Moraes é notificado por empresas de Trump em ação que acusa STF de censura

Quintana virou um poético arqueólogo e saiu à procura do sorriso da amada

AS MAIS LINDAS FRASES SOBRE A VIDA - MARIO QUINTANA (frases,citacões,uma  linda reflexão de vida)Paulo Peres
Poemas & Canções

O tradutor, jornalista e poeta gaúcho Mário de Miranda Quintana  (1906-1994) se tornou um arqueólogo do amor, para fazer um poema à procura do sorriso de sua amada.

EU FIZ UM POEMA
Mário Quintana

Eu fiz um poema
belo e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope
sobre o mármore de um bar
que um raio de sol atravessa.

Eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro…
Agora, não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra
como as palavra de um dicionário.

Eu sou como um arqueólogo
decifrando as cinzas de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo
curvado sobre a terra…
Em que estrela, amor,
o teu riso estará cantando?

Lula reforça pré-campanha digital enquanto crise abala núcleo político de Flávio Bolsonaro

Planalto aposta em brechas regimentais para tentar recolocar Jorge Messias no STF

Mesmo mal avaliado nas pesquisas, um candidato azarão pode vencer a eleição

Charge da Semana – Pesquisa eleitoral 2022 - Jornal A Estância de Guarujá

Charge do Babu (A Estância de Guarujá)

Marcus André Melo
Folha

É muito comum, sobretudo em contexto de eleições, que se especule sobre o impacto da economia sobre o voto. O bordão “it’s the economy, stupid” (é a economia, estúpido) será repetido ad nauseam. Não é novidade que a própria percepção da economia seja influenciada pela preferência partidária ou lealdade individual do voto das pessoas. Desconsiderar que as pesquisas embutem este problema (a avaliação é endógena) leva recorrentemente a equívocos.

Em 2022, 2/3 dos eleitores de Lula achavam que a economia havia piorado, enquanto 1 em cada 10 entre os eleitores de Bolsonaro concordava que a economia estava pior (Nunes e Traumann, 2024). Há evidências dessa natureza literalmente em todo o mundo. O que não sabemos ainda é se esse efeito de torcida será maior em 2026 do que em 2022.

TORCIDA PARTIDÁRIA – A literatura já discutiu o fenômeno como uma forma de “partisan cheerleading” (efeito torcida partidária). Avaliações de governo e da economia não refletem apenas julgamentos objetivos sobre desempenho; são uma forma de comportamento expressivo em que eleitores sinalizam lealdade política.

As respostas em pesquisas são contaminadas por essa torcida partidária, levando simpatizantes a avaliar melhor governos com os quais se identificam politicamente.

A literatura também mostra que, quanto mais intenso o partidarismo, maior o viés. É uma extensão do chamado “efeito halo”: a percepção das características positivas de um político ou partido influenciando a avaliação de seu desempenho pelos eleitores.

POLARIZAÇÃO – Há evidências fortes de que o efeito do partidarismo sobre percepções econômicas aumentou muito, especialmente nos EUA, mas com uma nuance importante: o aumento é mais claro nas avaliações sociotrópicas —”como está a economia nacional?”— do que nas avaliações egotrópicas —”como estão minhas finanças pessoais?”.

Pesquisas mostram que a brecha entre democratas e republicanos na percepção de melhora da economia aproximadamente dobrou entre 1999 e 2020. No primeiro mandato de Trump, a diferença estimada era de impressionantes 73%! A correlação entre indicadores econômicos e avaliação de desempenho tem diminuído.

A implicação mais imediata desses achados de pesquisa é que o comportamento real da economia tende a perder importância relativa no voto. Pode estar acontecendo no Brasil também.

POUCA INFLUÊNCIA – Com isso, a responsabilização (por mau desempenho ou corrupção) tende a enfraquecer. Isto se sobrepõe ao conhecido viés de disponibilidade (a heurística dá mais peso a informações recentes na tomada de decisão).

Nos EUA, nos últimos 70 anos, o desempenho da economia nos três anos anteriores do mandato não importa para o voto nas eleições presidenciais: segundo pesquisas, apenas o último semestre ou ano é decisivo. O eleitor olha pelo retrovisor apenas nos últimos metros da corrida.

Mas há outras questões fundamentais que não devem ser esquecidas. Primeiro, o grupo de independentes —o único sem torcida partidária— tem crescido no país, algo que também ocorreu nos EUA, onde hoje representa a maior fatia do eleitorado. É aqui que estão os eleitores voláteis. E é nele que se deve focar a análise. Segundo, o que efetivamente interessa ao fim e ao cabo é a arquitetura da escolha. Mesmo muito mal avaliado, um candidato pode ser eleito.

O abalo de Flávio Bolsonaro e a reação do eleitorado conservador

Crise expõe limites da resistência política do senador

Pedro do Coutto

A nova rodada da pesquisa Datafolha, divulgada após as revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, expôs um fenômeno político relevante para a disputa presidencial de 2026: embora o senador tenha sofrido desgaste fora de sua base mais fiel, o núcleo duro do eleitorado bolsonarista permanece praticamente intacto. Segundo os números revelados pela imprensa, 88% dos eleitores dispostos a votar em Flávio defendem que ele mantenha sua candidatura, mesmo após o escândalo relacionado ao financiamento do projeto cinematográfico “Dark Horse”.

O dado, à primeira vista, pode sugerir resiliência política. E de fato há um componente importante de fidelidade ideológica que não deve ser subestimado. O bolsonarismo consolidou, nos últimos anos, uma estrutura emocional e identitária rara na política brasileira contemporânea. Para uma parcela expressiva desse eleitorado, ataques ao candidato são interpretados como ataques ao próprio campo político conservador. Isso cria um mecanismo automático de defesa que reduz os efeitos imediatos de crises e denúncias.

ABALOS – Mas limitar a análise à preservação da base seria um erro estratégico. O problema de Flávio Bolsonaro não parece estar no eleitor que já está convencido, e sim naquele segmento moderado, pragmático e menos ideológico que decide eleições nacionais. É justamente nesse espaço que a candidatura sofreu abalos mais perceptíveis.

As pesquisas recentes mostram que Lula da Silva voltou a abrir vantagem após a divulgação do caso envolvendo Vorcaro. Em levantamentos anteriores, havia cenário de empate técnico entre os dois. Agora, o presidente aparece novamente à frente tanto no primeiro quanto no segundo turno. O episódio não destruiu a candidatura de Flávio, mas afetou um ativo essencial: a narrativa de renovação moral e coerência ética que sempre serviu como combustível político ao bolsonarismo.

O impacto simbólico da crise talvez seja mais profundo do que o eleitoral no curto prazo. Durante anos, o discurso bolsonarista construiu sua força sobre a crítica às relações entre poder político, grandes empresários e interesses privados. Quando surgem revelações envolvendo negociações financeiras com um banqueiro investigado e posteriormente preso, cria-se uma contradição difícil de neutralizar perante setores independentes da sociedade.

