A corrida presidencial sob a sombra de uma grave crise institucional

“Se for Flávio contra Lula, Lula vence; se for Caiado, Caiado ganha”, diz Kassab

Genial/Quaest: Lula mantém liderança eleitoral, enquanto Flávio enfrenta aumento da rejeição

Reina a esculhambação no STF, que não corrige informações erradas do seu site

STF: o que é e qual seu impacto na advocacia

Ouvidoria não reconhece erros cometidos pelo Suprem0

Carlos Newton

É inacreditável, abominável e imperdoável a esculhambação que reina no Supremo Tribunal Federal, a ponto de a Ouvidoria se recusar a corrigir informação errônea divulgada sobre o Regimento Interno pelo site do próprio STF. Como se pode aceitar que ocorra uma situação desse nível?

É algo espantoso e aterrador, porque significa que o STF está propositadamente induzindo a erro os jornalistas e, consequentemente, a própria opinião pública, num assunto da máxima importância, pois envolve a condenação de um ex-presidente da República e de mais 1,6 mil brasileiros, acusados de terrorismo e golpe de estado, punidos com longas penas e pagamentos de multas milionárias.

ERRO NO SITE – Publicada no dia 12 de maio pela jornalista Suelen Pires, a matéria do STF tem o seguinte título: “Ex-presidente Bolsonaro apresenta revisão criminal contra condenação por tentativa de golpe de Estado”. E a informação equivocada vem logo abaixo, no subtítulo: “Instrumento processual é utilizado contra condenações definitivas, e a competência para julgamento é do Plenário”.

Porém, isso não mais existe. Ao constatar que o portal do Supremo estava informando errado que a revisão criminal seria julgada pelo plenário, a Tribuna imediatamente recorreu à Ouvidoria do STF, pedindo que corrigisse o erro de informação, porque estava sendo reproduzido por toda a imprensa brasileira e pelos correspondentes internacionais.

Na mensagem à Ouvidoria, explicamos que, com a criação das Turmas, o STF alterou o Regimento e o Plenário passou a examinar somente processos criminais contra autoridades no exercício do cargo. Justamente por isso, Bolsonaro foi julgado e condenado pela Primeira Turma.

ERRO COMPROVADO – As explicações foram minuciosas, mas a Ouvidoria não quis ouvir. Ao invés de apurar se a informação estava mesma errada, enviaram a questão à Assessoria de Imprensa.

Detalhe importantíssimo – ainda em maio, poucos dias depois da publicação da notícia errada no portal do STF, o equívoco foi desfeito pela própria presidência do Supremo, que encaminhou a ação de Bolsonaro à Segundo Turma e não ao Plenário. Apesar dessa realidade, os jornalistas continuam acreditando no Portal do STF, que até hoje mantém a informação incorreta.

E nesta terça-feira, dia 14, dois meses depois de fazer a queixa, a Tribuna recebeu mensagem da Ouvidoria do STF, repetindo que está correta a notícia de que o julgamento será no Plenário .

DIZ A MENSAGEM – “A matéria publicada no portal de notícias do STF, em 12 de maio de 2026, informa que a competência para o julgamento da revisão criminal apresentada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro decorre do artigo 6º, inciso I, alínea “b”, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal. O dispositivo estabelece expressamente: “Art. 6º Também compete ao Plenário: I – processar e julgar originariamente: (…) b) a revisão criminal de julgado do Tribunal.”

Quanta boçalidade… “Julgado do Tribunal”, no Regimento, significa “julgado do Plenário” e difere dos “julgados das Turmas”. Como o julgamento será no Plenário, se já está tramitando desde 13 de maio na Segunda Turma? E tem relator escolhido (Nunes Marques), com parecer da Procuradoria-Geral da República já concedido etc. e tal.

Como se sabe, aguarda-se apenas o voto do relator para o processo ir a julgamento na Segunda Turma. Mas ninguém avisou isso à Ouvidoria nem à Assessoria de Imprensa do Supremo, onde reina a esculhambação.

