissões ao vivo, lembrava outros momentos históricos da relação entre o Flamengo e o Rio — daqueles em que a cidade parece renunciar ao seu ritmo habitual para se entregar à celebração de um símbolo afetivo comum.

Era mais do que recepcionar um time. Era agradecer. Retribuir. Confirmar, com cada canto e cada lágrima, o que a torcida costuma repetir com orgulho: o Flamengo não é apenas um clube; é uma nação. E essa nação, espalhada de norte a sul, de leste a oeste, fez mais uma vez o Brasil parar. A força que parte das arquibancadas, das ruas e dos lares — aquilo que cronistas esportivos e sociólogos, como já mencionou Ronaldo Helal, chamam de “a mística rubro-negra” — se materializou de forma exuberante.

SENTIMENTO COLETIVO – Confundem-se, nesse tipo de vitória, o desempenho esportivo e o sentimento coletivo. O Flamengo entra em campo com onze jogadores, mas, na prática, carrega um país inteiro nas costas. A torcida exerce esse papel de 12º jogador com naturalidade: é ela que amplifica o entusiasmo, empurra, vibra e transforma o futebol em experiência emocional compartilhada. Na chegada dos campeões, a sensação era a de que ninguém ali era mero espectador. Todos se sentiam parte da conquista.

A cidade amanheceu rubro-negra. As ruas ainda exalam resquícios da celebração — buzinas isoladas, bandeiras penduradas em janelas, crianças imitando seus ídolos nos campos de terra, adultos revivendo lances da final como se os narrassem de dentro do estádio. E as comemorações não devem cessar tão cedo. O título, pelo peso histórico e pela intensidade afetiva que desperta, continuará ecoando ao longo do dia, da semana, talvez do ano.

Vitórias esportivas costumam ser efêmeras. Mas algumas, como esta, ultrapassam o tempo. A do Flamengo na Libertadores de 2025 — marcada pela mobilização monumental, pela comunhão nas ruas e pela reafirmação de identidade — é dessas que se inscrevem na memória coletiva. Uma vitória que, para milhões, não terminou no apito final. Ela apenas começou ali.

Lula, Alcolumbre e a batalha silenciosa pela indicação de Messias ao STF

O cerco se fecha: o Brasil diante de um retrocesso ambiental sem precedentes

Charge do Lila (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

A derrubada dos vetos ao novo marco do licenciamento ambiental abriu uma ferida profunda na já fragilizada política ambiental brasileira. Ao permitir que empresas potencialmente envolvidas em desmatamento e outras formas de degradação possam se autodeclarar em conformidade com normas ambientais, o país inaugura um capítulo de retrocesso que especialistas, organizações civis e instituições independentes classificam como o mais grave em quatro décadas.

O mecanismo da autodeclaração — vendido como modernização e desburocratização — funciona, na prática, como um atalho perigoso: ele elimina análises técnicas, enfraquece a fiscalização e desloca a responsabilidade do Estado para o próprio empreendedor, como se interesses econômicos e proteção ambiental fossem forças espontaneamente conciliáveis.

ABUSOS – Para completar, a descentralização das autorizações cria um mosaico normativo vulnerável à pressão de elites econômicas regionais, enfraquecendo a uniformidade das salvaguardas que antes eram estabelecidas pela esfera federal. O resultado é um terreno fértil para abusos, conflitos fundiários e danos irreversíveis a biomas sensíveis.

Com as garantias reduzidas, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais tornam-se ainda mais expostos. Territórios sem titulação definitiva — que já enfrentam histórico de invasões e grilagem — agora perdem etapas essenciais de consulta e proteção.

Em paralelo, relatos de articulação intensa de setores econômicos interessados na flexibilização, e a velocidade com que o Congresso derrubou os vetos, alimentam suspeitas de conivência, tráfico de influência e captura institucional. A sensação generalizada é de que se fecha um cerco não sobre empresas que degradam, mas sobre o próprio sistema de fiscalização, que vai sendo desmontado peça por peça.

MANOBRAS – O escândalo, como muitos ambientalistas apontam, não tem fim — não porque faltem denúncias, mas porque cada semana revela novas brechas, manobras políticas e avanços sobre áreas antes protegidas. O país assiste, praticamente sem freios, à possibilidade de expansão de obras, desmatamentos, mineração e empreendimentos de alto impacto sem a devida avaliação de risco.