RECUO – Flávio Bolsonaro perdeu parte da essência que sustentava sua pré-candidatura. E isso ajuda a explicar o recuo observado nas pesquisas. Não se trata apenas de números. Trata-se da erosão de um símbolo político. Em campanhas presidenciais, percepção vale tanto quanto estrutura partidária. Um candidato pode sobreviver a crises quando consegue preservar coerência entre discurso e prática. Quando essa coerência entra em dúvida, o desgaste tende a ser cumulativo.

Ainda assim, seria precipitado decretar o enfraquecimento definitivo do senador. O bolsonarismo continua sendo uma força eleitoral poderosa, organizada digitalmente e altamente mobilizada. Além disso, a polarização política brasileira favorece movimentos rápidos de recuperação, especialmente quando o debate público se desloca para temas econômicos, segurança pública ou rejeição ao governo federal.

O desafio de Flávio, daqui para frente, será reconstruir credibilidade sem perder radicalidade — uma equação complexa. Se endurecer demais o discurso para manter a militância mobilizada, pode ampliar rejeições no centro político. Se tentar moderar a imagem para reconquistar eleitores independentes, corre o risco de parecer artificial diante da própria base.

JANELA DE OPORTUNIDADE – Lula, por outro lado, parece ter compreendido rapidamente a janela de oportunidade aberta pela crise. O avanço nas pesquisas não decorre apenas de mérito próprio, mas também da fragilidade inesperada do adversário. Em eleições polarizadas, muitas vezes vence não quem mais cresce, mas quem erra menos nos momentos decisivos.

A corrida presidencial de 2026 ainda está longe de uma definição. Porém, os números recentes revelam algo importante: a fidelidade do eleitorado bolsonarista continua forte, mas já não é suficiente, sozinha, para garantir hegemonia eleitoral. E Flávio Bolsonaro começa a descobrir que preservar uma base consolidada é diferente de ampliar uma maioria nacional.

Gilmar reage ao escândalo Master e diz que crise “não está no STF, mas na Faria Lima”

A corrupção “invisível” que desafia o Brasil é fruto da total impunidade

A corrupção passou a integrar a disputa pública

Marcelo Copelli
Revista Veja  

A corrupção brasileira já não se deixa capturar, em sua forma predominante, por escândalos visíveis ou personagens constrangidos pela evidência. Essa referência, ainda dominante no imaginário político, tornou-se insuficiente para descrever o fenômeno como ele de fato opera.

O que se consolidou nas últimas décadas foi uma forma mais sofisticada de distorção do interesse público, menos dependente da violação explícita da lei e mais estruturada na apropriação das próprias engrenagens institucionais.

PRÁTICAS ILÍCITAS – Isso não significa que a corrupção visível tenha desaparecido. Casos investigados por órgãos de controle continuam a revelar práticas ilícitas relevantes e demonstram que as instituições mantêm capacidade de resposta.

Esses episódios, no entanto, tendem a representar a dimensão mais evidente — e não necessariamente a mais estruturante — do problema. A capacidade de investigação permanece central, mas incide com maior precisão sobre manifestações mais explícitas, enquanto formas mais complexas e adaptadas seguem integradas ao funcionamento institucional.

Não se trata apenas de desviar recursos, mas de orientar decisões, fluxos e prioridades de modo a produzir resultados sistematicamente desalinhados do interesse coletivo, sem a necessidade de um marco inequívoco de ilegalidade. Nesse estágio, a corrupção deixa de ser exceção e passa a operar como método, incorporada à dinâmica do próprio sistema.

CORRUPÇÃO – Essa transformação decorre de um ambiente institucional que se expandiu em normas, controles e procedimentos, mas não avançou na mesma proporção na capacidade de tornar o Estado inteligível. O Brasil consolidou instrumentos relevantes de fiscalização, ampliou mecanismos de transparência e sofisticou o monitoramento de gastos públicos. Ainda assim, a percepção de corrupção permanece elevada de forma persistente.

A explicação de que esse descompasso decorre apenas da subjetividade dos indicadores é insuficiente. Quando a confiança não acompanha a evolução institucional, a questão não está apenas na forma de medir, mas na consistência do que é entregue em termos de integridade e previsibilidade.

A corrupção contemporânea encontrou na complexidade administrativa um ambiente propício. Já não depende de decisões abertamente ilegais, mas de arranjos que exploram lacunas normativas, sobreposições de competência e margens interpretativas amplas. Decisões formalmente sustentáveis podem produzir efeitos direcionados sem violar regras de forma direta.

PADRÃO DIFUSO – O desvio deixa de ser um evento isolado e passa a se manifestar como padrão difuso, incorporado a rotinas administrativas que, analisadas individualmente, não evidenciam irregularidade, mas que, em conjunto, revelam distorções consistentes. A ilegalidade deixa de ser o único parâmetro relevante; a integridade do processo passa a definir a qualidade das decisões públicas.

Nesse ambiente, a opacidade não se limita a uma disfunção — ela assume papel estrutural. A expansão do volume de dados não foi acompanhada por integração e organização compatíveis, o que compromete sua utilidade analítica. Informações são disponibilizadas, mas permanecem fragmentadas, dispersas e de difícil interpretação, reduzindo a transparência a um atributo formal, sem conversão efetiva em capacidade de controle.

O sistema aparenta abertura, mas sua rastreabilidade depende de elevada capacidade técnica, integração manual de dados e tempo de análise — condições que restringem seu uso efetivo e limitam o controle contínuo. A dificuldade não está na ausência de informação, mas na forma como ela se apresenta. Sem estrutura, dados não produzem compreensão.

DISPUTA PÚBLICA – A dimensão política intensifica esse quadro. A corrupção deixou de ser tratada predominantemente como falha institucional e passou a integrar a disputa pública. Denúncias são mobilizadas conforme interesses circunstanciais, enquanto sua validação frequentemente se subordina ao alinhamento político.

Esse processo compromete a precisão do conceito. Quando o termo se torna elástico, perde capacidade de diferenciar situações e orientar respostas consistentes. O debate se afasta da evidência e se aproxima da interpretação. O efeito mais profundo é a deterioração da confiança institucional. A dificuldade de distinguir entre decisões legítimas e distorções de interesse reduz a previsibilidade do ambiente público e eleva o custo de coordenação estatal. A desconfiança, nesse cenário, deixa de ser instrumento de vigilância e passa a atuar como fator de instabilidade.

Processos decisórios se tornam mais lentos, escolhas administrativas mais defensivas e a execução de políticas públicas perde eficiência. O sistema opera sob tensão permanente, sem que isso se traduza em maior controle.

MECANISMOS DE CONTROLE – O Brasil enfrenta, portanto, um problema que vai além da corrupção em sentido estrito. Trata-se de uma acomodação estrutural a um modelo em que a ambiguidade se torna funcional. A manutenção de zonas de baixa clareza preserva mecanismos formais de controle, mas também evita maior exposição de práticas recorrentes.

