“O relator ganhou”: bastidores da derrota de Vorcaro no Supremo vêm à tona

“Bolsonarismo” de Neymar é irrelevante quando o que interessa é ganhar a Copa

Neymar com Flávio e Jair Bolsonaro

Neymar apoiou Bolsonaro e Flávio nas eleições de 2022

José Pereira Coutinho
Folha

Mérito é palavra feia nas sociedades igualitárias em que vivemos. Como falar de mérito quando cada indivíduo é um caso à parte, com sua história de vida, sua família, sua educação e seus contatos? O esforço conta. Mas, em certos contextos, conta menos do que imagina a meritocracia. Quem nasce pobre, sem saúde, sem pais presentes, sem grandes possibilidades de ascensão social, já parte vários quilômetros atrás na corrida até a meta.

Concordo com o argumento, até certo ponto. Mas abro uma exceção: o futebol. Nas outras atividades, a biografia e a sorte podem ter a palavra decisiva. No futebol, ambas se reduzem ao essencial: mérito ou falta dele.

COM TALENTO – Existem “nepo babies” em todas as áreas: empresários filhos de empresários, jornalistas filhos de jornalistas, advogados filhos de advogados e por aí vai. Mas jogadores filhos de jogadores só sobrevivem na competição selvagem do gramado se tiverem talento para mostrar.

Nunca vi um técnico escalar o próprio filho para o time titular se o filho tem dois pés esquerdos. O time, a torcida, a mídia e o resultado do jogo acabariam com as duas carreiras.

Infelizmente, a “hiperpolítica” já invadiu o último reduto da mais pura excelência humana. Devo esse termo ao filósofo Anton Jäger, em ensaio com esse título, que assim descreve o mundo em que vivemos desde 2016: tudo é política, mesmo o que não é. Tudo é protesto, indignação viral, luta fratricida –e virtual. Um excesso de ruído que dura pouco e rapidamente se converte em nada para ser tomado por novo protesto, nova indignação, nova luta.

PESSIMISMO – Eu mesmo assisti a isso na minha recente passagem pelo Brasil. Há Copa do Mundo no próximo mês? O país não está excitado. Nem otimista. Falar do hexa é quase um insulto para os brasileiros, que já preveem derrotas históricas contra Marrocos, Haiti e Escócia.

Como português, posso compreender a ansiedade com Marrocos: histórica e futebolisticamente, daquelas bandas nunca veio coisa boa. Até um rei lusitano ficou por lá, numa batalha traumática que nos custou a independência para a Espanha no século 16. Mas prudência não é o mesmo que desistência antes de o torneio começar.

Só um nome, porém, anima metade dos torcedores: Neymar. Curiosamente, é o mesmo nome que deprime ainda mais a outra metade.

POLARIZAÇÃO – Como se explica essa polarização afetiva em torno do jogador? Ora, com a própria polarização política, como mostrou uma pesquisa repercutida pela revista Veja.

A maioria à direita apoia a escolha de Carlo Ancelotti de levar Neymar para a Copa. A maioria à esquerda se opõe: não por razões técnicas ou táticas; as razões são ideológicas. Um apoiador de Bolsonaro não deveria vestir a camisa da seleção.

Eu rio. A única questão que deveria mover os brasileiros era saber se o jogador está apto a contribuir para as vitórias. Nada mais. Suas escolhas políticas, gastronômicas, musicais ou íntimas seriam irrelevantes quando o assunto é mais básico: ganhar ou perder.

BOM COMPORTAMENTO – Mas a “hiperpolítica” não perdoa, derrubando até a lógica meritocrática que fazia do futebol um reino de justiça à parte. O que me leva a perguntar: o que seria da seleção brasileira se os seus jogadores tivessem de passar primeiro por um teste de pureza ideológica?

E o que teria sido do Brasil se esse teste já existisse em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002?

A essas perguntas eu respondo: nem penta, nem hexa. Apenas uma bela medalha de participação – com certificado de bom comportamento político.

Moraes tentou escapar do processo que Trump move contra ele, mas se deu mal

charge de Thiago Lucas (@thiagochargista), para o Jornal do Commercio.  #EduardoBolsonaro #trump #tarifa #bolsonaro #moraes #stf #justiça  #julgamento #brasil #chargejc #chargejornaldocommercio #chargethiagojc  #chargethiagolucas #chargethiagolucasjc #digital

Charge de Thiago Lucas (Jornal do Commercio)

Carlos Newton

A vaidade é um dos piores pecados capitais, que no início eram oito, incluindo a melancolia, que depois foi anexada à preguiça. “”Vanitas vanitatum, et omnia vanitas” é a famosa expressão latina que significa: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. O célebre ditado ridiculariza a futilidade das ambições diante do envelhecimento e da morte, em citação bíblica do livro do Eclesiastes, no Antigo Testamento, atribuído ao Rei Salomão, ao refletir sobre o propósito da vida terrena.

No Brasil de hoje, não há exemplo maior de vaidade do que o ministro Alexandre de Moraes, que tinha todas as virtudes para se tornar um cidadão exemplar, mas se perdeu inteiramente na tentação desse execrável pecado capital.

SEM LIMITES – A vaidade dominou se tal maneira o ministro da Suprema Corte que o levou a atuar como um magistrado internacional soberano, cujo poder não conhecesse limites no tempo e no espaço. Assim, sua autoconfiança chegou a tal ponto que ele tomou decisões judiciais a serem cumpridas pela Justiça de outros países, inclusive mandando prender oposicionistas e exercer censura nas redes sociais.

