Sem mulheres no Planalto: Lula e Flávio lideram disputa que simboliza retrocesso histórico

Fim da escala 6×1 vira moeda de troca: oposição exige contrapartida e pressiona governo

Sóstenes diz que governo terá que apresentar compensação

Gabriela Echenique
Folha

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), disse que para aprovar o fim da escala 6×1 na Câmara, o governo terá que apresentar uma contrapartida robusta às empresas.

A declaração é feita após o texto ter sido aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), deve determinar a instalação da comissão especial nos próximos dias.

RESISTÊNCIA – Petistas resistem à ideia de bancar uma ajuda às empresas e também não querem aprovar uma desoneração. Mas, nos bastidores, admitem que terão que encontrar alternativas para acelerar a votação na casa. O PL quer propor, inclusive, ao menos duas mudanças no texto. Uma delas é o pagamento por hora trabalhada, como propôs também a campanha do presidenciável, Romeu Zema (Novo).

Sóstenes afirmou que se não houver contrapartida, o texto não passa com facilidade. “Ou o governo abre o cofre para aprovar o texto ou vai ter muita dificuldade aqui na Câmara”, afirmou. Alguns deputados da oposição articulam para protelar a votação da PEC e querem usar o máximo de sessões previstas pelo regimento —são 40, no total. Se isso acontecer, o projeto não será aprovado no primeiro semestre.

O deputado Fausto Pinato (PP-SP) reclamou da pressa em votar o texto. “Tudo está sendo feito de forma açodada e eleitoreira. Não dá para tratar um tema tão importante dessa forma”, afirmou. Governistas ouviram do presidente da Câmara a garantia de que dará celeridade à matéria e quer aprovar em plenário até o final de maio.

Flávio retoma discurso de 2018 e reacende confronto entre agro e terras indígenas

Flávio volta à cartilha do ex-presidente Jair Bolsonaro

Luísa Marzullo
O Globo

No palanque de uma das principais feiras do agronegócio do país nesta quarta-feira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) retomou o discurso que marcou a ascensão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018, ao explorar a oposição entre produtores rurais e habitantes de terras indígenas.

Buscando avançar sobre o setor do campo, Flávio indicou que o tema será incorporado aos discursos durante a campanha eleitoral. “Nenhuma dessas reservas será demarcada se depender do nosso governo”, disse Flávio, ao discursar para produtores presentes na Norte Show, em Sinop (MT).

VELHO DISCURSO – A formulação ecoa uma das frases mais repetidas por Bolsonaro ainda antes de assumir o Planalto. Em novembro de 2018, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, o então presidente eleito afirmou: “Eu tenho falado que, no que depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena”.

À época, o argumento vinha acompanhado da promessa de garantir segurança jurídica ao campo e frear o avanço de novas áreas protegidas. No governo, a diretriz foi mantida: não houve novas demarcações homologadas entre 2019 e 2022.

Ao recuperar esse eixo, Flávio não apenas mobiliza o repertório do pai, mas tenta reativar a mesma lógica política que aproximou o bolsonarismo do agronegócio: a ideia de que a expansão da produção depende de freios à política indigenista e à regulação ambiental.

MAIS DO MESMO – A passagem pela feira foi desenhada para sinalizar essa continuidade. Depois de chegar ao estado com uma camiseta com o slogan “o agro é top”, Flávio trocou de roupa e vestiu outra blusa com os dizeres “o futuro nasce do campo”. Circulou entre produtores, participou de encontros com lideranças e repetiu gestos associados à campanha de Bolsonaro, incluindo a realização de uma motociata.

O pré-candidato também apresentou um pacote de acenos ao setor. Interlocutores relatam que os pontos apresentados pelo senador estavam alinhados a um documento entregue por representantes de entidades do setor, uma espécie de “cartilha” com prioridades do agro — que vão desde crédito e segurança jurídica até posicionamentos sobre regulação ambiental e política fundiária.

O senador defendeu a retomada de linhas de crédito do Plano Safra com juros mais baixos, a facilitação do financiamento aos produtores e a redução de burocracias. Também afirmou que pretende atuar contra a moratória da soja, com a intenção de levar o tema ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica e ao Supremo Tribunal Federal.

