
Flávio confronta Lula e ignora apresentação de projetos
Letícia Pille
O Globo
Na reta final do primeiro turno, a campanha do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) passou a dedicar atenção especial às falas e aos episódios protagonizados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em busca de munição para desgastar o petista.
O movimento não se resume aos ataques tradicionais entre adversários, mas consiste em acompanhar declarações do presidente, identificar trechos que possam provocar repercussão negativa e rapidamente transformá-los em conteúdo para as redes e para o discurso eleitoral.
ETARISMO – Flávio costuma recorrer à idade de Lula ao comentar esse tipo de episódio. O senador afirma com frequência que o presidente, aos 80 anos, já não teria o mesmo cuidado ao falar e que não teria mais capacidade para governar. A leitura passou a orientar parte do acompanhamento que a campanha faz das falas do petista.
Dois episódios recentes ajudam a ilustrar esse movimento. Um deles foi a ligação feita por Lula para o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante uma agenda em Belém. O outro foi a declaração do presidente sobre exames para prevenção do câncer de próstata, que acabou mobilizando Flávio e outros integrantes de sua campanha.
Na segunda-feira, Lula ligou ao vivo para Dino durante um evento em que sancionaria um projeto apresentado pelo ministro quando ele ainda era senador. A proposta estabelece uma estratégia nacional de controle e avaliação da qualidade da assistência à saúde prestada pela iniciativa privada.
ALÔ – A breve conversa com Dino, que anteriormente foi seu ministro da Justiça, ocorreu pelo viva-voz de um celular e Lula pediu para que ele desse “um alô para o povo do Pará”.
No dia seguinte, Flávio transformou a cena em uma crítica à relação entre o presidente e o ministro do Supremo. Em publicação no X, questionou se Dino continuaria sendo “subordinado” a Lula depois de chegar à Corte e conectou o episódio à disputa pelas próximas vagas no tribunal.
“Ontem, Lula ligou para Flávio Dino como se fosse um político subordinado de seu governo. Será que Dino continua sendo subordinado do Lula no STF? O próximo presidente do Brasil indicará pelo menos mais 4 ministros para o STF. Não vamos deixar que mais 4 Dinos ou 4 Moraes integrem essa Instituição tão importante para a democracia”, escreveu.
ARGUMENTO ELEITORAL – A publicação transformou uma ligação relacionada à sanção de um projeto em argumento eleitoral sobre a futura composição do Supremo. A escolha de Dino para a Corte foi feita pelo próprio Lula, em 2023, quando o atual ministro deixou a política para assumir uma cadeira no tribunal.
Já o episódio do “toque” teve uma repercussão ainda maior nas redes. Lula falava em Belém sobre prevenção e tratamento do câncer de próstata quando criticou a resistência de homens a realizar exames.
ABUSO – Ao comparar a disposição de homens e mulheres para procedimentos médicos, afirmou que as mulheres aprendem a “tomar toque desde pequenas”. A fala circulou nas redes fora do contexto do discurso e passou a ser explorada por integrantes do PL como referência a abuso sexual.
Flávio reagiu diretamente. Em um vídeo publicado nas redes, fez um “react” da declaração de Lula e afirmou: “Lula, eu tenho duas filhas pequenas. Uma de 14 e outra de 12 anos e elas não estão acostumadas a tomar toque desde criança, não. Essa sua fala é preconceituosa”.
MOBILIZAÇÃO – A fala mobilizou outros nomes do entorno do candidato. Daniella Marques, coordenadora da área econômica da campanha de Flávio publicou um vídeo criticando Lula, e Nikolas Ferreira (PL-MG) também passou a explorar o episódio nas redes.
A reação chegou ao outro lado da disputa. Lula explicou posteriormente que fazia referência a exames médicos e à resistência de homens ao exame de próstata. Segundo o presidente, seu argumento era que mulheres costumam se submeter desde cedo a exames preventivos, enquanto homens frequentemente evitam procedimentos relacionados à próstata por preconceito.
O petista também respondeu aos ataques de Nikolas, a quem chamou de “canalha”. Janja entrou na reação e chamou o deputado de “piá de bosta”. A campanha de Lula ainda acionou a Justiça Eleitoral para tentar retirar conteúdos que, segundo os petistas, distorciam a declaração do presidente.
VIRALIZAÇÃO – A estratégia que ganhou espaço justamente quando a campanha entrou na fase em que cada declaração pública passou a ser avaliada também pelo potencial de viralização. A aposta é que, a poucos dias da votação, um episódio que consiga dominar as redes pode valer mais politicamente do que um discurso inteiro de campanha.
A exploração das falas de Lula também se encaixa em uma linha de ataque que Flávio vem usando há meses. O senador frequentemente associa a idade do presidente à possibilidade de deslizes e tenta apresentar os episódios como evidência de que o petista perdeu parte do controle sobre o próprio discurso.