Marina Silva alerta para ofensiva ambiental no Congresso sob eventual governo Flávio

Acordão? Bolsonaro solto; Flávio inocente no Master; Moraes e Lulinha “esquecidos”?

 Ilustração: Kleber Sales/Estadão

Charge do Kleber Sales (Estadão)

Eliane Cantanhêde
Estadão

A guerra continua no Supremo Tribunal Federal e os sinais trocados dados pelo ministro Alexandre de Moraes geraram uma dúvida nos ares de Brasília: há um acordão à vista para salvar Moraes, de um lado, e Jair e Flávio Bolsonaro, do outro? Moraes precisa mais dos Bolsonaro do que eles dele, mas convém a todos deixar o caso Master para lá.

Dois movimentos crescem juntos, um para livrar Jair da cadeia e deixar para lá os R$ 134 milhões que Flávio pediu, nada mais, nada menos, para Daniel Vorcaro, e outro, no sentido oposto, para facilitar impeachment de inistros do Supremo no Senado, algo feito de encomenda para Moraes. O acordo seria para fortalecer o movimento pró-Bolsonaros e enfraquecer o anti-Moraes.

INTERESSES COMUNS – Desde o julgamento do golpe no Supremo, os dois lados são inimigos, mas agora têm, vamos dizer assim, “interesses comuns” que vêm sendo discutidos por amigos e interlocutores, na velha base dos casamentos políticos em Brasília: você me salva, eu te salvo e seremos todos felizes para sempre.

Que tal diminuir os R$ 130 milhões do contrato que a família de Moraes fez com Vorcaro dos R$ 134 milhões que Flávio pediu para o filme do pai? Praticamente zera a conta e fica tudo como está, com Jair Bolsonaro livre, leve e solto, Flávio dispensado de explicar “Dark Horse” (de quebra, endereço, conta e contador ligados ao escândalo do INSS) e Moraes tendo chance de sair de fininho, sem processo.

A história se repete “como tragédia ou como farsa” e, se tudo isso estiver de fato rolando nos corredores e gabinetes e der resultado, será impossível não lembrar que Lula foi condenado e preso por 580 dias, mas se livrou e voltou a subir a rampa do Planalto por uma manobra do próprio STF. 

TEMER PASSA PANINHO – E Michel Temer nisso tudo? Tratado como inimigo do PT desde que saiu da vice para a Presidência com o impeachment de Dilma Rousseff, foi ele quem nomeou Moraes para o Supremo e agora apoiou rapidamente Flávio no segundo turno.

Logo, tem como fazer uma ponte entre Flávio e Moraes. Aliás, como foi, de fato, a conversa de Gilmar Mendes com Flávio?

Como todo “xerife”, Moraes foi rápido no gatilho, mas não para atirar no bolsonarismo, ao contrário. Mal terminou o primeiro turno, com Flávio à frente do presidente Lula, ele mandou a Débora do Batom, condenada a 14 anos por violar a estátua da Justiça no 8/1, para a prisão domiciliar. E não ficou por aí.

E EDUARDO? – Ato contínuo, mandou arquivar as investigações contra os bolsonaristas Marcos Do Val, senador, e Alan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, blogueiros, que respondiam por obstrução de Justiça e incitação ao crime. Por fim, autorizou a visita de Flávio ao pai. Nada demais, mas, nesses tempos de bang bang institucional, a sequência e a oportunidade deixam uma pulga atrás da orelha.

Tudo isso foi na semana do primeiro turno, mas ela fechou com uma reviravolta. Após acenar com decisões simpáticas a Flávio e deixar suspeitas de acordão no ar, Moraes mandou emitir mandado de prisão e suspender os passaportes de Eduardo Bolsonaro.

Ele teve de recuar porque suas intenções estavam ficando óbvias demais, ou a tentativa de acordão deu para trás? Pode até ser, porque Moraes está numa situação muito mais frágil e, do outro lado, tudo já caminha para soltar Jair Bolsonaro, inclusive no Supremo, onde pelo menos quatro ministros já trabalham nisso.

JAIR E FLÁVIO – Quanto a Flávio, basta garantir a vitória no segundo turno. Durante a vigência do mandato, segundo a Constituição, presidentes não podem ser responsabilizados por atos estranhos ao exercício de suas funções.