CRÍTICA – No campo ambiental, Flávio voltou a criticar o que chamou de uso “ideológico” da pauta e disse que o papel do governo deve ser o de “não atrapalhar” o setor produtivo, outra formulação recorrente no discurso de Bolsonaro quando tratava da relação com o agro. A movimentação ocorre em um cenário mais competitivo do que o enfrentado pelo ex-presidente em 2018. O setor segue majoritariamente alinhado à direita, mas já não se organiza de forma automática em torno de um único nome.

A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) na corrida presidencial alterou esse equilíbrio. Com histórico ligado ao setor, tendo sido uma das principais vozes da bancada ruralista no Congresso, e interlocução consolidada com produtores, o ex-governador passou a disputar o mesmo eleitorado e, na avaliação de aliados de Flávio, freou uma adesão que antes era tratada como natural ao bolsonarismo.

PLEITO POR VICE –  Esses movimentos também dialogam com pressões internas do próprio agronegócio. Lideranças do setor têm defendido, nos bastidores, que a chapa da direita em 2026 inclua um vice com origem ou forte ligação com o segmento, como forma de garantir interlocução direta em temas sensíveis.

Nomes como o da ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) aparecem com frequência nesse debate, justamente por reunirem trânsito no setor e experiência na condução da política agrícola. No entanto, a senadora tem se mostrado relutante e já disse a Flávio que pretende disputar a presidência do Senado no próximo biênio.

Sem Tereza, outros nomes com trânsito no setor, como a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP), são citados. Também aparecem alternativas fora do agro, como a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL-CE) e a deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE), ligadas ao eleitorado conservador e evangélico, além do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que tem perfil mais voltado à gestão e ao empresariado.

Ataques de Trump ao Papa podem custar caro e ameaçar base eleitoral nos EUA

Vorcaro tenta barrar devassa bilionária nos EUA enquanto negocia delação no Brasil

Vorcaro recorre em ação na Justiça dos EUA

Dimitrius Dantas
O Globo

Enquanto negocia um acordo de colaboração premiada no Brasil, o banqueiro Daniel Vorcaro tenta barrar uma devassa nas suas finanças pessoais nos Estados Unidos.

Os advogados do dono do Banco Master apresentaram um recurso na Justiça dos Estados Unidos, na segunda-feira, na tentativa de reverter uma decisão que permitiu a intimação de empresas para entregarem seis anos de registros financeiros e comunicações de Vorcaro.

BLINDAGEM – O pedido ocorreu no processo apresentado pela liquidante do Master nos Estados Unidos. Esse tipo de ação ocorre porque, quando uma instituição financeira é liquidada, existe o risco de que pessoas envolvidas realizem ações de blindagem patrimonial, para que ativos como imóveis ou jatinhos não sejam atingidos — o objetivo é que esses bens fiquem disponíveis para ser usados no pagamento de credores. Com isso, a liquidante aciona a Justiça tanto nos Estados Unidos como no Brasil para rastrear algum patrimônio oculto, investigando se o dinheiro do banco foi usado para uso pessoal

No início do ano, o juiz responsável pelo caso autorizou 24 intimações judiciais emitidas pelos advogados da liquidante. As ordens exigem que diversas empresas entreguem seis anos de registros financeiros e possíveis comunicações de Vorcaro e outras 15 pessoas que tiveram bens bloqueados por autoridades no Brasil.

INTIMAÇÕES – s intimações incluem não apenas contas bancárias, mas também galerias de arte e lojas de artigos de luxo, como Christie’s, Gagosian e Sotheby’s. Ao autorizar as intimações, o juiz responsável pelo caso, Scott Grossman, autorizou o prosseguimento de 24 das 28 intimações pedidas pela liquidante. Entre os bens que foram alvos da intimação estão mansões no estado da Flórida e em Aspen, cinco aviões e quatro obras de arte, como pinturas de Pablo Picasso e Jean-Michel Basquiat. Quando as companhias se manifestarem, será possível saber se os bens pertencem ou não a Vorcaro.

