
Aliados reconhecem que há dificuldades práticas
Letícia Pille
O Globo
Mesmo em prisão domiciliar e com comunicação restrita, o ex-presidente Jair Bolsonaro exerce influência sobre decisões estratégicas da pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto. Temas considerados centrais para a construção da candidatura seguem passando pelo crivo do ex-presidente, incluindo a definição de palanques estaduais.
A dinâmica imposta pelas restrições judiciais tem exigido adaptações por parte dos aliados. Como o acesso a Bolsonaro ficou concentrado nos filhos e na ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, interlocutores da pré-campanha afirmam que as orientações e avaliações do ex-presidente passaram a chegar ao restante do grupo por meio desses canais de comunicação, principalmente o senador.
DIFICULDADES – Embora não admitam publicamente a existência de qualquer problema na interlocução com o ex-presidente, aliados reconhecem que essa dinâmica criou dificuldades práticas para parte do grupo político. Interlocutores relatam que nem sempre é simples acompanhar ou confirmar determinadas avaliações atribuídas ao ex-presidente que circulam nos bastidores da pré-campanha.
Aliados traduzem o incômodo afirmando que a nova configuração dificulta a checagem de informações e amplia o peso político daqueles que fazem a interlocução com Bolsonaro. Segundo esses relatos, tornou-se mais comum que decisões, orientações ou avaliações cheguem ao restante do grupo acompanhadas da justificativa de que representam a vontade do ex-presidente. Procurado, Flávio não se manifestou.
O questionamento, contudo, é rebatido por aliados mais próximos de Flávio, que afirmam confiar plenamente na interlocução feita por ele com o pai e rejeitam a existência de qualquer problema relacionado à transmissão de orientações ou posicionamentos de Bolsonaro.
REPERCUSSÃO – Líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) é um dos que minimiza esse tipo de preocupação. Segundo ele, a influência do ex-presidente sobre a campanha é pública e facilmente verificável. Na avaliação de Sóstenes, qualquer orientação relevante dada por Bolsonaro acaba rapidamente repercutindo entre aliados, na imprensa ou nas próprias movimentações da pré-campanha. Por isso, argumenta, seria difícil que os posicionamentos atribuídos ao ex-presidente não correspondessem efetivamente ao que ele pensa sobre os rumos da candidatura de Flávio.
Bolsonaro está em prisão domiciliar desde o fim de março, quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou sua permanência em casa por 90 dias após uma internação decorrente de complicações de saúde.
Se na Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal e, depois, na Papudinha, Bolsonaro era autorizado a receber políticos, agora em casa ele só mantém contato com Michelle e os filhos, além de advogados, médicos, fisioterapeutas e funcionários responsáveis pelos cuidados da residência.
INTERLOCUÇÃO – Nesse contexto, Flávio passou a exercer papel central na interlocução entre o ex-presidente e o restante do grupo político. Segundo aliados, é por meio dele que chegam a Bolsonaro informações sobre as articulações da campanha e retornam avaliações, orientações e posicionamentos sobre decisões estratégicas.
— É evidente que ele (Flávio) consulta o pai nas visitas semanais que faz, porque é um absurdo o que acontece hoje com Bolsonaro, que tem acompanhamento policial dentro de casa — afirma o senador Izalci Lucas (PL-DF), pré-candidato ao governo do Distrito Federal.
MAPA DOS PALANQUES – A influência do ex-presidente se manifesta diretamente nas negociações eleitorais em andamento nos estados. Bolsonaro acompanha de perto a definição de candidaturas majoritárias e tem participação ativa especialmente nas discussões sobre as chapas ao Senado.
Publicamente, o próprio Flávio tem afirmado que alguns dos principais impasses enfrentados atualmente pela pré-campanha só serão resolvidos após uma manifestação do pai. É o caso do Rio, onde o grupo político precisou recalibrar seus planos após o ex-governador Cláudio Castro (PL), pressionado por investigações da Polícia Federal, desistir de disputar uma vaga ao Senado, e também de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país.