Jair e Flávio dependem da vitória. Moraes precisa de muito mais. Dê Flávio ou Lula, vai enfrentar um Senado com sangue na boca contra ele e um Supremo em chamas, com o esforço de Gilmar Mendes e Flávio Dino para embolar tudo, investigar os outros três ou quatro ministros envolvidos com Master e fazer valer a regra: ou se salvam todos (inclusive Moraes), ou não se salva ninguém.

E se Lula vencer? A história será outra, mas o bolsonarismo estará forte no Congreso, a crise vai se manter no Supremo e os acordões também vão correr soltos, para um lado e para o outro. Pelo andar da carruagem, nem Jair Bolsonaro vai continuar preso, nem Flávio vai responder por Master e INSS, nem Moraes se tornará exemplo de que “a lei vale para todos”. Lulinha? Já está no limbo.

Lula leva multidão às ruas e tenta reverter desvantagem para Flávio

Manifestação a favor de Lula ocupou 12 quarteirões na Paulista

Bruno Ribeiro
Mariana Grasso
Bruno Lucca
Folha

Em desvantagem nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Lula (PT) reuniu milhares de apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (11), e dirigiu sua fala aos jovens.

No mesmo dia, Flávio Bolsonaro (PL) juntou aliados também na capital paulista para pedir mobilização no segundo turno, falou em evitar um clima de “já ganhou” e cobrou agilidade da Justiça Eleitoral contra o que chamou de mentiras da campanha petista.

MARCHA PELA DEMOCRACIA – Convocada por estudantes, fandoms, movimentos sociais e partidos de esquerda, a Marcha pela Democracia buscou reverter o desânimo entre apoiadores de Lula após Flávio terminar o primeiro turno à frente do petista.

Além da capital paulista, houve atos em 76 cidades pelo país, entre manifestações, caminhadas, carreatas, bandeiraços e panfletagens, segundo a a plataforma Comitê Popular de Luta, que reúne agendas de atividades da militância e de apoiadores da campanha.

Em São Paulo, a Avenida Paulista chegou a ficar ocupada ao longo de 12 quarteirões, na maior parte de sua extensão de 2,8 km, uma multidão que a esquerda não conseguia agrupar no local desde protestos contra o governo Jair Bolsonaro (PL).

CONTAGEM – Não houve, porém, estimativa oficial de público. O Monitor do Debate Político no Meio Digital (USP/Cebrap) e a More in Common Brasil disseram que não fizeram contagem porque a campanha não autorizou o sobrevoo com drone. A Polícia Militar não respondeu se realizou levantamento.

O PT tenta transformar a presença nas ruas em votos. A estratégia inclui reduzir a abstenção e incentivar militantes a convencer eleitores que apoiaram outros candidatos no primeiro turno. No primeiro Datafolha após a definição do confronto, Flávio apareceu com 52% dos votos válidos, ante 48% de Lula.

PARTICIPAÇÃO DOS JOVENS – Em seu discurso, o presidente reconheceu a dificuldade de se conectar à juventude e defendeu que os jovens participem das decisões políticas. “A juventude tem que ser ouvida. Não basta fazer as coisas de cima para baixo”, afirmou.

Lula disse ter aprendido uma lição com a manifestação e pediu aos presentes que assumam responsabilidades na vida política. Também prometeu uma revolução tecnológica caso seja reeleito.

O presidente seguiu: “Ou vocês participam da vida política ou ela não tem conserto. Vocês têm que assumir a responsabilidade enquanto são jovens, enquanto tem disponibilidade de ir à luta. Esse país não pode perder a democracia, por pior que ela seja”.

DESCENDENTES DE NORDESTINOS – No evento, Lula apresentou governadores eleitos e reeleitos do Nordeste (Rafael Fontenelle, do Piauí, Elmano de Freitas, do Ceará, e Jerônimo Freitas, da Bahia), e lembrou ao público da Paulista que muitos dos eleitores do estado são descendentes de nordestinos.

Em Brasília, apoiadores ocuparam parte do Eixão Norte. No Rio de Janeiro, houve manifestações na orla de Copacabana. No Recife, milhares de manifestantes se concentraram na região do Parque 13 de Maio e seguiram em caminhada pelo centro em direção ao Marco Zero.

Fora das capitais, Niterói, na região metropolitana do Rio, teve uma das principais mobilizações. Em Salvador, atos ocorreram em Piatã, Campo Grande e Barra. Em Goiânia, apoiadores partiram da Praça Universitária e caminharam até a Praça Cívica.

