A estabilidade esconde fraturas: inflação na meta e abalo no sistema financeiro

Marketing do crime nas redes sociais: faz o tráfico virar ferramenta de poder

Facções ocupam o vácuo do Estado, que se transforma em refém do crime

Serviços irregulares tornaram-se negócios altamente lucrativos

Pedro do Coutto

A reportagem de Patrick Camporez e Sarah Teófilo, publicada em O Globo, neste domingo, revela um retrato devastador da fragilidade institucional brasileira: facções criminosas passaram a ameaçar servidores, empresas concessionárias e agentes públicos para impedir a interrupção de serviços ilegais, consolidando um sistema paralelo que hoje opera em pelo menos quatro estados — Rio de Janeiro, Pernambuco, São Paulo e Mato Grosso.

Os relatórios da Polícia Federal mostram que, em diversas regiões, o Estado deixou de ser autorizado a funcionar. Não é apenas a polícia que enfrenta restrições: técnicos de energia e internet, equipes de manutenção, fiscais e funcionários de serviços essenciais relatam ser impedidos de entrar em áreas dominadas por milícias e facções, que tratam bairros inteiros como territórios sob jurisdição própria.

CONTROLE –  A situação é tão grave que, segundo o material obtido pela reportagem, há locais onde criminosos não apenas controlam a oferta clandestina de serviços, mas também determinam que nenhuma intervenção oficial — mesmo quando necessária — seja realizada. É o crime ocupando não só o espaço físico, mas a própria função regulatória do Estado.

Esse fenômeno, antes associado sobretudo ao Rio de Janeiro, agora se espalha por outros estados com características locais distintas, mas com o mesmo padrão: grupos armados que operam como administradores de áreas urbanas, cobrando taxas, gerenciando redes clandestinas de internet e energia, impondo regras de circulação e ameaçando qualquer funcionário público que tente restabelecer a legalidade.

A reportagem mostra que serviços irregulares, como a distribuição clandestina de sinal de internet ou o fornecimento ilegal de energia, tornaram-se negócios altamente lucrativos, e que suas interrupções são tratadas pelas facções como afrontas diretas à sua autoridade, justificando ameaças e ataques.

PARADOXO – Essa realidade estabelece um paradoxo perverso: quanto mais o Estado se vê incapaz de entrar, mais a população fica dependente da estrutura criminosa que ocupa seu lugar. Moradores convivem com a ambiguidade de serem, simultaneamente, vítimas e reféns de modelos ilegais que suprem, ainda que de forma precária, necessidades básicas que o poder público não conseguiu garantir.

O avanço dessa governança criminosa expõe, de forma nua e crua, uma falência parcial das instituições responsáveis por assegurar a ordem, a cidadania e a presença territorial do Estado. Não se trata apenas de violência armada ou tráfico de drogas, mas de uma disputa por autoridade e legitimidade.

Quando uma facção determina que técnicos não podem desligar uma conexão clandestina ou realizar um reparo essencial, ela está afirmando, na prática, que sua palavra vale mais que a lei. E quando essa lógica se repete em diferentes regiões do país, o problema deixa de ser local para se tornar um desafio nacional.

POLÍTICAS PÚBLICAS –  A ausência prolongada de serviços formais cria um ecossistema em que o poder paralelo se fortalece, e a retomada desses territórios se torna progressivamente mais difícil, pois não exige apenas força policial — exige políticas públicas, investimentos contínuos e reconstrução de confiança.

A situação descrita pelos documentos da PF e pela reportagem não é fruto de um episódio isolado, mas de décadas de negligência, de políticas descontínuas e de um Estado que sempre oscilou entre a presença armada e a ausência cotidiana. O resultado é a formação de enclaves onde a legalidade foi substituída pela lógica econômica e coercitiva do crime.

O desafio que se coloca agora é enorme e exige coragem política: retomar áreas dominadas por facções não é apenas entrar com operações pontuais, mas fincar raízes, reconstruir serviços públicos, garantir segurança de forma permanente e devolver à população a ideia de que o Estado existe para protegê-la e servi-la. A reportagem apenas confirma o tamanho da encruzilhada — e do dever que o país tem pela frente.

Uma vitória apenas parcial no tarifaço, mas estratégica para o governo Lula

Trump reduz tarifas que atingem café, carne bovina e frutas

Pedro do Coutto

A decisão de Donald Trump de reduzir as tarifas sobre produtos brasileiros como carne bovina, café, frutas tropicais e suco de laranja representa uma vitória parcial — mas politicamente relevante — para o governo Lula.

Depois de meses de tensão causada pelo tarifaço americano, que havia elevado impostos de importação para até 50% e ameaçava diretamente setores cruciais do agronegócio brasileiro, o recuo de Washington trouxe um alívio imediato tanto para produtores quanto para exportadores.

RESTRIÇÕES – O suco de laranja, por exemplo, um dos produtos mais afetados pela taxação e responsável por cerca de US$ 1 bilhão anuais em vendas para os EUA, deixa de sofrer a restrição extrema que limitava seu consumo no mercado americano. A mesma lógica vale para o café, para a carne bovina e para as frutas tropicais, que voltam a competir com mais equilíbrio dentro de um dos maiores mercados consumidores do mundo.

Na prática, Trump retirou diversos produtos da tarifa de 50%, recolocando-os na alíquota base de 10%, o que devolve previsibilidade às operações e reduz o impacto imediato no fluxo de comércio.

