
Vexame de Flávio Bolsonaro vira notícia internacional
Patrick Chaia
O Globo
Após a derrota no segundo turno das eleições, Flávio Bolsonaro (PL) fugiu para os Estados Unidos. A saída do Brasil aconteceu em etapas, e o senador só desembarcou efetivamente em Miami nesta quarta-feira. Além da fuga, Flávio também publicou uma carta com teor golpista na qual se autoproclama “o verdadeiro presidente” do país e afirmava, sem provas, que o processo eleitoral havia sido fraudado. A manifestação por escrito, que teve pelo menos três versões, foi repercutida por veículos de imprensa de vários países, principalmente na Argentina, por onde Flávio passou antes de chegar aos Estados Unidos, destino do ex-candidato à Presidência.
No New York Times, dos Estados Unidos, a chegada de Flávio foi parar na capa da edição desta quinta-feira. Na parte central da capa, uma foto do senador e de sua família descendo do jatinho foi acompanhada da seguinte legenda: “Candidato brasileiro derrotado desembarca nos Estados Unidos: Flávio Bolsonaro, que teve o passaporte cancelado, chegou a Miami com a família nesta quarta-feira”.
“PRESIDENTE” – O filho de Jair Bolsonaro também ganhou uma reportagem própria na edição desta quinta-feira. Nela, o Times aborda a viagem e destaca a carta em que o senador se autoproclama presidente da República. Segundo o jornal, o Departamento de Estado americano planeja emitir vistos que permitirão a entrada legal de Flávio e de sua família no país.
No texto, o periódico afirma que a assistência americana à viagem de Flávio pode interferir nas relações entre Brasil e Estados Unidos. “A assistência do governo dos EUA a Flávio pode aumentar as tensões entre a administração Trump e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acusou o presidente Trump de interferir nos assuntos internos de seu país”, diz o texto.
A agência de notícias Reuters também deu destaque à viagem. Ao abordar a carta, em reportagem publicada nesta quarta-feira, a agência lembrou que a vitória de Lula foi reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por líderes mundiais, por observadores internacionais e pelo próprio partido de Bolsonaro.
CONFORMIDADE – “A eleição no Brasil ocorreu em total conformidade com as exigências legais e constitucionais”, disse o chefe da autoridade eleitoral, Kassio Nunes Marques, em um comunicado, sem fazer referência à carta de Bolsonaro”, também escreveu a Reuters.
O britânico The Guardian, ao comentar a carta, lembrou o termo usado pelo O Globo, pela Folha de S.Paulo e pelo Estadão para classificar o texto: golpista. “Os três principais jornais do Brasil — Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo — descreveram a declaração de Bolsonaro como ‘golpista’. O senador posteriormente apagou a carta e publicou uma nova, na qual, em vez de se autodenominar o ‘verdadeiro presidente’, descreveu-se como ‘o líder do Brasil’”, escreveu o Guardian.
O periódico britânico também lembrou que Flávio agradeceu ao presidente da Argentina, Javier Milei, “pela coragem, justiça e legalidade”, além de agradecer a Donald Trump e ao “maravilhoso povo americano que o acolheu”. O Guardian também ressaltou que as alegações de fraude eleitoral apresentadas na carta não têm evidências que as sustentem.
BRASÕES – O jornal argentino La Nación, que também acompanhou de perto a viagem, publicou reportagens detalhando a saída do Brasil, a passagem pela Argentina e a chegada da família de Flávio aos Estados Unidos. O periódico também abordou o conteúdo da carta e os brasões utilizados nas diferentes versões.
Em uma reportagem sobre o texto publicado pelo senador, o La Nación destacou as comparações com Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela em meio à disputa política com Nicolás Maduro, e Charles de Gaulle, líder francês que assumiu o governo provisório da França após a Segunda Guerra Mundial.
O La Nación também explicou que a primeira versão do brasão utilizado na carta fazia parte do “período da Proclamação da República, em 1889” e permaneceu válida até 1968, “quando foi substituída durante a ditadura militar”. Treze minutos depois, a carta foi republicada com uma nova versão do texto, já com o brasão correto da República Federativa do Brasil.
“Ao vencedor, a revanche: o Wall Street Journal descreve o roteiro brasileiro.
A imprensa internacional começa a enxergar o que parte da imprensa brasileira ainda trata como ‘normalidade institucional’: o uso seletivo do aparato de Estado contra opositores, com cronômetro político.
Rodrigo Constantino para a Gazeta do Povo:
O Wall Street Journal publicou nesta quarta-feira o editorial “To Brazil’s Victor Goes Political Revenge” (“Ao vencedor do Brasil, a vingança política”). O texto não é de um blogueiro de direita nem de um militante bolsonarista. É do conselho editorial de um dos jornais mais influentes e sóbrios do mundo, o mesmo que acompanha de perto a deterioração institucional do Brasil há anos. O que ele descreve é exatamente o que já está acontecendo – e o que o regime lulista anunciou com todas as letras.