BANDEIRAÇO – Em Belo Horizonte, apoiadores fizeram um bandeiraço na rua dos Carijós e depois caminharam pela Feira Hippie, na Avenida Afonso Pena. Em Manaus, o ato “Vira Vira Lula” reuniu apoiadores no Largo de São Sebastião e foi seguido por uma carreata pelo centro da cidade. Também houve atos em Vitória, Aracaju e Florianópolis.

Também foram registrados atos em cidades como Campinas e Juiz de Fora, onde apoiadores fizeram passeatas por regiões centrais. O apelo à militância ocorre depois de o presidente admitir problemas na organização da campanha de primeiro turno. Na quarta-feira (7), ele disse a aliados que o esforço eleitoral foi o menos organizado de suas disputas presidenciais desde 1989 e que poderia ter feito mais.

O Metrô chegou a fechar temporariamente a estação Trianon-Masp, da linha 2-verde, devido à alta concentração de pessoas no sistema. Em nota, disse ter acionado seu plano de controle de multidão e ampliado a oferta de trens em outras linhas. Acessos de ao menos duas estações do metrô chegaram a ser alvo de vandalismo —com pichações, grades e estruturas de acesso quebradas.

ALMOÇO – Enquanto o petista tentava impulsionar apoiadores na Paulista, Flávio reuniu aliados num almoço no centro de São Paulo. Participaram Tarcísio, o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), além de prefeitos e vereadores da região metropolitana. Também estavam presentes o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado (PL), e o senador eleito Guilherme Derrite (PP).

No almoço, Tarcísio e Nunes também confirmaram uma manifestação pró-Flávio na Avenida Paulista para o próximo domingo (18). Segundo o governador, Flávio e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) participarão do ato. Nunes negou que a convocação tenha o objetivo de disputar público com a marcha de Lula.

O candidato do PL acusou o governo Lula de fazer da mentira uma estratégia de campanha e pediu resposta mais rápida da Justiça Eleitoral à desinformação que atribui aos adversários. Flávio negou que pretenda extinguir programas sociais ou acabar com o reajuste do salário mínimo, como afirmam seus oponentes.

CANAL DE DIVULGAÇÃO – “Eu espero de verdade que a Justiça Eleitoral continue, seja mais ágil inclusive. Porque os caras criaram até um canal de divulgação de mentiras em massa. E como foi dito, algumas pessoas acreditam nisso: ‘O Flávio vai acabar com a luz do sol’, e tem gente que acredita”, afirmou.

“E hoje o principal instrumento que nós temos é a comparação. De um lado, o governo mentiroso. Gente, é uma coisa que causa uma revolta, a quantidade de mentiras que eles estão inventando. E é de propósito, a estratégia de campanha é mentira”, disse.

A disputa sobre desinformação chegou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) neste domingo. A pedido da campanha de Flávio, o presidente da corte, Kassio Nunes Marques, mandou censurar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG) e seguido por mais de 3 milhões.

SEM PROVAS – Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, restabeleceu o canal por considerar insuficientes as provas para suspendê-lo integralmente. Lula criticou a primeira decisão, e a campanha de Flávio acusou Cueva de complacência com notícias falsas.

Flávio afirmou aos aliados que a disputa está favorável, mas pediu que evitem o clima de “já ganhou”. “Não tem nada resolvido”, disse. Ele cobrou esforço para levar novamente às urnas quem votou nele no primeiro turno e conquistar outros eleitores, numa mensagem semelhante à de Lula sobre a necessidade de fazer a militância agir fora dos palanques.

O candidato fez um apelo especial aos vereadores, a quem chamou de seus melhores cabos eleitorais pelo contato cotidiano com os municípios. Tarcísio também pediu empenho nas duas semanas finais de campanha para buscar indecisos e reduzir a abstenção. Nunes cobrou a retomada dos comitês locais, a distribuição de adesivos e a realização de bandeiraços.

Menos candidatos, mais eleitos: militares e policiais ampliam presença na política

Reeleição de nomes mostra força do segmento

Fabio Victor
Marina Pinhoni
Folha

Apesar de o número de candidatos que se declararam egressos das Forças Armadas e das forças de segurança, como as polícias Militar e Civil, ter diminuído nesta eleição em relação à de 2022 (em termos absolutos e em proporção ao total de concorrentes), a quantidade de eleitos nesse segmento aumentou.

Segundo levantamento da Folha com base em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 99 candidatos militares ou policiais tiveram êxito nas urnas (8% dos que concorriam nesse universo), ante 94 em 2022 (4,9% do total).