Agora, a vaidade cedeu lugar à melancolia. A Justiça Federal da Flórida autorizou nesta sexta-feira, dia 22, a Rumble e a Trump Media, dona da rede social Truth Social, a citarem por e-mail o ministro Alexandre de Moraes em uma ação movida nos Estados Unidos contra suas determinações abusivas à Justiça americana.

Como diz o jornalista Mario Sabin, o ministro do STF agora tem 129 milhões de motivos para estar melancólico. De repente, tudo dá errado. Num dia, ele manda o governo brasileiro extraditar Carla Zambelli, e no dia seguinte vem a notícia de que a ex-deputada foi inocentada pela Suprema Corte da Itália, porque a condenação dela foi rigorosa demais, equivalendo a uma concreta perseguição política.

FUGINDO DA JUSTIÇA – Quanto ao processo de Trump, durante seis meses o ministro Moraes fugiu da Justiça, negando-se a receber os oficiais de justiça que tentavam lhe entregar a citação enviada pela matriz USA.

Agora, não adianta mais se esconder aqui na filial Brazil, porque o processo vai avançar na Flórida. Se Moraes não contratar um advogado e contestar a denúncia, será julgado como revel e condenado, o que significará mais uma vergonha para o Brasil.

A ação foi apresentada em 2025 pela Rumble e pela Trump Media, empresa que pertence ao presidente  Donald Trump. Segundo a petição citada no despacho, as empresas acusam Moraes de violar preceitos da liberdade de expressão nos Estados Unidos ao enviar ordens para retirar conteúdo publicado no Rumble e pede que suas decisões sejam consideradas ilegais no país.

CONDENAÇÃO CERTA – A acusação mostra que as determinações de Moraes violaram a liberdade de expressão protegida pela Primeira Emenda da Constituição, além de outras leis dos EUA que regulam a responsabilidade de plataformas digitais.

As empresas Rumble e Trump Media denunciam terem passado meses tentando citar Moraes pelo procedimento internacional previsto na Convenção da Haia. Mas o Superior Tribunal de Justiça pediu manifestações da Procuradoria-Geral da República e da Advocacia-Geral da União antes de encaminhar a citação para cumprimento por um juiz federal.

O pior é a tentativa de Moraes se esquivar da Justiça americana, com a Procuradoria bloqueando a citação e o STJ colocando sob sigilo o processo. E a Justiça americana registrou essas alegações no despacho, agravando a situação de Moraes.

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P.S. –
O Brasil é um país tão surrealista que o presidente Lula, ao se encontrar com Trump na Casa Branca, ao invés de defender os interesses nacionais, entregou ao presidente americano um pedido para liberar o visto de Moraes e outras autoridades brasileiras. Com isso, Lula demonstrou que realmente não tem medo do ridículo. (C.N.)

Cármen Lúcia vê “retrocesso” e vota contra flexibilização da Lei da Ficha Limpa

Ministra defendeu restaurar prazo maior de inelegibilidade

Luísa Martins
Folha

A ministra Cármen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), votou para derrubar as alterações feitas pelo Congresso Nacional na Lei da Ficha Limpa e restaurar o texto original, que previa um prazo maior de inelegibilidade.

O projeto aprovado pelo Senado em setembro de 2025 prevê inelegibilidade de oito anos a partir da data da condenação. No entanto, a ministra entende que deve voltar a valer a redação anterior, em que os oito anos só começam a contar a partir do fim do cumprimento da pena.

PATENTE RETROCESSO – Cármen, relatora da ação, afirma que as alterações do Congresso “estabelecem cenário de patente retrocesso ao que se tinha estabelecido como instrumento de garantia dos princípios republicano, da probidade administrativa e da moralidade pública”.

O julgamento do caso no STF ocorre em plenário virtual, em que os votos são depositados por escrito. Os demais ministros ainda não se manifestaram. A sessão vai até 29 de maio, mas pode ser interrompida se houver pedido de vista ou de destaque para o plenário presencial.

Para a ministra, o STF tem o compromisso de afastar “quaisquer comportamentos e atos que impeçam, dificultem ou embacem a probidade administrativa e a moralidade pública”. Segundo ela, as mudanças são “incompatíveis com o modelo constitucional democrático e republicano”.

“IMPUNIDADE OU ANISTIA” – Cármen afirma que as alterações na Lei da Ficha Limpa podem “desguarnecer o eleitor da salvaguarda da lisura das candidaturas apresentadas” e significam possível “impunidade ou anistia”, capazes de comprometer a integridade do processo eleitoral.

A ONG Transparência Internacional divulgou comunicado com críticas à flexibilização da Ficha Limpa. Segundo a organização, o texto representa um retrocesso para os esforços de combater a corrupção e de impedir a infiltração do crime organizado nas eleições brasileiras.

Mercado financeiro evita associação pública com Flávio Bolsonaro após caso Vorcaro

Empresários da Faria Lima pediram sigilo em reuniões

Deu na CNN

O mercado financeiro tem evitado associação pública com Flávio Bolsonaro (PL) após a revelação de conversas e encontros do pré-candidato com Daniel Vorcaro. A informação foi apurada pela analista de Política Larissa Rodrigues junto a empresários da Faria Lima e detalhada por ela ao Bastidores CNN.