Nesse ambiente, o combate tende a se concentrar no que é mais visível, enquanto padrões mais sofisticados permanecem protegidos pela própria complexidade que os sustenta. Superar esse quadro exige mais do que ajustes incrementais. Implica reorganizar a forma como o Estado estrutura e integra suas informações, permitindo análise contínua e identificação de padrões. Transparência, nesse contexto, não pode ser apenas exposição de dados; precisa ser capacidade de explicação.

LEGALIDADE APARENTE – A corrupção que mais compromete o país hoje não é a que se impõe pela evidência imediata, mas a que se sustenta na dificuldade de ser plenamente compreendida. Opera dentro da legalidade aparente, molda decisões e produz efeitos cumulativos sem exigir ruptura explícita.

Enquanto essa dimensão permanecer fora do centro do debate, o país continuará enfrentando apenas a parte visível do problema — e chamando de combate aquilo que, na prática, permite sua continuidade.

Se Caiado e Zema formarem uma chapa, suas chances de vitória serão concretas

Encontro de Caiado e Zema em Goiânia aumenta sinais para 2026 - Jornal Opção

Caiado e Zema, se tiverem juízo, formarão uma forte chapa

Carlos Newton

No Brasil, nunca houve uma sucessão presidencial como a de 1989 e acredita-se que jamais haverá nada igual, uma disputa tão acirrada e eletrizante, na primeira eleição realmente livre desde a vitória de Jânio Quadros e João Goulart em 1960, 29 anos atrás.

A anterior tinha sido uma decepção, porque foi indireta. Tancredo Neves (MDB) deu um passeio em Paulo Maluf (PDS), ganhando por 480 a 180 votos, com 26 abstenções, mas nem chegou a assumir e o vice José Sarney, velho aliado dos militares, foi quem exerceu o poder.

ELEIÇÃO DIRETA – Em 1989, pode-se dizer que a sociedade brasileira realmente estava representada nas eleições, que foi disputada por 22 candidatos, das mais diferentes tendências.

Affonso Camargo Neto (PTB); Afif Domingos (PL); Antônio Pedreira (PPB); Armando Corrêa (PMB); Aureliano Chaves (PFL); Celso Brant (PMN); Enéas Carneiro (PRONA); Eudes de Oliveira Mattar (PLP); Fernando Collor (PRN); Fernando Gabeira (PV); Leonel Brizola (PT); Lívia Maria Pio (PN); Lula da Silva (PT); Manoel Antonio Horta (PDCdoB); Mário Covas (PSDB); Marronzinho (PSP); Paulo Gontijo (PP); Paulo Maluf (PDS); Roberto Freire (PCB); Ronaldo Caiado (PSD); Ulysses Guimarães (PMDB); e Zamir José Teixeira (PCN).

Na verdade, eram 28 candidatos, mas seis foram barrados pela Justiça Federal. Dois deles seriam bem votados – o apresentador Silvio Santos (PMB) e o ex-presidente Jânio Quadros (PMS). Os demais não tinham a menor chance – Boris Nicolaievski (PS), D’Janir Soares de Azevedo   (PTN), João Ferreira da Silva (PAS) e Nildo Martins (PNAB).

UNIÃO NACIONAL – Collor era o “Dark Horse” da época e venceu Lula no segundo turno, deixando Brizola e Collor em terceiro e quarto lugar, mas acabou sofrendo impeachment e seu vice Itamar Franco fez um excelente governo de união nacional, apoiado por todos os partidos, à exceção do PT e do PCdoB, que eram contrários ao Plano Real.

Quase 40 anos depois, os brasileiros se preparam para nova eleição, desta com poucos candidatos e muita confusão. Existem dois favoritos destacados, mas nenhum deles empolga a nação. Lula é uma repetição cansativa do “Samba de Uma Nota Só”, enquanto o rival Flávio Bolsonaro é uma novidade que envelheceu em espantosa velocidade.

O problema dos dois é a altíssima rejeição, que possibilita, mesmo remotamente, a ascensão de um terceiro nome. Se Ronaldo Caiado e Romeu Zema se unissem na mesma chapa, a possibilidade de chegarem ao segundo turno passa a ser concreta, como aconteceu com Collor e Itamar.


P.S.
1Aqui no Brasil os taxistas adoram política e fazem campanha o tempo todo. No Rio de Janeiro, a chamada Rádio Táxi está defendendo Caiado na cabeça de chapa, com Zema de vice, porque o ex-governador goiano é mais experiente.  Os taxistas não votam em Lula de forma alguma e também resistem em votar em Flávio. É um indicativo importante, não há dúvida. ]

P.S. 2 – Dizer que Renan Santos (Missão) e Samara Martins (Unidade Popular) está empatados com Caiado e Zema é uma tremenda Piada do Ano, feito por instituto de pesquisa que não tem medo do ridículo. (C.N.)

TSE de Moraes ampliou poder contra fake news, mas mantém sigilo até hoje

Charge do Vêrsa (Arquivo do Google)

Renata Galf
Folha

Dez dias antes do segundo turno das eleições de 2022, o plenário do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), à época sob a presidência do ministro Alexandre de Moraes, aprovou uma resolução que ampliou os poderes da própria corte para combater desinformação no processo eleitoral, independentemente de solicitação de candidatos ou do Ministério Público.

Passados três anos e meio, ainda não se sabe quantos conteúdos e perfis foram suspensos pelo tribunal com base nessas regras, tampouco quais critérios justificam que processos relacionados a essa atuação sejam mantidos sob sigilo. Uma parcela das ordens sigilosas proferidas pelo TSE com base nessa resolução veio a público em 2024, a partir de um relatório do comitê do Congresso dos EUA, que incluía decisões tanto da Justiça Eleitoral quanto do STF (Supremo Tribunal Federal).

SEM REGISTRO – Em levantamento realizado pela Folha, de 25 processos do TSE citados no documento, 22 não têm sequer registro de sua existência na consulta pública do tribunal, retornando o resultado “nenhum processo encontrado”. A maioria não tem qualquer registro de sua movimentação no DJE (Diário Judicial Eletrônico). Além de os processos não estarem acessíveis de modo a permitir uma pesquisa mais aprofundada por parte da imprensa ou da academia, o tribunal não fornece dados quantitativos gerais sobre como se deu sua atuação com base na nova norma.

Em abril passado, o TSE negou um pedido de acesso à informação da Folha que requisitava dados gerais, como total de posts, vídeos, perfis, contas e grupos bloqueados ou removidos com fundamento na resolução, bem como a quantidade de contas reativadas. O tribunal afirmou que não possui “categorização quantitativa ou qualitativa de links, canais e/ou grupos removidos”.