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P.S.
– Para qualquer repórter, é desconfortável defender sozinho uma tese jurídica, sem que outros jornalistas apoiem e sem que nenhum jurista de notório saber venha se manifestar contra ou a favor. E pior fica quando surgem juristas de nenhum saber fazendo reparos às reportagens, com base nessas informações totalmente errôneas, divulgadas pelo próprio Supremo em seu site oficial. Se Francelino Pereira e Renato Russo ainda estivessem entre nós, sem dúvida perguntariam: “Que país é esse?”. (C.N.)

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Orgulhoso, Flávio exibe a carta que recebeu do seu pai

Vicente Limongi Netto

Por ter divulgado a carta que recebeu de Jair Bolsonaro, o pré-candidato Flávio, filho Zero Um, está impedido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de visitar o pai Jair Bolsonaro por 90 dias, na prisão domiciliar.

Mais uma vez,  Flávio Rachadinha ficou atordoado. Não acerta uma. É sempre tiro no pé.  Por isso, resolveu dar o troco e dizem que decidiu ele próprio escrever uma carta para o pai amado e aguardar a repercussão.

SERÁ IMORTAL? –  Há quem diga que Flávio chocolate tem pendores literários para vir a ser colega de Merval Pereira e Miriam Leitão, na Academia Brasileira de Letras. Outros dizem que seus textos não valem uma barra de chocolate.

UMA CARTA COMOVENTE – Assim, para melhor avaliação, vamos à comovente carta que ele teria escrito:

É demais, papai. Xandão não dá trégua para nós dois. Tenho evitado falar bobagens, mas a campanha política é dura. Puxei seu temperamento. Chuto a barraca. Depois do mal feito, peço desculpas e boto a culpa nos outros.

Papai, sei que não deveria ter tornada pública a carta que você fez para mim. Achei que ajudaria a melhorar minha campanha. Também sei que sou fraco, fraquíssimo, sem condições de disputar a Presidência da República. Deveria me contentar com o Senado.  Onde também sou inútil.

 Ocorre que fui empurrado por você e pelo Valdemar, que levavam fé no meu taco. Estou tentando dar tudo de mim. Errar menos. Deixar a arrogância e a prepotência em casa. Mas, convenhamos, este temperamento explosivo ganhei de você.

Papai, como estou impedido de visitar você, não esqueça de tomar os remédios. Muito cuidado ao tomar banho, porque você pode cair.  Nada de mexer na tornozeleira. Não piore as coisas.    Cuide-se bem.

Beijos do filho que ama você, Flávio. 

Brasilia, 14 de julho.

Começa a virada! Postura mais agressiva faz Caiado ganhar espaço em redes sociais

Jantar, palestra e lançamento de pré-campanha: o fim de semana de Ronaldo  Caiado no RS

Críticas a Flávio Bolsonaro impulsionam Caiado nas redes

Bianca Gomes
Estadão

A estratégia do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) de subir o tom contra o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez o volume de menções ao seu nome nas redes sociais crescer 446,3% na média dos últimos cinco dias.

É o que mostra levantamento da AP Exata obtido com exclusividade pelo Estadão. Segundo a consultoria, o aumento da exposição do pré-candidato do PSD não foi acompanhado por crescimento proporcional das menções negativas.

BATENDO GERAL – Até então mais comedido nas críticas ao senador Flávio Bolsonaro, o ex-governador de Goiás passou a fazer uma série de ataques ao adversário bolsonarista nos últimos dias. Disse que Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) são “farinha do mesmo saco”, classificou como “inaceitável” a proposta de adiar o tarifaço para depois das eleições e afirmou que a candidatura do senador está “afundando”. N

o sábado, Caiado também criticou a carta em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) reafirma apoio à candidatura do filho.

“O eleitor não quer um presidente que precise de aval constante de outra liderança; quer alguém capaz de conduzir o país por conta própria”, escreveu Caiado, afirmando ainda que “liderança não se herda, se demonstra”.

MAIOR VISIBILIDADE – A mudança de postura, que contrasta com a cautela adotada pelo ex-governador goiano diante das revelações sobre a relação entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, levou a um salto na visibilidade do pré-candidato do PSD, que tem o baixo nível de conhecimento como uma das principais barreiras à sua candidatura.