Mesmo sendo um alívio parcial, o gesto tem efeitos políticos significativos. Para Lula, o recuo americano serve como demonstração de capacidade diplomática em um ambiente global marcado por disputas comerciais agressivas. É também uma vitória simbólica contra o discurso de grupos internos que apostavam na ideia de que apenas uma postura submissa a Washington traria benefícios ao Brasil — muitos dos quais chegaram a erguer bandeiras dos Estados Unidos em manifestações domésticas, como se um alinhamento automático fosse suficiente para garantir vantagens econômicas.

FLEXIBILIZAÇÃO – Nesse episódio, o que se viu foi justamente o oposto: foi a insistência diplomática brasileira, aliada à pressão sobre o governo americano — que enfrenta aumento de preços internos e descontentamento do consumidor — que abriu espaço para a flexibilização tarifária.

Ainda que não resolva tudo, o desfecho mostra a essência da política internacional: raramente se conquista tudo de uma só vez; avança-se por etapas, acumulando pequenos ganhos que, somados, produzem efeitos concretos. Há muito a ser negociado, ajustado e redefinido entre Brasil e Estados Unidos, especialmente em um cenário de volatilidade econômica e forte carga eleitoral nos dois países.

Mas o movimento de Trump, ainda que limitado, reposiciona o Brasil com mais vantagem no tabuleiro comercial e oferece a Lula uma narrativa politicamente valiosa — a de que, mesmo em tempos difíceis, a diplomacia ainda funciona, e que resultados reais podem surgir mesmo quando a vitória, à primeira vista, parece apenas parcial.

O mito do voto independente e os limites reais da sucessão presidencial

Charge do Cazo (Facebook)

Pedro do Coutto

As pesquisas mais recentes sobre a disputa presidencial de 2026 revelam um fenômeno que parece novo, mas que, ao ser confrontado com a lógica institucional brasileira, perde muito da força narrativa que lhe tem sido atribuída. Segundo dados da Quaest, cresce a parcela do eleitorado que afirma estar cansada da polarização permanente entre Lula e Bolsonaro — ou, em termos mais amplos, entre lulismo e bolsonarismo — e que declara preferir um nome “independente” para a sucessão do próximo ano.

Esse sentimento, compreensível diante do desgaste acumulado de uma década de conflitos políticos incessantes, vem sendo lido apressadamente como indício de que os governadores Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado ou Romeu Zema poderiam encarnar essa alternativa “fora dos extremos”.

CONTRADIÇÃO – Mas a própria noção de voto independente carrega uma contradição estrutural: na prática, nenhuma candidatura presidencial se sustenta sem articulação partidária, alianças nacionais e musculatura eleitoral, elementos que, por definição, anulam qualquer pretensão de independência absoluta.

A ideia de que um eleitorado “autônomo” poderia migrar em bloco para uma candidatura alternativa e, assim, inviabilizar Lula da Silva nas urnas é sedutora como hipótese, mas irreal quando confrontada com o desenho institucional do pleito brasileiro.

A eleição é em dois turnos, e o segundo turno funciona como um mecanismo de reenquadramento político: nele, necessariamente, haverá Lula — ou alguém sustentado pelo lulismo — enfrentando um antagonista viável. Pesquisas que testam apenas cenários de primeiro turno, sem projetar combinações plausíveis de segundo, podem induzir a leituras equivocadas sobre a real capacidade de esse “centro independente” romper a polarização.

PRINCIPAL ATOR POLÍTICO – No Brasil, não existe sucessão presidencial sem enfrentar o protagonista; e Lula, goste-se ou não, permanece o principal ator político do país. Além disso, o desempenho dos chamados nomes alternativos não confirma, por ora, a narrativa da ruptura. Embora pesquisas registrem desejo por renovação, os governadores que surgem como alternativas continuam exibindo níveis de intenção de voto significativamente inferiores e não demonstram possuir, até o momento, a capacidade de agregar coalizões nacionais sólidas.

A distância entre o desejo por novidade e a materialização de uma candidatura competitiva é larga — e, historicamente, poucos conseguiram transpor esse desfiladeiro. Em cenários simulados, Lula segue liderando todos os confrontos diretos, o que reforça a ideia de que o antipetismo, isoladamente, não estrutura mais uma candidatura suficientemente ampla.

SATURAÇÃO – O discurso do “voto independente” opera, então, mais como diagnóstico emocional do eleitorado do que como indicador eleitoral concreto. Ele expressa saturação, fadiga, talvez anseio por um pacto político menos tóxico. Mas não oferece, ainda, um caminho institucional viável. Sem partido, sem alianças, sem palanque nacional — e sem protagonismo claro no segundo turno — nenhuma alternativa se consolida. E mesmo quando se apresenta como “anti-polarização”, esse conjunto de nomes inevitavelmente se alinha, na prática, a um dos blocos já existentes.

Em síntese, o país vive um paradoxo: o eleitor quer se libertar da polarização, mas o sistema eleitoral, a força dos partidos, a dinâmica dos dois turnos e o peso de lideranças estabelecidas mantêm a disputa ancorada na velha arquitetura. A sucessão de 2026 pode até acolher novos personagens, mas dificilmente romperá — ao menos com os dados atuais — a estrutura binária que marca o debate político nacional há anos. O voto independente existe como desejo; como projeto de poder, ainda não.

