Certo da impunidade, Toffoli anula as decisões contra o doleiro Youssef

Quem é Dias Toffoli, o polêmico ministro que vai assumir o comando do STF -  BBC News Brasil

Dias Toffoli parece ser mais bandido do que Youssef

Mariana Muniz
O Globo

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou todos os atos da Operação Lava-Jato contra o doleiro Alberto Youssef e apontou que houve uma atuação coordenada e ilegal entre o então juiz Sergio Moro, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal para forçar delações e manipular provas. A decisão é mais um duro revés contra os principais protagonistas da operação e amplia o entendimento do Supremo sobre os abusos cometidos em Curitiba.

Na decisão, Toffoli afirmou que Youssef foi alvo de um “conluio” institucional com o objetivo de pressioná-lo a colaborar com os investigadores para atingir “alvos políticos determinados”, sobretudo lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT).

PROJETO DE PODER – O ministro classificou a condução da Lava-Jato como parte de um projeto de poder e destacou a existência de “captação ambiental ilícita” na cela onde o doleiro estava preso, episódio que, segundo ele, foi acobertado por autoridades da operação.

“Não se pode falar em processo criminal propriamente dito, até mesmo porque não há defesa possível no ambiente retratado nestes autos”, escreveu Toffoli. Para o ministro, as sentenças proferidas contra Youssef foram “contaminadas” pela parcialidade do juiz e pelas ações do Ministério Público e da Polícia Federal que, segundo ele, atuaram de forma articulada para comprometer o direito de defesa e a legalidade processual.

A decisão cita ainda diálogos obtidos na Operação Spoofing que, de acordo com a defesa de Youssef, escancararam a proximidade indevida entre juiz e acusadores.

ESCUTA ILEGAL – Em um dos trechos, integrantes do MPF debatem formas de impedir que a escuta ilegal descoberta na cela de Youssef provocasse nulidades. “É melhor não mexer e torcer para não ter nada naquele computador”, diz uma das mensagens atribuídas a procuradores.

Ao anular os atos, Toffoli reafirmou críticas que já vinha fazendo à Lava-Jato e afirmou que houve “captura do sistema de Justiça” para fins políticos e pessoais.

Ele também citou o relatório do CNJ sobre a gestão de recursos da operação em Curitiba e relembrou que decisões anteriores da Corte já reconheceram ilegalidades similares em casos como os de Lula, José Dirceu e outros réus.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– A decisão de Toffoli mostra a que ponto chega a promiscuidade entre corruptos a magistrados no Brasil. O tal uso de “captação ambiental ilícita”, foi uma armação de Youssef, que arranjou um equipamento antigo, em desuso há anos, e alegou que fora colocado na cela. Há fotos do equipamento, que nem funcionava mais nem estava ligado a computador. Mas Toffoli embrulhou e mandou adiante. Com uma justiça dessa qualidade, podemos entregar a chave de casa aos bandidos. (C.N.)

É preciso comemorar os 100 anos do jornal O Globo sem falsidades

Silvio Santos e Roberto Marinho se reencontraram após 12 anos

Marinho era como Silvio Santos e fazia tudo por dinheiro

Vicente Limongi Netto

São muito importantes os relatos de Carlos Newton sobre Roberto Marinho e O Globo etc. Tenho boas lembranças do sempre lúcido Moacyr Padilha e do Henrique Caban, tipo pauteiro da matriz para sucursal. Luís Lobo era grande companheiro.

Já o Evandro Carlos de Andrade era um boçal, pernóstico. Certo dia um burocrata do Ministério das Comunicações me ligou na Sucursal de Brasília. “Queremos que troque o setorista-credenciado”. Motivo: faz perguntas inconvenientes ao ministro Higino Corsetti.

“Não vou trocar. Quem faz o jornal conosco é nosso repórter, não são vocês”, retruquei.

SEM TROCA – A queixa chegou ao Evandro Carlos de Andrade, que me mandou obedecer.  “Evandro, ninguém aí no Rio é mais jornalista do que minha equipe aqui”, afirmei.

Perdi a chefia de redação, mas mantive a coerência e a dignidade. Estava casado há pouco tempo. Perdi grana da gratificação do cargo, minha mulher ficou uma arara.

Mas fiquei amigo dos irmãos do Evandro, ambos jornalistas: José Carlos, da Última Hora, e Fernando, que trabalhava com o Ibrahim Sued.

ABISMO FINAL – Batalha política tomou conta da atribulada quadra brasileira. Bolsonaro caminhando para o abismo final. Filho fujão aparentemente continuará solto, nas barras das calças do padrinho norte-americano. A violência do palavreado subindo o tom. Antevejo levantes ruidosos no país. Misturados com fogos juninos.

Trump, por sua vez, continua apontando armas pesadas contra o Brasil. São 200 anos de convivência harmoniosa Brasil-Estados Unidos indo para o ralo da intolerância. Mas do que nunca a serenidade precisa entrar na rinha para acalmar ânimos e espíritos. Democracia e constituição não podem ser rasgadas.

HAVELANGE E ARIAS – Vigilante, solidário e competente, o veterano e respeitado jornalista Aristóteles Drummond registrou, na coluna que tem no semanário “Sol”, de Lisboa, a sugestão deste repórter, aqui na Tribuna da Internet, para que na próxima copa do mundo de clubes, em 2029, seja criada e incluída a taça João Havelange.

Ainda no futebol, o monstro Arias merece. Perto dos 30 anos. precisa mesmo sonhar com voos maiores.  Deixará imensas saudades. Mas vida de jogador de jogador profissional é feita de etapas e decisões. O craque colombiano do Fluminense deixará saudades. Joga muito. Lustrou e encantou o futebol brasileiro. Aplaudo, de pé, o grande Arias.

OUTROS TEMPOS – Meus sonhos não sorriem mais para o infinito do vento. Não acenam mais para vestidos brancos. Agora meus sonhos dormem na porta dos recados apressados. Nas lembranças das brincadeiras de infância.

Provocam ladeiras que comovem a alma. Meus sonhos não despertam mais agonias prazerosas. Não acariciam mais rostos com lenços perfumados. Sumiram dos rios doces que banhavam meu coração. Meus sonhos desprezavam rancores.  Enfeitam espíritos amordaçados pelo tédio.

Após o pedido para condenação de Bolsonaro, Trump volta a defendê-lo

Guerra comercial entre China e os EUA | Charges | O Liberal

Charge de J.Bosco (O Liberal)

Deu em O Globo

Após ser questionado sobre o pedido de condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o presidente americano Donald Trump voltou a defender o brasileiro. O republicano se referiu a Bolsonaro como “um bom homem” e voltou a afirmar que ele sofre uma “caça às bruxas”.

— O presidente Bolsonaro é um bom homem. Conheci muitos primeiros-ministros, presidentes, reis e rainhas, e sei que sou muito bom nisso. O presidente Bolsonaro não é um homem desonesto. Ele ama o povo brasileiro. Ele lutou muito pelo povo brasileiro — disse Trump.

JULGAMENTO – Na carta divulgada na semana passada na qual anunciou tarifas de 50% em produtos brasileiros, Trump citou o julgamento do ex-presidente pela trama golpista como um dos motivos para a medida.

— Ele negociou acordos comerciais contra mim em nome do povo brasileiro, e foi muito duro, porque queria fazer um bom negócio para seu país. Ele não era um homem desonesto. Acredito que isso seja uma caça às bruxas e que não deveria estar acontecendo — reforçou o presidente americano nesta terça-feira, quando voltou a afirmar que Bolsonaro sofre uma “caça às bruxas”:

— Ele não é como se fosse meu amigo. Ele é alguém que eu conheço. Sei que ele representa milhões de brasileiros, são ótimas pessoas, ele ama o país e lutou muito por essas pessoas. E eles querem prendê-lo. Acho que isso é uma caça às bruxas e acho muito lamentável.

HILLARY CRITICA – Na última sexta-feira, a ex-secretária de Estado e adversária democrata de Trump nas eleições americanas de 2016, Hillary Clinton, disse que Bolsonaro era o “amigo corrupto” do atual presidente americano.