Em resposta a recurso protocolado pela reportagem, o tribunal disse ainda que não houve negativa de acesso, mas “tão somente esclarecimento quanto à inexistência de dados consolidados na forma pleiteada”.

NÃO DISPONIBILIZADOS –  Acrescentou ainda que “os dados referentes a ações que tramitam ou tramitaram em segredo de Justiça não são disponibilizadas para pesquisa aberta ao público, em razão de sua natureza sensível ou de determinação judicial específica”. A resposta é assinada pela desembargadora Andréa Pachá, secretária-geral da presidência da corte, posto hoje ocupado pela ministra Cármen Lúcia.

A Folha ainda questionou o tribunal, via assessoria de imprensa, por qual motivo há processos em que o sigilo foi tirado e outros que não, além dos critérios utilizados para tanto, mas não houve resposta.

INADEQUADO – Artur Péricles Lima Monteiro, doutor em direito constitucional pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que, apesar de ser factível que haja processos em que o sigilo seja justificável, o cenário atual, em que não se tem nem sequer dados gerais, não é adequado. Ele afirma que a regulação adotada pelo tribunal com essa resolução transitou entre o exercício da atividade jurisdicional e de poder de polícia (em que a Justiça Eleitoral atua em seu braço administrativo).

“Esse apego à aplicação das regras sobre transparência de processos judiciais, sem levar em conta esse caráter híbrido da atuação do TSE, está criando um cenário em que o dever constitucional de informação não é satisfeito”, diz.

Monteiro avalia que seria do próprio interesse institucional do TSE prestar contas sobre como atuou. “O tribunal está nos dizendo que sequer gerou as informações necessárias para que uma análise sobre o que aconteceu nas eleições de 2022 a partir dessa regulamentação pudesse ser realizada”, avalia. “Qual foi o impacto disso, quais foram os acertos, quais foram os erros?”

ACESSO À INFORMAÇÃO – A Folha já tinha apresentado um pedido de acesso à informação de mesmo teor ao TSE em 2023, ainda na gestão de Moraes. A resposta à época foi que, “por determinação judicial, os procedimentos em questão permanecem, até o momento, sob segredo de Justiça”. Assim como agora, também naquela ocasião não tinham sido solicitadas informações específicas sobre os processos.

Após o segundo turno das eleições de 2022, o tribunal intensificou sua atuação, em meio a uma série de articulações e movimentos de cunho golpista, incluindo manifestações que defendiam uma intervenção militar.

Em 2024, já sob críticas de falta de transparência, o TSE previu a criação de um repositório de decisões sobre desinformação, com objetivo inclusive de guiar as demais instâncias da Justiça Eleitoral. Constam nele apenas decisões proferidas em representações protocoladas por alguma parte, mas nenhuma ordem dada em procedimentos abertos de ofício pelo TSE.

TRANSPARÊNCIA – Para Carla Nicolini, que é advogada eleitoral e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), a atuação mais proativa do tribunal estava amparada na resolução que foi aprovada. Ela questiona, porém, a falta de transparência. “O ponto que chama atenção não é a existência desses procedimentos, mas o fato de alguns não apresentarem qualquer rastreabilidade pública”, diz.

Ela afirma que falta clareza sobre os critérios concretos adotados para definir o grau de restrição de acesso em cada caso, por haver situações semelhantes com níveis distintos de publicidade, e quais os critérios para cessação das medidas. “Não está claro em que momento o tribunal entende que a ordem deixa de ser necessária, nem se há algum tipo de monitoramento contínuo das contas envolvidas ou se a atuação é reativa, a partir de novas ocorrências.”

Em diferentes casos envolvendo políticos ou influenciadores de maior destaque, houve restabelecimento das contas por Moraes. Um dos perfis citados no relatório do Congresso dos EUA, em despacho do TSE, e que segue indisponível no Brasil (segundo aviso do X, por ordem judicial) é o @Fabiotalhari. Essa foi uma entre várias contas que teriam divulgado, segundo a ordem, uma live do argentino Fernando Cerimedo, responsável à época por enunciar teorias da conspiração sem embasamento científico sobre as urnas.

PERFIL DESBLOQUEADO – O próprio Cerimedo, por outro lado, teve seu perfil principal desbloqueado por ordem de Moraes no fim de janeiro de 2023, conforme consta em outro despacho no relatório.

Bastante ativo no X e crítico do governo atual, Fábio Talhari usa atualmente uma outra conta nessa rede, que consta ter sido criada em novembro de 2022. Em post de janeiro de 2023, em seu Instagram, ele afirmou que seu perfil no X teria sido alvo de uma ordem de Moraes. O processo em que ele é citado, porém, é um dos que não podem ser encontrados na busca do tribunal. A Folha tentou contato com Talhari, mas não teve retorno.

Dos três processos que constam no relatório dos EUA e que estão disponíveis na consulta pública, o primeiro a ter o sigilo removido foi o da então deputada federal Carla Zambelli, ainda em dezembro de 2022, quando seus perfis seguiam bloqueados.

ARQUIVAMENTO – O segundo, contra o Coronel Fernando Montenegro, veio a público em março de 2023. Na ocasião, Moraes apontou o fim “do processo político-eleitoral” e o encaminhamento de cópia dos autos ao STF e determinou o arquivamento do processo junto da retirada do sigilo.

André Boselli, coordenador de ecossistemas de informação da ONG Artigo 19, especializada em temas ligados à liberdade de expressão, diz que seria importante haver mais transparência quanto à atuação do tribunal com base na resolução de 2022.

“É uma resolução muito extraordinária, muito específica, e que dá um poder grande para o próprio TSE. Estamos falando de restrição a um direito fundamental, que é o exercício da liberdade de expressão”, diz ele.

Livro sobre Kant surpreende e consegue tornar claras as ideias do filósofo iluminista

Tudo tem um ou um preço ou uma... Immanuel Kant - PensadorHélio Schwartsman
Folha

É difícil dizer se “Kant: a Revolution in Thinking”, de Marcus Willaschek, deve ser classificado como um comentário da obra do filósofo ou como uma biografia. Qualquer que seja o veredicto, Willaschek faz as duas coisas muito bem.

É impressionante como o livro consegue tornar claras as ideias de Kant, uma tarefa em que muitas vezes o próprio filósofo prussiano fracassava. E não porque Willaschek fuja dos pontos mais desafiadores.

TODA A OBRA – “Kant…” cobre praticamente toda a obra, sem nos poupar das passagens mais abstratas e difíceis da “Crítica da Razão Pura”.

É claro que especialistas poderão apontar lacunas, mas o livro resolve bem os problemas de leitores comuns, movidos só pelo “sapere aude!” (ouse saber) e sem pretensão de escrever uma monografia sobre o filósofo de Königsberg.

Mais do que apenas explicar, Willaschek também procura mostrar em que medida o pensamento de Kant, um autor do século 18, mudou a filosofia europeia e por que, em certos temas, como ética, direitos humanos e relações internacionais, conserva relevância até hoje.