O embaraço do “PL antifacções”: quando o combate ao crime vira palco da disputa política

Inflação no papel, desconforto no carrinho: o abismo entre o índice e a vida real

A disputa pelo comando da segurança pública virou briga política

Proposta relatada por Derrite foi criticada por especialistas

Pedro do Coutto

A tramitação do chamado “projeto antifacção” na Câmara reacendeu um debate decisivo sobre segurança pública e organização do Estado brasileiro. A proposta, relatada pelo deputado Guilherme Derrite, foi criticada por especialistas, que apontaram um problema central: o texto original restringia a atuação da Polícia Federal ao exigir que operações contra o crime organizado dependessem de solicitação prévia dos governos estaduais.

A medida, além de desalinhada com o funcionamento das instituições, contrariava a lógica constitucional que garante à PF competência nacional e autonomia investigativa para atuar onde quer que organizações criminosas articulem suas redes, rotas e finanças.

RESPOSTA ESTATAL – Especialistas alertam que essa mudança não só criaria entraves operacionais, como poderia fragmentar a resposta estatal a facções estruturadas que transcendem fronteiras locais. O crime organizado contemporâneo não é mais um fenômeno restrito a territórios periféricos ou disputas de milícias por bairros: trata-se de redes complexas, com ramificações internacionais, conexões financeiras sofisticadas e logística que atravessa portos, fronteiras terrestres e rotas aéreas.

Facções brasileiras já operam em países vizinhos, organizam exportações ilegais por corredores portuários estratégicos e mantêm interlocução direta com cartéis estrangeiros. Nesses casos, a Polícia Federal não é apenas um ator relevante — é o elo central da capacidade estatal de rastrear fluxos ilícitos, articular cooperação internacional e conduzir investigações que demandam sigilo, continuidade e alcance nacional.

Condicioná-la à autorização de governadores significa introduzir atrasos, conflitos de interesse político e limites territoriais que não existem para o crime. É, em última instância, combater um fenômeno transnacional com ferramentas municipais.

ALTERAÇÃO DE REGRAS – Outro ponto de preocupação levantado por juristas e entidades de segurança pública é a alteração das regras sobre confisco de bens e patrimônio apreendido em operações contra facções. O projeto flexibiliza e dificulta a expropriação de recursos de organizações criminosas, o que pode afetar diretamente a capacidade do Estado de sufocar financeiramente essas redes.

Parte fundamental do combate ao crime organizado nos últimos anos se deveu justamente à possibilidade de bloquear contas, confiscar imóveis, apreender embarcações e rastrear laranjas utilizados para mascarar fluxos financeiros ilícitos. Enfraquecer esse instrumento significa devolver poder econômico às facções. E poder econômico, no crime, sempre se transforma em poder territorial, armamento, influência e coação social.

Ao sinalizar que vai rever o texto, Derrite parece reconhecer que segurança pública não pode ser submetida a experimentações improvisadas ou gestos de afago político. A Polícia Federal opera na fronteira mais sensível da soberania: onde o Estado afirma sua autoridade frente a organizações que disputam território, economia e legitimidade.

PLANEJAMENTO – Sua atuação depende de continuidade técnica, inteligência integrada e independência de interferências que possam desorganizar investigações complexas. A política, nesse campo, não pode ser movida por urgências eleitorais ou por disputas entre níveis de governo.

No centro do debate está uma escolha: reforçar a coordenação nacional e a inteligência integrada ou fragmentar a resposta estatal num momento em que facções ampliam sua presença nos portos, na Amazônia e em articulações transnacionais.

ENFRENTAMENTO – Não se trata de disputa simbólica entre instituições, mas de uma reflexão estratégica sobre como o Brasil pretende enfrentar organizações que operam simultaneamente no varejo da violência local e nas engrenagens financeiras globais. Qualquer proposta que fragilize a capacidade do Estado de agir de forma articulada não apenas compromete investigações em curso, como pavimenta terreno para a expansão das facções.

O combate ao crime organizado exige Estado forte, ação integrada e decisão política consistente. Tudo o que fragmente isso, enfraquece a democracia — e fortalece quem vive da sua erosão.

Um continente que ainda disputa o sentido da palavra “paz”

Nova isenção de IR alivia pouco: é a falsa bonança da classe média brasileira

Charge do Jota A. (portalodia.com)

Pedro do Coutto

A proposta de isentar do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês tem sido apresentada pelo governo como um alívio para a classe média e como estímulo à economia. Segundo reportagem de Vinicius Neder e Nathan Martins em O Globo, as projeções indicam que essa medida pode liberar até R$ 28 bilhões em consumo em 2026. Mas projeções são hipóteses, não realidade material. E, no Brasil, a chamada classe média é menos uma faixa de renda e mais uma condição instável.

Considerar que ela vai de R$ 5 mil a R$ 7.350 mensais é um exercício generoso de classificação. Entre aluguel, escola, plano de saúde, transporte, alimentação e o custo de viver nas grandes cidades, o que se costuma chamar de “renda disponível” para esse grupo é uma ficção que se dissolve no dia 10 de cada mês.

ANSIEDADE – Como observam economistas como Thomas Piketty, essa classe vive a ansiedade permanente da queda: não é suficientemente rica para acumular patrimônio, nem suficientemente pobre para acessar políticas sociais estruturadas. Vive no fio da navalha.

