
Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)
Fernanda Fonseca
CNN
O TST (Tribunal Superior do Trabalho) e o STM (Superior Tribunal Militar) pagaram, juntos, R$ 3.743.098,23 em verbas extras em maio de 2026, primeiro mês de efeito prático da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que limitou os chamados “penduricalhos” da magistratura, segundo levantamento feito pela CNN. A decisão da Corte passou a vigorar no mês-base de abril, com impacto sobre as remunerações pagas em maio.
O montante corresponde à soma de direitos pessoais, indenizações e direitos eventuais pagos pelos dois tribunais além do subsídio mensal. Essas rubricas incluem parcelas que podem elevar a remuneração final acima do teto constitucional, hoje fixado em R$ 46,4 mil. O maior pagamento identificado no TST foi de R$ 112,2 mil. Já no STM, o maior valor encontrado chegou a R$ 178,2 mil.
PARÂMETROS – Em março, o STF fixou parâmetros para assegurar o cumprimento do teto constitucional na remuneração da magistratura e do Ministério Público. A decisão passou a valer a partir do mês-base de abril, com efeitos sobre os pagamentos feitos em maio.
Em junho, a Corte esclareceu pontos da decisão. Entre eles, definiu que férias, plantões e licenças-prêmio não gozados antes da fixação da tese só podem ser indenizados de forma excepcional, quando o gozo foi negado por necessidade de serviço, e respeitado o limite de 35% do subsídio.
O STF também esclareceu que a PVTAC (Parcela de Valorização por Tempo de Antiguidade na Carreira) pode ser paga a magistrados ativos e inativos, no percentual de 5% a cada cinco anos de atividade jurídica, até o limite de 35% do subsídio.
NO RADAR – O tema entrou novamente no radar do Supremo quando os ministros determinarem que presidentes de sete tribunais estaduais prestassem informações, em até 48 horas, sobre valores remuneratórios e indenizatórios pagos a juízes, desembargadores, aposentados e pensionistas em 2026. A cobrança atingiu os Tribunais de Justiça do Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Rondônia.
Nas manifestações encaminhadas ao STF, os tribunais negam irregularidades e afirmam que os pagamentos seguiram os parâmetros fixados pela Corte e pelas normas do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Apesar disso, reconhecem casos de remunerações elevadas e atribuem os valores a situações que, segundo eles, não configuram descumprimento da decisão.
A CNN procurou o TST e o STM para questionar os pagamentos identificados no levantamento, os critérios adotados pelos tribunais e a adequação à decisão do STF sobre o teto constitucional. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Boa noite, tomarei a liberdade de postar aqui um artigo cuja argumentação sobre esse tema me fez refletir ainda mais sobre a extensão desse absurdo inconstitucional.
https://mises.org.br/artigos/20813/o-teto-constitucional-e-a-economia-dos-incentivos/
O teto constitucional e a economia dos incentivos
Giácomo Balbinotto Neto 23 de julho de 2026
O debate atual sobre o teto constitucional costuma ser apresentado como uma discussão sobre remuneração dos servidores públicos. Não é. Trata-se de um problema muito mais profundo: o desenho dos incentivos dentro do próprio estado brasileiro.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu, como regra geral, que a remuneração dos agentes públicos não poderia ultrapassar o subsídio dos ministros do Supremo Tribunal Federal. O objetivo era simples: criar um limite comum para todos os Poderes e impedir que aqueles capazes de influenciar as decisões sobre recursos públicos também pudessem ampliar continuamente os próprios benefícios. O teto constitucional, portanto, nunca foi apenas uma regra salarial. É uma instituição destinada a limitar incentivos. Como toda boa instituição, sua função não é eliminar conflitos de interesse, mas impedir que eles capturem as regras do jogo. Na prática, porém, ocorreu exatamente o contrário. O teto permaneceu na Constituição enquanto as exceções se multiplicaram. Parcelas indenizatórias, retroativos, passivos funcionais e outras rubricas passaram a ser excluídas de sua incidência. O que deveria ser excepcional tornou-se recorrente.
Levantamentos baseados em dados do Conselho Nacional de Justiça, dos portais de transparência e de órgãos de controle mostram que dezenas de milhares de servidores recebem acima do teto constitucional, concentrados principalmente na magistratura e no Ministério Público. Estudos da República.org e do Movimento Pessoas à Frente estimam que mais de 53 mil servidores ultrapassaram esse limite, com impacto anual próximo de R$ 20 bilhões. Em março de 2026, o próprio Supremo Tribunal Federal estabeleceu critérios nacionais para disciplinar verbas indenizatórias, buscando reduzir distorções produzidas pela proliferação de exceções. Seria tentador interpretar esse fenômeno apenas como uma imperfeição jurídica. A Economia oferece uma explicação mais abrangente.