Larissa relatou que as conversas na Faria Lima ocorreram em menor número do que a pré-campanha pretendia, pois muitos participantes desistiram de última hora. Além disso, até aqueles que aceitaram se reunir com Flávio Bolsonaro pediram expressamente que seus nomes não fossem divulgados.

“MUITO PERIGOSO” – “Não se divulgou onde eram essas agendas e nem com quem. Nesse momento, ali na Faria Lima, Flávio Bolsonaro é tido como ‘muito perigoso’, e não seria o momento para aproximação”, afirmou Larissa. As reuniões, que também tiveram participação de representantes dos setor de turismo, terminaram antes do previsto.

Segundo ouvido por Larissa com esses interlocutores, a resistência do mercado estaria diretamente ligada ao vazamento dos áudios e à revelação de que Flávio teria se encontrado pessoalmente com Vorcaro em São Paulo enquanto este usava tornozeleira eletrônica, em novembro do ano passado.

INCÓGNITA – “Enquanto Flávio Bolsonaro ainda é uma incógnita, se vai ser um nome viável para a disputa de outubro, é melhor não fazer essa associação”, disse Larissa, acrescentando que esses empresários pediram para a campanha que não divulgasse essas conversas iniciais.

Além das reuniões com o mercado financeiro, Flávio Bolsonaro aproveitou a viagem a São Paulo para promover uma mudança em seu comando de comunicação, com a saída de seu antigo marqueteiro após o escândalo.

Datafolha: 48% defendem que Flávio desista da candidatura após caso Vorcaro

PL minimiza desgaste de Flávio, enquanto aliados temem novos desdobramentos da crise

Defesas de Lulinha e empresária pedirão arquivamento de inquérito do INSS

Advogados devem apontar falta de provas em quebras de sigilos

Elijonas Maia
Pedro Venceslau
CNN

As defesas de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente da República, e de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, vão pedir arquivamento do caso onde são citados nas fraudes bilionárias do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). “É um absurdo esse inquérito ainda não estar arquivado”, disse o advogado Marco Aurélio Carvalho à CNN.

O defensor, porém, explica que o pedido de arquivamento não seria de toda a investigação, mas sim das partes que citam o filho mais velho de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na avaliação dele, não houve comprovação de nada ilícito de Lulinha no caso. A PF ainda não detalhou se ele é formalmente investigado.

SIGILO QUEBRADO – O filho do presidente teve os sigilos bancário e fiscal quebrados. Segundo Carvalho, nada foi encontrado e isso comprovaria que ele não teria relação com o esquema. A defesa também vai usar o depoimento de Roberta Luchsinger à PF em que ela isenta Lulinha em relação a pagamentos supostamente intermediados. Ela disse que não repassou nenhum valor a ele “ou a quem quer que seja”.

Sobre a troca de coordenação do caso dentro da PF, a defesa de Lulinha diz que não viu qualquer alteração na condução das investigações do caso do INSS após a mudança na coordenação, diz que continuam avançando. A grande mudança observada, dizem também com a defesa de Roberta, foi que “pararam os vazamentos”.

A leitura dos advogados da empresária e de Lulinha é que houve exploração política por meio de vazamentos reiterados. Mas, segundo ele, “os vazamentos seletivos deixaram de acontecer”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGEra só o que faltava… Como acusar Fábio Luis de corrupção? O pai diz que ele é um fenômeno igual ao Ronaldo Nazario. Por isso, enriqueceu rapidamente e nem precisa mais trabalhar, pois vive de rendas na Espanha. Quanto ao pai, até o Papa sabe que Lula é o homem mais honesto da terra e também ficou rico por acaso, mediante palestras que dava, mas ninguém assistia e não existe foto nem vídeo de nenhuma delas, lembram? (C.N.)

Cúpula do PL monitora desgaste de Flávio Bolsonaro após revelações sobre Daniel Vorcaro

Charge de Mário Adolfo (Dito & Feito)

Luísa Marzullo
O Globo

A cúpula do PL encomendou uma pesquisa para medir o impacto político da crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre a corrida presidencial de 2026. Segundo relatos feitos ao O Globo o levantamento servirá como base para que o partido decida os próximos passos da estratégia eleitoral do senador após o desgaste provocado pelas mensagens, áudios e pela revelação do encontro entre os dois.

Nos bastidores, dirigentes do partido afirmam que a principal preocupação hoje é medir se a crise abriu uma distância considerada “crítica” entre Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas simulações de segundo turno.

PREVISÃO – O levantamento foi discutido internamente entre dirigentes como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o coordenador da pré-campanha, Rogério Marinho, e outros integrantes da cúpula da legenda. A expectativa é que o resultado fique pronto em cerca de dez dias.

Interlocutores da direção do PL afirmam que o partido trabalha internamente com uma espécie de “número mágico” para definir a gravidade do cenário: caso a pesquisa indique abertura de cerca de dez pontos de vantagem de Lula sobre Flávio, dirigentes admitem que a discussão sobre a viabilidade da candidatura presidencial do senador inevitavelmente ganhará força dentro da legenda.

A avaliação predominante hoje dentro do partido é que um desgaste menor ainda poderia ser absorvido ao longo da campanha, sobretudo se não houver novos fatos envolvendo Vorcaro nas próximas semanas. Na campanha de Flávio, interlocutores projetam um recuo entre quatro e cinco pontos, considerado administrável.