Ao mesmo tempo, enquanto o assalariado comemora a possibilidade de algum respiro, setores empresariais se movimentam rapidamente para proteger margens de lucro. As medidas compensatórias que o governo estuda — como a tributação de lucros e dividendos distribuídos — já colocaram escritórios, consultorias e departamentos financeiros em alerta para antecipar pagamentos e reorganizar fluxos de caixa.

Assim, o alívio fiscal para quem vive do trabalho tende a ser acompanhado por estratégias articuladas para blindar ganhos do capital. O que se observa é o mesmo conflito estrutural descrito ao longo de mais de um século de estudos econômicos: quando o Estado desloca o pêndulo em direção ao trabalho, o capital reage para preservá-lo.

PROJETO DE SOCIEDADE – É por isso que discutir a isenção não é apenas debater eficiência tributária. É discutir qual projeto de sociedade queremos sustentar. Se o Estado renuncia à tributação sobre quem ganha menos, mas não enfrenta as formas de renda que operam fora da lógica salarial — como lucros, heranças e ganhos financeiros — o resultado final tende a ser um alívio curto seguido de uma recomposição fiscal que volta a recair justamente sobre quem vive do trabalho.

Consumo não é movido apenas por mais renda, mas por expectativa: as pessoas consomem quando acreditam que terão futuro, estabilidade e horizonte. E essas três coisas não se constroem com medidas pontuais, mas com política pública contínua, capacidade industrial, educação de qualidade e serviços básicos acessíveis.

REFORMA TRIBUTÁRIA – A isenção até R$ 5 mil é importante, mas não altera a estrutura que produz desigualdade e instabilidade no país. Sem uma reforma tributária profunda que integre patrimônio, renda financeira e herança no centro do debate, continuaremos girando no mesmo eixo: a classe média comemora migalhas de alívio, o capital reorganiza suas engrenagens para não perder retorno, e o Estado volta, mais cedo ou mais tarde, a buscar compensações onde é mais fácil arrecadar — nos salários.

No fim, a escolha não é fiscal, é moral. É decidir se o Brasil continuará a proteger o patrimônio antes das pessoas, ou se finalmente será capaz de construir uma economia que permita a quem trabalha viver com alguma segurança e possibilidade de ascensão.

O que significa o STF condenar Bolsonaro e generais pelo ataque à democracia

STF mantém condenação de Bolsonaro e seis réus

Pedro do Coutto

A decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, que rejeitou os recursos do ex-presidente Jair Bolsonaro e de ex-ministros e generais envolvidos na tentativa de golpe de Estado, marca um divisor de águas na história política recente do Brasil.

O placar de 4 a 0 não sela apenas um processo jurídico, mas consolida um marco institucional, que reafirma os limites constitucionais diante de um projeto de ruptura articulado a partir do próprio Estado.

RESULTADO DAS URNAS – Desde os ataques de 8 de janeiro de 2023, o STF vinha ampliando sua atuação para reconstruir o que ocorreu: não se tratou de ato isolado ou tumulto espontâneo, mas de uma tentativa coordenada de subverter o resultado eleitoral e impor um novo regime político, apoiado no discurso de que as Forças Armadas poderiam intervir para “corrigir” o processo democrático.

A condenação alcança nomes de altíssimo escalão, como Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Anderson Torres, Almir Garnier Santos e Alexandre Ramagem. A mensagem institucional é inequívoca: não haverá relativização histórica ou eufemismo jurídico quando o pacto constitucional é atacado diretamente.

Democracias, como já analisado por organismos como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sobrevivem apenas quando têm capacidade de responder com clareza a tentativas de ruptura — especialmente quando essas tentativas vêm de dentro de suas próprias estruturas de poder.

PONTO SENSÍVEL – Com os recursos praticamente esgotados, o centro de gravidade do processo se desloca para um ponto sensível: o cumprimento das penas. A presença de generais e ex-ministros em unidades militares poderia criar um ambiente de tensão interna, enquanto manter prisões domiciliares para todos seria interpretado como privilégio indevido. A possibilidade de envio de parte dos condenados para a Penitenciária da Papuda, entretanto, abre um dilema mais profundo: como as Forças Armadas irão elaborar publicamente o fato de que quadros de sua cúpula violaram o juramento constitucional?

O impacto simbólico dessa etapa pode ser maior do que o próprio julgamento, porque obriga a instituição a decidir entre a autopreservação corporativa e o compromisso democrático que afirma defender.

Entre os condenados, o caso de Mauro Cid é particularmente revelador. Condenado a pena menor, ele abriu uma trilha documental e testemunhal que detalhou a engrenagem do golpe no nível operacional. Seu papel demonstra algo essencial: a democracia não se defende apenas com posicionamentos políticos, mas com investigação rigorosa, provas verificáveis e devido processo legal. Não foi narrativa contra narrativa — foi fato contra intento de fraude histórica.

BASE MOBILIZADA – A condenação, porém, não encerra a disputa política. O bolsonarismo ainda possui base mobilizada, discurso afetivo e canais de comunicação que mantêm viva a hipótese de deslegitimação das instituições. A democracia brasileira, nesse sentido, segue em teste contínuo. Mas o julgamento estabeleceu um limite: a ruptura não será normalizada.

