Charge do Fred (Arquivo Google)
Hélio Schwartsman
Folha
Faz todo o sentido que o eleitorado rejeite a corrupção. Até algumas décadas atrás, ainda havia uma corrente de economistas que descrevia o fenômeno em termos mais benignos, como uma “graxa” que lubrificaria engrenagens travadas por instituições disfuncionais ou por excesso de regulação.
Mas essas ideias, que já caíram em descrédito na academia, nunca fizeram muito sentido quando consideradas do ponto de vista do cidadão, que é a parte prejudicada pelos desvios, seja pela subtração direta de recursos públicos, seja pela perda de eficiência em sua alocação.
CASOS DO PT – Não sou eu, portanto, quem vai condenar a revolta de segmentos da população com os escândalos do mensalão e do petrolão ocorridos sob a égide do PT. Algo parecido vale para Lula. Ainda que suas condenações criminais pelo caso do tríplex e pelo sítio tenham sido anuladas, o problema ético subsiste.
Lula colocou-se num relacionamento com empresários que não passa nem no mais grosseiro teste de integridade republicana. No mínimo, ele recebeu tratamento especial e benesses que jamais poderia ter aceitado.
Assim, o que se esperaria de um eleitor racional e justo é que aplicasse a todos os partidos e políticos aquilo que exige do PT e de Lula. Não parece ser isso, porém, o que estamos presenciando. É verdade que Ciro Nogueira e ACM Neto, flagrados em relações incestuosas com o irmão Vorcaro, foram gongados pelo eleitor. Esse não deve ter sido o único fator, mas quero crer que foi um deles.
E OS OUTROS – Mas vários outros políticos metidos no escândalo ganharam novos mandatos. É o caso de Mario Frias, Hugo Motta e Antônio Rueda. Pela esquerda, Jaques Wagner cai nessa categoria.
A situação mais escandalosa, contudo, é a de Flávio Bolsonaro. Ele pediu ao ex-banqueiro R$ 134 milhões e recebeu mais ou menos a metade disso. Traz ainda em seu currículo suspeitas nunca explicadas envolvendo rachadinhas, lavagem de dinheiro e patrimônio maior que a renda.
Inconsistências desse calibre só se explicam por uma perversa combinação de hipocrisia com autoengano.
PrincipLmwnte o molusco, o maior de todos os corruptos de País
Reinações de Janja Esbanja
Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos
O deputado federal bolsonarista superou todas as expectativas iniciais, que falavam em 2 milhões de votos
A estupidez, a arrogância e a falta de compostura dessa senhora, seguramente a mais baixa primeira-dama da história do Brasil, só não são maiores que as do próprio marido, a sedizente “alma mais honesta deste país”, apesar de todos os fatos e provas em contrário.
Em 2024, quando já ensaiava colocar as manguinhas, ou melhor, a língua para fora, sem a menor cerimônia e compostura, durante um encontro de líderes mundiais, o G20 Social, no Rio de Janeiro, Janja simplesmente mandou Elon Musk “Fuck you”.
Desde que o pai do Ronaldinho dos Negócios assumiu pela terceira vez a Presidência da República, a primeira-dama dedicou-se a curtir o cargo à vontade. Cargo? Sim. Pois Janja transformou o matrimônio em cargo, com direito a gabinete, equipe e verba.
Sem medo de ser feliz
Ao longo dos anos, imiscuiu-se em tarefas e assuntos que não são de sua alçada e de que entende muito pouco ou quase nada. De diplomacia a redes sociais, passando por escala 6×1 e bets. Muitas vezes, inclusive, passando por cima do próprio presidente.
Seu gosto por luxos e despesas custeadas pelo erário, ou seja, os trouxas aqui, rendeu-lhe o apelido Esbanja. Não saberia dizer se é melhor ou pior que o da última primeira-dama, Michelle Bolsonaro, Micheque – por causa dos cheques do carequinha Fabrício Queiroz.
Recentemente, em um dos comícios de Lula, após o maridão falar asneira sobre “toque” em crianças, revoltadinha – e com razão – com mais um vídeo viral do novo bezerro de ouro da política brasileira, Nikolas Ferreira, babou ódio sobre um carro de som: “Piá de bosta”.
Cresceu e apareceu
Sim, a primeira-dama referiu-se a um deputado federal, que havia deturpado a besteira dita por Lula, como “piá de bosta”. Bem, todos sabem que estou longe de morrer de amores por Nikolas, mas o cara é deputado e ela, primeira-dama. Há que se ter um mínimo de decoro.
Também sobre um carro de som, em comício recente no interior de Minas, Nikolas, para o delírio da multidão que o acompanhava, mandou: “Muito obrigado pelo ataque, Janja. Você vai ver do que é capaz esse piá de bosta”. Dito e feito. As urnas ratificaram a ameaça.
O deputado federal bolsonarista superou todas as expectativas iniciais, que falavam em 2 milhões de votos (em 2022, teve pouco mais de 1,5 milhão). Mas, após o ataque boçal de Janja, repetido depois em Belo Horizonte, cidade de Nikolas, o “bezerro” engordou.
Você pagou com traição
Nikolas tornou-se um enorme “boi gordo premiado”. Com espantosos mais de 3,1 milhões de votos, quebrou todos os recordes possíveis e imagináveis e se tornou, definitivamente, o maior líder político do país. O motivo, além de Janja, só os eleitores dele sabem.
Uma peça teatral muito antiga, de Nelson Rodrigues, que depois se tornou um filme de sucesso, chamava-se: Toda Nudez Será Castigada. O título ganhou inúmeras variações. Uma delas, e das mais comuns, diz: Toda arrogância será castigada.
Lula é arrogante. Janja também. Nikolas é muita coisa, mas arrogante não é. E o castigo impingido à primeira-dama – para ficar no campo dos ditados – veio a cavalo. Podem colocar na conta dela. Inclusive, a possibilidade de derrota do marido para Flávio “Rachamaster” Bolsonaro.
O Antagonista, Opinião, 05.10.2026 10:06 Por Ricardo Kertzman