RECÁLCULO – Já um cenário de deterioração mais acentuada poderia obrigar o PL a recalcular toda a estratégia presidencial para as eleições de outubro e discutir de maneira mais concreta alternativas dentro do próprio bolsonarismo.

Nesse ambiente, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a circular com mais intensidade entre dirigentes partidários, parlamentares e lideranças evangélicas como eventual substituta de Flávio caso a crise se agrave. Aliados do partido avaliam que Michelle preservaria de maneira mais automática a transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro e teria menos resistência hoje em setores do eleitorado conservador atingidos pelo desgaste do caso Vorcaro.

Reservadamente, porém, integrantes da direção do PL ponderam considerar difícil que Jair Bolsonaro (PL) aceite substituir o filho pela esposa numa disputa presidencial, sobretudo diante da resistência de seus outros filhos, Carlos e Eduardo, com a madrasta.

ENCONTRO COM VORCARO – Na terça-feira, Flávio reuniu deputados e senadores do PL em Brasília para tratar da crise e admitiu pela primeira vez internamente que procurou Vorcaro pessoalmente após a primeira prisão do banqueiro.

Segundo relatos, o senador afirmou aos parlamentares que decidiu ir até São Paulo depois de perceber a gravidade da situação envolvendo Vorcaro e disse que o encontro ocorreu para “encerrar” a relação envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. A explicação, porém, não eliminou o desconforto dentro da bancada. Parlamentares deixaram a reunião ainda inseguros sobre a possibilidade de novos vazamentos ou revelações envolvendo a relação entre os dois.

A avaliação de integrantes da legenda é que os próximos dias serão decisivos para medir se o episódio ficará restrito a um desgaste momentâneo ou se começará a comprometer de forma mais permanente a viabilidade eleitoral do senador.

Uma canção de amor, para lembrar a camisola do dia, tão transparente e macia…

Tribuna da Internet | “Pensando em Ti”, uma canção imortal, de David Nasser e Herivelto Martins

Herivelto e Nasser, grandes parceiros e amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  jornalista, escritor e letrista paulista David Nasser (1917-1980) e seu parceiro musical, cantor, músico e compositor Herivelto Martins (1912-1992) são autores de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “A Camisola do Dia”, cujo teor poético revela não somente a felicidade, mas também a tristeza acontecida num amor infindo. Este belo samba-canção, de grande sucesso, teve sua primeira gravação feita por Nelson Gonçalves, em 1953, pela RCA Vitor.

A CAMISOLA DO DIA
Herivelto Martins e David Nasser

Amor, eu me lembro ainda
Era linda, muito linda
Um céu azul de organdi
A camisola do dia
Tão transparente e macia
Que eu dei de presente a ti

Tinha rendas de Sevilha
A pequena maravilha
Que o teu corpinho abrigava
E eu era o dono de tudo
Do divino conteúdo
Que a camisola ocultava

A camisola que um dia
Guardou a minha alegria
Desbotou, perdeu a cor
Abandonada no leito
Que nunca mais foi desfeito
Pelas vigílias de amor

Em meio à turbulência com Vorcaro, Flávio aposta em agenda com Trump nos EUA

Flávio busca foto com presidente americano

Luísa Marzullo
O Globo

Em meio ao desgaste provocado pela crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deve embarcar para uma viagem aos Estados Unidos na próxima segunda-feira. O objetivo da viagem é tentar uma agenda com o presidente norte- americano Donald Trump em Washington.

A movimentação é tratada dentro da pré-campanha presidencial do senador como uma tentativa de reforçar a associação internacional do filho de Jair Bolsonaro (PL) ao trumpismo e recuperar iniciativa política após dias de turbulência.

ARTICULAÇÃO DE RUBIO – Segundo integrantes da campanha, a agenda estaria sendo articulada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, com participação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos Estados Unidos. O encontro, porém, ainda não aparece oficialmente confirmado pela Casa Branca.

Nos bastidores do PL, aliados avaliam que uma eventual imagem de Flávio ao lado de Trump ajudaria o senador a reposicionar a campanha num momento em que o presidenciável enfrenta pressão crescente dentro do partido após a divulgação de mensagens, áudios e encontros envolvendo Vorcaro.

A leitura dentro da campanha é que a aproximação com Trump também serviria para contrapor a viagem feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos Estados Unidos há duas semanas, considerada positiva por integrantes do governo brasileiro e interlocutores americanos.

ALTERNATIVAS – Integrantes do entorno de Flávio afirmam ainda que a agenda ajudaria a reforçar a imagem do senador como principal representante do campo bolsonarista na disputa presidencial deste ano justamente num momento em que aliados passaram a discutir reservadamente alternativas dentro da direita, como Michelle Bolsonaro, Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).

O deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara e aliado de Flávio, afirmou ao O Globo que a viagem é vista dentro do partido como estratégica para a campanha presidencial do senador. “Essa viagem está sendo esperada por todos nós porque Flávio é nosso presidenciável e o apoio do Trump é essencial “, disse.