O juiz entendeu que as leis brasileiras que determinam o bloqueio de bens de controladores de instituições justificam a busca de documentos por parte de liquidante, visando identificar ativos que possam estar ligados às dívidas do banco.

ARGUMENTOS – Os advogados de Vorcaro argumentaram que o tribunal americano não poderia liberar uma investigação contra o banqueiro na pessoa física, alegando que ele não é o devedor principal no processo de falência. Segundo a defesa, a liquidante não apresentou provas de sua conduta ilícita.

Segundo os advogados, caso as galerias de arte, bancos e marcas de luxo entreguem o histórico de compras e finanças de Vorcaro, esses documentos podem ser repassados à liquidante e utilizados nos processos no Brasil. No pedido, os advogados de Vorcaro solicitaram a paralisação imediata da coleta de dados até que uma instância superior julgue a validade das intimações. Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não irá se manifestar.

Fim da escala 6×1: Brasil retoma proposta de 40 horas discutida há quase 40 anos

Lula elogia PF por retirar credenciais de agente dos EUA em medida de reciprocidade

“Não sei que intensa magia teu corpo irradia, que me deixa louco assim, mulher…”

Astros em Revista: SADI CABRAL - COADJUVANTE DE OURO

Sadi Cabral, grande ator e compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O ator e compositor alagoano Sadi Sousa Leite Cabral (1906-1986) e seu parceiro Custódio Mesquita exaltam o amor de uma “Mulher”, tendo em vista a beleza mágica que o corpo dela irradia. Este clássico fox-canção foi gravado por Silvio Caldas, em 1940, pela RCA Victor.

MULHER
Custódio Mesquita e Sadi Cabral

Não sei que intensa magia, teu corpo irradia
Que me deixa louco assim, mulher
Não sei, teus olhos castanhos, profundos, estranhos
Que mistério ocultarão,  mulher
Não sei dizer
Mulher, só sei que sem alma
Roubaste-me a calma e aos teus pés eu fico a implorar
O teu amor tem um gosto amargo
e eu fico sempre a chorar nesta dor
Por teu amor, por teu amor, mulher

R$ 109 milhões sob suspeita: o elo entre o Banco Master e um suposto operador de propinas

Jurista cobra providências de Fachin contra exploração dos pobres em apostas “Bet”

Apostas esportivas “Bets” estão endividando os brasileiros

Carlos Newton

O advogado Luiz Nogueira, um dos mais renomados de São Paulo, enviou um pedido de providências ao presidente do Supremo Tribunal Federal, a respeito da proliferação de empresas de apostas digitais do tipo “Bet”, que estão explorando as camadas mais pobres da população brasileira.

Adverte o jurista que essa liberação do jogo está provocando o endividamento progressivo dos brasileiros, que chegam a utilizar recursos recebidos do Bolsa Família para fazer apostas. E assinala que, segundo dados oficiais, somente em 2024, as “Bets” tiraram de circulação cerca de R$ 200 bilhões, dinheiro que seria usado para gastos em supermercados, remédios, serviços públicos (água, luz) e pagamento de dívidas vencidas.

Leiam, na íntegra, esse protesto do advogado Luiz Nogueira. dirigido a Fachin.

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VÍCIO EM JOGO DE AZAR NÃO É DIVERSÃO, É EXTORSÃO
Luiz Nogueira

Respeitosamente, tomo a liberdade de encaminhar a V. EXA. documentos narrando os estratosféricos prejuízos que as “bets” autorizadas pelo governo federal estão causando a milhões de brasileiros, que já dominados pelo vício do jogo de azar, que não é diversão, estão adoecendo, empobrecendo e enriquecendo desconhecidos empresários controladores de sites estrangeiros que operam essa nova modalidade de apostas com quota fixa no Brasil.

Para cumprir exigências da Portaria SPA 1231/2024, do Ministério da Fazenda, as empresas brasileiras com participação minoritária, estão servindo de subsidiárias para legitimar o ingresso de grupos de cassinos e de sites de apostas da América, Europa e África no promissor mercado brasileiro. Para se habilitarem, de entrada, pagaram à Receita Federal, por cada outorga obtida, R$30.000.000,00 (trinta milhões de reais).