O próximo passo será decisivo. Se o país conseguir atravessar a fase de cumprimento das penas sem humilhações institucionais, sem bravatas de revanche e sem concessões que reescrevam o passado, poderá finalmente consolidar algo que lhe faltou desde 1988: a certeza de que a Constituição não é apenas uma referência moral, mas uma fronteira inegociável. O julgamento foi o momento da sentença. Agora começa o período mais difícil — o da maturidade democrática.

Economia climática em disputa: entre o anúncio e a ação efetiva

Moraes autoriza general acusado de planejar atentado contra Lula a fazer o Enem

Fernandes está preso provisoriamente em uma unidade militar

Márcio Falcão
Gustavo Garcia
G1

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu  a um pedido da defesa do general da reserva Mário Fernandes e autorizou a saída do militar da unidade em que está preso para realizar as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos dias 9 e 16 de novembro.

De acordo com as investigações, o militar do Exército elaborou, em novembro de 2022, logo após as eleições presidenciais, um plano para matar Lula, Geraldo Alckmin e Moraes, que à época presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O planejamento faria parte de trama para dar um golpe de Estado.

ESCOLTA – Conforme a decisão de Moraes, Mário Fernandes poderá sair do Comando Militar do Planalto, onde está preso provisoriamente, e se deslocar, nos dias de prova, para a Universidade de Brasília (UnB), para realizar o Enem. O deslocamento será feito com escolta policial e os agentes deverão agir de forma “discreta” e “sem ostensividade no uso de armas”. Após a realização dos testes, o militar deverá voltar à unidade militar em que está custodiado.

No pedido encaminhado a Alexandre de Moraes, a defesa de Mário Fernandes afirmou que o militar tem interesse em fazer o Enem com o objetivo de “progressão educacional e profissional” também como possibilidade de diminuição de uma eventual pena, caso seja condenado pelo STF.

NÚCLEO 2 – Mário Fernandes é réu do núcleo 2 da trama golpista, ao lado de outras cinco pessoas. O julgamento desse grupo está previsto para começar no dia 9 de dezembro.

“O estudo, mesmo que de forma autodidata, como é o caso da preparação para o Enem, é um fator de ressocialização e deve ser prestigiado. A aprovação no exame autoriza a remição de pena, independentemente de o custodiado já ter concluído o ensino médio anteriormente”, afirmam os advogados do general.

Para haver Justiça fiscal de verdade, é preciso aprimorar a taxação do capital

Arquivo do Google

Pedro do Coutto

A recente aprovação, no Senado, da isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil e da cobrança adicional sobre rendimentos acima de R$ 50 mil foi celebrada como um avanço na redução das desigualdades. À primeira vista, a medida reorganiza o peso tributário: alivia o bolso de quem ganha menos e aumenta a contribuição de quem está no topo da pirâmide salarial. Trata-se, portanto, de um gesto alinhado ao princípio da progressividade – segundo o qual quem pode mais, paga mais.

Mas a questão não se encerra aí. O debate sobre justiça fiscal no Brasil não é apenas sobre “quem ganha quanto”, e sim sobre de onde vem a renda. A economia é marcada por duas fontes principais: o trabalho e o capital. Quando falamos de salários – sejam eles de R$ 2 mil ou R$ 50 mil – estamos falando sempre de remuneração pelo trabalho. Ao taxar mais quem ganha mais salário, o Estado está apenas redistribuindo dentro da mesma categoria: trabalho transferido para trabalho. A origem da renda permanece a mesma.

LIMITE ESTRUTURAL – É nesse ponto que o efeito transformador da medida começa a esbarrar em um limite estrutural. O Brasil continua sendo um dos países onde a tributação sobre o trabalho é elevada, enquanto a carga sobre o capital — lucros, dividendos, grandes patrimônios e heranças — permanece baixa.

Relatórios de instituições como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Banco Mundial têm apontado há décadas a distorção brasileira: somos uma das maiores economias do mundo que menos tributa renda do capital. O resultado é um sistema regressivo, onde quem vive de salário contribui proporcionalmente mais do que quem vive de rendimentos.

Além disso, a dinâmica salarial está sempre correndo atrás da inflação. Quando os salários são reajustados para repor perdas acumuladas, essa recomposição já nasce atrasada. A partir do mês seguinte, a inflação volta a corroer o poder de compra. Ou seja, o ganho nominal não se converte em ganho real. A renda do trabalhador volta a encolher antes que ele perceba o suposto alívio fiscal. Sem aumento de poder aquisitivo, a economia desacelera, o consumo se retrai e o ciclo de desenvolvimento social fica travado.

LUCRO DO CAPITAL – Enquanto isso, o lucro do capital opera de forma diferente: ele não apenas se preserva, mas tende a se multiplicar – sobretudo quando protegido por mecanismos de isenção, incentivos e brechas legais. Se o objetivo é, de fato, reduzir desigualdades, não basta reorganizar a carga entre salários mais baixos e salários mais altos. É preciso que parte da renda que se acumula no topo, sob a forma de capital, circule de volta para a base. Assim se dá a redistribuição efetiva.

Países que conseguiram promover mobilidade social e construir estados de bem-estar robustos — como França, Alemanha, Canadá, Noruega — estruturaram seus sistemas tributários com centro de gravidade no capital, e não apenas na folha salarial. Taxam dividendos, grandes heranças, ganhos financeiros e patrimônio improdutivo. Não se trata de penalizar riqueza, mas de impedir que ela se concentre indefinidamente.

