O primeiro turno não terminou a eleição, porém mudou a pergunta a ser feita ao eleitor.

Resultado de 4 de outubro não encerrou a disputa

Pedro do Coutto

Se a vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno surpreendeu, mais surpreendente ainda poderá ser uma eventual nova mudança de comportamento do eleitorado no segundo turno. O resultado de 4 de outubro não encerrou a disputa presidencial: criou uma eleição diferente, com apenas dois nomes, novas alianças, outra distribuição dos votos e, sobretudo, uma pergunta que passou a ocupar o centro do debate nacional: o eleitor que derrotou Lula no primeiro turno pretende confirmar essa escolha ou apenas expressou, nas urnas, a dimensão do desgaste acumulado pelo governo?

O primeiro turno revelou um dado político que não pode ser ignorado. A força eleitoral de Flávio Bolsonaro não pode ser explicada apenas pela transferência automática do capital político de Jair Bolsonaro. Há uma parcela do eleitorado que parece ter utilizado a votação para expressar insatisfação com o governo, com a política tradicional e com a forma como o poder público vem respondendo a problemas concretos do cotidiano.

MUDANÇA GERACIONAL – A eleição mostrou também uma mudança geracional e comportamental importante: candidatos com forte presença digital, comunicação direta e capacidade de mobilização nas redes conseguiram falar com segmentos que a política institucional nem sempre alcança.

Nesse ponto, a campanha de Lula enfrentou uma dificuldade que não se resume à publicidade eleitoral. O problema foi também de comunicação política. Uma máquina de governo pode produzir programas, anúncios, discursos e agendas, mas isso não significa necessariamente que esteja conseguindo conversar com a sociedade.

Entre uma mensagem produzida nos centros de decisão e aquilo que chega ao eleitor existe hoje uma distância considerável. Redes sociais, vídeos curtos, influenciadores e comunicação segmentada alteraram profundamente a maneira como a política é consumida. O eleitor não espera mais necessariamente que o candidato vá até ele pela televisão; muitas vezes, espera que apareça no ambiente digital em que já está.

PERCEPÇÃO POLÍTICA – O resultado do primeiro turno sugere, portanto, que a campanha governista teve dificuldade para transformar realizações administrativas em percepção política. E esse é um problema mais profundo do que uma escolha equivocada de marqueteiros. Quando um governo precisa explicar permanentemente o que fez, em vez de ser reconhecido espontaneamente por aquilo que entregou, existe uma questão de comunicação, mas também de percepção pública.

Os escândalos envolvendo corrupção e irregularidades ajudaram a compor esse ambiente. A Operação Sem Desconto, que investiga descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões, continuou produzindo desdobramentos em 2026, inclusive com novas ações da Polícia Federal. Nos Correios, investigações também atingiram funcionários públicos em casos de fraudes envolvendo encomendas, indenizações e registros internos.

Esses episódios possuem uma dimensão política particularmente sensível porque atingem áreas que entram diretamente na vida do cidadão. Quando um aposentado vê descontos que não autorizou, quando uma empresa estatal aparece associada a investigações ou quando uma instituição pública volta ao noticiário por suspeitas de irregularidades, a discussão deixa de ser abstrata. O problema passa a ser traduzido em uma pergunta simples: quem controla o Estado está efetivamente conseguindo protegê-lo?

CORRUPÇÃO – É preciso, entretanto, não transformar essa percepção em uma explicação única para o resultado eleitoral. Pesquisa Datafolha realizada em março mostrava que a corrupção era apontada como principal problema do país por 9% dos entrevistados, atrás de saúde, segurança e economia. Em julho, a mesma pesquisa mantinha saúde, segurança e economia à frente da corrupção. Isso indica que o eleitorado brasileiro não estava votando exclusivamente sob a lógica dos escândalos.

