
Procuradores veem PGR exposta com menções a Gonet
Ana Pompeu
Folha
Integrantes da cúpula da PGR (Procuradoria-Geral da República) avaliam que as citações de Paulo Gonet nas novas mensagens do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, expõem a instituição em uma situação grave e inédita, mas avaliam que não existe até o momento nada capaz de torná-lo alvo de investigação.
Há um desconforto generalizado com o episódio, tanto entre aqueles que preferiam vê-lo afastado do comando do caso como entre procuradores que o apoiam e não veem problema no que foi divulgado até aqui. Os dois grupos entendem que, de qualquer forma, pode haver prejuízo coletivo à reputação da categoria.
DIÁLOGOS – Na investigação, há diálogos em que o advogado Ciro Soares encaminha ao ex-dono do Banco Master mensagens atribuídas a Gonet. Em outros trechos, Vorcaro pede ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que acione o procurador-geral e o chefe da Polícia Federal para barrar uma operação contra a instituição financeira. Além disso, o filho do procurador-geral teria pedido ao banqueiro para ir a um evento custeado por ele em Londres, com despesas pagas. Procurado pela Folha, o PGR não se manifestou.
Em conversas com sua equipe nos últimos dias, Gonet negou ter relação próxima com Vorcaro e disse que Moraes jamais pediu interferência em investigações sobre o Master. Integrantes do órgão que trabalham diretamente com o procurador-geral afirmam ainda que Gonet conhecia o advogado Ciro Soares e o tratava de forma amigável por ser seu estilo.
Nos bastidores, integrantes do órgão passaram a conversar sobre a possibilidade ou a necessidade de o CSMPF (Conselho Superior do Ministério Público Federal) debater o tema. Cabe a essa instância avaliar as condutas dos ocupantes dos postos mais altos da Procuradoria. O CSMPF é responsável por promoções na carreira, processos administrativos e aprova normas, critérios de atuação e a proposta orçamentária da instituição.
SEM INDÍCIOS – Pessoas próximas defendem que o chefe do Ministério Público Federal foi envolvido em uma crise que não é dele, sem indícios de má conduta. Uma ala da Procuradoria, no entanto, avalia que há menções suficientes no relatório da PF para gerar dúvidas e, portanto, o melhor seria Gonet se afastar do processo. A medida seria um sinal de prudência à classe, além de prevenir alegações de conflitos de interesses que contaminassem o andamento da apuração.
Segundo a visão mais preocupada, presente também em outros níveis da carreira, ocupar um cargo estratégico, como o de PGR, exige ainda mais cuidado, especialmente em casos rumorosos. Assim, mesmo que os elementos colhidos até o momento não representem, por fim, mácula real, a recomendação seria encurtar o espaço para questionamentos, sobretudo diante de uma situação complexa e nova, com o envolvimento de um ministro do STF, Alexandre de Moraes.
De acordo com esses interlocutores, ainda, o próprio Supremo, no entanto, flexibilizou a aplicação das regras de suspeição e impedimento ao longo dos últimos anos. Eventual avaliação de responsabilização funcional ou disciplinar de altos cargos se dá por meio de análise do Senado de crime de responsabilidade. O PGR não se sujeita ao Conselho Superior, assim como ministros do STF não se sujeitam ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
COMPROMETIMENTO – Hoje, o vice-presidente do CSMPF é Nicolau Dino, irmão do ministro do STF Flávio Dino. Caberia a ele chamar uma sessão colegiada caso entendesse necessário tratar do tema com os pares. Pela avaliação em sentido oposto, Gonet participaria do evento em Londres custeado pelo então banqueiro com centenas de outras pessoas —da mesma forma que da degustação de uísque. Nada disso denotaria intimidade e, assim, não haveria qualquer comprometimento da atuação do PGR à frente do caso.
Na mesma lógica, eventos custeados por empresários ou entidades privadas contam com a presença de autoridades públicas com frequência e isso não geraria implicação da atuação profissional. Um interlocutor do chefe do Ministério Público afirma que ele não tinha o número de celular de Vorcaro registrado no próprio aparelho e hipóteses de suspeição só existem em casos de relações próximas com envolvidos em processos.
Além do pedido do filho de Gonet a Vorcaro, o relatório da PF tem mensagens em que Vorcaro pede a um interlocutor que a PF suspeita ser Moraes a atuação de “Andrei e Paulo” a seu favor. As referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e a Gonet. A interlocução de Gonet com Vorcaro aconteceu por meio do advogado Ciro Soares, inicialmente em abril de 2024. Na ocasião, aponta a PF, o advogado escreveu a Vorcaro “Amizade é tudo viu irmão”, e complementou: “Gonet é firme”.
O Ministério Público é o fiscal da Lei”
Em Brasília, também é fiscal. Da Leixandrina.