O Brasil, que deveria ser protagonista da preservação ambiental global e exemplo de governança sustentável, arrisca desperdiçar capital diplomático, comprometer acordos internacionais e perder credibilidade justamente às vésperas de debates globais decisivos sobre clima e biodiversidade.

Nesse cenário, fica cada vez mais evidente que não se trata apenas de um embate técnico ou legal: trata-se de uma disputa moral, institucional e civilizatória. Entre a proteção do patrimônio natural e o avanço de interesses privados; entre a ciência e o improviso; entre o futuro e o lucro imediato. O país ainda tem caminhos de resistência — via sociedade civil, organismos independentes, pesquisadores e eventual reação do Judiciário —, mas a cada dia, com a nova regra em vigor, cresce o risco de danos irreversíveis. A história cobrará essa conta, e o Brasil precisará decidir, o quanto antes, de que lado quer estar.

Entre o capricho e a responsabilidade, a ausência que não se justifica

Motta e Alcolumbre faltam ao evento de sanção do IR no Planalto

Pedro do Coutto

Há gestos na política que ultrapassam o campo do protocolo e se instalam no terreno simbólico, onde verdadeiramente se mede a maturidade institucional de um país. A decisão de Hugo Motta e Davi Alcolumbre de não comparecerem ao ato em que o presidente Lula da Silva oficializou o reajuste da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil por mês pertence exatamente a esse campo: é um gesto pequeno, mas que produz sombras longas.

A medida anunciada por Lula — tecnicamente relevante, socialmente sensível e politicamente expressiva — deveria ter sido o tipo de ato público capaz de unir as principais lideranças do país em torno de um objetivo comum: aliviar a carga tributária de milhões de brasileiros, reorganizar critérios de justiça fiscal e sinalizar responsabilidade econômica.

COMPROMISSOS DE ESTADO – Em democracias consolidadas, movimentos desse porte são tratados como compromissos de Estado, não como eventos facultativos submetidos ao humor de parlamentares. Mas, ao faltar deliberadamente, Motta e Alcolumbre transformaram um ato de governo em palco para ressentimentos pessoais.

Um comportamento juvenil que fere a liturgia dos cargos que ambos ocupam. Não se trata aqui de alinhamento com o Executivo, mas de respeito à institucionalidade, ao cargo que representam e à maturidade política que se espera de dirigentes do Legislativo.

A justificativa implícita — o inconformismo com a não indicação de Rodrigo Pacheco ao Supremo Tribunal Federal — expõe algo ainda mais grave: uma leitura patrimonialista das instituições. O STF não é extensão dos desejos do Congresso, do Planalto ou de qualquer grupo específico. É uma Corte de Estado, e suas cadeiras não podem ser tratadas como moeda de troca, prêmio de consolação ou compensação por acordos não atendidos.

BOICOTE – Não existe, em nenhum manual republicano, base moral para um boicote dessa natureza. A escolha de ministros do Supremo é prerrogativa constitucional do presidente da República, que deve exercê-la de acordo com critérios técnicos, políticos e institucionais — e não como pagamento de promessas informais a chefes de Poder. Se Lula julgou que Pacheco não era o nome adequado, cabe aos demais atores respeitar essa decisão. Divergir, sim. Retaliar com ausência calculada, não.

Esse tipo de comportamento corrói algo profundo: o pacto tácito de responsabilidade entre os Poderes. Quando figuras centrais do Legislativo se permitem atitudes performáticas para sinalizar descontentamentos internos, enviam ao país a mensagem de que as prioridades nacionais podem ser atropeladas por disputas de bastidores. É a política convertida em teatro de vaidades.

SOLAVANCOS – Mais do que um episódio isolado, esse gesto ajuda a explicar por que o Brasil tantas vezes avança aos solavancos: porque ainda convivemos com lideranças que se esquecem de que cargos públicos exigem grandeza — não apenas habilidade de articulação. O país não pode ser refém da frustração de parlamentares que tratam a institucionalidade como extensão de seus desejos individuais.

Num momento em que o Brasil precisa de estabilidade, cooperação e foco nas agendas estruturais, atitudes assim não apenas surpreendem: envergonham. É preciso lembrar, todos os dias, que a política não é sobre quem foi lembrado ou preterido para um cargo; é sobre como as lideranças servem ao país — e não a si mesmas.