ERA METÓDICO – Se o item mais valioso em “Kant…” são as explicações, a parte mais divertida está nos apontamentos biográficos. A passagem dos séculos legou a Kant a imagem de um filósofo impenetrável, sisudo e metódico, que morreu virgem. Metódico ele era.

Willaschek conta como surgiu a lenda segundo a qual a população de Königsberg acertava seus relógios pela hora em que Kant saia para seu passeio. Mas ele também era, contra as expectativas, uma figura sociável, que chegou a ser perseguido pelas mulheres. Também era um bom contador de piadas. O livro reproduz algumas, mas já alerto que o humor do século 18 não envelheceu muito bem.

Willaschek resiste à tentação de endeusar seu objeto de estudo. Ele não se furta a levantar pontos fracos de Kant, que aparecem em declarações antissemitas, racistas e misóginas. Não cai nos anacronismos típicos de nossa época, mas observa que são um problema para quem defendia uma noção radical de igualdade.

Lula, Flávio, Zema ou Caiado? Quem vencer será refém de Davi Alcolumbre

Gilmar Fraga: ouvidos de mercador... | GZH

Charge do Gilmar Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Roberto Nascimento

Estamos sob duas ditaduras simultaneamente – uma do Supremo e outra do Congresso, com o governo federal mandando cada vez menos. Empoderado pela força das emendas, suas excelências parlamentares nem ligam mais para comandar ministérios e distribuir cargos nas agências e nas estatais, no máximo brigam pelas direções da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil

Na semana passada, a Câmara aprovou o pomba-rola da anistia das multas aplicadas aos partidos. Agora o limite máximo de multa, que podia passar de milhões, pode cair para modestos 30 mil reais.

MULTA RIDÍCULA – Se o Senado aprovar a insensatez, os ministros do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral não poderão mais multar um partido em R$ 20 milhões por atuar contra as urnas eletrônicas, como fez Alexandre de Moraes em relação ao PL.

O presidente-dono do PL, o ex-presidiário Valdemar da Costa Neto, deve estar rindo à toa, entoando o bordão do ministro aposentado Luís Roberto Barroso: “Perdeu Mané”.

O fato é que a Câmara aceitou essa nova versão da antiga PEC da Blindagem dos Partidos. Os deputados perderam a vergonha na cara, aproveitando o cinematográfico escândalo das ligações de Flávio Bolsonaro com o banqueiro fraudador Daniel Vorcaro.

IGUAL A NERO – O pior é que Davi Alcolumbre comanda o Senado como Nero administrou Roma. Senta na cadeira e só passa o que ele quer. Às vezes é manso como um cordeiro, quando lhe convém. Outras vezes grita, impõe corta o microfone de senadores que lhe importunam, chantageia o Executivo. Na prática, Davi Alcolumbre é o primeiro-ministro de um governo presidencialista. Davi manda mais do que o próprio Lula.

Alcolumbre rejeitou a indicação de Messias e agora resiste em colocar em votação no Senado a PEC da Segurança Pública aprovada na Câmara. Não está nem aí para o sofrimento da população brasileira, refém dos assaltos e das balas perdidas que cruzam as comunidades, matando pessoas a esmo nas cidades brasileiras.

É mais que urgente a necessidade de aprimorar a Segurança Pública, que necessita de uma maior integração entre as Polícias dos Estados Por falar em Estado, ele não existe nas comunidades do país, governadas sob influência direta de facções, milícias e quadrilhas.

FUTURO INCERTO – Lula se humilha e pede a Alcolumbre para pautar a matéria para votação e o senador do Amapá finge que não é com ele. Está impaciente com as apurações da Polícia Federal sobre o rombo causado por ele no Instituto de Previdência do Amapá, achando que Lula não fez nada para barrar o processo investigativo.

E o país vai às urnas nesse clima sombrio e altamente negativo, com o governo endividando perigosamente o país. Alega-se que outras grandes nações estão mais endividadas, mas a diferença é que os juros pagos pelo Brasil são muito mais altos.

Diante dessa realidade, o futuro se mostra cada vez mais incerto. E nem interessa quem vai ganhar a eleição, se Lula, Flávio, Zema ou Caiado. A única coisa certa é que o vencedor terá problemas terríveis a resolver a partir de 2027, desculpem o pessimismo.

Eleições serão um grande teste para o TSE na era da inteligência artificial

Magistrados militares recebem acima do teto embora julguem poucos processos

A tagarelice democrática está destruindo até o verdadeiro significado das palavras

Democracia neste sete de abril - Rede Humaniza SUSRede Humaniza SUS - O SUS QUE DÁ CERTO

Charge do Solda (Arquivo Google)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Em nossa época é comum se dizer que as redes sociais deram voz aos imbecis. E que não se entende mais a prática da ironia. Outra acusação comum é que elas radicalizaram posições políticas. Sem dúvida são acusações consistentes. As redes são o que se chama em filosofia de causa ocasional, ou seja, elas criam as condições para que um determinado fenômeno aconteça, fenômeno este cuja causa não são as redes em si.

Em outras palavras, não creio que as redes causem de fato sintomas como os descritos aqui, creio sim que a causa eficiente desses sintomas são a própria espécie humana e sua estrutura psicótica essencial.

AMPLA PALAVRA – A humanidade nunca evoluiu num ambiente de ampla palavra como hoje, que, ao final do dia, se torna ruído insuportável —a fala nunca foi “pensada” para ser tão praticada como hoje em dia.

A tagarelice da democracia, apontada por Tocqueville no século 19, hoje se faz realidade plena. O autor francês percebeu, na sua viagem à “jovem democracia americana”, como ele se refere aos Estados Unidos no seu clássico “Democracia na América”, que os cidadãos americanos tinham opinião sobre tudo e tendiam a tomar como conhecimento o que mais se repetia ao seu redor.

Nascia assim, a opinião pública. Tocqueville foi um profeta. O fato é que a circulação da palavra em escala como vemos hoje não parece ter implicado num entendimento maior entre as pessoas, não construiu nenhuma grande árvore do conhecimento nem grandes parcerias construtivas de maior tolerância. Aliás, o que aconteceu parece ter sido justamente o contrário. Quanto mais as pessoas “conversam” menos se entendem.

CONVERSAS VAZIAS – Comentários são feitos sobre pessoas como se quem faz esses comentários conhecesse de fato o objeto dos comentários e levantam hipóteses que só servem ao ódio de quem as levantou.

Por outro lado, quem disse que quando as pessoas “conversam” buscam entendimento mútuo ou que a linguagem “foi feita” para propiciar esse conhecimento mútuo?

E, quando o número dessas pessoas escala, só aumenta a violência. A ilusão iluminista de que a razão move o mundo e as pessoas tem impedido muita coisa que os antigos já sabiam e que nós, na nossa arrogância moderna, esquecemos ou, simplesmente, negamos em favor dos delírios do progresso moral e político humano.