DESIGUALDADE – A medida aprovada pelo Senado é um passo. Mas é um passo limitado. Ela pode aliviar parte da pressão sobre o trabalhador comum, porém não altera a arquitetura que produz a desigualdade. Para isso, seria necessário enfrentar o debate sobre tributação do capital — um debate mais complexo, mais politizado e que mexe diretamente com os alicerces do poder econômico brasileiro.

Enquanto esse passo não é dado, seguimos apenas rearranjando pesos dentro da mesma categoria de renda, e deixando intacto o mecanismo que perpetua a desigualdade: a concentração do capital. A justiça fiscal, para ser justa de verdade, precisa ir à raiz — e não apenas à superfície.

O choque entre Haddad e Galípolo no comando da Selic

Manutenção da taxa foi recebida como uma ruptura silenciosa

Pedro do Coutto

O choque anunciado entre o governo e o Banco Central expôs, de maneira cristalina, uma disputa que vinha sendo empurrada para debaixo do tapete: o rumo da política monetária do país em um momento de desaceleração econômica e pressão social crescente.

A manutenção da taxa básica de juros em 15% pelo Banco Central, sob o comando de Gabriel Galípolo, indicado pelo próprio ministro Fernando Haddad, foi recebida como uma espécie de ruptura silenciosa dentro do governo. Lula esperava que a transição de comando no BC representasse uma mudança gradual, mas firme, no sentido de reduzir juros que considera historicamente elevados.

CONTRADIÇÃO – O gesto de manter a taxa – e ainda sinalizar preocupação com expectativas inflacionárias e incertezas fiscais – foi lido no Planalto como uma contradição direta ao projeto econômico prometido pelo governo.

A crítica pública de Haddad ao Banco Central não surgiu de improviso ou de arroubo retórico. Ela foi sustentada por dados sensíveis: com juros de 15%, o peso da dívida pública – que já corresponde a cerca de 78% do PIB – torna-se um gargalo que pressiona diretamente o orçamento federal, limita investimentos públicos e afeta o crescimento.

Trata-se de uma equação explosiva. Cada ponto percentual a mais nos juros significa bilhões adicionais em despesas para rolar a dívida. Em um país que precisa investir em infraestrutura, serviços essenciais e políticas de redução da desigualdade, os recursos drenados pelos juros se tornam um entrave político e econômico.

JUSTIFICATIVA – No entanto, o Banco Central argumenta que a taxa elevada é necessária para conter pressões inflacionárias e preservar a credibilidade monetária. Parte significativa do mercado financeiro ecoa esse argumento e sustenta que a queda dos juros sem “ancoragem fiscal” seria uma aposta arriscada, capaz de desestabilizar a moeda, elevar o dólar e corroer a confiança de investidores.

Haddad, porém, devolveu o debate ao seu componente político: segundo ele, há setores do mercado que “torcem contra o Brasil”, apostando em instabilidade para preservar privilégios associados à especulação e à renda financeira. A afirmação, reproduzida por grandes veículos de imprensa, não é apenas retórica; ela busca reposicionar o debate público sobre para quem e para que serve a política econômica.

O impasse, portanto, vai muito além da taxa Selic. Ele revela duas concepções distintas de país. De um lado, uma visão que aposta na austeridade como pilar da estabilidade, mesmo diante de seus efeitos recessivos. De outro, a convicção de que o Estado precisa recuperar sua capacidade de induzir crescimento, reduzir desigualdades e fortalecer o investimento produtivo.

OBSTÁCULO – A frustração de Lula e Haddad com o Banco Central é, nesse contexto, a frustração de um governo eleito para reativar a economia, mas que se vê travado por um modelo institucional que, desde a autonomia formal do BC, tornou-se mais resistente à orientação política do Executivo.

A bomba explodiu agora, mas o pavio estava aceso desde o início do mandato. A pergunta que se coloca daqui para frente é: haverá convergência ou aprofundamento da crise? Se o governo não conseguir alinhar discurso fiscal, reconstruir confiança e propor uma trajetória crível de responsabilidade com desenvolvimento, o Banco Central continuará se sustentando no argumento da prevenção inflacionária.

Mas se a economia permanecer estagnada, o debate sobre juros deixará de ser técnico para se tornar, de forma inescapável, social. E aí, como a história brasileira já demonstrou, nenhuma autoridade monetária permanece imune ao país real.

A decisão do Banco Central e a urgência de frear as finanças do crime organizado

Novas normas obrigam encerramento de contas irregulares

Pedro do Coutto

Por muito tempo, o sistema financeiro brasileiro conviveu com uma contradição silenciosa: ao mesmo tempo em que avançava em modernização, digitalização e inclusão bancária por meio das fintechs, deixava brechas profundas que permitiam o uso de contas sem titular definido — as chamadas contas bolsão.

Essas estruturas, usadas para gerenciar grandes volumes de recursos sem vínculo transparente com pessoas físicas ou jurídicas, tornaram-se terreno fértil para a lavagem de dinheiro em larga escala. A reportagem de Thais Barcelos e Bruna Lessa, publicada em O Globo, mostrou que essas contas foram amplamente utilizadas por facções criminosas, especialmente em São Paulo, para movimentar valores de origem ilícita de forma discreta e eficiente, passando abaixo dos radares tradicionais de fiscalização financeira.