Os vencedores políticos deveriam ser magnânimos com os derrotados. No Brasil, processam. Lula venceu, em um pleito bizarro, o segundo turno no domingo (25). Em minutos, o aparato ordenou a apreensão dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro. Alexandre de Moraes, aliado notório, assinou o pedido da Polícia Federal. Flávio não foi formalmente acusado de crime. Ainda assim, cruzou a fronteira com a Argentina na terça e chegou a Miami na quarta, onde os Estados Unidos concederam vistos à família – “oferta justificável de proteção política”, nas palavras do próprio WSJ.
Flávio tem motivos concretos para duvidar de um julgamento justo. No debate da Globo, Lula deixou claro: assim que o adversário perdesse a imunidade parlamentar, enfrentaria investigações. “Lula escolheu o homem e prometeu encontrar o crime”, resume o editorial. Coisa de regime soviético. A competência para decidir processos criminais contra políticos federais é da Procuradoria-Geral da República. Moraes, no entanto, tem o hábito de expandir sua jurisdição quando convém politicamente. O passaporte foi só o primeiro ato. O recado é mais amplo: o candidato derrotado não tem o mesmo tratamento que o eleito.
O WSJ lembra o contexto. Jair Bolsonaro foi condenado no ano passado pelo STF, por 4 a 1, por orquestrar uma tentativa de golpe. Um golpe impossível. Moraes presidiu. O ex-advogado pessoal de Lula e o ex-ministro da Justiça nomeado por ele votaram pela condenação. Flávio Dino chamava Bolsonaro de “demônio” e não se considerou suspeito. Luiz Fux escreveu um voto divergente de 452 páginas apontando falta de jurisdição, insuficiência de provas e violações ao devido processo. Jair cumpre 27 anos em prisão domiciliar. Foi ostracizado pelo regime durante a eleição.
Flávio se junta a jornalistas, blogueiros e formadores de opinião que optaram pelo exílio depois que o STF anulou a condenação de Lula por corrupção e passou a censurar críticos. Nos próximos quatro anos Lula poderá indicar até quatro novos ministros ao STF. Caberá ao novo Senado defender a independência do Judiciário – se for capaz. Será? O teste será derrotar Alcolumbre na reeleição, o que só será possível se a oposição se unir.
O editorial termina com o roteiro clássico da passagem da liberdade à autocracia: um demagogo vence nas urnas (normalmente de forma suspeita), controla o Judiciário e prende os inimigos. “Onde as instituições são fortes, o Estado de Direito pode sobreviver. Não está claro se o Brasil conseguirá. ”Não se trata de opinião isolada. O mesmo jornal já apontou a reação negativa dos mercados à reeleição (queda de ações, desvalorização do real, deterioração fiscal). A imprensa internacional começa a enxergar o que parte da imprensa brasileira ainda trata como “normalidade institucional”: o uso seletivo do aparato de Estado contra opositores, com cronômetro político.
Sete minutos após o resultado do TSE, a representação da PF já estava assinada. Quem acredita que a perseguição diminui porque Flávio perdeu está enganado. Sem o risco de chegar ao Planalto, o custo político de avançar cai. A imunidade acaba em fevereiro de 2027. Os inquéritos já estão no STF.O Estado de Direito exige igualdade perante a lei. O que se vê é o aparato usado de forma assimétrica contra um lado.
Enquanto Flávio tem o passaporte apreendido em minutos e se junta à lista de exilados, casos envolvendo o entorno do poder seguem sem a mesma pressa ou rigor. Lulinha está protegido na Espanha. Moraes sequer é investigado. Isso não é justiça. É instrumento de poder. Países que seguem esse caminho não voltam facilmente. O WSJ apenas descreveu o roteiro que já está em andamento. Resta saber se o Brasil ainda tem instituições – e vontade política – capazes de interrompê-lo.”
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Bukele, conforme:
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A fuga, a carta, o ridículo e a falta de vergonha
O episódio da fuga de um senador da República para os EUA, candidato derrotado à Presidência da República, com 59.862.041 de votos, é um capítulo deprimente da história do Brasil.
A viagem de fuga da família de Flávio Bolsonaro ocorreu em um Gulfstream G400 pertencente a uma empresa investigada por lavagem de dinheiro. O avião custa aproximadamente US$ 43,5 milhões, o equivalente a R$ 187 milhões. Algo parecido com o dinheiro doado por Vorcaro para fazer o famoso filme e que hoje ajuda a sustentar a vida de luxo da família foragida.