USO OBSESSIVO – A humanidade permanece imóvel nos seus erros, poucos homens superam essa imobilidade. A ampliação da circulação das palavras destruiu em muito o significado das próprias palavras — essa destruição em filosofia pode-se chamar apagamento do campo semântico das palavras.

Desgasta-se uma palavra pelo uso obsessivo dela, levando-a à perda de qualquer significado real. Elegem-se certas palavras, que se querem conceitos, como chave absoluta de intepretação da vida psíquica, da sociedade e do mundo, gerando mais empobrecimento no entendimento desta mesma realidade.

Palavras como “negacionismo” passaram a descrever qualquer ideia que discorde de você ou do seu grupo de eleitos. Na origem, referia-se à negação das vacinas como instrumento de evitar mais mortes na pandemia, o que, me parece, foi absolutamente consistente naquele momento, mas, hoje, mais atrapalha do que ajuda.

GENOCIDA – O mesmo vale para “genocida”, cujo uso alargado hoje segue cartilhas ideológicas específicas. Durante a pandemia, aqui no Brasil, passou-se a chamar Jair Bolsonaro de genocida por conta do seu comportamento lamentável como líder do país naquele momento, demonstrando irresponsabilidade e zero empatia com o sofrimento das pessoas.

Apesar de que, sim, Bolsonaro, penso eu, foi uma catástrofe para o país durante a pandemia, parece-me um tiro de muita longa distância compará-lo a Adolf Hitler ou Josef Stálin. O uso alargado de palavras historicamente dramáticas —banalizando-as— força a avaliação da realidade.

A filosofia de Foucault —e Marx antes dele— possibilitou o uso da ideia de que tudo é político, ou perpassado pela lógica política, numa escala hoje que qualquer dificuldade nas relações humanas —no caso das relações entre homens e mulheres o efeito é devastador— deve ser interpretada na chave do opressor-oprimido.

FASCISTA – Termos como “relacionamento tóxico” colorem o mundo inteiro dos afetos, gerando uma perda significativa da capacidade de confiança e generosidade entre as pessoas em geral.

O que dizer da palavra “fascista”? É uma expressão que deveria ser evitada ao máximo, a fim de que, em pouco tempo, não descreva como fascista qualquer forma de amor, educação, formação ou parentalidade.

Esses sintomas não me espantam porque não alimento nenhuma grande esperança em relação a nossa humanidade

A poeira dança no vendaval da criação de Mário de Andrade, porque dançar é preciso

Mario de Andrade! ❤Paulo Peres
Poemas & Canções

O romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotógrafo e poeta paulista Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) exercita seu humor e brinca até com sua calvície no poeta  “Quem Dirá Que Não Vivo Satisfeito, Eu Danço!, que é uma pequena lição de vida.

QUEM DIRÁ QUE NÃO VIVO SATISFEITO, EU DANÇO!
Mário de Andrade

Dança a poeira no vendaval.
Raios solares balançam na poeira.
Calor saltita pela praça
pressa
apertos
automóveis
bamboleios
Pinchos ariscos de gritos
Bondes sapateando nos trilhos…

A moral não é roupa diária!

Sou bom só nos domingos e dias-santos!
Só nas meias o dia-santo é quotidiano!
Vida
arame
crimes
quidam
cama e pança!
Viva a dança!
Dança viva!
Vivedouro de alegria!
Eu danço.
Mãos e pés, músculos, cérebro…
Muito de indústria me fiz careca,
Dei um salão aos meus pensamentos!
Tudo gira,
Tudo vira,
Tudo salta,
Samba,
Valsa,
Canta,
Ri!

Quem foi que disse que não vivo satisfeito,
Eu danço!           

Sindicato defende o governador interino do RJ, atacado ardilosamente pelo Globo

Desembargador Ricardo Couto faz pente-fino em governo do Rio e avança  contra gestão Castro | Política | Valor Econômico

O Globo tenta desmoralizar um governador que age certo

Alzimar Andrade, Luiz Otávio Silveira e Ramon Carrera
Sind-Justiça

Na sexta-feira, 15/05/2026, o Jornal O Globo publicou uma extensa matéria sobre os extraquadros do Tribunal de Justiça do RJ. A princípio, pode parecer uma coisa boa, porque nós, como servidores e o Sind-Justiça, somos contra o excesso de extraquadros e a favor do concurso público em todos os órgãos. Mas não somos massa de manobra de interesses políticos.

A verdade é que a matéria visa atingir o governador provisório, e presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, que, em sua curta gestão, faz pelo Rio o que nenhum dos governadores que o antecederam teve coragem nem interesse em fazer: livrar o Estado dos funcionários fantasmas.

FIM DOS FANTASMAS – Em poucos dias, Couto exonerou cerca de 1.500 funcionários fantasmas, entre parentes e aliados de políticos, trazendo uma economia anual de cerca de R$ 85 milhões aos cofres do Estado. E isso desagrada a muita gente.

Além disso, o jornal comete vários erros. O primeiro deles é não fazer distinção entre extraquadro e funcionário fantasma. Nenhum extraquadro do Tribunal é fantasma. E a própria matéria jornalística é a prova disso, porque se tivesse achado algum, o jornal teria feito enorme alarido.

Em segundo lugar, o percentual de extraquadros do Tribunal (8%) está estritamente dentro da lei. Em terceiro lugar, enquanto no Tribunal de Justiça temos 8% de extraquadros, outros órgãos do Estado possuem números bem mais expressivos, sem que isso pareça incomodar O Globo.

VÁRIOS EXEMPLOS – O Ministério Público possui 4.020 servidores, dos quais apenas 1.600 são concursados e cerca de 2.400 são comissionados ou cedidos, ou seja, possui mais comissionados do que concursados. E isso não parece impressionar o jornal. A Assembleia, cujos deputados são os maiores interessados na “matéria jornalística” de O Globo, possui 200 concursados e absurdos 5 mil comissionados.

Que tal uma campanha, Jornal O Globo, para combater o excesso de extraquadros em todos os órgãos? Onde está a “matéria jornalística” sobre os dados do MP e da Alerj? Por que o Tribunal, com seus 8%, dentro dos limites da lei, é que é motivo de reportagem?

CAMPANHA SÓRDIDA – A resposta é clara. O jornal não está preocupado com o percentual de extraquadros. Nunca esteve. Está preocupado em atacar o Tribunal de Justiça, para tentar desacreditar o trabalho do atual governador, que vem desagradando interesses políticos ao desmanchar a imensa rede de funcionários fantasmas que assombram o orçamento do Estado.

São esses fantasmas que ajudam a eleger e reeleger uma casta de políticos, nos quais os eleitores deveriam se envergonhar de votar, e que estão destruindo a saúde, a educação e a segurança do Estado. Os mesmos políticos que aplaudem matérias jornalísticas tendenciosas como esta.

