Medo de prisão teria motivado fuga de Flávio para os EUA
Carolina Linhares
Thaísa Oliveira
Folha
Quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com seus advogados e principais aliados políticos na segunda-feira (26), dia seguinte à derrota na disputa presidencial para Lula (PT), ele estava inconformado e se sentia injustiçado, segundo participantes do encontro. Na véspera, havia declarado que não reconhecia o resultado da eleição.
Após quase cinco horas de reunião, ele parecia convencido a não seguir o caminho golpista de falar em fraude na votação, de acordo com os relatos. Um dos argumentos ouvidos pelo senador foi o de que repetir as atitudes de Jair Bolsonaro (PL) o levaria ao mesmo lugar: a prisão. O ex-presidente cumpre em regime domiciliar a pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
FUGA – Flávio decidiu evitar uma eventual prisão de outra forma ao fugir para os Estados Unidos, onde sua voz não seria censurada, segundo ele. De lá, o candidato derrotado voltou a insinuar que houve fraude na eleição, sem apresentar provas.
Um dos aliados presentes na reunião de segunda teria pedido que Flávio lembrasse o que o pai havia feito e aonde tinha chegado com isso. O senador tinha acabado de visitar Bolsonaro naquela manhã. Ao sair da casa do pai, segundo ele mesmo relatou, recebeu uma intimação da Polícia Federal.
No âmbito do inquérito que o investiga por suspeita de lavagem de dinheiro, a PF havia pedido, e o ministro Alexandre de Moraes havia autorizado, que seus passaportes brasileiros fossem cancelados. Já o documento italiano deveria ser entregue até o final da manhã seguinte. A fundamentação da solicitação não foi tornada pública.
FUTURO DO SENADOR – pós ser intimado, segundo os relatos, Flávio ligou para os advogados da campanha Tracy Reinaldet (criminal) e Maria Claudia Bucchianeri (eleitoral), mas não teria conseguido falar com eles. Recorreu então ao amigo e advogado Otto Medeiros, que lhe disse para ir ao seu escritório. O local recebeu, então, o que se tornou uma reunião de definições políticas e jurídicas a respeito do futuro do senador e da direita.
Juntaram-se aos dois Tracy, Maria Claudia, o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o advogado e amigo Vicente Santini, a economista Daniella Marques e o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP).
A opinião de que Flávio deveria abandonar a contestação das urnas teria sido unânime. Os advogados apontaram que a melhor estratégia seria uma ação eleitoral contra Lula por uso da máquina, para a qual diziam ver elementos consistentes.
RUMOS DA DIREITA – Ficou combinado que o candidato do PL participaria, na semana seguinte, de um evento no Congresso com os senadores da direita eleitos para apontar os rumos da oposição a Lula. O primeiro embate seria a disputa pela presidência do Senado. O senador também teria acertado com um de seus advogados que ele poderia buscar seu passaporte italiano pela manhã em sua casa e entregá-lo à PF.
A reunião no escritório de Otto durou de 11h até cerca de 16h. Nesse intervalo, o advogado ofereceu um buffet de almoço. E ali mesmo o senador gravou um vídeo, seguindo o conselho do grupo, em que deixou de lado a tese de fraude e disse que entregaria seu passaporte, pois nunca havia pensado em sair do país. Até chegar ao tom considerado correto, Flávio fez a gravação três ou quatro vezes. O vídeo foi disparado em suas redes pouco antes das 17h.
Quem esteve com Flávio naquela segunda diz que a intimação da PF agravou o estado do senador, já inconformado com a derrota. O mesmo medo de ser preso que seus advogados usaram como argumento para que ele não adotasse uma linha golpista acabou sendo a motivação de sua fuga, segundo disse em live nesta sexta-feira (30).
INTIMAÇÃO – Flávio afirmou, na transmissão em suas redes, que Bolsonaro presenciou a intimação da PF na porta de sua casa. “Ele me olhou com os olhos cheios de lágrimas, falou: ‘já sabe aonde é que eles querem chegar com isso, né?’. Eu falei: ‘pai, já sei aonde eles querem chegar, eu sei o que eu tenho que fazer”, disse.
O senador disse que, nos EUA, vai “continuar tendo voz ativa”, ao contrário do pai. “Ele ficou no Brasil e onde ele está, né? […] Como é que ele consegue orientar se ele não tem voz, se ele está censurado, injustiçado?”, questionou.
Tudo indica que Flávio, Fernanda e as duas filhas estavam em casa na tarde de segunda, quando o senador recebeu outro advogado e amigo, Frederick Wassef, que tem uma opinião mais radical do que o grupo com quem o senador havia acabado de se reunir. Wassef saiu da casa do senador por volta de 18h, cerca de 40 minutos após ter chegado.
SEM RESPOSTA – No dia seguinte, às 7h50 de terça-feira (27), o advogado com quem Flávio teria combinado de entregar o passaporte italiano enviou uma mensagem ao senador para acertar o horário —o WhatsApp exibiu apenas um tique e não houve resposta. Naquele dia, foram várias as mensagens e ligações do defensor para seu cliente, todas ignoradas.
Também pouco antes das 8h, outro contato de Flávio, seu amigo Marcello Lopes, que chegou a atuar como seu marqueteiro na pré-campanha, enviou uma mensagem a Fernanda Bolsonaro, mulher do senador. Naquele momento, um portal argentino já noticiava que o candidato derrotado havia fugido do Brasil pela fronteira com o país do aliado Javier Milei. Fernanda teria respondido que Flávio estava deitado ao seu lado e que entraria em contato quando levantasse.
A ida do candidato aos Estados Unidos foi reprovada por boa parte da direita, principalmente pelos integrantes mais moderados e por aliados do núcleo duro da campanha. Apesar de externarem um sentimento de compreensão com a atitude do senador, eles dizem que o caminho político definido pela oposição não era aquele.
GOLPISMO – A divulgação de uma carta de teor golpista por Flávio horas após sua chegada aos EUA apenas ampliou o isolamento do senador em seu próprio campo, e Tarcísio ganhou ainda mais força como alternativa para liderar a oposição e se candidatar em 2030.
Flávio tem dito que o Brasil não vive uma democracia e que ele não tem a quem recorrer da suposta perseguição. Para seus advogados, contudo, ele deveria ter baixado a temperatura política e, a partir disso, seus inquéritos criminais poderiam ser arquivados por meio de uma defesa técnica.
Flávio Covarde Bolsonaro, um homem sem qualidades
Falta de coragem é o pior dos vícios em um político
Nas situações de adversidade que se vê o caráter e a força dos grandes líderes
(…)
Folha de S. Paulo, Opinião, 2.nov.2026 às 12h44 Por Mafalda Anjos
“Sem qualidades” não seria desqualificado?