
Candidato usará declarações feitas durante julgamento
Luísa Marzullo
Letícia Pille
O Globo
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretende incorporar ao discurso eleitoral as críticas feitas à atuação da Polícia Federal (PF) durante o julgamento desta terça-feira no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro e atribuídas a Alexandre de Moraes.
Auxiliares do candidato avaliam que declarações de ministros sobre uma “PF paralela”, “desvios de finalidade”, “arapongagem” e agentes da corporação “peitando” integrantes da Corte oferecem novos elementos para uma linha que Flávio já vinha explorando na campanha: a acusação de instrumentalização política da PF.
HOLOFOTES – A orientação é aproveitar as manifestações feitas dentro do próprio Supremo para reforçar esse discurso nas próximas agendas e na comunicação eleitoral. A avaliação no QG é que, independentemente das divergências entre os ministros sobre o papel da corporação, o julgamento colocou sob holofotes questionamentos à conduta de integrantes da PF que podem ser incorporados à narrativa do candidato.
As críticas mais contundentes partiram de André Mendonça e Luiz Fux. Mendonça afirmou que existe atualmente uma “PF paralela” e acusou integrantes da corporação de monitorar ministros.
— Nós temos hoje uma PF paralela, uma PF paralela, com monitoramento de ministros. Não pense que Vossa Excelência está salvo, não, ministro — afirmou Mendonça.
“DESVIOS DE FINALIDADE” – Fux também questionou a atuação da corporação ao defender medidas tomadas pela Segunda Turma no caso. O ministro afirmou que o colegiado havia identificado “desvios de finalidade” na atuação do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e sustentou que a instituição não poderia trabalhar contra o Judiciário.
— Sou juiz há 50 anos, a Polícia Federal sempre trabalhou em prol do Poder Judiciário. O que não pode é a Polícia Federal trabalhar contra o Poder Judiciário e instrumentalizar pessoas para sustentar posições contra o Poder Judiciário — disse Fux.
ARAPONGAGEM – Em outro momento, Fux afirmou que nunca havia visto a corporação “peitar” um integrante do Supremo e disse que a situação poderia levar à criação de uma estrutura dedicada à “arapongagem” contra ministros.
— Eu nunca vi a Polícia Federal peitar um ministro do Supremo Tribunal. Nós entendemos que aquilo representava uma anomalia e ia contaminar todos os julgamentos com relação a fatos graves noticiados e, mais ainda, criar ali uma agência própria que vai se dedicar à arapongagem contra ministro do próprio tribunal federal — afirmou.
A campanha pretende explorar justamente o fato de as declarações terem sido feitas durante uma sessão do Supremo. Flávio já vinha acusando a PF de instrumentalização política e, na semana passada, durante agenda em Juiz de Fora (MG), falou em um “tapetão” contra sua candidatura e afirmou que a corporação estaria sendo usada politicamente. O senador voltou a fazer acusações semelhantes após a operação que atingiu pessoas ligadas à investigação sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
ASSOCIAÇÃO – Integrantes da campanha consideram que as manifestações desta terça-feira permitem agora associar esse discurso a questionamentos feitos por ministros durante o julgamento. A intenção é recuperar trechos da sessão e incorporá-los às manifestações do candidato sobre o caso nos próximos dias.
O plenário, no entanto, não teve uma posição uniforme sobre a Polícia Federal. Gilmar Mendes saiu em defesa da direção da corporação ao criticar duramente a decisão de Mendonça que havia determinado o afastamento de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência, Leandro Almada.
Gilmar classificou a medida como um “vexame” e afirmou que afastar o diretor-geral da PF seria comparável a retirar o comandante do Exército. Para o decano, uma decisão dessa dimensão exigiria uma situação excepcional.
“QUEM TEM MEDO DA PF?” – Alexandre de Moraes também saiu em defesa da corporação durante um dos embates com Mendonça. Ao rebater as acusações sobre a atuação da PF, perguntou “Quem tem medo da Polícia Federal?” e acusou o colega de ter pressionado integrantes da instituição para que seu nome fosse incluído na investigação. Mendonça negou a acusação.
A divisão do plenário não altera, segundo integrantes da campanha, a intenção de aproveitar as manifestações críticas. O movimento ocorre num momento em que a crise na Corte ganha espaço crescente na campanha de Flávio. Nesta terça-feira, o candidato já levou o embate envolvendo Moraes ao horário eleitoral na televisão. Mesmo durante agenda em Fortaleza, no início de um giro pelo Nordeste, recebeu de auxiliares atualizações sobre o julgamento e as manifestações dos ministros.
