
Chile afastou e até prendeu ministros da Suprema Corte
Marcus André Melo
Folha
Um dos poucos casos de escândalo de corrupção em cortes supremas em que o colegiado da instituição destituiu um membro por corrupção ocorreu recentemente no Chile. O caso traz lições para a atual crise no STF.
Há claras similaridades na arquitetura dos dois casos, mas também fortes contrastes em seus desfechos. Como no Brasil, os protagonistas são figuras de destaque do mundo político chileno: Ángela Vivanco, ministra da corte; Luis Hermosilla, um dos advogados mais conhecidos do país; Andrés Chadwick (de quem Hermosilla foi assessor), ex-Ministro do Interior e da Segurança Pública, ex-Senador, chefe político de um dos maiores partidos do país (UDI), e primo do ex-presidente da República, Sebastián Piñera; além de destacados procuradores nacionais. A crise era sistêmica: o Ministério Público estava envolvido, além de chefes de burocracias setoriais.
PROCEDIMENTO DISCIPLINAR – No entanto, quando vieram à tona as relações da ministra com Hermosilla, a Suprema Corte chilena suspendeu-a e abriu um procedimento disciplinar. Em 9 de setembro de 2024, apenas dois dias depois da publicação das mensagens, a Corte abriu de ofício um procedimento disciplinar, o chamado cuaderno de remoción.
Em 10 de outubro, o plenário decidiu por unanimidade remover Vivanco. Não a removeu por corrupção comprovada, mas por mau comportamento: violações aos princípios de independência, imparcialidade, probidade, integridade e transparência. As acusações criminais de corrupção e lavagem avançaram posteriormente.
Paralelamente, avançou a acusação constitucional, deflagrada a partir de pedidos de impeachment apresentados por três partidos políticos, que foi rapidamente aprovada pelo Senado. Com a ministra já destituída, esta decisão implicou apenas em inabilitação para ocupar cargos públicos.
OUTRAS SEMELHANÇAS – Mas há outras similaridades entre os dois escândalos. A divulgação de áudios por um site investigativo de propinas a funcionários de entes reguladores do mercado financeiro e da área de tributação foi o estopim do caso, mas as evidências de que Vivanco atuava como consigliere de Hermosilla vieram à tona com a apreensão do celular de Hermosilla, que expôs o conluio em centenas de mensagens entre os dois, inclusive sobre nomeações de comparsas para cargos chave. Os valores das propinas e desvios financeiros no caso contrastam marcadamente com o caso brasileiro: são frações daqueles reportados no escândalo do Master.
Assim, a corte agiu antes que o escândalo destruísse sua reputação: todo o processo de destituição durou quatro semanas. Entre nós, a inação diante dos dois casos permitiu que a crise escalasse e chegasse ao momento crítico em que estamos.
DUAS REVELAÇÕES – O escândalo do Master atingiu o STF a partir de duas revelações, ambas ocorridas no início de dezembro de 2025: viagem de Toffoli na companhia de advogados do Master e o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes com o banco.
Algumas respostas pontuais ocorreram em resposta à utilização despudorada de instrumentos de autoblindagem: no primeiro caso, a decretação de sigilo geral e proibição de compartilhamento de dados; no segundo, o recurso a um inquérito altamente controverso que já dura 7 anos. A resposta institucional abrangente tardou a acontecer. As razões de sua emergência merecem uma análise à parte. Antes tarde do que nunca.
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“A declaração de Nayib Bukele voltou a chamar atenção e reacendeu um debate que vai muito além de El Salvador. 🇸🇻
Ao comentar sobre a necessidade de afastar juízes que considerava corruptos, o presidente salvadorenho afirmou que, sem remover esses magistrados, seria impossível
“consertar o país”.
Segundo Bukele, juízes envolvidos em corrupção poderiam formar uma espécie de “cartel” para bloquear reformas e proteger interesses dentro do próprio sistema.👨⚖️
A fala é polêmica porque coloca uma questão delicada no centro do debate: até onde pode ir o poder de um Judiciário quando seus próprios integrantes passam a ser questionados?
E esse assunto também encontra eco no Brasil.
O Supremo Tribunal Federal atravessa uma das maiores crises de imagem dos últimos anos, em meio às revelações e disputas relacionadas ao caso Banco Master, além de questionamentos sobre o poder concentrado nas mãos dos ministros.
Uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que 76% dos brasileiros consideram que os ministros do STF têm poder excessivo.
Nesse cenário, também chama atenção a atuação do ministro André Mendonça, conhecido por sua fé evangélica, que vem ocupando posição de destaque em algumas das discussões mais delicadas envolvendo o Supremo.
A grande questão, no Brasil e em qualquer democracia, é como garantir que nenhum Poder esteja acima da lei — nem o Executivo, nem o Legislativo e nem o Judiciário.
E você, concorda com Bukele ou acredita que uma declaração como essa pode colocar a própria democracia em risco❓
Comente com respeito.”
(Tiago Gomes TG)