Prisão leva Bolsonaro a viver numa cela de apenas 12 metros quadrados

Rombo das contas públicas e déficit das estatais ameaçam o governo Lula

O delírio, a tornozeleira e a crise de responsabilidade

Defesa tenta justificar ação devido ao efeito de medicamentos

Pedro do Coutto

Assumiu um caráter ainda mais dramático o episódio que marcou a tentativa de Jair Bolsonaro de livrar-se da tornozeleira eletrônica, gesto que o próprio ex-presidente atribuiu a um suposto surto provocado por medicamentos.

Ao apresentar-se como vítima de uma combinação farmacológica que teria gerado paranoia e alucinações, Bolsonaro buscou explicar por que tentou abrir o equipamento com um objeto metálico — ato que, para a Justiça, representou clara violação das medidas impostas e sinal de risco concreto de fuga, especialmente diante do histórico recente de aliados que cogitaram buscar asilo em embaixadas em Brasília.

TENSIONAMENTO – A versão clínica, embora não deva ser descartada levianamente — efeitos adversos de remédios como os citados por seus médicos podem, de fato, gerar confusão mental em pacientes idosos —, não elimina o peso político e jurídico do episódio. A Justiça não analisou apenas o gesto, mas o contexto: um ex-presidente condenado por tentar subverter a ordem constitucional, com forte base mobilizada e histórico de tensionamentos com o Supremo Tribunal Federal.

Nesse cenário, a manipulação da tornozeleira não era apenas um incidente doméstico, mas um possível prenúncio de evasão. Por isso, a decisão de converter a prisão domiciliar em preventiva foi apresentada como necessária para preservar a autoridade do processo e impedir novas violações.

No plano político, a narrativa do “surto medicamentoso” ganhou contornos de estratégia. Não é raro, em momentos de crise, que agentes públicos tentem humanizar erros por meio de relatos de fragilidade pessoal, enquanto seus adversários utilizam o mesmo episódio como evidência de irresponsabilidade.

GRAVIDADE – A saúde mental, nesse jogo, corre o risco de ser convertida em instrumento retórico: de um lado, para atenuar a gravidade do ato; de outro, para reforçar a imagem de alguém incapaz de respeitar deveres legais. O debate público, como de costume, preferiu a polarização às nuances, reduzindo o episódio a mais um capítulo da guerra política permanente.

A repercussão internacional reforçou a dimensão institucional do caso. Jornais estrangeiros destacaram a manipulação do monitoramento eletrônico como símbolo de um país que ainda convive com as consequências de um ataque frontal às suas regras democráticas. Nesse sentido, o episódio é menos sobre remédios e mais sobre responsabilidade: quando um ex-presidente tenta violar instrumentos de controle judicial — seja por delírio, seja por cálculo —, coloca em xeque a estabilidade das instituições.

O Brasil precisa, neste momento, de duas atitudes complementares: compaixão e rigor. Compaixão para tratar com seriedade eventuais problemas de saúde, sem ironia nem desprezo; rigor para aplicar a lei de forma igual, sem transformar fragilidades pessoais em salvo-conduto político. O discurso do delírio não pode se sobrepor ao dever de responsabilidade, assim como a punição não pode ignorar garantias fundamentais. O equilíbrio entre humanidade e firmeza é o que preserva a democracia de seus extremos — e impede que crises pessoais se tornem surtos institucionais.

Bolsonaro, a tornozeleira e o colapso final de sua narrativa política

O escândalo do Master: quando poder, política e previdência colidem

O recuo de Trump e o esvaziamento da estratégia bolsonarista

Como fundos públicos ignoraram sinais e mergulharam na crise do Banco Master

O colapso do Banco Master e a fatura que sempre chega ao Tesouro

Ilustração Zero Hora

Pedro do Coutto

Mais uma vez, em matéria de corrupção, descontrole e risco sistêmico no setor financeiro, a história se repete. A liquidação extrajudicial do Banco Master, determinada pelo Banco Central, expôs não apenas o colapso de uma instituição que já vinha dando sinais de deterioração, mas também a fragilidade estrutural de um modelo em que fundos de pensão — responsáveis pela segurança previdenciária de milhões de trabalhadores e servidores — acabam funcionando como amortecedores dos erros e das fraudes do sistema bancário.

