
Contrariado, Vorcaro queria ir para o embate
Rafael Moraes Moura
O Globo
Enquanto o Banco Central fechava o cerco contra o Master, apontando dificuldades da instituição em captar recursos e honrar compromissos, Daniel Vorcaro discutiu com o seu advogado, Walfrido Warde, entrar com uma ação na Justiça contra a autoridade monetária e pediu para avisar o “presidente” sobre a ofensiva jurídica. É o que revelam mensagens extraídas do celular de Vorcaro pelos investigadores.
Em 17 de julho de 2025, Vorcaro escreve a Warde, às 22h13m: “Vamos precisar entrar na Justiça contra Bacen entre amanhã e segunda”. O banqueiro prossegue: “Galípolo acabou reunião agora. Inventou nova desculpa. Que agora tem erros contábeis. Falou pro Hugo [possível referência ao presidente da Câmara, Hugo Motta]. Não dá mais. Eles não vão fazer”.
“DESPACHOS INTERNOS” – Naquela data, a agenda oficial do presidente do BC, Gabriel Galípolo registrou “despachos internos” e uma reunião com o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Vinícius Carvalho. Mas Galípolo fez uma reunião com sua equipe sobre a compra do Master pelo BRB, o banco estatal de Brasília. Na época da troca de mensagens, Vorcaro vinha tentando pressionar o BC a dar aval ao negócio de R$ 12 bilhões, que acabaria vetado em 3 de setembro.
“Ele não tem coragem”, afirma Warde, em referência a Galípolo. Vorcaro responde: “Temos que ir pro embate. Esse cara é um merda. Agora chega, não dá mais.” “Vamos pra cima. Mas façamos do meu jeito. Primeiro notificação”, escreve Warde. Vorcaro dá aval à ofensiva: “Do jeito que quiser. Avise presidente amanhã e vamos pra guerra.”
Na sequência de diálogos, Warde diz, logo depois: “Já fiz isso. Tem que notificar e tomar medidas”, encaminhando ao banqueiro o print de uma conversa com um interlocutor não identificado.
ALERTA – Dois dias antes da troca de mensagens entre Vorcaro e Warde, em 15 de julho, o Banco Central havia alertado o Ministério Público Federal no Distrito Federal (MPF-DF) que, no primeiro semestre de 2025, “foi constatada cessão de créditos inexistentes ao BRB, adquiridos pelo Banco Master S.A. de empresa terceira”, o que configura indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional.
A situação do Master só se deteriorava, e uma intervenção do BC já vinha sendo discutida na autoridade monetária. A área de supervisão, em que trabalhavam dois chefes de departamento que a investigação descobriu terem recebido dinheiro de Vorcaro, era contra e trabalhava para dar aval à venda do Master para o BRB. Já a diretoria de organização do sistema financeiro, comandada por Renato Gomes, era contra e defendia a intervenção.
SUSPEIÇÃO – “Temos que entrar com suspeicao dó [sic] Renato em funcao do inquerito mpf. Essa e a notificação. Que ele ta obstruindo transação”, escreve Vorcaro para Warde, também em 17 de julho, às 23h16m.
Warde, que se divertia com o apelido de “pitbull”, em referência ao estilo beligerante de atuação, complementa: “Eu mesmo vou escrever. To com ódio desse cara. Ele vai sentir o peso da minha mão.” Vorcaro comenta: “[Renato] Engoliu o Galípolo. Cara tá indo contra você, STF, Câmara, Senado, Presidente”.
“Esse pessoal todo é moleza. Vamos ver se ele aguenta 5 minutos de Warde”, responde Warde, se referindo a si mesmo em terceira pessoa. No dia seguinte, 18 de julho, Warde ainda procurou Vorcaro, dizendo que pretendia elaborar duas notificações (uma para Galípolo e o Banco Central; e outra para Renato Gomes) e pedindo para falar com o banqueiro.
REUNIÃO COM GALÍPOLO – Um dia depois, num sábado, Vorcaro conseguiu ser recebido por Galipolo na sede do BC para uma reunião da qual também participou seu sócio, Augusto Lima. Na época, fontes do BC disseram à Folha de S. Paulo que o encontro serviu para acelerar a análise dos documentos da transação com o BRB, e que novas reuniões ocorreriam na segunda (21) e na terça-feira (22).