As informações ora juntadas sinalizam que ainda é tempo de conter o avanço dos promotores dessa jogatina desenfreada sobre os parcos recursos de milhões de brasileiros contagiados pela intensa, descontrolada, extravagante e caríssima propaganda veiculada pela televisão 24 horas por dia. 

Segundo dados oficiais, em 2024, as “bets” tiraram de circulação cerca de R$200 bilhões, dinheiro que seria usado para gastos em supermercados, remédios, serviços públicos (água, luz) e pagamento de dívidas vencidas.

No aguardo de possíveis providências saneadoras por parte do Poder Judiciário, aproveito o ensejo para saudar V. EXA. pela assunção no cargo de presidente do STF.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O  advogado Luiz Nogueira honra a profissão e jamais se omite. Sua mensagem ao Supremo é claríssima, porque ainda há tempo de reverter essa situação. Se faturaram R$ 200 bilhões em 2024, no ano passado devem ter recebido 500 milhões, pelo menos. As apostas “Bet” são um crime contra a economia popular, e as autoridades não podem continuar inertes. (C.N.)

Escolha no PL para o Senado em São Paulo passa por Eduardo Bolsonaro

Entre guerras, delações e eleições: o tabuleiro instável que redefine poder no Brasil e no mundo

Lula tem buscado explorar o contraste com Trump

Pedro do Coutto

Poucas horas antes da entrada em vigor de uma trégua entre Estados Unidos e Irã, o presidente Donald Trump fez o que tem sido uma marca recorrente de sua política externa: lançou dúvidas sobre a própria estabilidade do acordo que anunciava. Ao sinalizar que o cessar-fogo poderia durar “por tempo indeterminado”, mas manter o bloqueio naval em um ponto sensível como o Estreito de Ormuz, Trump produziu mais do que uma ambiguidade — expôs uma estratégia.

Essa lógica, já observada por analistas, segue um padrão: negociar sob pressão máxima, manter instrumentos de coerção ativos e transferir ao adversário o custo político de qualquer ruptura. O problema é que esse tipo de condução amplia a imprevisibilidade global e, sobretudo, tensiona a opinião pública doméstica.

DESGASTE – Nos Estados Unidos, pesquisas recentes indicam desgaste na popularidade de Trump em seu segundo mandato, especialmente quando o tema é política externa e risco de novos conflitos.

A memória histórica pesa. A evocação da Guerra do Vietnã não é retórica vazia: ela reflete o temor profundo de uma sociedade que já pagou alto preço humano e político por intervenções prolongadas. Famílias americanas, hoje, mostram menor disposição para apoiar aventuras militares no Oriente Médio, sobretudo diante de um cenário econômico ainda pressionado por inflação e custos energéticos.

Do outro lado, a retórica também escala. Órgãos ligados à Guarda Revolucionária Iraniana rejeitam a narrativa de concessão e chegam a declarar vitória simbólica sobre Washington. Esse jogo de versões — típico de conflitos assimétricos — reforça a dificuldade de consolidar qualquer trégua duradoura. A diplomacia, nesse contexto, fica espremida entre discursos nacionalistas e cálculos estratégicos de curto prazo.

REFLEXOS – Mas os reflexos desse tabuleiro não param nas fronteiras do Oriente Médio. No Brasil, o cenário político começa a absorver — e instrumentalizar — essa tensão internacional. O presidente Lula da Silva tem buscado explorar o contraste com Trump, apostando em um discurso de soberania e estabilidade. Já no campo da oposição, nomes como Flávio Bolsonaro surgem como contraponto, alimentando uma polarização que, longe de arrefecer, se reinventa.

Nesse ambiente, figuras que tentam ocupar uma “terceira via” enfrentam o desafio clássico da política brasileira: existir entre dois polos altamente mobilizados. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ensaia críticas à polarização enquanto mantém um pé no eleitorado conservador. Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, se posiciona de forma mais direta, admitindo disputar espaço com Bolsonaro para chegar ao segundo turno contra Lula.