No domingo, 12, segundo dados da AP Exata, Caiado foi o segundo nome mais citado nas redes entre os presidenciáveis, com 26,2% do volume de menções, atrás apenas de Lula, com 34,3%, e à frente de Flávio, que registrou 25,6%. O ex-governador de Minas Romeu Zema (Novo) apareceu com 4,8% e Renan Santos, da Missão, com 4,7%.

Na média dos últimos cinco dias, o volume de menções a Caiado cresceu 446,3%, passando de 2,85% para 15,57%. No mesmo período, a taxa de menções positivas recuou apenas 4,9 pontos porcentuais, para 45,7%.

ANÁLISE POSITIVA – “A redução é pequena diante do crescimento da exposição, uma vez que as menções negativas aumentaram em proporção muito inferior ao volume total, indicando resiliência da imagem, mesmo sob maior exposição”, diz Sergio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados.

“O avanço mostra que Caiado conseguiu furar a polarização, multiplicar sua exposição, sem sofrer desgaste proporcional”, afirma o analista, acrescentando:

“Tudo isso mostra também que o candidato Ronaldo Caiado tem iniciado um processo de diálogo maior com públicos do centro e também com eleitores mais moderados da direita“, acrescenta o especialista.

ATAQUES PESADOS – Segundo Denicoli, o crescimento de Caiado nas redes está diretamente ligado à estratégia, adotada entre os dias 6 e 11 de julho, de intensificar os ataques a Flávio e disputar de forma mais direta a liderança da direita.

Um dos episódios de maior repercussão, diz o CEO da AP Exata, foi a declaração em que o ex-governador comparou o senador a um “peru de Natal” que Lula estaria mantendo vivo no primeiro turno para derrotar no segundo.

Segundo o cientista de dados, a ofensiva de Caiado contra Flávio desencadeou uma reação bolsonarista nas redes, com militantes criticando principalmente a escolha do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, como seu vice, o que seria uma demonstração de adesão ao Centrão e distanciamento da direita “raiz”.

RELEVÂNCIA MAIOR – “O efeito, porém, tem sido limitado porque essa narrativa permanece concentrada na base mais fiel a Flávio, enquanto Caiado também é mencionado por conservadores insatisfeitos com o bolsonarismo, por perfis que o apresentam como alternativa mais competitiva e por governistas interessados em repercutir suas críticas à família Bolsonaro”, afirma Denicoli.

O CEO da AP Exata diz ainda que o anúncio de Kassab como vice aumentou a relevância política da candidatura e ajudou a manter Caiado no centro da disputa presidencial nas redes.

Na avaliação dele, a rejeição ao dirigente partidário está mais restrita à bolha bolsonarista, sem grande apelo entre o público geral.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– É uma matéria da maior importância. Mostra que ainda há espaço para o crescimento da terceira via e Ronaldo Caiado é o mais experiente e qualificado para disputar com Flávio Bolsonaro os votos de direita e do centro. Depois voltaremos ao assunto, com mais detalhes. (C.N.)

Planalto teme que revogação da domiciliar fortaleça discurso do bolsonarismo

Após embate com Flávio, Michelle vira trunfo indispensável de Bolsonaro

Bolsonaro quer garantir ao menos um Michelle no Senado

Rafael Moraes Moura
O Globo

Após escancarar as fissuras do clã ao publicar um vídeo acusando Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de tê-la maltratado e “apunhalado pelas costas”, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ouviu dois apelos de Jair Bolsonaro.

O primeiro foi para a mulher não desistir da candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, onde sua eleição é considerada certa até mesmo por adversários do campo da esquerda.

O plano eleitoral de Michelle foi colocado em dúvida depois de a ex-primeira-dama ter uma dura conversa com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, em que decidiu deixar o comando do PL Mulher. Mas, de acordo com um integrante do núcleo duro da campanha de Flávio, “Bolsonaro não quer Michelle só em casa cuidando dele, quer ela participando de eventos da campanha ao Senado”.