A publicação foi feita na rede social Bluesky após o anúncio das tarifas. “Você está prestes a pagar mais pela carne bovina não apenas porque Trump quer proteger o seu amigo corrupto, mas também porque os republicanos no Congresso decidiram ceder-lhe o seu poder sobre a política comercial”, escreveu Clinton na rede.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
Trump tem outra motivação, ainda maior. O Brasil é muito importante para o Brics, porque pode atrair muitos países para integrar o Sul Global, que é a nova obsessão internacional de Lula. Comprem mais pipocas. (C.N.)

Empresários querem saída diplomática para tarifaço e temem politização

Horacio Lafer Piva, da Klabin, assume presidência do conselho da Ibá |  Empresas | Valor Econômico

Piva teme a exploração política e defende serenidade

Joana Cunha e Eduardo Sodré
Folha

Assustados com a decisão do presidente americano Donald Trump de sobretaxar os produtos brasileiros em 50%, empresários de diversos setores sugerem que o governo Lula (PT) busque ajuda no setor privado para costurar um consenso diplomático e que tenha cuidado para não escalar a polarização política.

Na quinta-feira (10), o presidente disse que criaria um comitê composto por empresários para acompanhar a questão tarifária entre os dois países, e que as medidas diplomáticas seriam tomadas pelo Itamaraty.

LULA ISOLADO – Em conversas reservadas, empresários ressalvam que Lula se isolou e tem feito pouco contato com o empresariado, diferentemente do diálogo que costumava promover em seus dois mandatos anteriores.

Na sexta (11), Trump disse que não pretende conversar com Lula agora sobre as taxas, mas talvez em outro momento, enquanto o petista afirmou que vai tentar brigar em todas as esferas –citando OMC (Organização Mundial do Comércio) e Brics (grupo que reúne economias emergentes)– para que não venha a taxação.

Uma postura diplomática em oposição aos Estados Unidos poderia custar ainda mais caro, segundo representantes do setor privado. A reportagem ouviu de alguns empresários a avaliação de que a pessoa ideal para conduzir as negociações não seria o próprio Lula nem o assessor internacional da Presidência, Celso Amorim, e que o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, talvez enfrente também dificuldade.

ALCKMIN CITADO – Outros defendem que o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin (PSB), teria condições de dialogar. Haveria ainda a alternativa de convocar alguém do setor privado, um grande empresário, um ex-político ou um ex-diplomata de relevância e prestígio.

“A hora é de avaliar bem nossos próximos movimentos. A tarifa só entra em vigor no dia 1º de agosto. Políticos, empresários e diplomatas podem ajudar a construir um caminho”, disse Fábio Barbosa, presidente do conselho de administração da Natura Cosméticos S.A..

Para o banqueiro Ricardo Lacerda, fundador do BR Partners, até agora, a reação do presidente Lula foi bastante ponderada. “Não é correto misturar assuntos de eventuais abusos do STF [Supremo Tribunal Federal] com tarifas que prejudicam nossos interesses comerciais. É lamentável que grupos políticos estejam investindo na polarização contra os interesses do povo brasileiro”, afirma Lacerda.

DIFICULDADES – Rogelio Golfarb, sócio da Zag Work Consultoria, que foi presidente da associação de montadoras Anfavea e dirigiu a Ford na América do Sul, alerta que haverá dificuldade de avançar sempre que as questões comerciais se contaminarem pelo viés político brasileiro.

“O caminho passa por um jogo de xadrez de diplomacia muito bem construído, no qual o Brasil não se mostre subserviente, mas ao mesmo tempo deixe portas abertas para a negociação”.

No cálculo do tamanho do estrago, os prejuízos já são inevitáveis, na opinião de Horácio Lafer Piva, membro de conselhos como Klabin e Iedi (Instituto de Estudos Industriais). “Me parece tudo tão bizarro em forma e conteúdo, que somente resta manter alguma serenidade e dar alguns dias para avaliar custos financeiros e riscos políticos”, afirma Piva.

O tarifaço doido de Trump é fruto do enredo louco de Lula, Jair e STF

O tarifaço de Trump e os limites do poder dos Estados Unidos – blog da  kikacastro

Charge do William (Arquivo Google)

Mario Sabino
Metrópoles

O tarifaço imposto ao Brasil por Donald Trump é desenlace previsível de um enredo escrito por Lula, Jair Bolsonaro e STF. Donald Trump é o que é: um louco populista com métodos mafiosos e convicções imperialistas que remontam há 200 anos.

Sobre isso, países como o nosso não têm o que fazer, a não ser evitar cutucar o louco. É o caminho seguido por quem tem alguma sanidade.

LULA PROVOCOU – Até a semana passada, o Brasil vinha passando razoavelmente ileso pela sanha tarifária do presidente dos Estados Unidos, mas Lula continuou a provocar irresponsavelmente o sujeito com o antiamericanismo crônico da esquerda infantil, com o perdão do pleonasmo.

Dado assombroso: o presidente brasileiro é o único líder de uma nação que se quer relevante que nunca procurou Donald Trump para uma conversa, no segundo mandato do inquilino da Casa Branca.

O antiamericanismo de Lula atingiu o seu ponto mais agudo ao transformar o país em garota de programa da Rússia e da China. A pretexto de defender o multilateralismo, o governo brasileiro topou fazer o serviço completinho para os gigolôs de Pequim e de Moscou.

MOLECAGENS – Não bastassem as molecagens do esquerdismo infantil, entrou em cena Jair Bolsonaro, mais especificamente o filho dele, Eduardo, que se mudou para os Estados Unidos para cutucar o louco americano no sentido contrário.

Sem vergonha do americanismo capacho característico da direita subdesenvolvida, as vivandeiras alvoroçadas do bolsonarismo queriam que Donald Trump punisse severamente os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, que armaram o bote para prender Jair Bolsonaro, aliado político do presidente americano.

Como Donald Trump é doido, o que eles conseguiram espetacularmente foi punir com um tarifaço, o método preferido do sujeito, os empresários brasileiros que compõem a base de apoio empresarial do seu pai. E não acredite, leitor, que o impacto sobre a economia brasileira será pequeno, como querem fazer crer os suspeitos de sempre.

PEGAS DE SURPRESA – As vivandeiras alvoroçadas do bolsonarismo foram pegas de surpresa, claramente. Mas se viram obrigadas a exibir o ato do patrão americano como troféu, sob pena de assumir que desconheciam os riscos embutidos na sua aventura e talvez não conseguir a punição pretendida aos ministros do STF — que não deixarão de condenar Jair Bolsonaro porque Donald Trump assim exige.

Quando ao Supremo Tribunal Federal, temos um tribunal que, sob a justificativa de defender a democracia brasileira contra o bolsonarismo, vem conduzindo processos eivados por arbitrariedades contra desafetos políticos e contra jornalistas críticos aos seus maus modos.

Em atos de censura não menos do que desavergonhados, o STF atingiu, inclusive, cidadãos americanos residentes em seu país, ferindo a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos e bulindo com esta que é a matéria-prima das big techs americanas, aliadas de Donald Trump: a liberdade de expressão.

EMPÁFIA SOBERANA – Supremo Tribunal Federal ignorou os sucessivos sinais de alerta que vieram de Washington. Preferiu iluminar o seu palácio de verde-amarelo, como se a sua empáfia fosse ato de soberania.

O enredo é todo insano, e Lula espera surfar em uma onda nacionalista por causa do tarifaço de Donald Trump, revertendo a queda da sua popularidade para chegar mais competitivo em 2026.

Contra a irracionalidade populista do presidente americano, teremos o oportunismo populista do presidente brasileiro. Parabéns a todos os envolvidos nessa tragicomédia.

Denúncias da Procuradoria contra golpistas são vergonhosas e exageradas demais

Gonet conclui parecer e deve pedir condenação de BolsonaroAna Pompeu e José Marques
Folha

Em cima da hora, momentos antes do fim do prazo, que era às 23h59, a PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu na noite desta segunda-feira (14) a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e dos outros sete réus do núcleo central da trama golpista.

O posicionamento está nas alegações finais da acusação no processo, entregue por Paulo Gonet ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). A expectativa no Supremo é que o processo sobre a tentativa de golpe de Estado esteja pronto para ir a julgamento no início de setembro.

INELEGÍVEL – O ex-presidente já foi condenado pelo TSE por ataques e mentiras sobre o sistema eleitoral e é réu no STF sob a acusação de ter liderado a trama golpista de 2022. Hoje está inelegível ao menos até 2030.