Os servidores, não só do Tribunal de Justiça, como de todo o Estado, assim como a sociedade, apoiam o trabalho que vem sendo feito pelo governador em exercício, e esperam que as futuras matérias jornalísticas sejam feitas para ajudar a combater as quadrilhas de políticos que se apossaram do Poder Executivo e saquearam os cofres do Estado nas últimas décadas, e não para serem usadas como tentativas espúrias de retaliação nas mãos destes políticos.

Estabilidade do Ocidente é frágil e a Europa já não tem certezas sobre Washington

Trump alterou a lógica da liderança americana

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A imprevisibilidade americana, a ascensão chinesa e a guerra na Ucrânia começaram a produzir uma mudança silenciosa no equilíbrio global: pela primeira vez desde o pós-guerra, parte da Europa já não considera garantida a continuidade da liderança estratégica dos Estados Unidos.

Durante grande parte do pós-guerra, a estabilidade do Ocidente se apoiou em uma convicção raramente verbalizada, mas profundamente enraizada nas capitais europeias: independentemente das crises políticas internas americanas, os Estados Unidos continuariam comprometidos com a defesa da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

ESTABILIDADE – Governos mudavam, presidentes passavam, conflitos surgiam, recessões abalavam mercados, mas a ideia de continuidade permanecia intacta. Pela primeira vez em mais de sete décadas, essa certeza começou silenciosamente a desaparecer. Nos bastidores diplomáticos europeus, uma hipótese que durante muito tempo pareceu impensável deixou de ser tratada como mera abstração acadêmica: a possibilidade de os Estados Unidos continuarem sendo a maior potência do planeta sem permanecerem plenamente dispostos — ou politicamente capazes — de sustentar sozinhos a estabilidade do Ocidente.

Essa mudança ainda não produziu nenhuma ruptura formal. Não existe anúncio oficial, tratado revogado ou declaração histórica que marque claramente o início dessa nova fase. Como acontece nas grandes inflexões internacionais, o processo começou por meio de sinais dispersos, hesitações sucessivas e desgaste gradual de confiança.

A sucessão de crises dos últimos anos acelerou essa percepção de forma profunda. A guerra na Ucrânia expôs limitações industriais e militares que o Ocidente preferia ignorar. A rivalidade crescente entre Estados Unidos e China demonstrou que a globalização deixou de funcionar como mecanismo automático de equilíbrio internacional. A escalada no Oriente Médio ampliou a sensação de fragmentação estratégica. Ao mesmo tempo, a radicalização política americana começou a afetar diretamente a previsibilidade da política externa de Washington.

CONTINUIDADE – O problema não está em um eventual declínio clássico dos Estados Unidos. Militarmente, tecnologicamente e financeiramente, os americanos continuam incomparavelmente mais poderosos do que qualquer outra potência isolada. O que começou a se deteriorar foi algo menos visível, mas historicamente decisivo: a capacidade de transmitir continuidade, previsibilidade e estabilidade institucional aos próprios aliados.

Donald Trump acelerou essa mudança de forma brutal. Não apenas pelo estilo confrontador ou pela retórica agressiva, mas porque alterou a própria lógica da liderança americana. Ao longo de gerações, Washington tratou alianças militares como pilares permanentes da organização internacional. Trump passou a abordá-las frequentemente sob uma lógica transacional, submetida a cálculos imediatos de custo, benefício e retorno político interno. A OTAN deixou de ser apresentada apenas como estrutura de defesa coletiva do Ocidente e passou também a ser descrita em linguagem financeira, comercial e negocial.

A inquietação europeia, contudo, ultrapassa amplamente a figura de Trump. O verdadeiro problema para os aliados americanos é a percepção crescente de que a imprevisibilidade dos Estados Unidos deixou de ser episódica e passou a integrar a própria dinâmica política interna do país. A polarização atingiu níveis que começaram a comprometer a capacidade de Washington de produzir continuidade prolongada em política externa. A sucessão de administrações radicalmente divergentes reduziu parte da confiança que sustentava a liderança americana desde o pós-guerra.

VULNERABILIDADE – Em política internacional, percepção de fragilidade altera comportamentos antes mesmo de modificar relações concretas de poder. A China compreendeu isso antes da Europa. Pequim percebeu que a principal vulnerabilidade americana talvez já não esteja na dimensão militar ou tecnológica — áreas em que os Estados Unidos continuam dominantes —, mas sim na dificuldade crescente de sustentar consensos duradouros em um ambiente político cada vez mais fragmentado.

Taiwan tornou-se o símbolo mais sensível dessa nova realidade. A ilha representa hoje muito mais do que uma disputa territorial: transformou-se em um teste global da credibilidade americana no Indo-Pacífico. Japão, Coreia do Sul e Austrália organizam parte substancial de suas políticas de defesa a partir da convicção de que Washington continuará disposto a garantir equilíbrio militar na região. Pequim, porém, parece cada vez menos interessada em precipitar um confronto direto. A estratégia chinesa tornou-se mais paciente, baseada na percepção de que o tempo pode produzir desgaste mais eficaz do que choque imediato.

A nova disputa global também passou a ser uma disputa entre diferentes percepções de tempo. Democracias ocidentais enfrentam dificuldade crescente para sustentar políticas de longo prazo sob ciclos eleitorais curtos, polarização permanente e pressão midiática contínua. A liderança chinesa opera segundo horizontes históricos muito mais extensos. Política industrial, expansão tecnológica, reorganização militar e diplomacia econômica passaram a integrar um projeto coordenado de longo alcance orientado para expansão gradual de influência internacional.

DESCONFORTO – A Europa observa essa transformação em uma posição particularmente desconfortável. Durante muito tempo, o continente construiu sua própria estabilidade sobre três pressupostos hoje claramente abalados: dependência da proteção militar americana, confiança na globalização econômica como mecanismo de moderação internacional e convicção de que grandes confrontos entre potências pertenciam definitivamente ao passado. A guerra na Ucrânia destruiu parte substancial dessas certezas.

Ao mesmo tempo, a rivalidade sino-americana colocou os europeus diante de um dilema profundamente complexo. O continente mantém alinhamento político e militar com Washington, mas permanece economicamente dependente da China em setores fundamentais de sua estrutura industrial. O resultado é uma Europa economicamente poderosa, mas geopoliticamente hesitante, obrigada a equilibrar dependências contraditórias em um sistema internacional cada vez mais instável.

O erro central das elites ocidentais talvez tenha sido acreditar que interdependência econômica produziria inevitavelmente estabilidade política global. O século XXI evoluiu na direção oposta. A Rússia transformou energia em instrumento de pressão. A China converteu tecnologia, infraestrutura e comércio em mecanismos globais de influência. Os Estados Unidos passaram a utilizar sanções econômicas, restrições industriais e cadeias de abastecimento como ferramentas centrais de política externa. A economia internacional entrou silenciosamente em uma era de militarização crescente.