O caso do Banco Master acrescentou uma camada ainda mais delicada à eleição: a crise de confiança nas instituições. As investigações envolvendo Daniel Vorcaro e as relações reveladas entre o banqueiro, agentes públicos, empresários e integrantes do sistema de Justiça produziram uma sucessão de episódios que ultrapassaram a esfera financeira. Documentos e mensagens tornados públicos alimentaram questionamentos sobre relações pessoais e profissionais envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal e pessoas próximas a eles. O próprio STF registrou que o plenário ainda não havia examinado o mérito de uma das petições relacionadas ao caso.

A dimensão eleitoral desse episódio não deve ser subestimada. Pesquisa Datafolha de setembro apontou que 47% dos eleitores diziam que a crise envolvendo ministros do STF e o Banco Master teria alguma influência sobre sua decisão para presidente. Entre os eleitores que não se identificavam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, 43% afirmavam que o caso teria grande influência.

INSATISFAÇÕES – O ponto central, portanto, talvez não seja afirmar que o eleitor votou simplesmente “contra a corrupção”. A leitura mais consistente é outra: uma parte do eleitorado chegou ao primeiro turno carregando uma combinação de insatisfações — com o governo, com a economia, com a segurança, com a política tradicional e com a percepção de deterioração da confiança nas instituições. Os escândalos funcionaram como elementos capazes de condensar esse sentimento, mas não o explicam sozinhos.

Há ainda uma questão geracional que merece atenção. Lula continua dispondo de uma base social expressiva entre eleitores mais velhos, de menor renda e do Nordeste, enquanto Flávio apresentou maior força entre segmentos de renda mais alta, no Sul e entre eleitores evangélicos. Na reta final do primeiro turno, o Datafolha registrava empate entre os dois em algumas faixas etárias e no Sudeste, mostrando que a divisão eleitoral não se resume a uma simples oposição entre regiões.

É justamente por isso que o segundo turno será diferente. Flávio Bolsonaro precisa transformar a vantagem obtida no primeiro turno em uma maioria nacional; Lula precisa demonstrar que a votação recebida por seus adversários no primeiro turno não constitui um bloco homogêneo de oposição ao seu governo. Entre os dois existe um eleitorado que não pertence integralmente a nenhum dos campos e que pode decidir o resultado final.

PERSUASÃO – A disputa, daqui para frente, será menos sobre quem conseguiu mobilizar melhor sua base e mais sobre quem conseguirá convencer os eleitores que ainda não transformaram sua insatisfação em uma escolha definitiva. O primeiro turno mostrou a força do voto de rejeição e a capacidade de deslocamento do eleitorado. O segundo exigirá algo diferente: capacidade de construir uma maioria.

É nesse ponto que a campanha de Lula enfrenta seu maior desafio. Não basta apresentar indicadores positivos da administração federal. Será necessário responder à percepção de que problemas de corrupção, falhas de controle e crises institucionais atingiram justamente setores do Estado que deveriam transmitir segurança ao cidadão. Ao mesmo tempo, será necessário recuperar uma comunicação capaz de dialogar com eleitores mais jovens e com públicos que já não acompanham a política pelos canais tradicionais.

REJEIÇÃO – Mas o desafio também é de Flávio Bolsonaro. A vitória no primeiro turno não significa que todos os votos recebidos por ele sejam necessariamente votos de adesão ao seu projeto político. Parte deles pode ter sido simplesmente uma manifestação de rejeição ao governo. Transformar voto de protesto em voto de convicção é uma tarefa eleitoral diferente.

O segundo turno, portanto, não será apenas uma repetição do primeiro. Será um novo julgamento político, no qual cada candidato terá de explicar ao eleitor não apenas por que o adversário não deve governar, mas por que ele próprio deveria receber um mandato para conduzir o país.

E talvez essa seja a principal mensagem das urnas de 4 de outubro: a sociedade não entregou apenas uma vantagem eleitoral a Flávio Bolsonaro. Entregou aos dois candidatos uma tarefa mais difícil — convencer um país que chegou ao segundo turno mais desconfiado, mais fragmentado e menos disposto a aceitar respostas prontas.

6 thoughts on “O primeiro turno não terminou a eleição, porém mudou a pergunta a ser feita ao eleitor.”