Caso seja condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio público e deterioração do patrimônio tombado, a pena pode passar de 40 anos de prisão.

O procurador-geral ressalta ainda que, pelo exposto, “todos os personagens do processo em que a tentativa do golpe se desdobrou são responsáveis pelos eventos que se concatenam entre si”.

TODOS SÃO CULPADOS – “Ainda que nem todos tenham atuado ativamente em todos os acontecimentos relevantes na sequência de quadros em que se desdobraram as ações contra as instituições democráticas, todos os denunciados colaboraram, na parte em que lhes coube em cada etapa do processo de golpe, para que o conjunto de acontecimentos que compõem os crimes denunciados ganhasse realidade, entrosando-se numa concordância de sentido e finalidade”, diz a PGR no documento.

Na Presidência, Bolsonaro acumulou uma série de declarações golpistas às claras, provocou crises entre os Poderes, colocou em xeque a realização das eleições de 2022, ameaçou não cumprir decisões do STF e estimulou com mentiras e ilações uma campanha para desacreditar o sistema eleitoral do país.

Após a derrota para Lula, incentivou a criação e a manutenção dos acampamentos golpistas que se alastraram pelo país e deram origem aos ataques do 8 de Janeiro.

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – É uma peça que exibe às escâncaras a incompetência da Justiça brasileira, e tende a ser aprovada com louvor, nesse tempo de falsos juristas. Não há provas de tentativa de golpe, apenas de planejamento, que não é crime. Além disso, para aumentar as apenas, o ministro Moraes incluiu dois crimes excludentes entre si – tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito e golpe de Estado.  Seria um ou o outro. Da mesma forma, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio público e deterioração do patrimônio tombado significam a mesma coisa, é a chamada justiça em dobro. (C.N.)

A grandeza poética da mulher, na visão realista de Adalgisa Nery

Tribuna da Internet | Uma declaração de amor profunda, sincera e absoluta, no poema de Adalgisa NeryPaulo Peres
Poemas & Canções 

A jornalista e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery por seu casamento com o pintor Ismael Nery, definiu a “Mulher” através das características que a vida lhe impõe.

MULHER
Adalgisa Nery

Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.

Trama golpista: a pergunta que deixou indignada a defesa de Mauro Cid

O tenente-coronel Mauro Cid no STF, antes de interrogatório

Advogado acusa Mauro Cid de também apoiar o golpe

Rafael Moraes Moura
O Globo

A defesa do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, ficou indignada com uma das perguntas formuladas nesta segunda-feira (14) pelo advogado Jeffrey Chiquini, responsável pela defesa do ex-assessor especial de assuntos internacionais Filipe Martins.

Martins é um dos réus que respondem à denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por envolvimento numa trama golpista para impedir a posse de Lula e manter Bolsonaro no poder.

CID GOLPISTA – Incisivo, Chiquini bombardeou Cid com uma série de questões sobre o teor de reuniões reservadas durante o governo Bolsonaro que ele relatou, o confrontou com documentos que constam nos autos – e insistiu se o tenente-coronel queria o golpe.

O questionamento sobre a opinião pessoal do delator sobre a trama golpista contrariou a defesa do militar, que fechou um acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal e depõe  na condição de informante.

A pergunta foi considerada “impertinente” pelo relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, que a indeferiu – e desobrigou Cid de ter que respondê-la.

MORAES INDEFERIU – “O advogado fez várias perguntas impertinentes, que não tinham relação com a causa em discussão. Uma delas foi no sentido de que ‘se o governador Tarcísio teria entrado no Alvorada na mesma data em que o Filipe Martins e se teria ido para tratar também sobre golpe de Estado”. Eu intervim e o ministro indeferiu, como o fez com outras tantas perguntas. No final, o ministro Alexandre o mandou ‘dar show em outro lugar, no X ou no YouTube'”, disse ao blog a advogada Vânia Bitencourt.

Ao longo do depoimento, Cid afirmou que Martins foi o responsável por apresentar a Bolsonaro a minuta de um documento que previa uma série de medidas para derrubar o resultado das eleições presidenciais, vencidas por Lula em 2022.

AJUSTES NO TEXTO – Segundo Cid, o documento previa a prisão de ministros do STF e do então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), mas Bolsonaro teria solicitado ajustes no texto para manter a medida apenas contra Moraes.

O STF iniciou nesta segunda-feira (14) uma série de depoimentos de testemunhas de defesa e acusação de outros três núcleos da trama golpista – o de gerenciamento de ações, de ações coercitivas e de operações estratégicas de desinformação.

As audiências vão ocorrer até o dia 23, em pleno mês de recesso no tribunal.

O desafio brasileiro diante do tarifaço de Trump

Charge do J.Bosco (oliberal.com)

Pedro do Coutto

O anúncio recente do presidente Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros — como aço, café, carne e alumínio — não apenas criou uma crise diplomática com o Brasil, como também desencadeou reações imediatas do governo Lula. Nesta terça-feira, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, anunciará que o governo editará um decreto para regulamentar a resposta brasileira ao impacto dessas tarifas.

Como se esperava, a reação interna foi de coesão: Lula contou com apoio expressivo da indústria nacional e de diferentes setores políticos. O sentimento geral é de que o Brasil precisa, com urgência, formular uma estratégia clara e assertiva para proteger suas exportações e sua base produtiva. A preocupação da indústria é palpável — afinal, os Estados Unidos seguem sendo um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, sobretudo em segmentos industriais de alto valor agregado.

RETALIAÇÃO – O situação escancarou o desconforto diplomático e também expôs uma verdade incômoda: o tarifaço de Trump ameaça diretamente o desempenho da balança comercial brasileira e a confiança nos acordos multilaterais. Lula, porém, evita o caminho da retaliação desordenada. Segundo fontes da Câmara Americana de Comércio, a expectativa é de que a medida brasileira siga princípios legais, possivelmente apoiada pela recém-regulamentada lei de reciprocidade.

Essa resposta, que deve vir na forma de um decreto ainda hoje, pode representar um ponto de inflexão na relação comercial Brasil-EUA. A equipe econômica trabalha sob forte pressão para encontrar uma saída que preserve os interesses brasileiros sem incendiar de vez a relação bilateral.

CAUTELA – Especialistas como Monica de Bolle (Peterson Institute for International Economics) e Cláudio Frischtak (Inter.B Consultoria) apontam que a medida de Trump pode estar mais vinculada ao cenário interno americano — uma tentativa de galvanizar apoio de setores industriais em estados-chave para sua reeleição — do que a qualquer justificativa econômica sólida. O próprio mercado financeiro americano reagiu com cautela, indicando que o aumento de tarifas poderá afetar também a cadeia produtiva dos Estados Unidos, especialmente em setores que dependem de insumos brasileiros.

A partir de 1º de agosto, o Brasil pretende aplicar sua nova estratégia comercial, que está sendo construída com base em dados técnicos, diálogo com o setor produtivo e forte articulação diplomática. O objetivo é duplo: mitigar os danos imediatos e evitar que o episódio crie jurisprudência para novos ataques protecionistas no futuro.

A crise, por mais grave que pareça, também traz uma oportunidade: revisar e fortalecer a política industrial brasileira, apostar em acordos comerciais mais diversificados e diminuir a dependência de mercados voláteis. Em tempos de nacionalismos exacerbados, manter a sobriedade e a legalidade como guia pode ser a chave para preservar a soberania sem perder o bom senso.

Governo americano volta a mencionar Bolsonaro para atacar Lula e Moraes

: There are ominous similarities between ‘color revolution’  tactics, efforts to oust Trump

Darren Beattie fez postagem em rede social sobre o Brasil

Deu em O Globo

O governo americano voltou a fazer ameaças ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por meio das redes sociais nesta segunda-feira.

Em um comunicado publicado em uma conta governamental da rede social X, o subsecretário Darren Beattie disse que o presidente dos EUA “impôs consequências há muito esperadas contra o Supremo Tribunal de (Alexandre de) Moraes e ao governo Lula por seus ataques a Jair Bolsonaro, à liberdade de expressão e ao comércio com os EUA”. O texto diz ainda que os EUA estão acompanhando de perto os desdobramentos no país.