DONOS INDEFINIDOS – É difícil não se surpreender: como um sistema bancário que, nos últimos anos, se tornou referência mundial em pagamentos instantâneos e verificação digital permitiu a existência de contas sem dono definido? A resposta está na intersecção entre a inovação acelerada e a insuficiência regulatória. As fintechs, ao democratizarem o acesso ao sistema financeiro, criaram modelos mais flexíveis e rápidos — o que é positivo para o consumidor —, mas também abriram brechas para operações opacas.

Não se trata de acusar o setor como um todo, mas de reconhecer que a ausência de normas claras, unificada à sofisticação do crime organizado, resultou no que especialistas em segurança financeira chamam de “zona cinzenta operacional”: um espaço onde o Estado enxerga pouco, o banco controla parcialmente e o crime se organiza sistematicamente.

CONTAS BOLSÃO – A nova resolução do Banco Central, que acaba com as contas bolsão e reforça a exigência de identificação dos titulares, é um passo importante — ainda que tardio. Não basta fechar contas: é preciso criar mecanismos permanentes de monitoramento, integração entre órgãos de controle e responsabilização das instituições que, por omissão ou negligência, contribuam para alimentar estruturas paralelas de circulação financeira.

A experiência internacional mostra que o combate à lavagem de dinheiro só é eficiente quando há coordenação entre reguladores, agências de inteligência financeira e bancos — como ocorre nos modelos do Reino Unido, da União Europeia e das redes cooperativas coordenadas pelo Financial Action Task Force (FATF).

Mas é importante ir além da dimensão técnica. O que está em jogo não é apenas impedir transações ilegais: é impedir que o crime organizado se consolide como um poder econômico capaz de moldar territórios, cooptar jovens e se infiltrar no Estado.

INFLUÊNCIA – O dinheiro ilícito não circula sozinho; ele compra influência, votos, armas, proteção e silêncio. Ao fechar uma brecha financeira, o Banco Central não apenas aperta o cerco contábil — ele restringe a capacidade de expansão de uma estrutura que disputa, na prática, o monopólio da autoridade em certas regiões do país.

A decisão chega tarde, mas chega em um momento crucial: quando a presença do crime organizado no tecido social brasileiro deixou de ser um problema de segurança pública isolado e se tornou um desafio institucional. Agora, o que se espera é continuidade, fiscalização séria e coragem política — porque, no combate ao poder econômico do crime, a pior resposta é a que chega apenas pela metade.

No Rio, a criminalidade causa um sentimento coletivo de medo e exaustão

Rio de Janeiro: Uma cidade que vive entre a rotina e a guerra não-declarada

É preciso discutir o peso real da dívida pública, mas o Brasil insiste em ignorar

Charge reproduzida do Arquivo do Google

Pedro do Coutto

Na entrevista concedida  na última sexta-feira à jornalista Natuza Nery na GloboNews, a economista Zeina Latif chamou atenção para um ponto que raramente é compreendido de forma clara pelo público: o tamanho do endividamento brasileiro.

Disse que a dívida bruta do país alcança cerca de 78% do Produto Interno Bruto, o que é tecnicamente correto, mas percentuais, quando não traduzidos em números absolutos, acabam criando uma discussão abstrata, distante da realidade concreta.

DÍVIDA BRUTA – Para que essa proporção seja compreendida, é necessário atravessar o cálculo: o PIB brasileiro está hoje em torno de R$ 10 trilhões; portanto, a dívida bruta se aproxima de R$ 7,8 trilhões. É um montante que não se paga da noite para o dia, tampouco sem uma estratégia de crescimento consistente. Quanto maior a dívida, maior o peso dos juros; quanto mais se gasta com juros, menos sobra para investimento em áreas essenciais como infraestrutura, saúde, educação e desenvolvimento produtivo.

É nesse ponto que entra a política monetária. O Banco Central, agora sob a presidência de Gabriel Galípolo, mantém a taxa de juros em patamar elevado para garantir atratividade dos títulos públicos, controlar expectativas de inflação e assegurar que o governo consiga rolar sua dívida. Juros altos, porém, têm um custo social.

Encarecem o crédito, inibem o investimento produtivo e limitam a capacidade de expansão do setor privado. A economia real — aquela que pesa no bolso do trabalhador, no preço do alimento, no financiamento da casa, na pequena empresa que decide contratar ou não — sente esse impacto de forma direta.

TENSÃO POLÍTICA – É por isso que o tema dos juros volta e meia gera tensão política: o governo Lula, que criticou duramente Roberto Campos Neto por manter taxas elevadas, agora vê que a troca de comando não significou automaticamente uma mudança de orientação. Há aí um desconforto compreensível, porque a política monetária segue uma lógica que não se move no ritmo das expectativas políticas.

Ainda assim, há sinais de dinamismo na economia. O desemprego caiu para 5,6%, segundo o IBGE, o menor índice em anos, representando cerca de 6 milhões de pessoas sem trabalho — número ainda alto, mas muito inferior aos quase 14% registrados durante a pandemia.

Além disso, o rendimento médio subiu para cerca de R$ 3.500, o maior da série histórica desde 2012, indicando que parte das famílias voltou a ter algum fôlego no consumo. Isso não significa prosperidade plena, mas indica um país que respira, que se reorganiza, que tenta retomar seu ritmo.