CONTORNOS DELICADOS – Se a disputa eleitoral já seria complexa por si só, ela ganha contornos ainda mais delicados com a sobreposição de crises institucionais e econômicas. O caso envolvendo o Banco Regional de Brasília e o Banco Master é um exemplo claro. A possibilidade de criação de mecanismos públicos para absorver ativos de baixa qualidade levanta questionamentos clássicos sobre risco moral, uso de recursos públicos e a fronteira entre socorro financeiro e favorecimento indevido.

O episódio ecoa padrões já estudados por organismos como o FMI e o Banco Mundial em crises bancárias: quando instituições públicas assumem prejuízos privados, a conta raramente é neutra — ela se traduz em perda de confiança e desgaste político. E, no Brasil, onde escândalos financeiros frequentemente se entrelaçam com disputas de poder, o impacto tende a ser ainda maior.

CONVERGÊNCIA – O que se desenha, portanto, é um cenário de convergência de crises. No plano internacional, uma trégua frágil entre potências com interesses conflitantes. No plano doméstico, uma eleição antecipadamente tensionada, marcada por polarização, ambições alternativas e novos focos de desgaste institucional.

No centro de tudo, permanece uma constante: a política como gestão de incertezas. Trump joga com a imprevisibilidade como instrumento de poder. No Brasil, lideranças tentam traduzir esse caos externo em capital político interno. Resta saber até que ponto o eleitor — no Brasil e nos Estados Unidos — continuará disposto a aceitar esse nível de instabilidade como parte do jogo. A resposta a essa pergunta pode definir não apenas eleições, mas o próprio rumo das democracias nos próximos anos.

O risco não é apenas fiscal, porque Flávio Bolsonaro é uma ameaça à democracia

O dever de reciprocidade: a necessária resposta do Brasil no caso Ramagem

Fraude em concurso público fez Messias ser “nomeado” como procurador do BC

Quem é Jorge Messias, advogado geral da União do novo governo Lula - Estadão

Aos 25 anos, Messias passou em dois concursos seguidos

Carlos Newton

No segundo governo de Lula da Silva, o Brasil vivia uma fase de euforia e êxtase. O crescimento da economia tinha sido impulsionado pela gestão de Carlos Lessa e Darc Costa no BNDES, que fizeram o PIB chegar a 4% em 2006 e subir para 6,1% em 2007. O espantoso desenvolvimento era impulsionado pelo setor de serviços (6,1%), com a indústria aumentando (5,3%) e agropecuária (4,8%).

Na revolucionária gestão de Lessa como presidente e Darc como vice, o BNDES aumentou fortemente as linhas de financiamento a baixos juros e lançou seu cartão de crédito, eliminando toda a burocracia no apoio a micros, pequenas e médias empresas.

Foi um espetáculo de crescimento, mas durou poucos anos, porque o presidente Lula, a pedido do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, decidiu demitir Carlos Lessa por ter criticado a política econômica, e Darc Costa saiu junto com ele.

NOVA CHINA? – À época, o governo do PT pensou que o Brasil iria se tornar uma nova China, mas o crescimento do PIB acabou sendo apenas “um voo de galinha”, como Lessa previu ao entregar o cargo a Guido Mantega, considerado por ele “um brasileiro sem B maiúsculo”, conforme o economista declarou em sua concorrida entrevista ao deixar o BNDES. 

Em 2007, Mantega já tinha sido promovido a ministro da Fazenda, estava embriagado pelo poder e a economia ainda continuava crescendo, pois ele mantivera no BNDES as diretrizes implantadas por Lessa e Darc.

Em sua visão distorcida, Mantega julgava ser o autor de um novo milagre brasileiro, mas sua alegria durou pouco e ele acabou tendo de cometer crimes de responsabilidade, ao maquiar os números da economia e dar as pedaladas fiscais que causariam o impeachment de Dilma Rousseff.

ESQUEMA PETISTA – Desde o início do primeiro governo Lula, o PT seguia uma orientação do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, para aumentar o número de militantes petistas na administração federal, copiando o exemplo do projeto tucano do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, executado por seu superministro Sérgio Motta, com objetivo de ficar 20 anos no poder.