  1. MUDEI DE PARTIDO DIVERSAS VEZES, E ATÉ PULEI FORA DELE$, para continuar fiel do lado que escolhi na política, do qual nunca mudei e pelo qual sempre busquei encontrar alguma siga que tb se alinha-se do nosso lado único, tal seja a consecução do bem comum do povo brasileiro, enquanto finalidade precípua do estado, de modo que não a encontrando em sigla partidária nenhuma concluí por construir, fora do cercado partidário, por minha própria conta, riscos e sacrifícios, e oferecer ao distinto público, a melhor e mais eficaz fórmula para atingirmos o sucesso pleno do bem comum do povo brasileiro, e assim abriguei o meu sonho, que espero seja um dia transformando em coletivo nacional, na minha própria sigla tal seja a RPL-PNBC-DD-ME, de modo que, a esta altura do campeonato da vida no planeta terra, sob o teto da república encharcada e exaurida do militarismo e do partidarismo, politiqueiro$, e seus tentáculos velhaco$, inclusive com a imprensa camaleônica falada, escrita e televisionada dos me$mo$ a bordo, mais reacionária, mais velhaca e mais conservadora que o próprio dito-cujo sistema apodrecido dos me$mo$, a nosso ver, o ÚNICO ACORDÃO NACIONAL POSSÍVEL com a patota do sistema político-partidário-eleitoral, e que será bem-vindo e bem-recebido pelos 40 milhões de abstenções e votos em branco e nulos, é o da rendição pacífica do sistema apodrecido dos me$mo$ em prol da nossa proposta de mega solução, via evolução, pela redenção do país, da política da vida e da convivência pacífica do conjunto da população, com projeto próprio, novo e alternativo de política e de nação, alicerçado na boa-fé, na verdade, na honestidade, na Justiça, na paz, no amor, no perdão, na conciliação, na união e na mobilização por Ela, a mega solução, focada no sucesso pleno do bem comum do conjunto da população, até para que ainda que já idosos não sejamos obrigados a voltar às ruas do país desta feita para liquidarmos a fatura aberta durante as Jornadas de Junho de 2013, até porque NADA, NEM MESMO O PRAZO DE VALIDADE VENCIDO DO LULA, JUSTIFICA A ENTREGA DO BRASIL ao comando da Irmandade Vorcariana, associada à máfia trumpiniana, até porque isso implica em passar o recibo de que o nosso país terminou vencido pela corrupção, ao invés de pelo menos se transformar numa nação que é o seu destino natural, lembrando que a sua entrega à corrupção pode elevar a dívida pública a 200% do PIB, ou mais, caso a bomba-relógio-financeira, armada há 136 anos, consiga chegar a esse patamar sem explodir antes, é claro, e todos sabemos porque, em que pese os poderes mágicos do bruxo mafioso, fantasiado de banqueiro, Daniel Vorcaro, arvorado em novo Rei Midas do Brasil, até porque onde ele tocou virou ouro de tolos nas eleições, ao que parece. Eu tb amo flashback, mas como nos ensinaram os magos Raul Seixas e Paulo Coelho, ainda temos uma porção de coisas grandes para fazermos pelo nosso país e a nossa gente e não podemos continuar aqui parados, no tempo e no espaço, porque urge evoluirmos rumo à libertação do nosso Brasilzão e transformá-lo numa grande nação. https://www.facebook.com/reel/548892059594480

  2. ‘Mansidão’ repentina de Moraes e aliados é para ajudar Lula e iniciar o salve-se quem puder no STF

    Decisões no Supremo e do chefe da PGR em favor da família Bolsonaro ocorrem depois de Flávio terminar primeiro turno à frente de Lula

    Menos de 48 horas após o resultado do primeiro turno da corrida presidencial, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e parte dos seus aliados, adotaram uma repentina “mansidão” em relação aos bolsonaristas.

    Nesta terça-feira, 6, Moraes autorizou a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos a cumprir pena no regime semiaberto. “Débora do Batom”, como ficou conhecida, foi condenada a 14 anos de prisão por pichar a estátua da Justiça em frente ao STF, durante os atos golpistas de 8 de janeiro.