No dia 23, porém, Warde disse a Vorcaro ter se encontrado com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. E encaminhou uma mensagem que havia recebido de alguém que ele não identifica: “Descobri o seguinte aqui: o PR falou com Guido ontem por telefone, Guido informou que está em Londres. PR disse que vai chamar assim que retornar. Vamos dar outro jeito”.
O Guido mencionado é Guido Mantega, ex-ministro de Lula que era consultor do Master. PR, no jargão de Brasília, significa Presidente da República. Vorcaro então responde: “Alexandre”, e Warde retruca: “Sim. Vou pavimentar”
SEM MENÇÃO – Em nenhum momento das conversas é mencionado o nome de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, que havia fechado com o Master em janeiro de 2024 um contrato de R$ 3,6 milhões, ao longo de um período de três anos, que previa a sua atuação em uma série de órgãos, inclusive no Banco Central.
A ofensiva jurídica, no entanto, não foi retomada na sequência de mensagens, nem se materializou. Foi nesse período que Moraes procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para fazer pressão em favor do Banco Master.
EM BUSCA DE UMA SAÍDA – Ao menos três dos contatos foram por telefone, mas pelo menos uma vez Moraes se encontrou presencialmente com Galípolo para conversar sobre os problemas do banco de Daniel Vorcaro. Àquela altura, uma intervenção no Master seria desastrosa para o banco, daí a urgência de Warde e Vorcaro em encontrar uma saída – a ponto, segundo sugerem as mensagens, de não poder esperar por uma conversa entre Guido Mantega e Lula.
Moraes pediu a Galípolo que ajudasse a aprovar o negócio, mas ele disse que não seria possível porque já havia uma investigação de fraude em curso. Em nota divulgada à imprensa na época, Moraes afirmou que se encontrou com Galípolo para tratar sobre as implicações da Lei Magnitsky, sanção que o governo Trump lhe impôs no final de julho, e alegou que não teria tratado com o presidente do BC sobre questões referentes ao Banco Master.
Já o Banco Central informou que Galípolo “manteve reuniões com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”. Em 3 de setembro, a autoridade monetária vetou definitivamente o negócio com o BRB. Vorcaro acabaria preso pela primeira vez em 17 de novembro, e a liquidação do Master foi anunciada no dia seguinte.
O elo inquebrantável entre os Bolsonaro e o crime que já usou farda
De Adriano da Nóbrega a Robson Calixto, o “Peixe”, as conexões de Flávio Bolsonaro com as milícias do Rio não são acidentes de percurso
É normal um miliciano ter o contato de uma assessora de um senador? É normal um senador enviar o dinheiro de uma emenda ao Orçamento da União para um miliciano? Não se espante nem um tantinho assim: no universo bolsonarista, é claro que é normal. Eu me arriscaria a dizer que é quase corriqueiro.
Flávio Bolsonaro destinou quase R$ 200 mil para um projeto esportivo a pedido de Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, miliciano condenado por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco.
A Polícia Federal (PF) encontrou as mensagens trocadas entre “Peixe” e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete de Flávio no Senado. E, sem surpresa, a PF suspeita que o dinheiro tenha sido desviado.
E que justificativa ofereceu Flávio para isso? Algo parecido com a que ele deu sobre a aplicação dos mais de R$ 61 milhões destinados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, de exaltação da vida de seu pai — condenado e preso pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023? Não, é claro.
Desta vez, diante da falta da prestação de contas detalhada que havia prometido no caso do filme, Flávio foi mais cuidadoso e não se limitou a dizer que se trata de “uma página virada”.
Preferiu inovar: por meio de sua assessoria, afirmou que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” – e ponto final. Satisfeito?
Ora, a pergunta não foi sobre se a emenda contrariou “a legislação vigente”. Foi sobre o que ele achava do fato de o dinheiro público ter ido parar nas mãos de um miliciano. Não adianta insistir.
A essa altura, ocupado como anda, certamente Flávio deve considerar o assunto “uma página virada”, e vamos para o próximo.
O miliciano é apontado como o homem que apresentou os mandantes do crime aos executores e providenciou a submetralhadora usada para assassinar a vereadora e o motorista Anderson Gomes.
“Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”, ele pediu a Maria de Fátima, segundo apurou o repórter Breno Pires. O dinheiro foi para uma ONG na Taquara, área de milícia no Rio de Janeiro.