A campanha avalia que a crise no STF não precisa provocar uma migração expressiva de votos para ter utilidade eleitoral. A aposta é que a manutenção do assunto no debate público ajuda a mobilizar o eleitorado do candidato e permite que Flávio mantenha as críticas a Moraes e à atuação da PF entre os temas de sua campanha na reta final antes do primeiro turno.
QUEM TEM MEDO…
DA FEDERAL?
Som na caixa!
Você não me assusta, Policinha
Não tenho medo de você
Policinha, não tenho medo de você
Quem tem medo da Federa?
Federal, Federal?
Quem tem medo da Federal?
Tcha-la-la-Ministro-la-lau
Quem tem medo da Federal?
Federal, Federal?
Quem tem medo da Federal?
Juiz e Procurador-la-lau
Há muito tempo atrás
Três minustrinhos viviam no bosque
Não davam muita atenção
Pra grande Federal
O primeiro não era astuto
Fez sua casa de arbusto
Tocava a sua flauta
Brincava pela mata
O segundo não tinha medo
Fez sua casa com um feno
Tocava seu violino
Brincava com o golpista travestido de banqueiro
O terceiro falou logo:
“Minha casa é com tijolos”
Sou o Decano
Não vou tentar nem dançar
Assim não vou acabar
Quem tem medo da Federal?
Federal, Federal?
Quem tem medo da Federal?
Ai, essas instituições não tão com nada
Eu quero ver o povo lerdo, os jornalistas e a sociedade civil organizada virem aqui, e soprarem e destruirem a minha casa de esquemas de safadeza.
Somos Ministros!
Mas o grande dia veio
O Povo pegou eles de jeito
Soprou as casas pro ar
Mas uma não pôde abalar
Todos correram pro terceiro
Na casa feita contra o vento
Ninguém ficou machucado
O Povo ficou chateado
Povinho, não tenho medo de você
Povo besta! Pensam que vão ter justiça quando o próprio juiz é o bandido
Há um pacto de corrupção e cobertura seletiva entre os três poderes.
Quem tem medo da Federal?
Flávio deveria convidar a Eliana Calmon para sua ministra da justiça. Conhece as entranhas do judiciário e sabedoria como lidar com os togados. É juíza, competente, mulher e nordestina. Tem um histórico de combate a corrupção dentro do judiciário. Tê-la no ministério seria um gol de placa.
… e saberia como lidar com os togados.
Dizem que a origem da implicância de Xandão e Gilmar com Mendonça é o enorme sucesso do seu implante capilar.
OLHA A CABELEIRA DO MENDONÇA…
“Fachin pode resolver, sozinho, essa patifaria que aconteceu hoje no STF. Segue o roteiro:
1) pedir as notas taquigráficas da sessão de hoje;
2) transcrever o teor da fala de Flávio Dino, onde consta, sim, com todas as letras, o VOTO dele sobre a questão de ordem em relação à reunião de julgamentos;
3) reconhecer que Dino não apenas votou, como apresentou extensa fundamentação (cínica, mas apresentou), o que torna o voto dele quanto à questão de ordem CONCLUÍDO;
4) Tornar sem efeito, a posteriori, o voto proferido por Alexandre de Moraes, por ser óbvia e diretamente interessado na causa, ou – se não tiver coragem para tanto – aplicar a regra do art. 13, IX do RISTF sobre o voto de qualidade (“desempatador”) do presidente do STF;
5) Com isso devidamente resolvido, lançar um despacho saneador resolvendo todas as questões de ordem apresentadas, delineando, de forma clara, o objeto de julgamento da próxima sessão, para que nenhum cínico alegue desconhecimento: autorizar, ou não, investigação criminal contra o Ministro Alexandre de Moraes.
Enquanto Fachin era solícito e simpático, a turba composta por Dino-Gilmar-Moraes tratorava tudo o que via pela frente sem dó nem piedade. Moraes pediu um aparte e votou, na maior. Ficou por isso mesmo.
Fachin não percebeu que, no momento, privilegiar os sorrisinhos e o “bom convívio” significa jogar o país debaixo do trem. Ele falhou miseravelmente na condução da sessão de hoje, lembrando o verso de Arthur Rimbaud: “par délicatesse j’ai perdu ma vie” (por delicadeza, perdi minha vida).”
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