Segundo interlocutores da campanha, a pauta prevista para a agenda inclui cooperação bilateral em segurança pública, combate ao crime organizado, investimentos ligados a minerais críticos e discussões sobre tarifas comerciais envolvendo exportações brasileiras. Esta será a quarta vez que o parlamentar embarca para os Estados Unidos desde que se tornou pré-candidato. Sua última viagem ao país ocorreu no início deste mês. Na ocasião, ele se reuniu com empresários e esteve com seu irmão, Eduardo.

Aliados de Flávio temem que filme reabra crise do financiamento às vésperas da eleição

Piada do Ano! Fachin propõe contracheque único para ampliar transparência da Justiça

Congresso amplia gastos, pressiona o Orçamento e acelera disputa silenciosa por 2026

Congresso abriu espaço para mais despesas e transferências públicas

Pedro do Coutto

A derrubada, pelo Congresso Nacional, de três vetos do presidente Lula da Silva nesta semana representou muito mais do que uma derrota pontual do Palácio do Planalto. O episódio consolidou um movimento político que vem se aprofundando em Brasília nos últimos anos: o fortalecimento do Legislativo como centro autônomo de poder, capaz de impor derrotas estratégicas ao Executivo, ampliar despesas públicas e transformar o Orçamento da União em peça central da disputa eleitoral antecipada de 2026.

Mais uma vez, o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, esteve no centro da articulação que reuniu deputados e senadores em torno da derrubada dos vetos presidenciais. Nos bastidores, parlamentares comemoraram não apenas a vitória política sobre o governo, mas principalmente a ampliação dos instrumentos que fortalecem a atuação municipal de deputados e senadores dentro da estrutura orçamentária federal.

MAIS DESPESAS – Na prática, o Congresso abriu espaço para mais despesas e mais transferências públicas justamente num momento em que o governo tenta sustentar o discurso de responsabilidade fiscal. O movimento reforça a lógica de antecipação eleitoral que já domina Brasília. Com eleições municipais se aproximando e a sucessão presidencial de 2026 entrando cada vez mais cedo no radar das lideranças políticas, cresce a pressão por mecanismos que permitam ampliar entregas eleitorais nas bases regionais.

O jornal O Globo definiu o cenário como um “vale tudo eleitoral”. A expressão resume bem o ambiente atual da política brasileira. Deputados e senadores querem ampliar capacidade de levar obras, equipamentos, recursos e benefícios a prefeitos e aliados locais, fortalecendo estruturas políticas regionais antes da próxima disputa nacional.

O problema é que essa expansão ocorre em um cenário fiscal cada vez mais apertado. O novo arcabouço fiscal limita o crescimento das despesas públicas e obriga o governo a operar dentro de margens mais estreitas. Ao derrubar vetos que continham despesas adicionais, o Congresso reduz ainda mais a capacidade futura do Executivo de acomodar investimentos, reajustes e expansão de políticas públicas.

REFLEXO – O impacto tende a ser sentido especialmente a partir de 2027. Qualquer governo eleito encontrará um Orçamento mais pressionado, com menos espaço para ampliação de despesas discricionárias. Isso afeta diretamente o funcionalismo público, já que reajustes salariais dependem da existência de recursos disponíveis e margem fiscal. Quanto maior o crescimento de despesas vinculadas a interesses políticos e eleitorais, menor será a capacidade de conceder aumentos salariais mais amplos no futuro.

Nos bastidores da equipe econômica, existe preocupação crescente com o efeito acumulado dessas derrotas fiscais. Técnicos do governo avaliam que a combinação entre pressão parlamentar, despesas obrigatórias crescentes e expansão de gastos políticos pode produzir um cenário de forte compressão orçamentária nos próximos anos.

O episódio também revela a transformação estrutural do sistema político brasileiro. Desde o enfraquecimento do presidencialismo tradicional após a crise do governo Dilma Rousseff, o Congresso passou a assumir controle crescente sobre o Orçamento e sobre a execução das políticas públicas. Presidentes da Câmara e do Senado hoje controlam fatias bilionárias de recursos por meio de emendas parlamentares e possuem capacidade real de impor agendas próprias ao Executivo.

PODER AMPLIADO – Na prática, o Brasil passou a operar sob uma espécie de presidencialismo compartilhado do Orçamento. O Executivo ainda mantém a responsabilidade formal pela condução econômica do país, mas o Legislativo ampliou significativamente seu poder sobre a distribuição de recursos e prioridades fiscais.

Enquanto isso, a oposição também enfrenta turbulências importantes. A crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma disputa silenciosa dentro da direita sobre a viabilidade da candidatura presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As revelações envolvendo mensagens, áudios, encontros e negociações ligadas ao financiamento do filme “Dark Horse” ampliaram o desgaste político do senador dentro do próprio PL. O problema deixou de ser apenas jurídico ou moral e passou a ser claramente eleitoral.

CRISE – Nos bastidores da legenda, dirigentes e parlamentares passaram a demonstrar preocupação com o risco de a crise atingir não apenas a candidatura presidencial de Flávio, mas contaminar candidaturas estaduais e proporcionais do bolsonarismo. O PL hoje concentra enorme força parlamentar, com uma das maiores bancadas do Congresso, e preservar essa musculatura se tornou prioridade estratégica.

É nesse ambiente que voltou a ganhar força o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Setores do PL e lideranças evangélicas passaram a defender reservadamente que Michelle teria hoje menor rejeição, menos desgaste político e maior capacidade de preservar automaticamente o eleitorado fiel ao bolsonarismo.