MILITARIZAÇÃO – O número de eleitos agora é menor do que o de 2018, quando a onda bolsonarista provocou uma forte militarização de candidaturas: naquele ano, 118 militares e policiais conseguiram se eleger. Mas a proporção em relação ao total de candidatos do segmento foi a mesma da atual eleição, 8%, recorde das eleições recentes, o que indica que a militarização da política segue em alta.

Neste ano, na primeira eleição depois da condenação de integrantes das Forças Armadas e de forças de segurança por tentativa de golpe, 1.233 candidatos declararam à Justiça Eleitoral serem oriundos dessas corporações ou optaram por usar na urna alguma patente ou referência a essas instituições (5,9% do total de candidatos).

O número de candidatos diminuiu 36,4% em relação à disputa de 2022, quando concorreram 1.924 candidatos nesse estrato, ou 6,6% do total. A campanha de quatro anos atrás foi o ápice de uma enxurrada de candidaturas de militares e policiais, tendência iniciada em 2018, com a vitória do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro e a consolidação do bolsonarismo no país.

CRITÉRIOS – São os próprios candidatos que declaram sua ocupação. Para chegar ao resultado do levantamento foram considerados dois critérios: quem declarou as profissões de policial (civil e militar), bombeiro militar, militar reformado e integrante das Forças Armadas. Pelo nome de urna foram filtradas todas as patentes e ocupações relacionadas a esse universo.

O número de candidatos militares e policiais pode ser maior do que o registrado pelo levantamento porque alguns optam por não usar a patente no nome de urna nem declaram ocupação militar, como foi o caso dos dois governadores eleitos egressos do Exército, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito em São Paulo, e Luciano Zucco (PL), vitorioso no Rio Grande do Sul. É a mesma situação de Guilherme Derrite, capitão da reserva da PM-SP.

OCUPAÇÃO – À Justiça Eleitoral, Tarcísio informou ser governador, e Zucco e Derrite, deputados. Tarcísio entrou para a política em 2018, ao ser nomeado ministro da Infraestrutura por Jair Bolsonaro. Tinha largado a farda para ingressar no serviço público dez anos antes, em 2008. Quando concorreu pela primeira vez ao governo, em 2022, não usou a patente.

O caso de Zucco e de Derrite é diferente: nas duas primeiras eleições que disputaram, em 2018 e 2022, ambos lançaram mão de suas patentes (o primeiro como “Tenente-coronel Zucco”, o segundo como “Capitão Derrite”).

CAMPEÃO DE VOTOS – Entre os que usaram a patente ou identificação policial no nome de urna ou declararam essas ocupações ao TSE, o campeão de votos nesta eleição foi o capitão da reserva do Exército Renan Contar, que se apresenta nas campanhas como Capitão Contar (PL), eleito senador em Mato Grosso do Sul com 856 mil votos.

Em segundo aparece o delegado da Polícia Civil Lenildo Sertão, o Delegado Caveira (PL), deputado federal mais votado do Pará, com 414,9 mil votos. E em terceiro outro delegado da Polícia Civil, Alessandro Vieira (MDB), ou Delegado Vieira nas urnas, reeleito senador em Sergipe com 399,7 mil votos.

PAZUELLO – Dos candidatos egressos das Forças Armadas, General Pazuello (PL-RJ), ministro da Saúde no governo Bolsonaro, se reelegeu deputado federal, com 146,1 mil votos; Major Vitor Hugo (PL-GO), líder do governo Bolsonaro na Câmara em 2019 e que estava como vereador em Goiânia, voltará à Casa –recebeu 104,4 mil votos.

No recorte dos policiais militares –os mais numerosos tanto entre os candidatos quanto entre os eleitos–, os mais votados foram Israel Nantes Santos, o Sargento Nantes (PP-SP), sétimo para deputado federal em SP, com 333,4 mil votos, e Gilberto Gomes da Silva, o Cabo Gilberto Silva (PL-PB), deputado federal mais votado na Paraíba, com 267,1 mil votos.

MILITARES E POLICIAIS – O PL foi o partido que mais elegeu militares ou policiais, 51 entre 195 candidatos (26,2%). Em segundo está o PP: 11 dos 47 postulantes tiveram êxito (23,4%). O Republicanos se destacou negativamente no segmento: dos 121 candidatos militares ou policiais do partido, apenas 8 se elegeram (6,6%).