    Ela virou uma espécie de símbolo dos excessos do Supremo na aplicação de penas nesse episódio e foi tema de muita conversa entre eleitores neste ano. Somente agora conseguiu essa progressão.

    No mesmo dia, instado por Moraes, o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, manifestou-se a favor de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) possa voltar a visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão domiciliar.

    Horas depois, o ministro Gilmar Mendes determinou o arquivamento de um pedido de investigação, por suspeita de estupro e suborno, contra o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), que é o vice da chapa à presidencial de Flávio.

    A Procuradoria-Geral da República não havia encontrado elementos que justificassem uma investigação.

    As três decisões ocorreram em sequência e têm um fator político em comum: foram proferidas depois de a crise do Supremo impactar diretamente no resultado das urnas e Flávio Bolsonaro terminar à frente de Lula no primeiro turno da disputa pela Presidência por 47,03% contra 45,16%.

    O comportamento na Corte, entretanto, está longe de significar um ambiente pacificado. Ao contrário disso, mantém alinhamento com os interesses de Lula, que agora elevou o tom contra o Supremo e sabe que a população precisa ficar menos furiosa com os magistrados antes do segundo turno.

    A estratégia de recuo dos ministros do STF também aponta para o início da dinâmica do “salve-se quem puder”. A Corte já vislumbra um eventual governo de Flávio Bolsonaro e sabe que será muito mais difícil evitar o avanço dos pedidos de impeachment no Senado.

    Além disso, o novo presidente da República vai indicar pelo menos mais três ministros para o STF. E se for Flávio, a turma de Moraes terá seu poder ameaçado.

    Nesse cenário, o Supremo começou a construir pontes com o bolsonarismo e abriu as portas para o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio. Marinho articula sua candidatura ao comando do Senado Federal, casa responsável por processar os pedidos de cassação dos supremos ministros.

    O Estado de S. Paulo, Opinião, 07/10/2026 | 07h06 Por Roseann Kennedy

  3. Dominado por Donald Trump e sua corja, a nosso ver, os EUA, está necessitando de uma intervenção invasora alheia, não com violência, sequestros, tiro, porrada e bombas como Tio Sam Trumpista tem feito mundo afora, feito piratas, para roubar riquezas naturais alheias de países vulneráveis, sob falsos pretextos, mas isto sim pela Democracia de Verdade, Direta, com Meritocracia e Deus na causa, para lembrar, mostrar e ensinar os nossos irmãos norte-americanos do bem que eles tb são gente, seres humanos, membros da Humanidade, e não máquinas de produção e consumo, vítimas, reféns, súditos e escravos da loucura compulsiva e insaciável por dinheiro, poder, vantagens e privilégios, sem limite$, fantasiada de democracia apenas para locupletar espertos e ludibriar a tola freguesia da loucura viciada em comprar gatos por lebres, peixes podres por pescados frescos, apenas para satisfazer os interesses da plutocracia putrefata, com jeitão de cleptocracia e ares fétidos de bandidocracia.

    • Caro Loriaga, eis em: “A Atlantida Fenix”!
      “Simbolicamente, os pais fundadores maçons pretendiam comunicar que parte do plano da Nova Ordem Mundial estipulava que no momento certo da história, os EUA, que fielmente conduziram o restante do mundo por tanto tempo rumo ao novo sistema global do Anticristo, iria repentinamente irromper em chamas e ser totalmente consumido pelo fogo. Entretanto, das cinzas da antiga América surgirá o novo sistema global do Anticristo. Abordamos a forma como acreditamos que esse cenário ocorrerá, e cumprirá as profecias bíblicas de Daniel 2 e 7 e de Apocalipse 18.

      O autor Ovason, citado anteriormente, revela que a seleção da águia foi, de fato, uma “dissimulação ocultista”, definida pelos maçons, rosa-cruzes e alquimistas como um símbolo “desenhado para carregar um simbolismo aberto aceitável para os não-iniciados, mas ao mesmo tempo esconder um significado mais profundo acessível apenas àqueles familiarizados com o simbolismo arcano”. [Ibidem, pág. 218].” https://www.espada.eti.br/seminario2.asp

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