A movimentação revela algo importante: a sucessão de 2026 começou muito antes do calendário oficial. O Congresso amplia gastos e fortalece suas bases eleitorais. O governo tenta preservar algum controle fiscal. A direita enfrenta uma disputa interna silenciosa sobre liderança e sucessão. E o Centrão amplia ainda mais seu poder de arbitragem política.

PLANEJAMENTO – O risco dessa antecipação permanente é institucional. Quanto mais cedo o sistema político passa a operar exclusivamente sob lógica eleitoral, menor tende a ser o espaço para planejamento de longo prazo, racionalidade fiscal e construção de políticas estruturais.

O Brasil entra, assim, numa fase de forte fragmentação de poder. O Congresso se fortalece, o Executivo perde capacidade de coordenação plena e os partidos reorganizam suas estratégias já mirando 2026. No centro desse processo está o Orçamento — transformado, cada vez mais, em instrumento de sobrevivência política, disputa eleitoral e consolidação de poder.

Advogados de Vorcaro comovem Mendonça, que logo mandou tirar o réu da Papuda

Gilmar Fraga | O André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral é o personagem da caricatura para a coluna Frases... | Instagram

Caricatura de Gilmar Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Vicente Limongi Netto

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor presbiteriano André Mendonça. considerou um deboche a fraca delação de Daniel Vorcaro e mandou o banqueiro meliante ver o sol nascer na tenebrosa prisão da Papuda. 

Mas a defesa do banqueiro ficou consternada e pediu ao ministro transferência do preso para a Papudinha, onde as condições são muito melhores, e o piedoso ministro Mendonça aceitou o banqueiro abutre para a mesma prisão onde o ex-presidente Jair Bolsonaro desfrutou de felizes momentos. 

Caso Vorcaro não goste das acomodações acanhadas da aprazível Papudinha, os advogados   pedirão ao ministro, conhecido pelo bom coração, que Vorcaro passe alguns anos no Copacabana Palace.  Tudo pago, evidentemente, pelo escritório da advogada  e  mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci  de Moraes.  Bons amigos são para essas coisas. 

ESTÚDIO ZERO – A chamada do programinha “Estúdio 1”, da GloboNews é ruim e pretensiosa.  Fica muito pior, abusiva e insuportável porque está sendo repetida múltiplas vezes, todo dia, é uma chatice.

 Uma monumental falta de respeito que afronta a paciência do telespectador assinante. Na medonha chamada, a estrela é a deslumbrada e saltitante apresentadora Andréia Sadi, que perdeu o rumo ao ser elogiada por Fernanda Montenegro. É a parte mais melosa do melodrama. Difícil segurar as lágrimas.

O pior é que o ano demora a passar.  Quem aguentar e resistir à tortura comandada pela Sadi por mais tempo ganhará o troféu da maior bobagem da TV-brasileira. Com direito a minuciosa junta médica. A atual interina, Camila Bonfim, é infinitamente melhor do que Sadi. Tomara que a interinidade se torne titularidade. 

Escândalo faz Flávio Bolsonaro se tornar um risco para a própria direita

Entorno de Flávio Bolsonaro recalcula distâncias

Marcelo Copelli
Revista Fórum

O desgaste acumulado em torno de Flávio Bolsonaro começou a produzir o efeito que lideranças políticas mais temem em Brasília: o afastamento silencioso de aliados, operadores e setores pragmáticos do poder. O ponto mais delicado para a direita bolsonarista já não está apenas na sucessão de controvérsias envolvendo o senador, mas no enfraquecimento da principal blindagem que sustentou esse núcleo durante anos.

O entorno liderado por Jair Bolsonaro atravessou crises sucessivas porque conseguiu construir algo mais eficiente do que uma simples identidade ideológica. Sua força nunca esteve apenas no conservadorismo, na radicalização retórica ou na mobilização digital. O movimento prosperou ao alimentar a ideia de enfrentamento às engrenagens tradicionais de Brasília, mesmo convivendo, desde cedo, com investigações, personagens e episódios frequentemente associados justamente ao tipo de prática que dizia combater.

SOBREVIVÊNCIA – O centro dessa sustentação era a crença de que aquele campo representava algum tipo de ruptura com os padrões históricos de poder no país. Foi essa percepção que permitiu ao grupo sobreviver a escândalos, confrontos institucionais e crises contínuas sem perder completamente seus setores mais fiéis.

Grande parte do eleitorado tolerava a turbulência permanente porque acreditava apoiar uma força distinta daquela historicamente associada a acordos obscuros, elites protegidas e relações promíscuas entre influência econômica e poder. O problema para Flávio Bolsonaro é que essa distinção começou a perder credibilidade.

O dado mais relevante da crise talvez nem esteja apenas nos episódios recentes que passaram a cercar seu nome, mas na mudança silenciosa de atmosfera dentro da própria direita. Nos bastidores de Brasília, setores que até pouco tempo tratavam o senador como herdeiro natural do bolsonarismo começaram a recalcular distâncias, reduzir exposição pública e discutir alternativas para 2026. Em política, movimentos assim raramente acontecem por acaso.

REVELAÇÕES – A aproximação do nome de Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu um efeito particularmente destrutivo não por inaugurar suspeitas envolvendo aliados e figuras próximas da família, mas por reforçar uma sequência de episódios que passou a comprometer justamente a narrativa de ruptura que sustentava o movimento.