RECIPROCIDADE – O comunicado foi divulgado no mesmo dia que o governo brasileiro assinou o decreto da Lei da Reciprocidade, uma alternativa ao tarifaço de 50% sobre os produtos importados do Brasil.

Beattie é subsecretário para Diplomacia Pública da Secretaria de Estado dos EUA, órgão que equivale ao Ministério das Relações Exteriores e é responsável pelas relações diplomáticas e pela facilitação de negócios com outros países, incluindo o Brasil.

No último dia 9, Trump enviou uma carta pelas redes sociais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, informando que iria taxar em 50% os produtos brasileiros importados pelos EUA em retaliação ao que chamou de “ataques insidiosos do Brasil contra as eleições livres e os direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”.

INVESTIGAÇÃO – Na carta, Trump diz ainda que determinou a abertura de uma investigação sobre supostas restrições à atividade de empresas de tecnologia americanas no Brasil e outras práticas comerciais desleais ou injustas, invocando a Seção 301 da Lei de Comércio americana.

A Seção 301 é um dispositivo da Lei de Comércio de 1974 dos Estados Unidos. A norma prevê a apuração de práticas estrangeiras desleais que afetam o comércio americano. Na prática, a medida funciona como um mecanismo de pressão internacional para defender os interesses dos EUA.

Outro patamar: EUA terão a maior tarifa média desde 1910 se Trump cumprir ameaças

LULA REAGE – Em resposta, o presidente Lula reforçou que medidas de retaliação já estão em estudo, sendo a principal delas a Lei da Reciprocidade, que permite ao país adotar sanções equivalentes às impostas por outros países.

Lula afirmou ainda que, além de desrespeitosa, a medida revela desconhecimento sobre a relação histórica entre os dois países e será respondida com firmeza pelo Brasil.

O petista disse que não é aceitável a diplomacia ser substituída por vídeos em redes sociais.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Comprem pipocas, porque também serão sobretaxadas. (C.N.)

Na véspera do AI-5, Roberto Marinho tentou humilhar o diretor de O Globo

Folha Online - Galeria de imagens

Marinho usou os militares para construir seu império

Carlos Newton

Muito interessante a comemoração dos 100 anos de O Globo, que serviu de base à formação de uma das maiores redes de comunicação social do mundo, que jamais poderia se formar em países verdadeiramente democráticos, porque neles a legislação não aceita que nenhum empresário possa deter tantas fatias de poder pessoalmente ou em sua relação com as autoridades dos três poderes.

Na festa dos 100 anos, é pena que os filhos não tenham a grandeza de traçar uma visão realista da organização e de seus criadores, preferindo exagerar na louvação a Roberto Marinho, cujos defeitos ultrapassavam em muito as possíveis qualidades.

AUTORITARISMO – Aliás, perscrutando em profundidade sua trajetória, a única qualidade que hoje consigo identificar em Marinho era a incontestável autoridade que exercia nas empresas e na vida pessoal.

Em sentido amplo, porém, essa qualidade pode ser também negativa, pois se transforma em autoritarismo, e realmente jamais conheci ninguém mais autoritário do que ele, pois os próprios filhos o chamavam de “Doutor Roberto”, embora não tivesse formação acadêmica.

Seu gabinete era colado na redação e havia uma porta, que ele raríssimamente usava. Em salas menores ficavam o diretor de redação e o editorialista, que eram os únicos que falavam diretamente com Marinho no dia-a-dia da Redação, além de Carlos Chagas, que escrevia a coluna de Política.

VÉSPERA DO AI-5 – Em 12 dezembro de 1968, uma quinta-feira de muito calor, o país estava fervendo com a tentativa de cassação do deputado Márcio Moreira Alves, devido a um pequeno discurso que pronunciara na Câmara, criticando o governo ditatorial e pedindo que as jovens não dançassem com os cadetes nos bailes de formatura das academias militares.

Era uma situação que começara ridícula e se tornava cada vez mais patética e perigosa. No início da noite, os editores se reuniam numa grande mesa, lá no final da Redação, para apresentar ao diretor Moacyr Padilha as matérias que mereciam sair na primeira página.

Abre-se a porta e Roberto Marinho entra na Redação. Faz-se um impressionante silêncio e só se ouvem os passos dele, que caminhava batendo os calcanhares no assoalho de madeira, e trazendo na mão um exemplar do jornal.

AUTORITARiSMO – Foi uma situação sinistra, a demonstrar o autoritarismo do dono de O Globo, que ostentava o título de diretor-redator-chefe, função que nunca exerceu. Ele não precisava fazer cena, bastava chamar a seu gabinete o diretor Padilha, um jornalista de vastíssima cultura e pessoa de finíssimo trato, filho do governador fluminense Raimundo Padilha. Mas o descontrolado Roberto Marinho queria humilhá-lo em plena Redação.

– Como é que vocês publicam essa entrevista do Djalma Marinho? – indagou bem alto, com aquela voz roufenha que o caracterizava.

Padilha, um homem muito educado, ficou lívido. Por acaso,  Roberto Marinho parara a meu lado, e vi que ele estava tão furioso que espumava pela boca, em meio ao silêncio constrangedor.

O QUE ESTÁ HAVENDO? – O editor de Política era o lendário Antonio Vianna, que tinha entrevistado o deputado Djalma Marinho, presidente da Comissão de Justiça, um jurista muito respeitado e que se manifestara contra a cassação de Moreira Alves.

– O que está havendo, Roberto? Nunca vi você assim. O assunto do momento é o caso Moreira Alves, e Djalma Marinho preside a Comissão que vai julgá-lo. Tínhamos de ouvi-lo.

Roberto Marinho caiu em si. Viu a bobagem que fizera ao humilhar Moacyr Padilha e não disse nada. Simplesmente virou as costas e voltou a seu gabinete, naquele caminhar de passos marcados, em meio ao silêncio dos jornalistas.

CORAGEM E MODÉSTIA – Quando a porta se fechou, todos os editores se levantaram das cadeiras e cercaram Vianna. O diretor Padilha estava impressionado e agradeceu. “Nunca vi ninguém tão corajoso quanto você. E ainda o chamou de Roberto!!!”

Modesto, Vianna tentou sair pela tangente: “Não tenho coragem, o que tenho é um cartório, que me dá uma situação financeira equilibrada. Assim, posso contestar nosso chefe e chamá-lo de Roberto, porque o conheço há 20 anos e somos amigos”.

Não era verdade. Vianna era tabelião do cartório mais furreca da cidade. O faturamento era tão pequeno que sua mulher e um de seus filhos tinham de trabalhar lá, para completar o orçamento familiar.

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P.S. 1
– E assim o AI-5 foi baixado no dia seguinte, uma sexta-feira, 13. Em tradução simultânea, Roberto Marinho sabia que o AI-5 seria assinado. Se fosse mais jornalista do que empresário, teria dado a notícia como manchete do Globo, mas não teve coragem para tanto.

P.S. 2 – Quanto a Antonio Vianna de Lima, sua coragem era conhecida. Foi ele quem salvou a vida de Carlos Lacerda, quando um deputado do PSD tentou matar o líder da UDN, no plenário da Câmara, que ainda funcionava no Rio de Janeiro. Se amanhã eu estiver melhor da gripe, vou tentar contar essa história, que raríssimas pessoas conhecem. (C.N.)

“Governo Lula já tinha acabado, mas tarifaço o ressuscitou”, afirma Bacha“

Trump tem mentalidade de comerciante e negocia ameaçando parceiros', diz Edmar  Bacha

Bacha comenta que Lula é um político que tem sorte

Alice Ferraz e Malu Mões
Estadão

Dedicado à vida acadêmica e às análises profundas, de caráter estrutural, Edmar Bacha evita se envolver com a conjuntura. Após anos acompanhando o noticiário em tempo real, hoje ele recusa entrevistas. Ainda assim, um dos pais do Plano Real e imortal da Academia Brasileira de Letras recebeu a Coluna Alice Ferraz duas vezes na semana passada: antes e depois do tarifaço de Donald Trump. Na primeira conversa, na segunda-feira, dia 7, foi categórico: “O governo Lula já acabou. Ele apenas não sabe”.