O apoio a facções criminosas que já vestiram farda e cobram taxa de segurança não é um acidente de percurso, mas o alicerce da carreira política de Flávio. Como deputado estadual, ele homenageou o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes enquanto este estava preso por homicídio. Quem não sabe?
E quando os crimes de Adriano já eram largamente conhecidos, Flávio ainda empregou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu gabinete com salários de mais de R$ 6 mil, na época do famoso esquema das “rachadinhas” operado por Fabrício Queiroz.
Amigo de longa data da família Bolsonaro, Queiroz foi uma espécie de faz-tudo de Flávio.
Em 2022, Queiroz concorreu a deputado estadual e não se elegeu. Nas eleições municipais de 2024, tentou uma vaga de vereador em Saquarema pelo Partido Liberal (PL), mas obteve apenas 588 votos e terminou como suplente.
Hoje, candidato a presidente da República, Flávio raramente o encontra, e, quando o faz, é às escondidas.
Fonte: Metrópoles, Opinião, 23/09/2026 04:30 Por Ricardo Noblat
Flávio Bolsonaro voltou dos EUA com a família e advogado em jato de Vorcaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL), sua mulher, Fernanda, e as duas filhas do casal voaram em janeiro de 2025 da Flórida, nos Estados Unidos, a Brasília no jato pertencente a Daniel Vorcaro que meses depois, em agosto, foi usado por Alexandre de Moraes e sua esposa.
A aeronave tinha entre os donos cotistas a Prime You — empresa operadora do jato e da qual Vorcaro era um dos sócios — e o advogado Willer Tomaz, amigo próximo de Flávio que aparece como investigado no escândalo do INSS e também estava no voo.
(…)
Fonte: O Globo, Política, 24/09/2026 00h36 Por Patrik Camporez, Sarah Teófilo e Dimitrius Dantas — Brasília
É sempre bom lembrar que…
O Brasil de Lula está fora do Escudo das Américas de Trump
Acorda, Brasil! Presta atenção!
O “Escudo das Américas” é uma coalizão regional de segurança e defesa lançada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A iniciativa foi oficialmente criada em março de 2026, durante uma cúpula realizada em um resort de Trump em Miami, na Flórida.
A aliança funciona por meio de cooperação militar, compartilhamento de inteligência e operações coordenadas. O bloco conta atualmente com cerca de 19 países membros (incluindo Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e El Salvador).
Quais são os objetivos principais?
Combate ao Narcotráfico e Crime Organizado: O foco central declarado é desmantelar cartéis de drogas e redes criminosas transnacionais na América Latina, as quais o governo Trump classifica como “ameaças globais” ou o “Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental”.
Contenção da Influência Estrangeira: Cientistas políticos e analistas apontam que o projeto também serve como uma ferramenta geopolítica para reassertar a hegemonia dos EUA na região e afastar a influência econômica e política da China e da Rússia na América Latina.
Controle de Imigração: Atua no reforço de estratégias para conter fluxos migratórios em massa em direção à fronteira sul dos Estados Unidos.
Acontecimentos Recentes e Sanções ao PCC e CV
Em encontros paralelos à Assembleia Geral da ONU, os países integrantes do grupo assinaram uma declaração conjunta listando 24 grupos como “organizações narcoterroristas transnacionais”. A pedido direto de Trump, os membros concordaram em impor sanções severas a essas facções — o que inclui o congelamento de bens financeiros, restrições de imigração e de vistos, além de punições criminais para apoiadores logísticos. As facções brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) foram formalmente incluídas nessa lista de alvos.
Por que o Brasil está de fora?
O Brasil e o México decidiram não integrar a coalizão. Há duas razões principais para o distanciamento brasileiro:
Divergência Jurídica: A lei brasileira define o crime de terrorismo sob critérios estritos baseados em motivações xenofóbicas, raciais ou religiosas.
O ordenamento jurídico do Brasil não reconhece o termo “narcoterrorismo”, argumentando que facções criminosas como o PCC e o CV visam ao lucro financeiro e ao controle territorial, e não a fins ideológicos ou políticos.
Soberania e Alinhamento Político: Críticos e governos de esquerda da região enxergam a iniciativa de Washington como uma reedição da Doutrina Monroe (uma política do século XIX de forte intervencionismo norte-americano).
O governo brasileiro expressou preocupações com a soberania nacional e recusou a agenda de expansão militar e de posicionamento de tropas dos EUA no continente.