CÁLCULO POLÍTICO –  Por trás desse pedido está um cálculo político expresso por outro aliado da família: a necessidade de garantir pelo menos um Bolsonaro no Senado na próxima legislatura, já que o mandato de Flávio está se encerrando e a eleição de Carlos, o filho 03 do ex-presidente, não é considerada tão garantida como a de Michelle.

O ex-presidente também fez um segundo pedido à mulher: arrumar espaço na agenda para participar de eventos de campanha pelo Distrito Federal, ao lado da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), e da governadora Celina Leão (PP). As duas são amigas próximas de Michelle e têm atuado nos bastidores como “bombeiras” da crise instalada no clã Bolsonaro.

GERENCIAMENTO DE CRISE – “É claro que Bolsonaro gostaria que a Michelle participasse da campanha do Flávio, mas é um pai gerenciando a crise entre esposa e os filhos. Não é algo simples”, afirmou um aliado de Flávio. O clã Bolsonaro aposta na ampliação da bancada do PL no Senado para destravar os mais de 100 pedidos de impeachment que tramitam contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), dos quais mais da metade mira Alexandre de Moraes, relator das principais investigações que fecharam o cerco contra o ex-presidente e seus aliados, como o inquérito das fake news e as ações penais da trama golpista.

Michelle sinalizou que vai tocar tanto a candidatura quanto a campanha no DF. Os planos de Michelle envolvem conciliar os cuidados médicos de Bolsonaro, que segue em prisão domiciliar, com agendas de campanha em Brasília que seriam feitas entre duas e três vezes por semana.

Viajar para outros Estados é algo considerado praticamente descartado por conta dos tempos de deslocamento, questões logísticas e o monitoramento da saúde de Bolsonaro, que recebe medicação várias vezes ao longo do dia. No caso de aliadas que disputam eleições fora do DF, o mais provável é que Michelle grave vídeos de apoio.

MOBILIDADE – “No Distrito Federal, ela consegue participar de uma agenda e voltar para casa em 30, 40 minutos”, diz um aliado de Michelle. O Distrito Federal é um tradicional reduto bolsonarista – lá, Jair Bolsonaro obteve 58,81% dos votos válidos no segundo turno das eleições de 2022, ante 41,19% de Lula

A briga pública com Michelle ampliou a preocupação da pré-campanha de Flávio com o desgaste junto ao eleitorado feminino. O presidenciável tentou contornar a crise em um evento com mulheres do PL, mas a agenda acabou esvaziada com a ausência da ex-primeira-dama e de Damares.

Nesta quarta-feira, Flávio promove um novo evento com mulheres, em São Paulo, para apresentar um plano de governo para a população feminina, que contou com a colaboração de Damares. Mais uma vez, a ausência de Michelle deve ser sentida.

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Ninguém jamais expressou a dor de cotovelo como o gaúcho Lupicínio Rodrigues

Tribuna da Internet | A felicidade eterna com que Lupicínio sonhava, porém  jamais iria encontrarPaulo Peres
Poemas & Canções

O compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974), Lupe, como era chamado desde pequeno, sempre foi um mestre no emprego do lugar-comum, tal qual ele capta nos versos de “Volta” o imenso vazio das noites que a saudade torna insones. 

Ele era um especialista na chamada dor de cotovelo, como se diz quando alguém coloca os cotovelos sobre o balcão do bar e pede uma dose dupla para afastar a solidão.

A música fez enorme e duradouro sucesso, sendo gravada por muitos intérpretes, inclusive Gal Costa, no LP Índia, em 1973, pela Phonogram.

VOLTA
Lupicínio Rodrigues

Quantas noites não durmo
A rolar-me na cama,
A sentir tantas coisas
Que a gente não pode explicar
Quando ama.

O calor das cobertas
Não me aquece direito…
Não há nada no mundo
Que possa afastar
Esse frio do meu peito.