Já na sexta, dia 11, embora mantivesse o tom direto e ácido – marca registrada de Bacha –, o cenário havia mudado. “A situação dele foi da água ao vinho. Mais uma vez, Lula mostrou que nasceu com o bumbum virado para a lua.”

LULA RESSUSCITOU – O economista avalia que se repetirá no Brasil o que foi visto no Canadá, na Austrália e no México. “Ao fazer esses ataques tributários, Trump criou condições para que seus supostos aliados perdessem as eleições.” Esse é seu diagnóstico sobre a taxação de 50% às importações brasileiras: “Lula estava na corda bamba e Trump o ressuscitou”.

Para Bacha, o Brasil precisa ter uma atitude dura, mas não responder com um tiro no pé. “Retaliar com a reciprocidade nas tarifas vai acabar com o comércio entre o Brasil e os EUA.” A solução, segundo ele, será negociar – e, até lá, a incerteza paira.

“Trump é essa coisa maluca. Nunca se sabe se é ameaça ou se virá uma medida concreta. Esse é o problema. A incerteza é paralisante. Ninguém sabe que atitude tomar. E, nesse caso, é melhor esperar do que produzir.” O resultado? Será de prejuízo à economia global. “Minha dúvida é apenas sobre o grau do dano que vamos enfrentar.”

FREAR O CRESCIMENTO – A China também está no radar de Bacha. Em sua avaliação, a política mercantilista agressiva adotada por Xi Jinping tende a frear o crescimento global. “Se eles mantiverem o modelo atual, vai ser difícil para todos. Mas, se a China passar a priorizar o consumo interno, o país crescerá mais – e o mundo também.” Para ele, essa transição é fundamental para aliviar as tensões no comércio internacional.

Apesar das mudanças no contexto nacional, Bacha mantém o alerta para a falta de governabilidade. Uma das vozes mais respeitadas da economia brasileira, ele fala com a autoridade de quem já viu o presidencialismo de coalizão funcionar por dentro.

Durante o governo FHC, presidiu o BNDES e acompanhou de perto os bastidores do poder. “Naquele tempo, havia de fato uma partilha entre o Executivo e o Legislativo – mas o presidente mantinha o comando. Isso acabou. Lula não controla nada.”

EXEMPLO DO IOF – A crise ficou escancarada no episódio do IOF – medida proposta por Lula que Bacha classifica como “absurda”. Para o economista, o erro foi duplo. De um lado, o governo tentou utilizar o imposto como instrumento arrecadatório, o que ele considera inconstitucional. De outro, o Congresso respondeu com outra irregularidade: derrubou o decreto, também de forma inconstitucional. “É muito atípica a situação que estamos vivendo”, resume.

Bacha não minimiza os desafios atuais, mas argumenta que eles estão longe da complexidade do período em que esteve no setor público – marcado por uma hiperinflação de 3.000%.

Não por acaso, foi descrito em perfil da The Economist, em 2017, como um “lutador contra a inflação”, em referência ao seu papel central na criação do Plano Real.

SITUAÇÃO MAIS GRAVE – “Era outro Brasil. A situação era muito mais grave. O cenário externo também era desfavorável. Enfrentamos a crise da moeda mexicana em 1994, a dos países asiáticos em 1997, a da Rússia em 1998 – e a nossa própria, em 1999.”

O economista tem se dedicado à produção intelectual – entre artigos econômicos e a rotina como membro da Academia Brasileira de Letras, onde marca presença semanalmente. Está especialmente animado com a chegada da nova imortal, Ana Maria Gonçalves. Um Defeito de Cor, diz ele, é “o melhor romance brasileiro do século 21”. E elogia: “É um retrato extraordinário do Brasil do século 19, escrito de forma fascinante”.

Na próxima terça, dia 16, ele vestirá o fardão verde e dourado também para falar sobre as grandes potências globais. A ABL se transformará em sala de aula para Bacha abordar a evolução da ordem econômica mundial, do pós-guerra até antes do segundo mandato de Trump.

“Agora está uma confusão infernal, não dá para incluir enquanto o Trump estiver aí fazendo bagunça.” Mas o cenário a partir de 2029 estará presente. Bacha trará hipóteses de como deve ficar o cenário pós-Trump. Um spoiler: “O mais provável é um mundo ainda mais multipolar, com presença mais forte da China e da União Europeia, vis-à-vis aos EUA, que sofrem com a erosão de sua hegemonia”. A palestra também será transmitida ao vivo, já as inscrições para acompanhar presencialmente podem ser feitas neste link.

No meio da confusão, abre-se espaço para a famosa terceira via

Tarcisio de Freitas, governador de SP

Submissão a Bolsonaro faz Tarcísio perder muito espaço

Merval Pereira
O Globo

Não fossem Trump e Bolsonaro quem são, seriam surpreendentes os erros que cometem, um atrás do outro, na tentativa de evitar a punição deste último, que parece inevitável. Teria também o mesmo fim Trump, mas uma questão de prazo técnico, não de culpabilidade, o livrou da cadeia, pois foi eleito presidente, e com isso suspendeu o processo que pende sobre ele pelo mesmo crime, o de tentativa de golpe para impedir a posse do seu sucessor.

A Justiça brasileira, vejam só, foi mais ágil e mais eficaz que a americana, e Bolsonaro perdeu o direito de se candidatar por outro crime, cometido com a intenção de justificar perante os embaixadores dos principais países do mundo o golpe que se preparava para dar.

INELEGIBILIDADE – O timing político-eleitoral não foi favorável a Bolsonaro, pois ele foi condenado à inelegibilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em junho de 2023, enquanto Trump ainda não vencera a eleição americana, o que só veio a acontecer em janeiro de 2025.

Nesse intervalo, Trump tinha mais do que fazer. Mesmo, porém, se ainda não estivesse inelegível e dependesse da decisão do Supremo nesse processo de agora para poder se candidatar, é quase nula a possibilidade de o presidente dos Estados Unidos, ou de qualquer outro país, ter condições de interferir numa decisão da nossa mais alta Corte de justiça.

 Tanto Trump quanto os Bolsonaro cometem um erro crasso de imaginar que um país com instituições que resistiram a um golpe de Estado, notadamente o Supremo, possa submeter sua soberania às ordens de um simulacro de tirano de filme de James Bond.

MAIS ERROS – Portanto, quando anuncia, no alto de sua ignorância, que a única saída para evitar as sanções dos Estados Unidos seria anistiar seu pai, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro revela seu desconhecimento do país que pretende governar, além do desprezo pela soberania do país que o pai desgraçadamente governou.

É claro que ainda falta mais de um ano para a eleição, e nesse país em que tudo acontece, tudo pode acontecer para virar mais uma vez a roda da fortuna.

Até o tiro no pé imperialista (nunca esse clichê se mostrou tão adequado), a popularidade de Lula estava em decadência e a direita tinha um candidato com grandes chances de vencer a eleição do ano que vem. Hoje, já não há tanta certeza assim, e temos que esperar as pesquisas para constatar o estrago que esse arreganho autoritário provocou no sentimento do povo brasileiro.

NACIONALISMO – O fato é que o nacionalismo, tão explorado por Bolsonaro e os seus, nunca foi tão provocado quanto agora, e desta vez quem está do lado certo é Lula.

Mesmo os que já não viam com bons olhos a reeleição de Lula, examinando a possibilidade de apostar em um bolsonarista menos radical como o governador de São Paulo, estão hoje sem uma boia de salvação, pelo menos no momento.

Para obter as graças de Bolsonaro à sua candidatura, que pareceria bem encaminhada, Tarcísio de Freitas tinha que carregar certos fardos. Mas a atitude submissa de agora, sua falta de autonomia para se colocar a favor dos interesses nacionais contra uma agressão externa inaceitável, o coloca como um direitista radical, não um político de direita com propensão ao diálogo e mente mais aberta que seu tutor.

RECUPERAR APOIO – O certo é que o governador de São Paulo vai ter que fazer muita força para voltar a ter o apoio de uma parcela do eleitorado mais interessada no futuro do país do que no futuro dos Bolsonaro.

Se Tarcísio acha que os dois se confundem, não é o candidato procurado por larga parcela do eleitorado. Caberia a Lula aproveitar-se da situação de unidade nacional pela nossa soberania e voltar a atrair esse eleitorado que lhe fugia das mãos.