Esse núcleo consolidou sua força denunciando a proximidade entre influência econômica, proteção política e elites privilegiadas. E mesmo convivendo com suspeitas, investigações e controvérsias recorrentes, conseguiu preservar entre seus apoiadores a percepção de que operava fora desse circuito, sobretudo por meio do confronto permanente, da radicalização discursiva e da deslegitimação constante de críticas e denúncias. Quando esse mecanismo começa a perder eficácia, o problema deixa de ser circunstancial. Passa a atingir a base que sustentava sua força política.

Esse é o ponto mais perigoso para o entorno liderado por Jair Bolsonaro. Em disputas presidenciais, projetos nacionais raramente desmoronam apenas por causa de fatos isolados. O colapso costuma começar quando se consolida uma percepção pública difícil de neutralizar. E poucas são mais destrutivas do que a distância entre discurso moral e prática de poder.

CONTROVÉRSIAS – O eleitor conservador brasileiro já demonstrou ser capaz de sustentar apoio político mesmo diante de contradições evidentes, denúncias recorrentes e episódios potencialmente devastadores para qualquer outro grupo. O ponto de inflexão surge quando o acúmulo desses fatos começa a reduzir a eficácia dos mecanismos discursivos que, durante anos, impediram que essas controvérsias produzissem ruptura relevante entre seus apoiadores mais mobilizados.

Em um país marcado por sucessivos escândalos e elevada desconfiança institucional, a corrupção continua funcionando como poderoso instrumento de desgaste político. Não porque exista expectativa realista de integridade absoluta na vida pública, mas porque parte significativa da população reage duramente quando identifica distância entre o discurso apresentado e a realidade percebida.

Durante muito tempo, adversários da direita bolsonarista subestimaram a natureza dessa dinâmica. Parte importante da força do movimento vinha da capacidade de se apresentar como contraponto aos padrões tradicionais de funcionamento do poder em Brasília. É justamente essa condição que começa a perder sustentação.

CENTRÃO – O impacto ganhou dimensão ainda mais delicada porque passou a alterar o comportamento dos setores mais pragmáticos da política brasileira. O sinal mais importante não veio da oposição, das redes sociais ou do debate ideológico. Veio do Centrão — segmento especializado em perceber antes dos outros quando o custo de determinada aliança começa a subir.

Seu funcionamento jamais esteve ligado a fidelidade programática ou lealdade pessoal. O cálculo sempre foi outro: sobrevivência, risco e perspectiva de poder. Quando lideranças desse setor começam a reduzir proximidade, evitar associação pública e ampliar discussões sobre alternativas antes mesmo do início formal de uma campanha presidencial, normalmente já chegaram a uma conclusão silenciosa sobre o tamanho do problema envolvido.

Nos bastidores, o campo conservador começou a fazer aquilo que projetos politicamente enfraquecidos mais temem: discutir sucessão antes mesmo da ruptura. Governadores passaram a ser observados com mais atenção como alternativas viáveis para a direita. Operadores políticos intensificaram conversas sobre cenários pós-bolsonaristas. Setores empresariais passaram a demonstrar desconforto crescente diante da possibilidade de uma candidatura marcada por instabilidade permanente e imprevisibilidade política.

DESGASTE – O fator mais corrosivo para Flávio Bolsonaro é o momento em que tudo isso acontece. Sua eventual candidatura começou a acumular sinais de inviabilidade antes mesmo de existir formalmente. Campanhas presidenciais raramente sobrevivem quando entram na disputa carregando sensação prévia de desgaste estrutural.

Nenhum projeto nacional competitivo se sustenta apenas na fidelidade da militância mais radicalizada. É necessário ampliar alianças, reduzir rejeição e transmitir algum grau mínimo de previsibilidade política e institucional. Hoje, porém, o nome de Flávio Bolsonaro produz o movimento oposto: amplia resistências e aprofunda incertezas justamente entre setores que tradicionalmente funcionam como fiadores pragmáticos de candidaturas viáveis.

ALTERNATIVAS – Essa dinâmica começou a produzir uma consequência ainda mais profunda dentro do campo conservador: a busca silenciosa por continuidade sem dependência direta da família Bolsonaro. Até pouco tempo, a principal preocupação da direita era encontrar um nome capaz de herdar o capital político do ex-presidente. Agora, cresce outro temor: o de que a deterioração acumulada em torno desse núcleo comprometa a própria competitividade eleitoral desse campo nos próximos anos.

O que ameaça Flávio Bolsonaro já não é apenas a repercussão de episódios específicos nem o impacto momentâneo de divergências recentes. O que começa a ruir é justamente a percepção de diferença em relação ao sistema que prometia enfrentar.

SINALIZAÇÃO – Em política, crises públicas raramente marcam o início do problema. O sinal decisivo costuma aparecer antes, quando aliados passam a recalcular custos, operadores deixam de investir capital político e estruturas de poder abandonam silenciosamente a convicção de que determinado nome ainda representa um ativo estratégico. É exatamente esse ambiente que começa a cercar Flávio Bolsonaro.

Em Brasília, o isolamento raramente chega acompanhado de anúncios ou rompimentos dramáticos. Primeiro desaparece o entusiasmo. Depois, a disposição de defender. Por fim, desaparece aquilo que sustenta qualquer projeto presidencial competitivo: a percepção de viabilidade. E, na política, poucas sentenças são mais devastadoras do que deixar de ser visto como futuro para passar a ser tratado como risco.

