
Ciro trabalha para barrar apoio da União-PP a Flávio
Lauriberto Pompeu
O Globo
O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), articula para que a federação formada entre seu partido e o União Brasil não apoie o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial deste ano. Tanto integrantes do PP quanto do União Brasil avaliam que o grupo deve adotar a neutralidade na eleição.
Aliados de Ciro Nogueira dizem que houve um rompimento entre ele e Flávio Bolsonaro por conta dos desdobramentos do escândalo de fraudes financeiras do banco Master. Há uma insatisfação do presidente do PP, compartilhada por outros integrantes do comando da federação, com a forma como Flávio agiu depois que Ciro foi alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal no começo de maio.
AFASTAMENTO – Há um entendimento de que Flávio buscou se afastar do senador do PP e não teve solidariedade com ele. A avaliação dentro da cúpula da federação União-PP é que não é viável fazer aliança com um candidato a presidente que deixaria o principal partido de sua aliança se desgastar sozinho.
Ainda que a neutralidade seja vista como o caminho mais provável, integrantes do comando nacional dos partidos dizem que ainda não há nenhuma decisão definitiva tomada sobre a eleição e que a legenda precisa se reunir para definir formalmente qual será o caminho. A interlocutores, o senador Rogério Marinho (PL-RJ), coordenador da pré-campanha de Flávio, já trabalha com o cenário de que o PL não terá a federação União-PP na coligação.
No entorno de Flávio, a falta dos dois partidos é minimizada com o argumento de que o PL já é a legenda com maior fundo eleitoral e tempo de propaganda, além do entendimento de que dificilmente as duas siglas vão embarcar na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda assim, o PL ainda busca alianças com outros partidos menores para ampliar a estrutura da campanha de Flávio.
ACORDO – Diante dessas dificuldades, as alas governistas do PP e do União tentam uma aproximação com os dois partidos do Centrão. Esse grupo admite que, mesmo com o afastamente entre Ciro e Flávio, ainda há uma maioria de direita na federação e uma aliança com o presidente Lula é vista como altamente improvável. Apesar disso, é tentado um pacto para que não haja fortes críticas do comando dos partidos a Lula e ao governo.
O deputado André Fufuca (PP-MA), ex-ministro dos Esportes de Lula e aliado próximo de Ciro Nogueira, tenta fazer com que o presidente do PP reduza as críticas ao governo federal. Fufuca, que quer ser candidato a senador e dar palanque para Lula, chegou a ser afastado do comando do PP do Maranhão em meio a uma tentativa da federação União-PP de romper com o governo, mas a decisão foi desfeita em abril e ele voltou a ter o cargo no partido.
Em outro sinal de aproximação com o governo, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, foi ao Ministério do Turismo na semana passada visitar o ministro Gustavo Feliciano, filho do deputado Damião Feliciano (União-PB), da ala governista da federação.
OPERAÇÃO – Quando Ciro foi alvo da operação de busca e apreensão, no começo de maio, a PF fez buscas em endereços ligados ao senador para apurar se ele recebia dinheiro para atuar a favor do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, no Congresso. Ciro nega qualquer irregularidade.
Diante da crise envolvendo o dirigente partidário, Flávio buscou se afastar de Ciro e disse que “não é porque as pessoas têm proximidade” com ele, que ele vai “ter que responder pelos atos delas”. Uma semana depois, quando foram reveladas mensagens em que Flávio pede dinheiro para Vorcaro financiar um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, foi a vez de Ciro demonstrar seu incômodo com o senador do PL.
Em entrevista a uma emissora do Piauí no dia 21 de maio, o presidente do PP disse que “se for culpado”, Flávio “terá que ser punido exemplarmente”. No Piauí, o PP de Ciro faz oposição ao PT local, mas, ao mesmo tempo, decidiu ter um candidato a governador que também será adversário do PL de Flávio.
Conversa mole de salafrários.
“Enquanto isso, Vorcaro continua no presídio vip da PF.”
O Globo, 19-06-26
Caso Master: Três indícios de ‘acordão’ para replicar o fim da Lava Jato
Há três indícios de uma tentativa de “acordão” no ar, para livrar a cara dos alvos do escândalo Master:
– A resistência de Daniel Vorcaro em assumir uma real delação premiada,
– O voto do ministro Gilmar Mendes contra a prisão de chefões da quadrilha e
– Os movimentos de integrantes dos três poderes, com participação do Centrão e do bolsonarismo e o reforço da cúpula do PT, após as provas aterradoras contra Jaques Wagner.
O bolsonarismo usa Wagner para empurrar o escândalo para o colo do presidente Lula. Os petistas rebatem lembrando o áudio de Flávio Bolsonaro pedindo R$ 130 milhões para o filme do pai.
No fundo, porém, nenhum dos dois lados tem interesse em ir fundo nas investigações, até a punição de culpados.
Nessas horas, como ocorre em votações no próprio Congresso, os dois extremos se unem em prol de seus interesses – ou para se safarem todos.
Quem sobra para afastar um “acordão” político e bancar com unhas e dentes que se faça justiça, dentro da Constituição, das leis e das provas?
As minorias no Legislativo, no Executivo e no próprio Supremo, que reforçam a ação da PF e a cobrança da opinião pública, sem deixar margem para as maiorias comemorarem “uma pizza” antes do tempo.
No STF, por exemplo, é a minoria que comanda o processo e dá sinais claros de que não pretende se render à pressão política.
O Ciro Nogueira, que foi Ministro-Chefe da Casa Civil de Bolsonaro, está com a lama até o pescoço no caso Master.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Política, Opinião, 18/06/2026 | 21h08 Por Eliane Cantanhêde
O Ciro Nogueira, que foi Ministro-Chefe da Casa Civil de Bolsonaro, está com a lama até o pescoço no caso Master.
“Até no pescoço”? Ou seria até no nariz?