Para isso, porém, teria que retomar a postura de um candidato em busca da conciliação política e de união nacional. Não será fácil convencer os eleitores novamente, pois seu governo, até agora, é um fiasco nesse quesito, e promessa não cumprida, para reaver credibilidade, precisa de esforço maior e provas incontestáveis. Abre-se espaço para a famosa terceira via que quebre essa polarização que nos leva a um beco sem saída.

Barroso mostra seu estilo e responde com serenidade à agressão de Trump

Agência - TARIFA DE 50% | Em carta divulgada na noite de domingo (13), o  presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso,  afirma que a tarifa de 50% impostaVicente Limongi Neto

Muito boa, lúcida, firme, serena, esclarecedora e patriótica carta a nação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Roberto Barroso, repudiando declarações duras do presidente Donald Trump contra a soberania e a democracia brasileira. 

Nesta linha, domingo, no Correio Braziliense, a colunista Ana Dubeux, diretora de redação do jornal, antecipou-se a Barroso, publicando enfático artigo afirmando que “o Brasil não tem vocação para ser quintal”. Não é mesmo? Parabéns, Dubeux.

COPA DE CLUBES – O Chelsea fez por merecer o título de campeão da primeira Copa do Mundo de Clubes. Marcante competição, realizada nos Estados Unidos e patrocinada pela Fifa. O presidente da CBF, Samir Saud, já manifestou ao presidente da entidade, Gianni Infantino, que o Brasil pretende sediar, em 2029, a segunda copa do mundo de clubes.

O pleito, caso seja vitorioso, é excelente oportunidade para que a competição passe a contar e instituir a taça João Havelange ao clube campeão. Iniciativa justa para quem dedicou a vida ao desenvolvimento do futebol, brasileiro e mundial.

Na presidência da Fifa, de 1974 a 1998, Havelange transformou a entidade em potência respeitada e milionária. Havelange incluiu nações africanas e asiáticas nas Copas do Mundo. Uniu o mundo com o futebol. Como presidente da então CBD, Havelange conquistou três copas do mundo.

FALSO HUMOR – O brasileiro não merece, ao ver o domingo se encaminhando para a segunda-feira, ter que engolir uma nova porcariada global. Uma TV que se gaba de ser rica e moderna deveria ter vergonha na cara e produzir um novo programa que pelo menos tente deixar o telespectador animado na hora de botar a cabeça no travesseiro.

Ao invés disso, jogar na poltrona dos brasileiros uma descarada apelação fantasiada de programa de humor. Coisa mais desprezível e agonizante para fechar o domingo. Os humoristas de araque usam a ingênua plateia em troca de 50 reais. Princesa Isabel precisa reencarnar e dar dura bronca na falta de sensibilidade da destrambelhada e sovina direção de um amontoado de bobagens chamado torpe e infamemente de programa “aberto ao público”.

O Programa Silvio Santos é mais generoso, paga 100 reais para a ruidosa plateia. Sem usar artimanhas e piadinhas medonhas.  Francamente. Chico Anisio, Renato Aragão, Jô Soares, Costinha, Golias precisam ser respeitados. Decadência televisiva é isso. 

Pela primeira vez, um governante americano interfere em eleição  no  Brasil

Um homem de cabelo loiro e curto, vestido com uma camisa branca e um paletó escuro, está falando em um microfone. Ele parece estar expressando uma opinião forte, com as mãos gesticulando. Ao fundo, há uma escadaria e vegetação, sugerindo que a cena ocorre em um ambiente externo, possivelmente em um jardim ou pátio.

Trump quer que o Brasil abandone a China e a Rússia

Elio Gaspari
O Globo

Desde 2005, quando Bush 2 impôs sanções específicas contra a ditadura venezuelana, não se via coisa igual. A sanção de 50% contra o Brasil, atingindo todas as exportações nacionais, foi geral, ampla e irrestrita.

As primeiras sanções contra a Venezuela foram pontuais, contra pessoas. A carta de Trump tem 496 palavras e as 65 do primeiro parágrafo tratam de Jair Bolsonaro com clareza cristalina: “A forma como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma Caça às Bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!” (ênfase dele).

DEFESA DAS TARIFAS – Segue-se o anúncio e a defesa das sobretaxas. Valendo-se de mais uma realidade paralela, Trump disse que elas compensarão políticas comerciais que “causaram (…) déficits comerciais insustentáveis contra os Estados Unidos. Esse déficit é uma grande ameaça à nossa economia e, de fato, à nossa segurança nacional!”.

Na verdade, desde 2009 os EUA têm superávit comercial com o Brasil. A batatada sugere que o texto não passou pelo crivo dos profissionais do Departamento de Estado.

O sujeito da carta de Trump é Jair Bolsonaro e num só dia ela funcionou como um toque de alvorada para a oposição ao governo de Lula. Alinharam-se, com graus variáveis de clareza, os governadores de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, todos candidatos à sucessão de Lula.

FALAR EM DIÁLOGO – Dos presidentes da Câmara e do Senado, com um dia de atraso, saiu uma nota que não condenou o tarifaço de 50% e falou em “diálogo”, palavra que não aparece na carta de Trump. Pelo contrário, o que há lá é uma exigência de que “IMEDIATAMENTE!” seja suspensa a “Caça às Bruxas” que ele vê no julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, de Bolsonaro e dos envolvidos na trama golpista de 2022/23.

Impertinente na forma e nos objetivos comerciais, a carta de Trump embute uma novidade: pela primeira vez na história, um governante americano se coloca como patrono de um candidato à Presidência do Brasil.

Pior: presidentes americanos mal sabiam seus nomes e jamais mandaram um filho para batalhar por ele acampando em Washington. No limite, em 1964, o general Castello Branco tinha apenas a simpatia do adido militar americano, coronel Vernon Walters, seu companheiro de barraca na Itália, durante a Segunda Guerra.

Empresas de Trump acionam Justiça dos EUA contra nova decisão de Moraes

Trump publica foto alterada em que dá medalha a cachorro ferido em ação  contra terrorista - 30/10/2019 - Mundo - Folha

Trump já soltou a cachorrada para cima de Moraes

Rafaela Gama
O Globo

A rede social Rumble e a empresa Trump Media & Technology Group protocolaram nesta segunda-feira uma nova petição na Justiça americana contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A manifestação, à qual O Globo teve acesso, questiona uma ordem encaminhada pelo magistrado para as plataformas na semana passada.

Na última sexta-feira, o magistrado determinou o bloqueio total no Brasil de um perfil do comentarista bolsonarista Rodrigo Constantino, além do compartilhamento de dados do usuário, sob pena do pagamento de multas diárias de RS 100 mil (cerca de US$ 20 mil).

DIZEM AS EMPRESAS – Em resposta protocolada na Justiça da Flórida, as empresas de Trump afirmaram que a decisão de Moraes seria irregular, uma vez que o perfil do blogueiro na plataforma estaria inativo desde 2023 e a plataforma, como um todo, segue proibida no Brasil também por decisão do ministro.

Na petição, ambas também argumentam que Constantino é um “cidadão americano” que “já foi alvo do juiz Moraes por meio de suspensões de suas contas em plataformas de mídia social, processos criminais retaliatórios no Brasil, invalidação de seu passaporte brasileiro e congelamento de bens. A manifestação também questiona o envio da notificação pelo magistrado por e-mail.

A escolha desse canal se contrapõe, segundo representantes da rede social, a uma carta enviada pelo Departamento de Justiça dos EUA ao ministro neste ano, orientando que, para manifestações de outros países serem válidas, as ordens precisam passar por um procedimento diferente do envio por e-mail.

ORDEM ESPÚREA – “A ordem não foi entregue através de qualquer mecanismo legal de tratado e parece ter sido emitida sem notificação ao governo dos EUA”, diz a petição.

“No início desta manhã, o Rumble entrou com uma moção na Justiça Federal expondo uma nova ordem emitida pelo juiz Alexandre de Moraes, ameaçando multas de US$ 20.000 por dia caso não entregássemos dados de usuários dos EUA a ele. A ação ocorreu 48 horas após a carta de Donald Trump. Moraes agora está agindo sozinho?”, escreveu Martin de Luca em uma postagem no X.