Volta!
Vem viver outra vez ao meu lado!
Não consigo dormir sem teu braço,
Pois meu corpo está acostumado…

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Saída de Damares Alves expõe custo político da divisão no bolsonarismo

Damares foi alvo de ataques da própria direita

Pedro do Coutto

Em uma campanha presidencial, as perdas mais preocupantes nem sempre são as registradas nas pesquisas de intenção de voto. Muitas vezes, o maior dano ocorre nos bastidores, quando aliados estratégicos começam a se afastar, a coordenação perde coesão e a percepção de unidade dá lugar à narrativa de fragmentação. É nesse contexto que deve ser compreendida a decisão da senadora Damares Alves de deixar a equipe responsável pela elaboração do plano de governo do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). Ela diz que voltou atrás, mas a boataria continua.

A balançada de Damares vai além da substituição de um nome na estrutura da campanha. Ela simboliza uma crise que já ultrapassou o campo das divergências privadas e passou a afetar diretamente a construção política da candidatura. Ao justificar sua decisão, a senadora afirmou que “já fez o que era preciso no primeiro momento” e que poderia voltar a colaborar apenas em um eventual governo de transição. A declaração, longe de representar um rompimento definitivo, revela um claro distanciamento do núcleo da campanha justamente em seu momento mais delicado.

ATAQUES – O motivo apresentado também merece atenção. Damares afirmou ter sido alvo de ataques promovidos por integrantes da própria direita e revelou que Flávio Bolsonaro não a procurou diretamente após o agravamento da crise. Para uma liderança reconhecida como uma das principais pontes entre o bolsonarismo e segmentos expressivos do eleitorado evangélico e feminino, a ausência de uma tentativa pública de recomposição possui significado político evidente.

A situação ganha contornos ainda mais relevantes porque Damares não é apenas uma ex-ministra do governo Jair Bolsonaro. Ao longo dos últimos anos, consolidou-se como uma das figuras mais influentes do conservadorismo brasileiro, especialmente em pautas ligadas aos direitos das mulheres, infância, liberdade religiosa e políticas familiares. Sua participação na elaboração do programa de governo conferia legitimidade a uma área sensível da campanha, especialmente diante do desafio histórico da direita em ampliar sua aceitação entre o eleitorado feminino.

INSTABILIDADE INTERNA – Sua saída ocorre num ambiente de sucessivos episódios que alimentam a percepção de instabilidade interna. A crise envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro já havia produzido desgaste público, expondo divergências que anteriormente permaneciam restritas ao ambiente familiar e partidário. Damares, tradicionalmente próxima da ex-primeira-dama, acabou posicionada no centro desse conflito e tornou-se alvo de ataques nas redes sociais por parte de setores alinhados ao próprio campo conservador.

Outro aspecto relevante é a dimensão institucional do episódio. A senadora informou ter sido vítima de uma campanha coordenada de ataques e mencionou que a bancada feminina do Senado discute mecanismos institucionais para enfrentar episódios recentes de violência política contra mulheres, independentemente da formalização de denúncias individuais. O tema amplia o debate para além das disputas eleitorais, inserindo-o no contexto da proteção das mulheres que exercem mandato político e da crescente preocupação com campanhas de intimidação no ambiente digital.

Do ponto de vista eleitoral, o episódio alimenta uma narrativa difícil de administrar. Campanhas competitivas costumam buscar transmitir estabilidade, disciplina e capacidade de liderança. Quando figuras importantes passam a deixar a coordenação ou reduzem seu envolvimento, adversários encontram espaço para reforçar a ideia de enfraquecimento político, enquanto aliados passam a questionar os rumos estratégicos da candidatura.

DIFICULDADES – Isso não significa, necessariamente, que a candidatura de Flávio Bolsonaro esteja inviabilizada. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, reconheceu publicamente que o senador enfrenta dificuldades políticas, mas afirmou não acreditar que ele deixará a disputa presidencial. A avaliação de Kassab sugere que, apesar do momento turbulento, ainda existe margem para reorganização da campanha e recomposição das alianças internas.

Historicamente, campanhas eleitorais conseguem sobreviver a crises quando demonstram capacidade de absorver conflitos, reconstruir pontes e reorganizar suas lideranças. O problema surge quando episódios isolados passam a formar um padrão recorrente. A sucessão de saídas, desentendimentos públicos e disputas internas tende a produzir um efeito cumulativo, reduzindo a confiança de apoiadores, lideranças regionais e potenciais aliados.

