A política das conveniências e o enfraquecimento da identidade partidária

Casa atingiu o recorde de trocas de partido

Pedro do Coutto

A política brasileira vive um momento que ajuda a explicar muitas das dificuldades enfrentadas pela democracia representativa no país. A poucos meses das eleições de 2026, o Senado Federal se transformou em um verdadeiro tabuleiro de reposicionamentos estratégicos, onde a busca por espaço político, estrutura eleitoral e proximidade com o poder parece falar mais alto do que compromissos ideológicos ou fidelidade partidária.

Levantamento destacado por reportagem de Luísa Marzullo, de O Globo, revela que ocorreram 86 trocas de legenda entre senadores nos últimos oito anos — um número superior ao total de integrantes da Casa, que possui 81 cadeiras. Trata-se de um recorde histórico e de um retrato bastante eloquente da dinâmica política brasileira contemporânea. O fenômeno não é episódico nem casual. Pelo contrário, ele se intensifica justamente em um ano eleitoral marcado pela renovação de dois terços do Senado, quando 54 das 81 vagas estarão em disputa.

MIGRAÇÃO – A explicação imediata parece simples. Diferentemente dos deputados federais e estaduais, os senadores não estão submetidos às mesmas regras rígidas de fidelidade partidária. Como exercem mandatos de oito anos e são eleitos pelo sistema majoritário, possuem ampla liberdade para migrar entre legendas sem risco de perda do mandato. Essa característica institucional transformou o Senado em um espaço particularmente flexível para rearranjos políticos e eleitorais.

Mas o fenômeno vai muito além de uma simples questão jurídica. O que está em curso é uma disputa nacional pelo controle das futuras maiorias parlamentares. O Senado tornou-se peça estratégica para qualquer projeto de poder, seja do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, seja das forças oposicionistas que tentam ampliar sua influência institucional.

Nesse contexto, a movimentação dos senadores segue uma lógica pragmática. A filiação partidária passa a ser vista menos como expressão de identidade política e mais como instrumento para maximizar chances eleitorais. Estrutura financeira, tempo de propaganda, alianças estaduais, acesso a lideranças nacionais e potencial de vitória tornaram-se fatores decisivos na escolha das legendas. Especialistas apontam que as migrações recentes refletem justamente essa busca por melhores condições de competição eleitoral.

RESISTÊNCIA –  O caso de Rodrigo Pacheco ilustra bem essa realidade. Após perder espaço dentro do PSD, legenda pela qual se elegeu para o Senado, o ex-presidente da Casa migrou para o PSB, partido aliado ao governo federal. A mudança foi interpretada por muitos analistas como parte da estratégia de Lula para fortalecer sua presença em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. Entretanto, a resistência de Pacheco em disputar o governo mineiro demonstrou que nem sempre os planos nacionais conseguem prevalecer sobre os cálculos políticos individuais.

A situação de Minas Gerais revela um dos maiores desafios enfrentados pelo Palácio do Planalto. Embora Lula disponha da força institucional da Presidência da República e dos instrumentos inerentes ao cargo, a construção de palanques estaduais competitivos continua sendo uma tarefa complexa. Em São Paulo, o governo aposta na articulação de nomes capazes de enfrentar o grupo liderado pelo governador Tarcísio de Freitas. No Rio de Janeiro, por sua vez, a candidatura de Eduardo Paes é vista como um dos pilares da estratégia governista para 2026.

Por trás dessas articulações existe uma preocupação ainda maior. O governo compreende que a disputa presidencial não será suficiente para garantir governabilidade. A composição do Senado tornou-se central porque a Casa exerce funções decisivas no equilíbrio institucional brasileiro, desde a aprovação de autoridades até a condução de processos de impeachment e sabatinas de indicados para tribunais superiores. Não por acaso, Lula tem enfatizado repetidamente a necessidade de ampliar sua base parlamentar nas eleições de 2026.

SEGUNDO PLANO –  Entretanto, o aspecto mais preocupante desse cenário talvez não seja a movimentação em si, mas aquilo que ela revela sobre os partidos políticos brasileiros. Quando parlamentares transitam com relativa facilidade entre legendas de orientações distintas, a mensagem transmitida ao eleitor é a de que os programas partidários possuem importância secundária. A identidade ideológica acaba substituída por alianças circunstanciais, negociações regionais e cálculos de sobrevivência eleitoral.

Esse processo contribui para aprofundar uma crise de representação que já afeta grande parte das democracias contemporâneas. O eleitor vota em um candidato associado a determinado partido e a um conjunto de propostas, mas frequentemente vê esse mesmo político migrar para outra legenda ao longo do mandato. Embora legalmente legítima, essa prática alimenta a percepção de distanciamento entre representantes e representados.

O debate que começa a surgir no Supremo Tribunal Federal sobre a eventual ampliação das regras de fidelidade partidária para cargos majoritários pode ganhar relevância nos próximos anos. Caso a interpretação avance, senadores, governadores e até presidentes poderiam enfrentar restrições semelhantes às já existentes para parlamentares eleitos pelo sistema proporcional. A discussão envolve princípios constitucionais complexos, mas reflete uma preocupação crescente com a estabilidade partidária e a coerência dos mandatos eletivos.

TROCA-TROCA – Enquanto isso, o Senado segue em intensa transformação. As trocas de legenda provavelmente continuarão até o prazo final das filiações partidárias, redesenhando forças políticas e alterando estratégias eleitorais em praticamente todos os estados brasileiros.

No fundo, o cenário retratado pela movimentação dos senadores expõe uma característica histórica da política nacional: a predominância do pragmatismo sobre a ideologia. Em um sistema onde a sobrevivência eleitoral frequentemente depende de alianças flexíveis e adaptações constantes, os partidos acabam funcionando mais como veículos para projetos de poder do que como organizações programáticas de longo prazo. O resultado é um Congresso permanentemente em movimento, mas nem sempre conectado às expectativas de coerência e representação que grande parte da sociedade espera de seus líderes políticos.