A Nova Economia Política descreve processos dessa natureza como formas de captura institucional, uma extensão da teoria da captura regulatória desenvolvida por George Stigler. Não é preciso revogar uma regra para neutralizá-la. Basta que sua interpretação passe, gradualmente, a refletir os interesses daqueles que deveriam estar submetidos a ela. A norma continua escrita. O incentivo desaparece.
É exatamente aqui que surge o clássico problema de agente-principal. A sociedade delega ao estado a missão de aplicar a Constituição. Mas, quando os próprios intérpretes possuem interesse econômico direto no alcance da regra, cria-se um conflito entre interesse público e interesse privado. O problema deixa de ser jurídico. Passa a ser institucional.
Douglass North demonstrou que instituições reduzem a incerteza quando tornam as regras previsíveis e os compromissos do estado críveis (credible commitments). Quando a aplicação de uma norma passa a depender dos interesses imediatos de seus próprios intérpretes, ela continua existindo como regra jurídica, mas perde sua capacidade de coordenar expectativas e disciplinar comportamentos.
James Buchanan mostrou que o verdadeiro desafio das democracias constitucionais não é a existência de interesses privados, mas a possibilidade de que grupos com poder político influenciem as próprias regras que disciplinam sua atuação. Quando a disputa deixa de ocorrer dentro das regras e passa a ocorrer sobre as regras, a criação de riqueza cede lugar à busca por privilégios (rent seeking).
Forma-se, então, um fenômeno análogo ao que János Kornai denominou restrição orçamentária fraca (soft budget constraint). O teto constitucional permanece formalmente em vigor, mas os agentes passam a agir como se sua aplicação pudesse ser continuamente flexibilizada por novas interpretações e exceções. A restrição deixa de disciplinar comportamentos antes mesmo de ser descumprida. O resultado é previsível: maior pressão sobre o pagador de impostos, menor espaço para investimentos públicos e, sobretudo, perda da credibilidade institucional que sustenta a própria força das regras constitucionais.
Por isso, o debate sobre o teto constitucional não é, essencialmente, um debate sobre salários. É um debate sobre credibilidade institucional.
A experiência internacional aponta em direção oposta. Em boa parte dos países da OCDE, limites remuneratórios são acompanhados por critérios uniformes de contabilização, fiscalização independente e reduzida margem para reclassificações. O objetivo não é pagar menos. É assegurar que regras aprovadas democraticamente sejam efetivamente cumpridas.
No Brasil, a solução passa menos por novas declarações de compromisso e mais por alterar os incentivos. Isso exige critérios nacionais objetivos para verbas indenizatórias, transparência remuneratória padronizada, fortalecimento dos mecanismos de controle e revisão periódica de toda exceção ao teto.
Há uma ironia que dificilmente escaparia aos economistas da Escolha Pública. O Poder incumbido de garantir a supremacia da Constituição acabou participando do processo que reduziu a eficácia de uma de suas próprias regras. Não foi preciso alterar uma única palavra do texto constitucional. Bastou reinterpretá-lo sucessivamente até que o limite deixasse de limitar.
O teto constitucional talvez seja hoje o exemplo mais eloquente de uma instituição cuja forma sobreviveu melhor do que sua função. A regra continua escrita. O limite continua existindo. O que desaparece é sua credibilidade.
Instituições não fracassam porque lhes faltam boas regras. Fracassam quando seus incentivos tornam racional conviver com as exceções.
E democracias não começam a enfraquecer quando uma regra é violada. Começam a enfraquecer quando seus cidadãos passam a acreditar que algumas regras continuam valendo para todos — exceto para aqueles que têm o poder de reinterpretá-las. Nesse dia, o maior prejuízo já não será medido apenas em bilhões de reais. Será medido na erosão da confiança, o único ativo que nenhuma Constituição consegue impor por decreto e que nenhuma economia consegue prosperar sem possuir.
Agradeço a paciência de todos vcs. Se achar a postagem indevida Sr editor eu peço desculpas e solicito que retire. Não concordo nem discordo desse artigo mas me fez refletir. Teto é teto mas hoje virou piso para a elite do serviço público. UMA VERGONHA!!! Já é muito alto esse teto. Deveriam abaixar o teto e obrigar o cumprimento da constituição.
Uma verdadeira “captura institucional” VERGONHOSA!!!!