O comboio de carros que acompanhou a família parecia uma comitiva real. É muito dinheiro envolvido. E o desesperadamente ridículo: a carta em que o foragido se diz “presidente eleito do Brasil”. É de uma vergonha profunda.
A família Bolsonaro tem que ser estudada: indigentes intelectuais, corruptos, sem formação humanista, incultos e com um apego exagerado à violência e ao preconceito.
Fizeram a vida política explorando o lado bizarro e escatológico das pessoas e conseguiram sucesso ao se elegerem para os mais diversos cargos com votações expressivas.
O atual presidiário, Jair Bolsonaro, chegou à Presidência da República e, mesmo com sua visão tacanha e limitada, quase se reelegeu. É de dar vergonha alheia ver essa família se jactando pelo fato de serem ignorantes.
Eles têm orgulho de serem toscos. Investiram na ignorância como estratégia e na mentira como forma de se comunicar. Ficaram bilionários e acham que não devem satisfação a absolutamente ninguém. Criaram uma legião de seguidores fanáticos com uma força política inacreditável.
Ao que tudo indica, pelo menos 3 deles deverão ser presos em breve. O pai já está numa prisão domiciliar que tem cheiro de privilégio. A Papuda deve ser o destino próximo. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro foi condenado e se refugiou nos EUA. O senador que fugiu certamente sabe o que fez para precisar fugir.
Logo deve estar respondendo a vários processos por peculato, corrupção, organização criminosa, evasão e outros crimes. É uma lista imensa e as condenações serão inevitáveis. Também já é foragido antes mesmo de a prisão ser decretada.
O mais triste e preocupante é que esse bando tem o apoio de parte de uma elite brasileira que só pensa nos inúmeros e incontáveis privilégios que desfrutava com os Bolsonaros no poder.
Saquearam o país e fizeram severos retrocessos em praticamente todas as áreas: saúde, educação, cultura, ecologia, agro, economia, ciência e arte; enfim, um desmonte da estrutura do Brasil.
E, mesmo com o desastre, ainda conseguiram, nas últimas eleições, eleger senadores e deputados, além de obter uma vitória assustadora no 1º turno da disputa presidencial.
Foi essa vitória no 1º turno que acordou o Brasil. Em 21 dias, do 1º ao 2º turno, o país viu-se envolvido no mais importante movimento de resistência democrática.
Os jovens foram às ruas, sem um comando partidário e sem responder a um chamado da campanha. Foi muito maior do que tudo o que se viu até então. Foi espontâneo, com alegria, medo, apreensão e esperança. Milhões de pessoas em todos os cantos do país.
E a voz dos jovens despertou a 3ª idade. A resposta, no dia da votação do 2º turno, foi o fato político mais emocionante da história recente do Brasil. Idosos sendo carregados para votar; pessoas com mais de 100 anos chegando de cadeira de rodas ou de bengala.
Milhares de eleitores tendo que percorrer quilômetros, pois a bandidagem oficial tirou ônibus e metrôs de circulação. Foi um movimento que abraçou o país e envolveu todas as pessoas que queriam ver a civilização vencer e derrotar a milícia e a barbárie da direita fascista.
Um movimento muito maior do que o próprio Lula e o próprio PT. Essa é a reflexão que devemos fazer: todos os que têm responsabilidade com a estabilidade democrática e com os rumos do país.
É necessário que o 4º mandato do presidente Lula seja realmente um governo para todos. Uma tarefa silenciosa e urgente é unir o país.
O bolsonarismo investiu na violência e dividiu a sociedade brasileira e as famílias. Uma das bases de sustentação desse movimento de ultradireita é o ódio como alimento. O mais solene desprezo a qualquer empatia e a qualquer solidariedade.
Mudar esse jeito cruel e mesquinho, que se alimenta da discórdia, é uma tarefa fundamental para a próxima gestão.
Não é só mudar o governo, é muito mais: temos que alterar a maneira de estarmos na sociedade. Questões que podem parecer simples, mas que poderão efetivamente mudar o Brasil.
Aquele país alegre, solidário e humano que se manifestou do 1º ao 2º turno precisa ser a tônica do dia a dia. Resgatar um Brasil onde se possa viver em paz e harmonia é a maior tarefa que cada brasileiro tem agora. E depende de todos nós.
Não podemos deixar que a mediocridade, o ódio e a violência voltem a ser a cara do brasileiro. Vamos voltar a ser leves e alegres. Esses 21 dias, de 4 a 25 de outubro, mostraram que o Brasil tem jeito. Sem medo de ser feliz.
Poder360, Opinião, 30.out.2026 – 5h58 Por Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogado criminal.
Ainda Bukele, em:
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