Charge do Zappa (humortadela.com)
Marcus André Melo
Folha
Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner (PT-BA), ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: “Estamos em campanha e tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção… Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita”.
Wagner errou em seu diagnóstico de que esse tema era “rejeitado pela população”, mas acertou quando apontou para a questão da credibilidade de declarações sobre honestidade.
MAR DE LAMA – Na atual conjuntura, a percepção de um “mar de lama” faz com que ninguém acredite que políticos sejam honestos. Que ministros do Supremo sejam honestos. Ou que diretores do INSS ou do Banco Central sejam honestos.
Quando a corrupção é avassaladora, seus efeitos sobre os incentivos são sistêmicos. Como já analisei na coluna, a corrupção gera corrupção.
À primeira vista, pode sugerir que ela dê lugar a um cinismo cívico generalizado, e que os cidadãos perdem a capacidade de se indignar. O efeito médio para os eleitores pode ser o de indiferença. Mas a corrupção não é categoria homogênea.
TIPOS DE CORRUPÇÃO – A evidência acumulada na ciência política mostra exatamente o contrário: as pessoas distinguem entre tipos de corrupção. Marco Klasjna, Noam Lupu e Joshua Tucker em trabalho sobre comparativo experimental no Uruguai, Argentina e Chile, como parte do Lapop (Latin American Public Opinion Project), concluíram que a informação sobre a extensão da corrupção não afeta a punição de certos tipos de ilicitudes.
Isto é consistente com a forte rejeição em abstrato à corrupção, mas o pouco impacto efetivo em situações concretas (Boas, Hidalgo e Melo). Casos de enriquecimento pessoal geram forte reprovação moral e tendem a produzir punição eleitoral.
Já formas de corrupção associadas à provisão de bens públicos —obras, programas sociais, transferências— são julgadas de forma ambígua.Nesses casos, as pessoas operam com trade-offs: ponderam corrupção contra desempenho, entrega de políticas, alinhamento partidário e lealdade identitária. São conhecidos os padrões “rouba, mas faz” ou “rouba, mas distribui”, que cada vez mais têm sido substituídos pelo “rouba, mas é da minha tribo”.
CPI DO CRIME – A reação do Supremo ao indiciamento de seus membros na CPI do Crime Organizado alimenta a espiral de indignação e o sentimento público de “mar de lama”.
O relatório hiperbólico apresentado pelo relator é reflexo das interferências brutais do próprio tribunal, do governo e da base parlamentar aos seus trabalhos. O relatório foi acusado de ser “eleitoreiro” —”de fazer palanque” (Wagner)— justamente porque incidirá nas urnas com alta voltagem. O “corte de orelhas” sobre o qual falei na coluna pode sair pela culatra.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Excelente artigo de Marcus André Melo, um dos maiores cientistas políticos do país. Mas cabe um adendo. Além do “rouba, mas é da minha tribo”, já podemos acrescentar o “rouba, mas é do meu tribunal, aquele Supremo Futebol Clube tão exaltado pelo ministro Flávio Dino. (C.N.)
Todos os indiciados pelo relator continuam cometendo crime de obstrução da justiça, sendo um deles por prevaricação cc obstrução