Dos 29 condenados pelo STF no processo principal da trama golpista, 21 são militares das Forças Armadas (dois deles tiveram as penas substituídas por multas), e a maioria dos restantes era oriunda das polícias Federal, Civil e Rodoviária Federal –isso sem contar os cinco coronéis da cúpula da PM-DF (Polícia Militar do Distrito Federal) condenados e presos por omissão nos ataques de 8 de Janeiro.

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Deputada do PL critica políticas sociais, mas mãe recebe benefício assistencial

Deputada eleita do PL tem mãe beneficiária do BPC

Lauro Jardim
O Globo

Crítica de políticas sociais, especialmente voltadas a mulheres e minorias, a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL-SP) tem a própria mãe como beneficiária de um programa assistencial do INSS.

A artesã Débora Campopiano recebe ao menos desde 2019 o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo mensal a idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência que atendam aos critérios legais.

CRITÉRIO – Aos 59 anos, Débora não se enquadra no critério etário e, portanto, só poderia receber o benefício na modalidade destinada a pessoas com deficiência. Somado a isso, ela mantém um perfil no Instagram com mais de 28 mil seguidores, no qual divulga cursos de confecção de bonecas artesanais e de pano. Em uma publicação de 2025, convidou seguidores a adquirir um workshop, com possibilidade de parcelamento em até quatro vezes sem juros.

Em outra publicação, de agosto de 2023, a própria Eduarda aparece no perfil da mãe convidando alunas para um curso inicialmente gratuito, que daria acesso posterior a outras ofertas de aprendizado. Outro post, também de 2023, anuncia um dos cursos por R$ 67 à vista ou em 12 parcelas de R$ 6,82.

Procurada, a assessoria de Eduarda não informou se a deputada mora com a mãe. A informação é relevante porque a renda familiar é um dos critérios para a concessão do BPC. O benefício exige, em regra, renda mensal por pessoa da família de até um quarto do salário mínimo (hoje, cerca de R$ 405), além de inscrição no Cadastro Único (CadÚnico).

ELEGIBILIDADE – Caso Eduarda integre o grupo familiar considerado para o cálculo, seus rendimentos podem afetar a elegibilidade da mãe. Isso porque dados da Câmara Municipal de Praia Grande indicam que Eduarda já trabalhava como comentarista da Jovem Pan ao menos desde 2022. Em 2025, com 21 anos, ao assumir o mandato de vereadora, passou a receber salário superior a R$ 10 mil.

A renda obtida com a venda de cursos também pode ser relevante para a análise dos requisitos do benefício. A assessoria não esclareceu se Débora aufere rendimentos com essa atividade nem se eventuais ganhos pessoais e familiares foram informados ao INSS.

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Lula e Bolsonaro tornaram-se dois totens seguidos por bandos “neolíticos furiosos”

Iotti: protestos pró e contra Lula | Pioneiro

Charge do Iotti (Gaúcha Zero Hora)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Lula e Bolsonaro tornaram-se dois totens
que são seguidos por “neolíticos furiosos”

Há muito tempo opto por pensar os assuntos humanos a partir de uma visão de longa duração — conceito do historiador Fernand Braudel. Nessa abordagem metodológica, os eventos pontuais são vistos numa linha do tempo bem mais ampla do que décadas ou séculos. É deste ponto de vista que vejo a miséria da corrupção sistêmica do Estado brasileiro, incluindo aí o finado Supremo Tribunal Federal.

Devo dizer que, quando me refiro à corrupção sistêmica miserável do Estado brasileiro, incluindo aí o finado STF, refiro-me tanto à corrupção de caráter mediada pelo dinheiro quanto à corrupção de caráter das instituições mediada por adesão ideológica ou partidária.

Neste segundo caso, o drama se torna ainda mais agudo quando atinge o STF e o Judiciário em geral, o Ministério Público — neste tópico específico, ver a decisão do MPF de não investigar Paulo Gonet da PGR —, e os agentes do pensamento público nos veículos profissionais de mídia, torcendo abertamente para um dos candidatos à Presidência da República.

TRÊS CATEGORIAS – Sobre este último caso, acho a tipologia do filósofo americano Jason Brennan bastante didática, posta em seu provocativo “Against Democracy”. Os eleitores estariam divididos em três categorias: os “hobbits”, os “hooligans” e os “vulcanos” — como o Spock do seriado “Jornada nas Estrelas”.

