
Candidatos estão empatados tecnicamente
Pedro do Coutto
A eleição presidencial brasileira chega ao seu momento decisivo com uma diferença que, na prática, não representa vantagem segura para nenhum dos dois candidatos. A nova pesquisa Quaest mostra Flávio Bolsonaro com 45% das intenções de voto e Lula com 44%.
É uma vantagem numérica de apenas um ponto, mas, diante de uma margem de erro de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. O dado mais importante, portanto, não está no ponto que separa os candidatos, mas naquilo que ele revela sobre a estrutura da disputa. A pouco mais de 48 horas das urnas, nenhum dos dois conseguiu abrir uma distância capaz de retirar do eleitorado a percepção de que a eleição continua em aberto.
OSCILAÇÃO – Flávio, que aparecia com 46% na rodada anterior da Quaest, oscilou para 45%, enquanto Lula permaneceu em 44%. A diferença numérica diminuiu, mas continua dentro do intervalo estatístico do levantamento. É uma situação que exige cautela porque pesquisas não são resultados eleitorais antecipados. Elas fotografam um determinado momento da campanha e, sobretudo quando a distância entre os candidatos é inferior à margem de erro, devem ser interpretadas como indicação de proximidade, e não como previsão do vencedor.
A própria evolução das pesquisas reforça essa leitura. O Datafolha divulgado anteriormente apresentava Flávio com 47% e Lula com 45% dos votos totais, também dentro da margem de erro. Nos votos válidos, a diferença era de 51% a 49%. O quadro, portanto, não aponta para uma liderança consolidada, mas para uma disputa que permanece aberta até as últimas horas.
Há outro elemento que merece atenção: o eleitorado que ainda não cristalizou completamente a sua escolha. Na pesquisa estimulada da Quaest, os indecisos são uma parcela pequena, mas, na sondagem espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, o percentual de eleitores que não declara preferência é significativamente maior. Isso demonstra que ainda existe espaço para movimentos na reta final.
MIGRAÇÃO – Não é correto, contudo, concluir que os indecisos necessariamente decidirão em favor de Lula ou de Flávio. A pesquisa não permite determinar antecipadamente para onde esse grupo migrará. O que ela mostra é que, numa eleição tão apertada, qualquer deslocamento pode ter peso proporcionalmente maior.
Essa é a verdadeira natureza da disputa. Um ponto de vantagem pode parecer significativo quando transformado em manchete, mas perde qualquer capacidade de antecipar o resultado quando está dentro da margem de erro. A eleição pode ser decidida por uma combinação de fatores relativamente pequenos: a consolidação dos votos ainda frágeis, a eventual mudança de preferência de uma parcela do eleitorado, a participação efetiva nas urnas e o comportamento daqueles que ainda admitem votar em branco ou anular o voto.
Não é necessária uma grande virada para mudar o resultado. Basta que uma pequena parcela dos eleitores altere sua decisão ou que a diferença de comparecimento entre os grupos de apoio seja suficiente para modificar a distribuição final dos votos.
INFLUÊNCIA – Também por isso os acontecimentos das últimas horas ganham importância, embora não devam ser tratados como acontecimentos necessariamente decisivos. O debate final, as declarações dos candidatos, eventuais fatos novos e a capacidade das campanhas de mobilizar seus eleitores podem influenciar o ambiente eleitoral. Mas afirmar que um único debate determinará a eleição seria ir além do que os dados permitem concluir. Em uma disputa tão equilibrada, o efeito mais provável desses episódios é reforçar ou enfraquecer tendências já existentes, e não produzir, por si só, uma transformação completa do eleitorado.
A rejeição ajuda a explicar por que o segundo turno chegou a esse grau de equilíbrio. Os dois candidatos carregam níveis elevados de resistência entre parcelas expressivas dos eleitores, o que transforma a eleição também numa disputa para impedir a vitória do adversário. Não se trata apenas de conquistar novos votos, mas de manter coesa a própria base e reduzir a capacidade do concorrente de mobilizar aqueles que ainda permanecem entre a preferência e a rejeição. Quando os candidatos estão separados por tão pouco, a eficiência de cada campanha na transformação de apoio potencial em voto efetivo pode ser mais importante do que a capacidade de produzir uma vantagem expressiva nas pesquisas.
O cenário, portanto, não autoriza nenhuma das campanhas a tratar a eleição como resolvida. Flávio aparece numericamente à frente na pesquisa mais recente, mas a diferença está dentro da margem de erro. Lula está imediatamente atrás e mantém condições objetivas de disputar a vitória até o fechamento das urnas. O resultado final dependerá menos da fotografia de uma pesquisa isolada do que daquilo que acontecer entre a última entrevista realizada pelos institutos e o momento em que milhões de brasileiros efetivamente votarem.
INCERTEZA – É justamente por isso que um ponto, neste momento, significa mais sobre a incerteza da eleição do que sobre quem será o próximo presidente. Flávio pode transformar a vantagem mínima em vitória, Lula pode reverter a diferença e conquistar um novo mandato. Entre uma possibilidade e outra, existe um eleitorado que ainda pode consolidar decisões, rever escolhas ou simplesmente comparecer às urnas em proporções diferentes das projetadas. A pesquisa pode indicar o equilíbrio; somente o voto poderá rompê-lo.
A eleição chega, assim, ao domingo sem um vencedor estatisticamente desenhado. O que existe é uma disputa no limite da margem de erro, com dois candidatos separados por uma diferença mínima e com capacidade de vitória. O ponto que hoje favorece Flávio pode desaparecer, ampliar-se ou transformar-se em vantagem para Lula. É essa possibilidade, mais do que qualquer número isolado, que define o momento político brasileiro: pela primeira vez na reta final, a pesquisa não aponta quem está a caminho de vencer, mas quão pouco falta para que qualquer um dos dois possa fazê-lo.