
Charge do Renato Aroeira (Brasil 247)
Rogério Pagnan
Folha
O filme produzido em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o já polêmico “Dark Horse” —”azarão”, em inglês—, teve custo total de US$ 13,4 milhões, ou cerca de R$ 75 milhões, e não recebeu incentivos ou recursos públicos, segundo perícia privada contratada pela defesa da Go Up Entertainment.
O laudo com esses dados foi anexado a um inquérito policial que investiga suposto uso de verbas públicas no filme. A suspeita é que recursos tenham sido desviados de um contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”.
INEXISTÊNCIA DE DESVIOS – Com a chamada “perícia investigativa preventiva”, a defesa tenta se antecipar ao trabalho da polícia e sustentar a inexistência dos desvios investigados. Além do suposto uso de recursos públicos, o custo total da obra cinematográfica também se tornou alvo de questionamentos após o vazamento de um áudio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, no qual ele cobra o repasse de recursos de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar a produção.
O laudo afirma que os gastos realizados no Brasil, entre 1º de junho de 2025 e 4 de junho de 2026, somaram R$ 20.927.664,75, valor que, pela taxa de conversão adotada pela perícia, corresponde a US$ 3.728.084,66. Nos Estados Unidos, os custos da produção foram calculados em US$ 9.664.996,63, ou cerca de R$ 54,2 milhões.
Somadas, as duas frentes de produção totalizam US$ 13.393.081,29. O valor representa cerca de 56% dos R$ 134 milhões que teriam sido previstos em tratativas reveladas pelo site The Intercept Brasil envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
CONTRATO DE INVESTIMENTO – Um dos pontos centrais do laudo é o papel do Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos. Segundo a perícia, o fundo celebrou em 24 de fevereiro de 2025 contrato de investimento para o filme. Até a data de elaboração do laudo, os aportes atribuídos ao Havengate somavam US$ 13,3 milhões, valor equivalente ao custo total declarado da produção.
Conforme reportagem da Folha, o Havengate é administrada por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho de Jair Bolsonaro que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. O laudo sustenta que os recursos analisados têm origem privada, mas limita a conclusão aos documentos apresentados pela defesa à perícia. O nome de Vorcaro ou de outros eventuais financiadores da obra não são citados no laudo. O ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões para financiar o filme.
A perícia afirma que a existência do contrato com o Havengate, somada a extratos bancários, documentos de remessa e registros financeiros analisados, indica origem privada dos recursos. O laudo diz não ter identificado, no material examinado, uso de verbas públicas, incentivos fiscais, Lei Rouanet ou recursos oriundos da Prefeitura de São Paulo. A conclusão da perícia, porém, diz se limitar aos documentos apresentados para análise.
ADIAMENTO DO FILME – A perícia privada foi contratada pela defesa de Karina, liderada pelo advogado Ricardo Sayeg, que diz ter aconselhado o adiamento da estreia do filme, para evitar que a obra seja associada à disputa eleitoral. “Para que não pairem dúvidas sobre a natureza cultural e artística, minha recomendação encaminhada à Karina, que está sendo analisada junto com o pessoal dos EUA, é que o filme seja lançado depois das eleições”, disse Sayeg.
À Folha Karina afirmou que estuda a recomendação e pode adiar o lançamento. Sayeg afirma que a produção é isenta e que o objetivo de Karina é ganhar o Oscar. “Queremos o Oscar nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro original e melhor filme internacional”, afirmou Karina, em nota enviada anteriormente.
A Polícia Federal também apura se valores repassados por Vorcaro podem ter sido usados para financiar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio e Eduardo negam irregularidades.
AFASTAMENTO – Em outra frente, a Prefeitura de São Paulo afastou Rodrigo Raveli Bolzan, gerente da SPTuris, empresa municipal de turismo, após a Controladoria-Geral do Município abrir apuração sobre sua ligação com empresas e entidades associadas ao caso.
Antes de ocupar o cargo na empresa municipal, Bolzan foi sócio da Complexys Soluções Integradas, uma das empresas investigadas pela Polícia Civil no inquérito que apura a hipótese de que recursos públicos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil tenham sido desviados e terminado na produção de “Dark Horse”.
O ICB firmou contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura para fornecimento de wi-fi. Procurado para comentar os valores gastos com a obra, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado até a publicação desta reportagem. O senador foi procurado por meio de sua assessoria. “A produção aconteceu, o filme do meu pai existe, profissionais foram contratados e tudo foi feito de forma privada. Transformaram um projeto cultural em narrativa política porque existe uma pré-candidatura no caminho”, disse ele, em maio.
Bandidos protestam contra concorrência desleal da segurança pública de Tarcínico
Foram presos o ex-chefe dos investigadores da Delegacia de Entorpecentes de Campinas (SP), um ex-policial civil e um ex-estagiário do Ministério Público, acusados de serem quadros do Primeiro Comando da Capital.
O Sindicato dos Bandidos Autônomos de São Paulo voltará ao governador Tarcísio de Freitas para protestar contra a concorrência desleal que lhe faz a máquina da segurança pública de São Paulo.
A trinca é acusada de planejar o assassinato de um procurador que estava no encalço de ramificações do PCC.
O Globo, Opinião, 14/06/2026 03h30 Por Elio Gaspari
Flávio, um candidato pesado
Assim como o ex-mito, Rachadinha cavalga o antipetismo, e só.
O filme parcialmente financiado por Vorcaro, a diplomacia suicida e a plataforma oca de Flávio cobraram seu preço na última pesquisa Quaest.
Lula ultrapassou-o, marcando 44% contra 38%. Junho é cedo para se prever o resultado de uma eleição marcada para outubro, mas alguma coisa vai mal com o candidato.
Flávio, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda.
Bolsonaro deu a Lula o auriverde pendão desta terra e ele está enrolado nela. Zema e Caiado parecem sem rumo. Como a campanha ainda não começou, qualquer dos três anti-Lula pode, em tese, dar uma disparada, mas quem melhor cultiva a pista é Lula.
O petista semeou-a mudando a tabela de alíquotas do Imposto de Renda e oferece a escala 5×2. A proximidade de Lulinha com o Careca do INSS não tem o efeito do áudio de Flávio com Vorcaro.
Até agora, o antipetismo tem só dois ativos, a segurança pública e Trump.
No primeiro, o governo apresenta planos árduos e a oposição põe na mesa chacinas como a da Penha. No segundo, depois da carta neurastênica do ano passado, Trump bombardeia o Brasil com tarifaços que afetam a economia nacional e, com ela, os eleitores.
Trump enche a bola dos Bolsonaro com fotografias e frases banais.
Trump recebeu sua bancada brasileira.
O Globo, Opinião, 14/06/2026 03h30 Por Elio Gaspari
Nova Pesquisa Datafolha
Datafolha fará nova pesquisa presidencial entre os dias 17 e 19 de junho, a qual deverá ser divulgada sábado, dia 20.
A produtora do filme afirmar que não utilizou dinheiro público ignora o fato de que grande parte do dinheiro do Vorcaro, que ela considera privado, é oriundo justamente do desvio de recursos públicos…