Os primeiros, o povo em geral, correndo de um lado para o outro, pagando boletos e com escassos recursos de economia da atenção para gastar com política. Os segundos, disputando alucinadamente os primeiros, a maioria esmagadora da população, a fim de levá-los a votar nos seus candidatos — os “hooligans” são os militantes enfurecidos e polarizados.

E, finalmente, os terceiros, munidos de um repertório muito maior sobre política e suas contradições constantes, céticos em consequência desta mesma experiência com a nulidade das esperanças políticas.

FALSOS VULCANO – Pois bem, suspeito fortemente que os agentes do pensamento público deveriam ser todos “vulcanos”, mas, infelizmente, a esmagadora maioria é constituída por “hooligans” disfarçados.

Proponho um breve diálogo com o filósofo americano Francis Fukuyama. No seu “Origens of Political Order – From Prehuman Times to French Revolution”, o autor afirma que a tendência do comportamento político, tanto dos líderes quanto da população em geral, é seguir a “política de parentesco”, provavelmente datada da era pré-histórica, dentro da história ancestral dos grupos sociais.

Política de parentesco é um caso de política dos homens, em oposição à política das leis. Segundo Fukuyama, esta última é muito mais difícil de ser realizada, uma vez que “a natureza humana” —não vou discutir esse vespeiro aqui, mas ele usa essa ideia, inclusive, no seu recém-lançado “In The Realm of The Last Man, a Memoir”— tende à primeira disposição.

CORRUPÇÃO DE CARÁTER – A política de parentesco pode ser tanto relações de sangue —laços familiares ou de clã—, quanto relações totêmicas ou simbólicas. Suspeito que o caso de corrupção de caráter das instituições, ou mesmo, apenas, dos homens, mediada por adesão ideológica apaixonada, como na polarização, se encaixe perfeitamente neste tópico.

A política das leis, a mesma do idealizado Estado moderno laico, não pegou porque vai contra a tendência ancestral dos homens e mulheres. Família, clã, totem, simbólico partilhado, deuses, bandos, bolhas, gangues, enfim, tudo que tem a seu favor a inércia de uma espécie pré-histórica que posa com ares de moderna.

A política das leis luta, a cada minuto, contra essa inércia, e perde na maioria dos grupos sociais e dos países, inclusive no Brasil. Perde, muitas vezes, mesmo, nas grandes instituições da República, por meio da corrupção de caráter, mediada pela fidelidade ao bando, conhecida entre nós por “blindagem corporativa”, nos casos recentes do STF e do Ministério Público.

DOIS TOTENS – Lula é um totem, e Bolsonaro, outro. Ambos são totens, seguidos cegamente pelo bando de neolíticos que compõem o cenário político-ideológico nacional.

A própria ideia de busca de objetividade não pegou na espécie, assim como a leitura como prazer e não só por necessidade funcional. A tentativa de impor uma relação com o mundo e com a política, mediada pela razão e sua busca pela objetividade, foi um surto breve de homens europeus obsessivos, derrotada pela história posterior aos séculos 16, 17 e 18, até hoje.

Com o fracasso desse projeto aqui, ruíram os mecanismos de “democratic accountability” do sistema político. Não há como cobrar nenhuma responsabilização do Estado, do STF ou do Ministério Público no Brasil. Perdeu-se a compostura, a vergonha e o futuro.

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Eleição do Senado frustra expectativas de Moraes sobre impeachment de ministros

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Bela Megale
O Globo

Em conversas com interlocutores do mundo jurídico, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes se mostrou surpreso com a eleição do Senado e afirmou que houve uma “reversão” do cenário imaginado.

O magistrado dividiu com pessoas próximas a leitura que recebeu do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de que senadores de centro seriam eleitos e que não haveria uma maioria contrária ao STF na Casa.

REELEIÇÃO DE ALCOLUMBRE – Também avaliava que Alcolumbre, seu aliado e amigo, conseguiria se reeleger como presidente do Senado, o que seria uma importante barreira de contenção para pedidos de impeachment, já que o presidente do Senado precisa pautar o tema.

Como informou a coluna, as expectativas de Moraes foram frustradas e mais de 50 senadores que defendem o impeachment de ministros da corte ocuparão as cadeiras do Senado a partir de 2027.

Nas conversas que têm tido com ministros do STF, o coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho (PL-RN) sinaliza que há disposição de dialogar com a corte, mas que não abrirão mão do impeachment de Alexandre de Moraes.

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