No mês passado, ambas as empresas pediram o pagamento de uma indenização por Moraes por prejuízos à reputação, perdas de receita e oportunidades de negócio. O pedido foi protocolado a partir de um adendo na ação judicial contra o magistrado no Tribunal do Distrito Médio da Flórida, nos Estados Unidos.

PRIMEIRA EMENDA – Desde fevereiro, as plataformas acusam o ministro de violar a Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de expressão, ao ordenar a remoção de contas de influenciadores brasileiros de direita na Rumble e por outras “tentativas de censura”.

As companhias também solicitam que as ordens emitidas por Moraes sejam declaradas inexequíveis em território norte-americano, por supostamente violarem a Primeira Emenda e leis locais, como a Lei de Decência nas Comunicações. Além disso, Rumble e Trump Media pedem que seja reconhecida a responsabilidade pessoal de Moraes pelas alegadas violações. Diante da repercussão, o governo brasileiro escalou a Advocacia-Geral da União (AGU) para acompanhar o caso e avaliar as acusações feitas contra o ministro do STF.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Esta é a parte mais importante da briga. Ao final, se saberá o que muita gente já sabe: Moraes extrapolou nos julgados, emporcalhou a Primeira Emenda e ainda multou as empresas prejudicadas por ele. O ministro começou toda a encrenca e a bomba vai explodir no colo dele, como se estivesse estacionando no RioCentro. (C.N.)

A máxima “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” agora é brasileira

Charge: 'Me chama de patriota'. Por Duke

Charge do Duke (Dom Total)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Agora somos todos patriotas. A máxima “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” é algo que nós, brasileiros, deveríamos ter junto ao nosso coração. Em 2022, “patriotas” era um termo que os bolsonaristas usavam para si. “Patriotas” invadiram a Praça dos Três Poderes.

Chegou a hora de a galera do outro lado da babaquice nacional dizer que o Brasil nunca usará uma camisa azul, vermelha e branca? Toda a intelligentsia zoava os patriotas bolsonaristas. Agora vestem a camisa da seleção brasileira com orgulho.

RIDÍCULO HUMILHANTE – O “Lulanistão” deprime. Ser obrigado a conviver com o ridículo do novo patriotismo é humilhante. Quando se pensa que atingimos o fundo do poço, vamos mais fundo.

O crítico literário americano Lionel Trilling (1905-1975) dizia que o historiador romano Tácito (século 1º d.C.) escrevia como um intelectual sem nenhuma esperança para com a Roma dos ditadores. Seria uma obrigação moral dos historiadores brasileiros escrever agora sobre o Brasil sem nenhuma esperança?

“Agora somos todos o STF!” A direita, sempre burra, atirou no próprio pé. Trump deu uma sobrevida a um regime, o lulismo, que respira por aparelhos. A chance de sair do coma foi dada de bandeja pelo Trump.

ACENDER VELAS – Ao contrário de xingarmos o presidente americano —e não me venham com expressões ridículas como “estadunidense”—, a galera do outro lado da babaquice nacional deveria acender velas para ele.

Bandeiras americanas queimadas na Paulista! Oh! Finalmente o Brasil foi lembrado pelos americanos. O vira-lata em nós tem um dia de cachorro de madame. Banho e tosa numa clínica de pets chiques.

Na verdade, o Trump ter lembrado de taxar o Brasil significa que, depois de um longo e tenebroso inverno, os ianques lembraram que nós existimos. Da irrelevância geopolítica absoluta, temos nossos 15 minutos de fama internacional.

NOSSA ESTRATÉGIA – E como conseguimos tal proeza? Lambendo as botas de Putin, indo celebrar o fim da Segunda Guerra Mundial na pátria da grande guerra patriótica —os russos chamam a Segunda Guerra Mundial assim.

Lula, ao lado da fina flor das democracias mundiais, lambendo as botas dos chineses, com a chefe da diplomacia nacional rogando para que eles nos ensinem a defender nossa democracia dos seus inimigos —assim como os chineses defendem a democracia deles, claro.

Lambendo as botas do regime teocrático iraniano, pátria do respeito aos povos, vítima da “agressão americana e sionista”. Gozando com a ideia de criar uma moeda que “desdolarize” a economia global.

EIXO DE RESISTÊNCIA – Enfim, temos a nossa “crise dos mísseis em Cuba”. Lula quer fazer do seu quintal “Lulanistão” a cabeça de ponte dos regimes não democráticos do mundo. Glória nacional, finalmente. Lula quer transformar o Brasil no representante do “eixo da resistência global” contra a ameaça americana à liberdade. Sendo esta, claro, defendida por China, Rússia e Irã.

A liderança brasileira é regredida. Bolsonaro, por sua vez, exige que o Supremo agilize seu processo, contando, claro, com o poder do seu amigo rico, Trump.

 A miséria da política nacional atinge seu clímax. Deveríamos fazer um minuto de silêncio para a vergonha nacional. A incompetência é o combustível do Brasil nos últimos tempos.

É UM CIRCO – É possível que Trump, de fato, esteja preocupado com o Bolsonaro —essa outra face do ridículo nacional? Ainda custo a acreditar, apesar de que o presidente americano reforça bem a suspeita de que o mundo seja mesmo um circo.

Achar que pode se meter num processo jurídico de outro país é coisa de gente de inteligência duvidosa mesmo. Somos sim a república das bananas, mas deixamos claro que as bananas são nossas e não do Trump.

Enquanto os brios da nação verde oliva acordam —para um pesadelo—, o país continua no buraco. O governo federal continua gastando rios de dinheiro para manter o populismo vivo e atuante no “Lulanistão”.

CRIME ORGANIZADO – Patinamos na nossa incompetência. A soberania nacional —essa expressão que no Brasil de hoje tem tanta segurança semântica quanto a palavra “energia espiritual”— está quase perdida para o crime organizado, mas os novos patriotas acham que as big techs é que são a ameaça a essa pretensa soberania.

A ditadura também falava em soberania nacional. As forças armadas também falavam em soberania nacional. Todos ridicularizados. Agora é “cool” falar dela.

Aliás, ela vai bem obrigado na tão cantada em prosa e verso Amazônia, território colonizado em grande parte pelo mesmo crime organizado, esse sócio do mercado, do governo e de todos nós, enquanto nos matam, nos roubam e nos perseguem nas ruas a pauladas. Festa no “Lulanistão”. Cantemos nosso hino.

Num diálogo de amor, lá vai Adélia Prado pela rua, no caminho do céu

Tribuna da Internet | Adélia Prado declara amor ao mundo, apesar do  sofrimento inerente à vidaPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas não teve dúvidas ao definir um diálogo de amor e afirmar que, um “Poema Começado do Fim” pode levar até o caminho do céu.

POEMA COMEÇADO DO FIM
Adélia Prado

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido,
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear,
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Trump e Lula violaram seguidamente princípios que agora invocam sobre tarifas

Glenn Greenwald deixa o Intercept e alega censura em artigo sobre Biden - ISTOÉ DINHEIRO

Greenwald mostra que conhece bem a política brasileira

Glenn Greenwald
Folha

As reações ao anúncio do governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros foram, como era de esperar, intensas e apaixonadas. Diversos princípios nobres foram invocados por todos os lados para justificar suas posições. No entanto, a natureza enganosa e meramente pretextual desses “princípios” torna-se imediatamente evidente diante do mais leve exame crítico.

Primeiro, temos o presidente Donald Trump posando como defensor da liberdade de expressão e inimigo implacável do abuso do poder e do autoritarismo. Tenho escrito e reportado repetidamente sobre os perigos do crescente regime de censura e os diversos abusos de poder liderados pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Este jornal já se posicionou editorialmente contra tais excessos.

IDEIA RISÍVEL – Mas a ideia de que o presidente Trump se incomoda com isso é, no mínimo, risível. Nenhum presidente americano —e certamente não Trump— se incomoda com a tirania. Ao contrário: um dos pilares centrais da política externa dos EUA tem sido apoiar, financiar e armar os ditadores mais selvagens do mundo, desde que sirvam aos interesses americanos.

Os EUA, durante décadas, derrubaram governos democraticamente eleitos e apoiaram a sua substituição por marionetes mais úteis: no Irã, na Indonésia, no Chile, no Brasil e, mais recentemente, em Honduras (2009), no Egito (2013), na Ucrânia (2014) e na Bolívia (2019).