DIMENSÃO SIMBÓLICA – Há ainda uma dimensão simbólica particularmente sensível. Em política, a percepção frequentemente pesa tanto quanto os fatos objetivos. Quando uma liderança reconhecida afirma que foi atacada pelo próprio campo político e decide interromper sua colaboração com o programa de governo, transmite-se a imagem de que os conflitos internos deixaram de ser pontuais para se tornarem estruturais.

Independentemente dos desdobramentos eleitorais, o episódio revela um desafio que ultrapassa uma candidatura específica. Movimentos políticos fortemente personalizados dependem da manutenção permanente da unidade entre suas principais lideranças. Quando essa coesão se rompe, a disputa deixa de ser apenas contra adversários externos e passa a ocorrer também dentro da própria coalizão.

Nos próximos meses, a capacidade de Flávio Bolsonaro de recompor sua base política será tão importante quanto sua estratégia para conquistar novos eleitores. Afinal, antes de convencer o eleitorado, toda candidatura precisa demonstrar que consegue manter unido o próprio grupo que pretende conduzir ao poder.

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Kassab acha que os evangélicos podem desistir de Flávio para votar em Caiado

Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, em imagens justapostas -- Metrópoles

Caiado é a melhor opção para quem não vota em Lula

Mário Sabino
Metrópoles

Quais são as alternativas a Flávio Bolsonaro na disputa contra Lula? Eu só vejo uma séria: Ronaldo Caiado. Abro parênteses. Em algum momento, na minha pressa de colunista diário, tomei emprestado a luneta de petistas para observar o panorama circunstante e enxerguei alguma consistência em Romeu Zema. Prometo tomar mais cuidado daqui em diante. Fecho parênteses.

Caiado e Gilberto Kassab, vice na sua chapa e cacique do partido que o abrigou, o tangível e ao mesmo tempo etéreo PSD, martelam que são a única opção à reeleição do chefão petista. “Se Flávio passar ao segundo turno, Lula será reeleito”, dizem a quem quiser ouvir.

PIOR OPÇÃO – Nas atuais condições de temperatura e pressão e também nas que se prefiguram, não há como discordar que a pior opção para o antipetismo é o filho de Jair.

A candidatura de Flávio, no entanto, é pedra enorme no primeiro turno. Caiado e Kassab acham que ela está rolando para o brejo. Detectam, inclusive, um empurrão evangélico nesse sentido.

Segundo afirmam aos seus interlocutores, depois do caso Dark Horse e do rompimento protagonizado por Michelle, boa parte da base evangélica já não acreditaria mais que dá para segurar na mão de Deus e na do filho de Jair.

PARA O BREJO – Se a pedra de Flávio está mesmo rolando para o brejo, a rolagem precisa ganhar velocidade. Caiado e Kassab trabalham para chegar aos 10% das intenções de voto no primeiro turno em meados de agosto, ali pelo início da campanha eleitoral.

Acreditam que, a partir daí, a sua chapa engrenará a ascensão. As pesquisas já mostram que, em segundo turno, ela é bastante competitiva.

Dez por cento é o que Renan Santos já tem. Mas Caiado e Kassab acham que o candidato do Missão é fogo de palha. Tendo a concordar.

COM CUIDADO – Como Caiado pretende bater em Flávio? Com cuidado para não perder o voto bolsonarista no caso de ir para o segundo turno.

O candidato do PSD tem dois mandatos exitosos como governador de Goiás e pretende usar o ativo para fazer contraste com a total inexperiência administrativa do filho de Jair. Logicamente, para diferenciar-se dos seus maiores adversários, Caiado não deixará passar batido junto ao eleitorado que jamais esteve envolvido em mensalão, petrolão, rachadinhas e relações perigosas com Daniel Vorcaro.

Novato no PSD, o candidato do partido ao Palácio do Planalto não contará com o apoio explícito de candidatos do partido e de aliados que farão campanha aberta para Lula e para Flávio. Mas Kassab não vê isso como problema. Diz que as alianças regionais devem ter prioridade e que os seus benefícios superam os eventuais malefícios. É curioso.