A equipe coordenada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN) trabalha na elaboração de um diagnóstico dos palanques. O material deve ser levado a Bolsonaro ainda neste mês para que o ex-presidente dê sua palavra final. A expectativa na campanha é que o aval do ex-presidente destrave negociações e reduza disputas internas.
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O Estado de S. Paulo, Política, 11/06/2026 | 22h00 Por Silvio Cascione
Como Trump e Bolsonaro, Alcolumbre mira em Lula, mas acerta o Brasil
Assim como a família Bolsonaro usa a Casa Branca, Alcolumbre usa e abusa do Senado contra o Brasil e os brasileiros, impondo agora, com as chamadas “pautas-bomba”, danos à economia do próprio País.
Trump, os Bolsonaro e Alcolumbre miram no presidente Lula e acertam nos brasileiros e no coração do Brasil.
Tanto os Bolsonaro quanto Alcolumbre confundem suas questões políticas e pessoais com o que realmente interessa e pesa acima de tudo: o interesse nacional.
Alcolumbre trata o Senado como se fosse a sua casa ou o seu Estado, o Amapá. Manda, desmanda, controla líderes e bancadas, comandando a pauta com mão de ferro. Nada ali acontece por acaso, só por sua vontade.
A vontade de Alcolumbre, aliás, vai e volta em relação ao Planalto e a Lula, mas já chegou azeda a 2026 e desandou de vez com a escanteada do senador Pacheco e a indicação do AGU Jorge Messias para o STF.
Ou seja: Lula desdenhou o candidato de Alcolumbre em favor do seu próprio. Se o presidente da República fosse Alcolumbre, ele faria diferente?
O presidente do Senado, porém, aproveitou a véspera da abertura da Copa, para um bombardeio contra as contas públicas, com previsão de perdas bilionárias. São as chamadas “pautas-bomba”, três num único dia, a quarta-feira (11).
O plenário votou a favor da renegociação das dívidas dos produtores rurais, inclusive com recursos do Fundo Social do Pré-Sal; a Comissão de Assuntos Sociais (CAS), aprovou aumento significativo de piso, horas extras e adicional noturno dos médicos; e a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a contratação e a aposentadoria especiais de agentes comunitários e de combate a endemias, da área da Saúde.
Alcolumbre conduziu o Senado a favor dos três setores ou de birra contra Lula? (…) Produtores rurais, médicos e agentes de saúde são decisivos para o País e as medidas têm boa dose de justiça, apesar do impacto fiscal perigoso.
Logo, o Senado deixa Lula entre o que esses setores e boa parte da sociedade consideram justo e o que a economia e outra parte da sociedade consideram correto para o bem geral, não de setores específicos.
Do ponto de vista político-eleitoral, Alcolumbre embolou o agro, historicamente adversário de Lula, os médicos, que votaram em massa contra ele em 2018 e 2022, e o setor Saúde, considerado dividido.
Se já era difícil para os senadores votarem contra, a quatro meses das eleições, imaginem para Lula contra-atacar.
As negociações entre Alcolumbre e Lula são como as de Trump com o Irã: todo dia é anunciada a paz, que nunca vem, e os ataques continuam. Lula recorre ao STF contra o Senado.
E o Senado se alia à Câmara em novas bombas, como isenção fiscal de igrejas (outro flanco eleitoral para Lula) e 31 projetos de aumento de piso salarial para variadas categorias.
Assim, o Brasil está sob ataque. De Trump e Bolsonaros, com as repercussões econômicas da classificação de PCC e CV como “terroristas”, novas tarifas extras com base na “Seção 301” de comércio e ainda outras, por “trabalho forçado”.
E sob ataque também de Alcolumbre, Senado e Câmara, que dissimulam as bombas contra Lula fazendo “caridade com chapéu alheio”.
Chapéu de quem? De você, contribuinte.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Política, Opinião, 11/06/2026 | 20h39 Por Eliane Cantanhêde