DIMENSÃO REAL – O ponto central, no entanto, permanece: indicadores percentuais, sozinhos, não revelam a dimensão real dos problemas ou avanços. Como dizia Roberto Campos, números só ganham sentido quando traduzidos em valores absolutos. E essa tradução é indispensável para que a sociedade compreenda para onde o país está indo e quais escolhas serão necessárias.

O Brasil, portanto, vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que melhora indicadores sociais importantes, carrega uma âncora fiscal pesada e difícil de administrar. Não é possível sustentar indefinidamente juros elevados e dívida crescente sem comprometer o futuro.

Também não é possível resolver o problema com ajustes bruscos que destruam empregos e renda. O caminho exige crescimento sustentado, produtividade, reforma tributária eficiente e, sobretudo, planejamento de longo prazo — algo que ultrapassa governos, ciclos eleitorais e interesses momentâneos. A questão que se impõe, então, é simples, ainda que difícil: queremos continuar discutindo percentuais ou finalmente encarar o tamanho real da conta?

Na engrenagem invisível do crime, a propina sustenta o poder do Comando Vermelho

O crime sobrevive ao se infiltrar nas brechas do poder

Pedro do Coutto

A recente reportagem de O Globo sobre o Comando Vermelho (CV) lança luz sobre um aspecto pouco discutido, porém decisivo, da atuação da facção: a profissionalização da corrupção. Segundo as investigações, dentro da estrutura da organização criminosa há até um “especialista em propinas” — alguém cuja função é administrar pagamentos a agentes públicos e negociar vantagens que mantenham o império do tráfico funcionando com mínima interferência do Estado.

Essa revelação, mais do que um detalhe, expõe a essência do crime organizado no Brasil: ele não sobrevive apenas à base da violência, mas sobretudo pela capacidade de corromper e se infiltrar nas brechas do poder.

ALIANÇA – O Comando Vermelho, nascido nas prisões cariocas durante a ditadura, evoluiu de uma aliança de detentos para uma máquina empresarial do crime, expandindo-se por diversos estados e até alcançando conexões internacionais.

O que antes era um grupo armado, hoje é uma rede que movimenta bilhões e controla territórios com a mesma eficiência de uma corporação. O tráfico de drogas e de armas continua sendo a espinha dorsal, mas o diferencial contemporâneo é a capacidade de operar financeiramente — lavar dinheiro, investir em empresas de fachada e comprar silêncio.

É a economia paralela do crime, sustentada por um mercado de propinas que vai desde o policial de base até setores mais sofisticados da máquina pública. O caso revelado no Complexo da Penha, onde um integrante da facção atua exclusivamente como articulador de propinas, é o retrato dessa engrenagem invisível. Ele não dispara armas, não negocia drogas — negocia impunidade.

FERRAMENTA ESTRATÉGICA – Essa função demonstra que a corrupção deixou de ser uma consequência eventual e se tornou uma ferramenta estratégica. A propina garante o fluxo de informações, o alívio em fiscalizações, a liberdade de circulação de drogas e armas. Em outras palavras, é o óleo que faz girar a máquina do crime.

O problema é que esse sistema corrompe não apenas as instituições, mas a própria ideia de Estado. Quando o crime consegue comprar tolerância ou inação, o poder público deixa de ser a instância legítima do território. Nas comunidades dominadas, o Comando Vermelho dita regras, impõe horários, regula conflitos e até presta “serviços” sociais — papel que deveria ser do Estado. O dinheiro da propina, nesse contexto, não é apenas um suborno: é uma forma de poder.

ESQUEMA – As investigações recentes mostram o tamanho da estrutura financeira envolvida. Em 2025, a polícia descobriu um esquema de lavagem de dinheiro do CV que movimentou cerca de R$ 6 bilhões em um ano, com notas mofadas e marcadas pelo cheiro de drogas.

Em outro caso, planilhas apreendidas indicavam um caixa de R$ 13,8 milhões em apenas um mês, usado para custear advogados, armas e operações. Tudo isso revela um modelo de negócio altamente sofisticado, que depende tanto da violência quanto da capacidade de corromper.

O Estado, por sua vez, continua refém de uma lógica reativa: operações policiais grandiosas, confrontos em favelas, prisões pontuais — sem atacar o núcleo do problema, que é o dinheiro. Enquanto a repressão se concentra no varejo do tráfico, a elite do crime aperfeiçoa seus mecanismos de lavagem e influência.

FRONTEIRA – O enfrentamento eficaz exigiria outro tipo de estratégia: investigação financeira, rastreamento de fluxos, transparência institucional e controle rigoroso sobre servidores e empresas que interagem com o poder público. O que está em jogo vai além da segurança. É uma disputa pelo controle simbólico e prático do Estado. A propina, nesse contexto, é o instrumento que dilui a fronteira entre legalidade e ilegalidade. Cada agente comprado, cada licitação desviada, cada olhar desviado diante de um crime alimenta essa fronteira cinzenta onde o Comando Vermelho prospera.

A reportagem do Globo não apenas revela um crime — revela um sistema. E enquanto o país continuar tratando a corrupção como uma anomalia, e não como parte essencial da engrenagem que sustenta o poder paralelo, continuará condenado a enxugar gelo. O verdadeiro combate ao crime organizado não se faz apenas com fuzis ou helicópteros, mas com integridade, investigação e vontade política. Porque o poder do Comando Vermelho não está apenas nas armas — está, sobretudo, no bolso de quem se vende para mantê-lo.