Há apenas dois meses, Trump visitou e elogiou efusivamente os mais próximos —e mais tirânicos— aliados dos EUA: as ditaduras da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar.

MAIS EXEMPLOS – E tudo isso é independente dos ataques descarados à liberdade de expressão promovidos pelo próprio governo Trump. Ele puniu e até deportou pessoas pelo “crime” de criticar Israel ou de zombar de autoridades americanas. Também exigiu que as principais universidades adotem regras de “discurso de ódio” que proíbam diversas críticas a Israel.

Quaisquer que tenham sido os motivos de Trump ao impor tarifas ao Brasil, a preocupação com os perigos do autoritarismo certamente não está entre eles.

Em seguida, temos os “princípios” invocados com fúria por Lula e pelo STF ao condenarem a tentativa de Trump de ditar os rumos do Brasil. “O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”, declarou Lula em resposta ao anúncio de Trump.

DESDE QUANDO? – Lula acredita que o Judiciário brasileiro é “sólido e independente”? Desde quando? Em 2018 e 2019 —quando foi condenado por esses mesmos tribunais (com aprovação do STF, inclusive o herói nacional da esquerda, Moraes) —, Lula e seu partido pediram, insistentemente, que outros países e organizações internacionais interviessem, acusando o Judiciário de ser fundamentalmente corrompido, politizado e incapaz de julgar Lula com imparcialidade.

Ao pedir à ONU (Organização das Nações Unidas) que anulasse a condenação de Lula, seu advogado argumentou que Lula “não pode obter justiça no Brasil sob o sistema inquisitorial vigente”, pois o mesmo juiz que investiga é o que decide a culpa —exatamente o mesmo sistema que hoje se aplica a Bolsonaro e seus aliados, nos quais Moraes atua simultaneamente como investigador, julgador e, às vezes, até como suposta vítima.

PRESO POLÍTICO – Além de pedir que a ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos) anulassem decisões do STF sobre Lula, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, deu uma entrevista à Al Jazeera em 2018.

Ela chamou Lula de “preso politico”, ressaltou a amizade histórica de Lula com o mundo árabe e pediu que as nações árabes agissem para pressionar por sua libertação (o procurador-geral da República anunciou uma investigação para determinar se a parlamentar petista “atentou contra a soberania nacional”).

Mais grave ainda: o próprio STF incentivou a interferência do governo Biden nas eleições presidenciais brasileiras de 2022. Após o envio do diretor da CIA (agência americana de inteligência) e de outros emissários a Brasília para advertir Jair Bolsonaro (PL) a não questionar o resultado eleitoral, o presidente do STF, Luís Roberto Barroso, admitiu em um discurso em Nova York que ele mesmo havia pedido pelo menos três vezes que o governo dos EUA se envolvesse.

APOIO DECISIVO – Celebrando essa interferência, o ministro afirmou que ela representou um “apoio decisivo… porque os militares brasileiros não gostam de se indispor com os Estados Unidos”.

O governo Trump se opõe a abusos de poder e a ataques à liberdade de expressão? Depende do que lhe convém no momento. Lula realmente acredita que as instituições judiciais brasileiras são independentes e confiáveis? O STF é mesmo contra qualquer interferência americana nas instituições políticas do país? A resposta é a mesma.

Há muito em jogo nesse conflito entre Estados Unidos e Brasil. Princípios universais e genuinamente defendidos, no entanto, não estão entre eles.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
É impressionante constatar que o jornalista Gleen Greenwald, americano e com poucos conhecimentos sobre o Brasil, analisa melhor a política brasileira do que quase todos os nativos.  Tudo fica muito claro. (C.N.)

Eduardo Bolsonaro entre o patriotismo de fachada e a dependência de Trump

Charge de Mário Adolfo (marioadolfo.com)

Pedro do Coutto

Eduardo Bolsonaro voltou ao centro do debate político com declarações inflamadas e carregadas de contradições. De sua residência nos Estados Unidos, o deputado federal licenciado e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro gravou um vídeo em que desafia o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a incluir Donald Trump no inquérito das fake news.

Com tom provocador, Eduardo chamou Moraes de “frouxo” e insinuou que o ministro estaria “com medo” da aplicação da Lei Magnitsky, uma norma americana que permite sanções a autoridades estrangeiras acusadas de violar direitos humanos. O gesto, no entanto, revela mais do que ousadia — expõe um comportamento contraditório e perigosamente ambíguo.

APELAÇÃO – Enquanto se apresenta como defensor da soberania nacional, Eduardo Bolsonaro apela, sem pudor, a pressões de um governo estrangeiro contra instituições brasileiras. Cobra coragem e firmeza de um ministro do STF, mas ao mesmo tempo se exila politicamente nos EUA e atua como porta-voz informal de Trump, anunciando que o presidente americano vai “vir para cima” de Moraes e até de sua esposa.

A suposta defesa da liberdade de expressão parece ceder lugar a uma forma de chantagem diplomática: ameaçar autoridades brasileiras com sanções americanas, como se os interesses nacionais pudessem ser subordinados aos ventos da Casa Branca. Não há soberania possível quando se tenta resolver impasses institucionais internos com intimidação externa.

Outro ponto gritante é a sequência de promessas e prazos não cumpridos. Desde maio, Eduardo vem garantindo que as sanções contra Moraes estariam prestes a ser aplicadas, ora em “duas ou três semanas”, ora “nos próximos dias”. Até agora, nada foi oficializado, e nem mesmo o Departamento de Estado americano confirmou qualquer medida.

SEM CREDIBILIDADE – A repetição desse padrão enfraquece sua credibilidade e sugere que mais do que articulação política, há um jogo de cena, uma encenação performática que busca alimentar o bolsonarismo digital com manchetes inflamadas e promessas vazias.

Eduardo também costuma repetir que suas ações são em nome do povo brasileiro, tentando vestir a capa de defensor das liberdades. Mas ao recorrer à Lei Magnitsky — criada originalmente para punir regimes autoritários que perseguem opositores — contra ministros do Judiciário, ele distorce o espírito da norma e instrumentaliza uma política de Estado estrangeira para interesses pessoais e ideológicos.

Acaba promovendo aquilo que diz combater: a interferência externa nas decisões soberanas do Brasil. Nesse jogo de inversões, quem defende a democracia termina por flertar com o autoritarismo, e quem diz lutar contra a censura adota práticas de intimidação.

ATAQUES – As contradições não param por aí. Ao denunciar o que chama de abusos do STF, Eduardo Bolsonaro deixa de mencionar seu próprio histórico de ataques às instituições — de flertes com o fechamento do Congresso ao já infame vídeo em que sugere um “novo AI-5”. Sua crítica à atuação de Moraes também ignora que ele próprio é alvo de investigações sobre disseminação de fake news, suspeitas que não se dissiparam mesmo após sua mudança para os Estados Unidos.

No fim das contas, o discurso moralista que empunha contra o Judiciário esbarra em sua própria trajetória política, marcada por excessos verbais, teorias conspiratórias e uma retórica de confronto permanente. O caso recente reforça uma faceta conhecida do bolsonarismo: a de que a lógica do “nós contra eles” precisa ser alimentada continuamente.

Eduardo Bolsonaro não apenas age como uma extensão ideológica do trumpismo em solo brasileiro — ele parece querer ser o elo entre dois projetos políticos que compartilham estratégias semelhantes: deslegitimar instituições, atacar a imprensa, alimentar suspeitas sobre processos eleitorais e judicializar adversários. Ao fazer isso, se coloca não como parlamentar atuante, mas como agitador profissional em busca de palco.

INCONSISTÊNCIA – comportamento recente de Eduardo Bolsonaro é revelador não apenas por seu conteúdo, mas por suas inconsistências. Ataca quem acusa de ser covarde, enquanto se abriga na proteção de Trump. Fala em patriotismo, enquanto roga por sanções de Washington.

Prega por democracia, mas tolera intimidação. Anuncia medidas que não se concretizam. Seu discurso, ao fim, é menos sobre o Brasil e mais sobre manter viva uma narrativa política que o sustenta: a do combate permanente, mesmo que à custa da coerência.