7 thoughts on “A política das conveniências e o enfraquecimento da identidade partidária

    • A vagabundagem esconde-se atrás do tal anti-imperialismo (como se não fossem igualmente colônia da China), pra esconder sua incompetência de enfrentar os problemas estruturais de onde governam).

      Vive da mais valia absolutíssima, se nas absolutas e relativas do capitalismo, a burguesia detém os meios as as técnicas de produção, que é extraída via privatização do Estado e extorsão da sociedade legalmente ou através da corrupção escancarada.

      https://crusoe.com.br/diario/as-mansoes-dos-comunistas-que-a-ditadura-de-cuba-quer-esconder/

      O motivo de, como Lula, serem antagônicos ao avanço das forças produtivas tecnológicas da Quarta Revolução Industrial: não há mais como esconder sua decadência moral, civilizacional e temporal.

  1. Só tão de olho nas delícias do Estado Cleptopatrimonialista, que convive de boa com o Narcotraficante.

    Trabalharem pra resolver nosso problemas estruturais aprofundados por Lula, seu Aparato e as oligarquias inúteis, nada.

    Tão na escala 0X7.

    1. Educação
    📊 Posição: ~60–70/80 (PISA – OCDE)
    ➡️ Baixo desempenho global e alta desigualdade interna.
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    2. Infraestrutura
    📊 Posição: ~70–100/140 (World Economic Forum)
    ➡️ Gargalos logísticos e déficit em saneamento.
    ________________________________________
    3. Estado democrático
    📊 Posição: ~40–60/167 (EIU Democracy Index)
    ➡️ Democracia “imperfeita”, com fragilidades institucionais.
    ________________________________________
    4. Tecnologia e inovação
    📊 Posição: ~50–70/130 (WIPO – Global Innovation Index)
    ➡️ Ciência razoável, inovação produtiva limitada.
    ________________________________________
    5. Criminalidade (homicídios)
    📊 Posição: entre os ~20 mais violentos do mundo (UNODC)
    ➡️ Altas taxas de homicídio e violência urbana.
    ________________________________________
    6. Desigualdade de renda
    📊 Posição: top 10–20 mais desiguais (Banco Mundial – Gini)
    ➡️ Forte concentração de renda estrutural.
    ________________________________________
    7. Desenvolvimento humano
    📊 Posição: ~70–90/190 (PNUD – IDH)
    ➡️ Desenvolvimento intermediário global.
    ________________________________________
    8. Eficiência estatal (governança)
    📊 Posição: percentil ~50–60 (World Bank)
    ➡️ Capacidade estatal mediana-baixa.
    ________________________________________
    9. Desigualdade de gênero
    📊 Posição: ~80–100 (PNUD)
    ➡️ Diferenças persistentes em renda, poder e violência.
    ________________________________________
    10. Desigualdade racial
    📊 Sem ranking global direto
    ➡️ Um dos maiores contrastes raciais estruturais das Américas (IBGE).
    ________________________________________
    11. Desigualdade regional
    📊 Sem ranking global direto
    ➡️ Um dos maiores desequilíbrios internos do mundo (IBGE).

  2. SOS PAPA LEÃO XIV, Brasil urgente, pelo amor de Deus, a sua presença entre nós, neste momento histórico, já, aqui e agora, com urgência urgentíssima, é de suma importância, por razões óbvia$ e ululante$, pela libertação da Humanidade, vítima, refém, súdita e escrava da loucura por dinheiro, poder, vantagens e privilégios, sem limite$. NUM PAÍS DE MENTALIDADE POLÍTICA ONDE FAZ-SE OS DIABOS POR ELEIÇÕES, como disse uma certa ex-presidente da república do militarismo e do partidarismo, politiqueiro$, e seus tentáculos velhaco$, e tb por golpes, ditaduras e estelionatos eleitorais, sem se importarem com as consequência que perduram no tempo e no espaço, como demonstrado pelo histórico da mesma república, o dinheiro como base do sistema eleitoral tornou-se uma força tentadora, descomunal, avassaladora, levado ao extremo da loucura compulsiva por dinheiro, poder, vantagem e privilégios, sem limite$, torna-se um tormento para as forças policiais e para os tribunais do bem, que fazem das tripas coração para salvar as aparências e alguma coisa boa que justifique a existência e conservação do dito-cujo sistema que, a nosso ver, tem tudo a ver com a plutocracia putrefata com jeitão de cleptocracia e ares fétidos de bandidocracia e quase nada a ver com a democracia de verdade, propriamente dita. IMAGINE ENTÃO essa coisa invadida pelo crime organizado, máfias, quadrilhas e organizações criminosas abundantes no país o tamanho do desastre civilizatório que isso representa para uma nação que se pretende séria, civilizada e desenvolvida, livre e independente da zona de influência da plutocracia norte-americana e da autocracia chinesa que hj, rivalizadas, balizam o mundo ? Portanto, irmãos e irmãs, “Reclamar para o Papa”, é o que nos resta, até porque não obstante antiga, a frase nunca foi tão atual e nem tão necessária… https://tribunadainternet.com.br/2026/06/07/pf-abre-mais-de-76-mil-inqueritos-e-expoe-mercado-ilegal-de-compra-de-votos/?fbclid=IwY2xjawSVBwdleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEesUKm9nyFYnBsbSf7_F9O8jwKwBlTxr-vPJUjFNE5SnHoSC9X__tGgSJL-J8_aem_A1CG2pMCwddk_3gGOB3AfQ

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