Até aí, nada de novo – todo governante tem essas aspirações de se perpetuar. A diferença é que, na gestão do PT, os ministros não tiveram cuidado em seguir as leis e manter as aparências. Saíram promovendo sucessivos concursos públicos, que não cobravam aos inscritos as exigências legais e ofereciam facilidades aos concorrentes ligados ao partido.

Como as fraudes nos concursos não eram descobertas, com o passar do tempo seus organizadores passaram a agir com uma displicência impressionante, pois tinham certeza da impunidade e faziam o que bem entendiam.

O EXEMPLO MESSIAS – Na importantíssima área da Fazenda, principal foco do aparelhamento petista, o esquema foi armado na Escola de Administração Fazendária (ESAF) e na Procuradoria-Geral do Banco Central, que organizavam a admissão de novos servidores.

E foi num desses concursos nada rigorosos, para procurador do Banco Central,  que o jovem e inexperiente advogado Jorge Messias, formado em 2003, fez inscrição em 2005, sem jamais ter trabalhado como advogado e sem ter os dois anos obrigatórios de experiência forense, porque o complacente Edital da Procuradoria-Geral do BC não fez essa exigência.

Messias foi nomeado em 14 de junho de 2006, como quarto colocado no concurso. Porém, um grande mistério persiste. Como ele, morando e trabalhando em Recife, poderia ter exibido no concurso a inscrição na Ordem dos Advogados de Pernambuco, se nunca foi registrado na OAB de lá?

“NENHUM RESULTADO” – A busca de seu nome no site da OAB em Recife dá a seguinte resposta: “Nenhum resultado encontrado para Jorge Rodrigo Araujo Messias”. Embora legalmente possa ter inscrição em vários Estados, ele está registrado apenas na OAB do DF, sob nº 31.448, mas na época do concurso nem morava em Brasília e essa numeração indica inscrição feita em 2010 ou 2011, vários anos após ser nomeado Procurador do Banco Central e depois Procurador da Fazenda Nacional.

Tudo é nebuloso na carreira do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal, especialmente na sua segunda nomeação, para Procurador da Fazenda Nacional, através de uma portaria conjunta dos ministros Guido Mantega (Fazenda) e Dias Toffoli (Advocacia-Geral da União).

Outra contradição: na lista oficial de procuradores do Ministério da Fazenda, por exemplo, seu nome aparece como se tivesse sido nomeado e assumido em 2006, embora isso somente tenha acontecido em 21 de novembro de 2007, através da contraditória portaria MF/AGU, assinada pelos então ministros Guido Mantega (Fazenda) e  Dias Toffoli (Advocacia-Geral da União).

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P.S. –
Como o PT promovia concursos públicos sucessivos para os mesmos cargos, a Escola de Administração Fazendária (ESAF) se transformou numa máquina de fabricar servidores, os editais eram manipulados para empregar os petistas, mas ninguém percebia. Havia concursos de Procurador da Fazenda Nacional praticamente todos os anos. Para se imaginar o nível dos absurdos,
0 concurso concluído em 2007, aberto para 250 vagas, acabou espantosamente ampliado, pois 942 candidatos foram considerados aprovados e nomeados. E assim o quadro de pessoal do governo foi aumentando de uma maneira absurda, sem que ninguém protestasse. Amanhã voltamos ao assunto, com mais detalhes. (C.N)

CCJ remarca sabatina de Jorge Messias para 29 de abril

Fantasma de Carla Zambelli assombra campanha de Flávio Bolsonaro

Entorno teme questões de aliados que desgatem Flávio

Caio Junqueira
CNN

O bom momento nas pesquisas eleitorais fazem o entorno do pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) temer mais que apareça uma “nova Zambelli” na campanha eleitoral do que uma vitória de Lula (PT).

O receio, que já foi dito ao próprio Flávio, é que um apoiador de sua campanha cometa algum ato irracional que desgaste a campanha e tenha potencial de derrotá-lo.