CONFIANÇA – Existe, porém, uma dimensão ainda mais profunda nessa mudança histórica. O Ocidente começou progressivamente a perder aquilo que durante décadas constituiu sua principal vantagem: capacidade de transmitir estabilidade institucional, continuidade política e confiança ao restante do mundo. Os Estados Unidos continuam extremamente poderosos. A Europa continua rica e influente. Mas a sensação de previsibilidade que sustentava a liderança ocidental começou lentamente a se deteriorar.

As grandes mudanças internacionais raramente se anunciam de forma clara. Tornam-se visíveis apenas quando antigos consensos deixam de orientar comportamentos, alianças começam a perder previsibilidade e potências historicamente centrais passam a ser observadas com prudência pelos próprios aliados. O mundo continua formalmente organizado em torno da liderança americana. Mas uma parcela crescente da Europa já começou discretamente a se preparar para uma hipótese que, até poucos anos atrás, parecia impensável: a possibilidade de os Estados Unidos continuarem centrais sem assumirem plenamente a liderança política do Ocidente.

E talvez seja exatamente aí que esteja o significado mais profundo desta mudança de época. Não no eventual fim do poder americano, mas no início de uma nova era em que os próprios aliados dos Estados Unidos deixaram de considerar automática a continuidade da ordem internacional que definiu o mundo ocidental desde 1945.

Documentos secretos expõem rede internacional da ditadura brasileira no Cone Sul

O desgaste de Flávio Bolsonaro e a nova pressão sobre a direita para 2026

O que preocupa aliados do PL é a direção da curva

Pedro do Coutto

A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada por O Globo e pela Folha de S.Paulo, produziu um efeito político imediato em Brasília: consolidou a percepção de que a crise envolvendo Flávio Bolsonaro deixou de ser um episódio isolado para se transformar em um fator real de desgaste eleitoral. O levantamento mostrou o presidente Lula da Silva com 47% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 43%.

Antes da revelação das conversas entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, ambos estavam tecnicamente empatados. A mudança pode parecer pequena numericamente, mas, em política, oscilações após uma crise raramente são observadas apenas pelo tamanho imediato da queda. O que preocupa aliados do PL é a direção da curva.

IMPACTO DO ESCÂNDALO – Em campanhas presidenciais, existe um elemento frequentemente subestimado: a velocidade com que uma crise se sedimenta no imaginário do eleitor. Escândalos políticos nem sempre produzem efeitos instantâneos. Muitas vezes, o impacto cresce gradualmente, à medida que novas informações surgem, a cobertura da imprensa se intensifica e adversários consolidam narrativas negativas.

É exatamente esse o temor que hoje ronda setores do bolsonarismo. A avaliação reservada de integrantes do Centrão e até de aliados próximos é que o caso envolvendo o Banco Master ainda não foi completamente absorvido pela opinião pública. Em outras palavras: o dano pode ainda não ter atingido seu teto.

O problema central para Flávio Bolsonaro não é apenas jurídico ou investigativo. Trata-se, sobretudo, de percepção pública. O Datafolha mostrou aumento da rejeição ao senador e revelou que uma parcela significativa do eleitorado considera inadequada sua atuação no episódio envolvendo pedidos de apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.

CORROSÃO – Em disputas nacionais altamente polarizadas, confiança e imagem pública costumam pesar tanto quanto propostas de governo. E crises ligadas a relações financeiras, privilégios ou suspeitas de favorecimento têm capacidade histórica de corroer candidaturas de maneira contínua.

Ainda assim, o cenário está longe de representar um colapso definitivo da candidatura do senador. Apesar da queda, Flávio Bolsonaro segue ocupando o espaço de principal nome da oposição ao presidente Lula. Esse detalhe é decisivo. Nem o governador de Romeu Zema nem Ronaldo Caiado conseguiram converter o desgaste do senador em crescimento eleitoral relevante.

Ambos continuam distantes de um patamar competitivo nacionalmente. Isso explica por que o PL, ao menos neste momento, mantém publicamente o discurso de sustentação da candidatura de Flávio. Substituí-lo agora significaria admitir fragilidade antes mesmo do início oficial da campanha.

ALTERNATIVAS – Nos bastidores, porém, a discussão sobre alternativas já existe. O nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a circular com força após as pesquisas apontarem seu potencial eleitoral dentro do eleitorado conservador. Michelle mantém forte identificação com a base bolsonarista, possui baixa rejeição comparativa e consegue dialogar com segmentos religiosos e femininos onde a direita busca ampliar presença.

Ainda assim, lideranças do PL resistem a abrir espaço excessivo para sua projeção nacional. Há um receio evidente de que uma eventual ascensão de Michelle reduza ainda mais a autoridade política de Flávio dentro do próprio bolsonarismo.

Outro aspecto importante revelado pela pesquisa é que a perda de competitividade de Flávio Bolsonaro não beneficiou diretamente outros nomes da direita. O crescimento observado foi, sobretudo, de Lula. Isso demonstra que parte do eleitorado aparentemente impactado pela crise prefere retornar ao campo governista ou migrar para a indecisão, em vez de buscar novas alternativas conservadoras.

FORTALECIMENTO DE LULA – Politicamente, esse talvez seja o dado mais preocupante para o entorno do senador: a crise não apenas desgasta sua imagem, mas fortalece diretamente o principal adversário. Lula, por sua vez, observa o cenário em posição confortável. Mesmo enfrentando desgaste natural de governo, dificuldades econômicas e tensões políticas constantes, o presidente permanece competitivo e demonstra capacidade de preservar sua base eleitoral em um ambiente de forte polarização.

A máquina federal, a visibilidade institucional e medidas recentes voltadas à renda e ao consumo ajudam a explicar parte dessa estabilidade. Em disputas presidenciais, quem ocupa o Palácio do Planalto sempre larga com vantagens estruturais importantes — especialmente quando a oposição enfrenta turbulências internas.

O histórico recente da política brasileira mostra que candidaturas presidenciais dificilmente sobrevivem ilesas a crises sucessivas quando não conseguem reorganizar rapidamente sua comunicação e reconstruir confiança pública. O desafio de Flávio Bolsonaro agora é justamente impedir que a narrativa de desgaste se transforme em identidade permanente de campanha.

PREOCUPAÇÃO –  Porque, em eleições nacionais, existe uma diferença importante entre sofrer uma queda momentânea e entrar em trajetória contínua de erosão política. É exatamente esse ponto que começa a preocupar aliados, adversários e o próprio Centrão.

A eleição de 2026 ainda está distante. Haverá novos fatos políticos, crises, alianças e reconfigurações partidárias. Mas o Datafolha desta semana deixou uma mensagem clara para o campo conservador: Flávio Bolsonaro continua vivo eleitoralmente, porém já não parece invulnerável. E, na política brasileira, o momento em que um candidato deixa de parecer inevitável costuma ser também o instante em que seus aliados começam silenciosamente a discutir o futuro sem ele.