Supremo precisa corrigir sua informação falsa sobre novo julgamento de Bolsonaro

Supremo Tribunal Federal

Marques é relator no julgamento que pode libertar Bolsonaro

Carlos Newton

É absolutamente inaceitável que o Supremo Tribunal Federal insista em divulgar no seu site uma informação falsa e claramente manipulada a respeito do novo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os jornalistas acreditam na veracidade das notícias publicadas oficialmente pela instituição e jamais as colocam em dúvida. Por isso, estão incorrendo em graves erros ao tomar como base as notícias manipuladas pelo portal da Suprema Corte.

Quando é acessado algum portal de busca sobre a revisão criminal requerida pelos advogados de Bolsonaro, surge logo a matéria do site do STF, anunciando que o ex-presidente será julgado pelo Plenário, onde sua derrota seria praticamente certa, por 7 votos a 3 ou 6 a 4, enquanto a Segunda Turma deve ter maioria a seu favor.

ERRO GROSSEIRO – Publicada no dia 8 por Suelen Pires, a matéria do STF cita o artigo 6º, inciso I, alínea b, do Regimento Interno, mas a norma não se aplica ao caso, porque se refere à revisão criminal de julgamentos feitos pelo próprio Plenário, e não pelas Turmas.

O julgamento de Bolsonaro, como se sabe, ocorreu na Primeira Turma. Por isso, agora está sendo revisto pela Segunda Turma, tendo como relator o ministro Nunes Marques. Segundo Regimento, cada Turma funciona como revisora da outra.

Portanto, além de corrigir a falsa informação, cabe ao Supremo apurar quem a transmitiu à jornalista Suelen Pires, porque a manipulação pode ter sido proposital, para abrir terreno a um julgamento ilegal de Bolsonaro no Plenário, onde seria derrotado, ao invés de ser julgado pela Segunda Turma, conforme as normas em vigor.

EFEITO IMEDIATO – A informação equivocada ou manipulada pelo Supremo teve efeito imediato na cobertura da imprensa, porque a ampla maioria dos órgãos de comunicação acabou repetindo o erro do STF.

A notícia acabou saindo com diversas versões. O apresentador Cesar Tralli, no Jornal Nacional, disse que, segundo a defesa do ex-presidente, o julgamento deveria ter sido no plenário da corte, algo inexistente no Regimento. As outras emissoras repetiram o erro ao vivo e nos seus portais.

O pior foi a matéria de Pepita Ortega em O Globo, baseada em informações absurdas sobre o Regimento e repetindo a informação do site oficial do STF, ao dizer que o processo seria “finalizado com o julgamento no Plenário”.

MAIS ERROS – Jussara Soares, da CNN, foi pelo mesmo caminho. Disse que “o recurso pede que um novo relator seja sorteado na Segunda Turma para garantir a imparcialidade, com a decisão final submetida ao plenário da Corte”.

Na Folha, Ana Pompeu e Isadora Albernaz repetiram a mancada, ao informar: “O julgamento deverá ser feito, em tese, pelo plenário completo da corte. O regimento interno do STF fala que a revisão será feita pelo “tribunal”, mas isso ainda deverá ser consolidado mais à frente, sobretudo pelas mudanças no entendimento sobre as competências do plenário e das turmas”.

A repórter Mariana Aquino, do Poder360, também se equivocou ao dizer que “o objetivo é invalidar a sentença de 27 anos e 3 meses de prisão, sob o argumento de que houve cerceamento de defesa e que o processo deveria ter sido julgado pelo plenário da corte, e não pela Primeira Turma”, mas não é isso que o Regimento determina.

DUAS VERSÕES – O Estadão primeiro acertou em matéria de Hugo Henud, divulgando a versão correta sobre o recurso, sem mencionar que caberia ao plenário decidir. Mas o jornal depois recaiu no mesmo erro, em reportagem de Maria Magnabosco. “Escolhido relator da ação apresentada pela defesa de Bolsonaro, Nunes Marques deve levar o caso ao plenário, que não deve reverter a pena aplicada pela Primeira Turma a Bolsonaro”, publicou a repórter, repetindo o erro do site do STF.

Além da Tribuna da Internet, que denunciou a informação falsa do Supremo, apenas dois veículos divulgaram a versão verdadeira. A Carta Capital, em matéria de Leonardo Miazzo, informou que “a análise da revisão caberá à Segunda Turma, da qual também fazem parte os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e André Mendonça”. 

E o jornalista André Richter, Agência Brasil, confirmou: “Conforme determina o regimento interno do Supremo, a revisão criminal foi enviada para a Segunda Turma da Corte. E listou corretamente os argumentos da defesa.

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P.S. 1
Essa pesquisa mostra a influência negativa da manipulação do site do Supremo, fazendo com que muitos jornalistas tenham cometido graves erros na cobertura do novo julgamento do ex-presidente Bolsonaro.

P.S. 2A Suprema Corte tem obrigação de corrigir o grotesco equívoco, cometido dia 8 e até hoje continua sendo repetido pelos jornalistas brasileiros, com efeito multiplicador nas redes sociais etc. Já fizemos esta solicitação formal à Ouvidoria do STF, mas ainda não houve a necessária correção, que vamos continuar cobrando. (C.N.)

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