O caso seria apenas mais um episódio de crise de liquidez se não envolvesse diretamente fundos de previdência que carregam recursos públicos, como no caso do Rio de Janeiro, onde o Rioprevidência se viu subitamente ameaçado pela possibilidade de não receber valores significativos aplicados em títulos do Master.

CONTRADIÇÕES – Segundo reportagem de Ana Teófilo, Thais Barcelos e Bruna Lessa, publicada em O Globo, o quadro revela contradições profundas e recorrentes em situações desse tipo: a vulnerabilidade dos fundos de pensão diante de bancos que oferecem rentabilidades atraentes, o peso das decisões de gestores pressionados por resultados imediatos e a ausência de uma fiscalização suficientemente preventiva — especialmente porque os fundos de previdência complementar, ainda que cuidem de dinheiro público e privado simultaneamente, não estão sujeitos à mesma ação direta e antecipada do Executivo. Ao contrário, convivem com brechas regulatórias que permitem decisões arriscadas sem supervisão rigorosa.

O Master, agora em liquidação, dificilmente terá patrimônio suficiente para pagar todos os credores. E quando um banco dessa natureza entra em colapso, o impacto não fica restrito ao setor financeiro: ele se espalha pelo Estado, pelos servidores e pelo Tesouro.

Isso ocorre porque fundos de pensão recebem contribuições dos trabalhadores, aportes do poder público e recursos previdenciários cuja natureza é, justamente, garantir segurança de longo prazo. Quando um fundo desse tipo sofre uma perda relevante — ainda que apenas potencial — a fatura recai, cedo ou tarde, sobre o Estado. Foi assim em outros episódios semelhantes e, ao que tudo indica, está sendo assim novamente.

ALERTA NACIONAL – O caso do Rio de Janeiro ilustra com clareza esse desequilíbrio. A simples perspectiva de que o Rioprevidência pudesse deixar de receber valores por falta de liquidez do Master acendeu um alerta nacional: se o fundo enfrentasse dificuldades, caberia ao Tesouro estadual — já pressionado — arcar com as obrigações previdenciárias. Não é uma anomalia: é a mecânica perversa de um sistema em que o risco privado pode rapidamente se tornar problema público.

A investigação sobre o Master, que envolve indícios de fraude, gestão temerária e operações irregulares, adiciona um componente ainda mais grave ao cenário. Não se trata apenas de má alocação de recursos, e sim de possíveis práticas criminosas que enganaram investidores, fundos e o próprio regulador. Nos bastidores, cresce a cobrança por responsabilização não apenas dos controladores do banco, mas também de gestores de fundos que assumiram posições arriscadas sem transparência suficiente.

Esse episódio expõe a necessidade urgente de repensar o modelo de governança e supervisão dos fundos de previdência. Embora manejem recursos essenciais para milhões de aposentados e futuros aposentados, muitos desses fundos operam com níveis de controle desiguais, estruturas decisórias suscetíveis a pressões políticas e um apetite por risco frequentemente incompatível com sua responsabilidade social. A linha que separa má gestão de crime financeiro é, por vezes, tênue — e quando se rompe, quem paga é o contribuinte.

TRANSPARÊNCIA – O colapso do Banco Master deveria servir de virada de chave institucional. O país precisa de regras mais sólidas de transparência, de limites mais claros para investimentos de fundos públicos, de um monitoramento mais rigoroso e, sobretudo, de mecanismos que impeçam que prejuízos privados sejam novamente empurrados para o colo do Tesouro.

A repetição constante desse enredo — bancos em crise, fundos de pensão expostos, servidores ameaçados, Estado acionado como fiador involuntário — não é coincidência: é resultado direto de um sistema que permite, estimula e normaliza riscos que jamais deveriam recair sobre quem paga impostos e contribui mensalmente para sua própria aposentadoria.

A liquidação do Master ainda terá desdobramentos longos, mas seu significado já está claro: enquanto o país não assumir a tarefa de fortalecer a governança dos fundos de pensão e de fechar as portas para a captura privada de recursos previdenciários, crises como essa continuarão se repetindo. E, como sempre, com o mesmo desfecho: a conta final chega, e quem paga não são os bancos — são os trabalhadores, os servidores e a sociedade.