RACHADINHA – A capacidade de gerar danos é vista até como maior do que os ataques que se esperam ao processo de rachadinha de Flávio e sua proximidade com milicianos no Rio de Janeiro. O exemplo mais evidente citado nas conversas é o de Carla Zambelli na véspera do segundo turno em 2022.

A então deputada federal se envolveu em uma discussão de bar e empunhou um revólver na rua contra um crítico do bolsonarismo. Tudo foi filmado e circulou nas redes sociais nas horas antes do round final da disputa. Até hoje os bolsonaristas atribuem a esse episódio a perda de apoiadores de centro na reta final, que acabaram levando Lula à vitória.

TIROS CONTRA POLICIAIS – Um outro episódio também tem sido mencionado nas conversas: a reação de Roberto Jefferson a uma tentativa de prisão com tiros contra policiais. Mas o temor não se dá apenas com personagens da política, mas também com cidadãos comuns, bolsonaristas mais radicalizados que possam gerar fatos políticos negativos.

Quem está próximo da campanha lembra que a eleição deste ano será decidida pelo centro novamente e qualquer erro pode ser fatal.

Carluxo pressiona aliados por apoio a Flávio e amplia crise no PL

Indecisão de Daniel Vorcaro pode provocar efeito dominó de delações em Brasília

Charge do Aroeira (Metrópoles)

Eliane Cantanhêde
Estadão

Quando se olha a foto de Paulo Henrique Costa, a pergunta que vem à cabeça é imediata: como um homem de 49 anos, com mulher e filhos, bem-sucedido, que chegou a presidente do BRB, o banco estatal de Brasília, joga fora tudo isso, honra, biografia, liberdade, a própria vida e o futuro da família, por dinheiro?

O onipresente Daniel Vorcaro, que agiu desde o início do Master comprando poderosos, sabia que “nem todo mundo tem seu preço” e farejava quem era mais suscetível a vender a própria honra. A de Costa, por exemplo, custou a ele seis imóveis, no valor extraordinário de R$ 146,6 milhões, mas é bem provável que já estivesse à venda quando assumiu o BRB, em janeiro de 2019, por escolha pessoal do então governador Ibaneis Rocha.

FINANCIAMENTO – Há alguns anos, os guardanapos de um restaurante nos Jardins, em São Paulo, me chamaram a atenção, porque eram uma propaganda do BRB. Por que o banco estatal de Brasília financiava restaurantes paulistanos? Se a PGR, a PF e a Polícia Civil do DF ampliarem as investigações, ainda vem muita coisa contra o BRB de Ibaneis e Costa por aí.

Sim, Vorcaro tinha “faro” para identificar e ir direto a quem era suscetível a vender a própria honra e até calculava os valores caso a caso, R$ 130 milhões para cá, R$ 146 milhões para lá, resorts, festanças e garotas de programa, em troca, por exemplo, dos R$ 12,2 bilhões que o BRB despejou em carteiras fraudulentas do Master.

“A cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir (…), dou muito valor ao alinhamento pessoal e acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil”, desmanchou-se Costa em mensagens para Vorcaro, em que deixou evidente que Ibaneis sabia de tudo: “O governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas”.

ALVOS FÁCEIS – Para embolar governadores, presidentes e diretores de bancos públicos, ministros do STF, políticos à esquerda e à direita, fundos de pensão, agências e blogs, Vorcaro não contava “só” com o Sicário, cangaceiro da quadrilha, mas também com Augusto Lima, ex-sócio muito bem relacionado, que “caçava alvos fáceis”, e Daniel Lopes Monteiro, advogado e engenhoso operador do esquema.

Com a prisão de Paulo Henrique Costa e de Daniel Monteiro nesta quinta-feira, 16, o tempo corre contra Vorcaro, a quem só resta uma saída, a delação premiada. Se Lima, Costa e Monteiro se anteciparem, citando nomes, detalhes e provas reluzentes, o que sobra para o próprio Vorcaro? De delator, ele passará a delatado. Mesmo com tudo o que já sabemos, falta muito ainda a explodir.

STF mergulha em crise de credibilidade e divide seus próprios ministros