PF aponta interesse de Daniel Vorcaro em emendas do mercado de carbono

Espetáculo do vazio: como a direita trocou o projeto de país pela guerra política

Flávio opta pela espetacularização em pré-campanha

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A pré-campanha presidencial de 2026 já expôs seu método antes mesmo de apresentar seu programa. Em vez de colocar no centro da discussão propostas sobre crescimento, produtividade, envelhecimento populacional, transição energética ou reforma do Estado, a direita brasileira voltou a organizar sua comunicação em torno da lógica do confronto permanente. O lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, realizado em São Paulo, tornou esse movimento evidente.

Na convenção que oficializou o nome do senador pelo PL para a corrida presidencial, sem vice definido e ainda sem uma coligação nacional consolidada, o momento de maior repercussão não foi um discurso sobre economia ou políticas públicas. Foi a exibição de um vídeo produzido por inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, utilizado pelo próprio filho para pedir apoio ao seu nome, mesmo com o ex-presidente submetido a restrições judiciais que o impedem de participar de atos públicos.

REAÇÃO – O episódio provocou reação imediata. A Federação Brasil da Esperança, que reúne o PT, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma representação por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial, distribuída ao ministro Kassio Nunes Marques. No Supremo, a defesa de Bolsonaro argumentou que o ex-presidente sequer teria condições de autorizar o uso de sua imagem diante das limitações impostas pela Justiça. A justificativa, porém, acabou ampliando uma questão central: se o próprio Bolsonaro não poderia validar publicamente a utilização de sua imagem, quem decidiu colocá-lo para “falar” na convenção?

A controvérsia dividiu espaço nas manchetes com outro episódio de forte impacto: a presença do presidente argentino Javier Milei, que utilizou seu discurso para atacar Lula e o ministro Alexandre de Moraes em termos que dificilmente seriam empregados por um político brasileiro em território nacional, protegido pela condição de chefe de Estado estrangeiro. A consequência foi uma crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires, com a convocação do embaixador brasileiro para consultas e uma reação institucional do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que classificou as declarações como desrespeitosas às instituições brasileiras.

Somaram-se ainda mensagens de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, utilizadas para associar a chapa à imagem de uma articulação conservadora internacional. O resultado foi simbólico: o evento que deveria apresentar Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto acabou dominado por controvérsias externas à formulação de um programa de governo — inteligência artificial, tensão diplomática e conflitos institucionais — e não pela apresentação de prioridades para o país.

MÉTODO POLÍTICO – Essa dinâmica não surgiu agora. Ela representa a continuidade de um método político consolidado desde 2018: transformar a política em uma disputa permanente de identidades, ameaças e inimigos, na qual conflitos com instituições, pautas de costumes e ataques simbólicos ocupam o espaço que deveria ser destinado à construção de um projeto nacional.

É preciso reconhecer que esse modelo teve eficácia política. A direita bolsonarista construiu uma identidade forte, mobilizou sua base de maneira consistente e alterou o funcionamento do debate público brasileiro como poucas forças políticas conseguiram fazer nas últimas décadas. Sua capacidade de criar engajamento e influenciar a agenda nacional é um fato político relevante.

O problema está em outro ponto: a mobilização passou a funcionar como substituta de uma formulação programática mais ampla. A extrema direita brasileira demonstrou força para organizar conflitos, mas ainda enfrenta dificuldades para apresentar uma visão de país que vá além da reafirmação de identidades políticas e da permanente busca por adversários.

SIMBOLISMO – A lógica do confronto permanente cumpre, nesse modelo político, uma função específica: manter a base mobilizada a partir de ameaças contínuas e disputas simbólicas que exigem posicionamento constante. Enquanto um programa de governo precisa lidar com escolhas, limites e resultados mensuráveis, a política baseada no conflito depende da produção permanente de novos antagonismos. O adversário deixa de ser apenas um concorrente eleitoral e passa a ocupar o centro da própria identidade do movimento.

No caso de Flávio Bolsonaro, essa limitação aparece de forma mais evidente. O senador foi lançado ao cenário presidencial pelo próprio pai, sem ter construído, até aqui, uma identidade política plenamente independente, e enfrenta dificuldades para consolidar liderança dentro do próprio campo. Pesquisas indicam que Michelle Bolsonaro apresenta maior competitividade entre segmentos como evangélicos e mulheres, enquanto o campo conservador continua marcado por diferentes grupos e interesses.

Ao mesmo tempo, setores do centro político e aliados da direita buscam nomes com maior capacidade de articulação e ampliação eleitoral, enquanto pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa ainda marcada pela vantagem de Lula em cenários de segundo turno. Flávio também carrega o peso de episódios que acompanham sua trajetória política, como as investigações envolvendo crime de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio e questionamentos relacionados à aquisição de imóveis. São temas explorados por adversários e que não desaparecem apenas porque o debate público é ocupado por controvérsias momentâneas.

PRIORIDADES – Uma eleição presidencial deveria ser o momento de confronto entre diferentes visões sobre o futuro do país. Os desafios que estarão diante da próxima administração não pertencem a um único governo nem serão solucionados por uma única gestão. A qualidade da disputa democrática depende da capacidade de apresentar prioridades, escolhas e caminhos para enfrentar problemas estruturais. Quando a maior parte da atenção pública é absorvida por conflitos institucionais, embates simbólicos e disputas de identidade, reduz-se o espaço para discutir como cada candidatura pretende governar.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em diferentes democracias, forças políticas perceberam que a mobilização de ressentimentos, identidades e adversários simbólicos pode produzir resultados eleitorais relevantes. A diferença está no que acontece depois: transformar engajamento político em capacidade de formular políticas públicas diante de sociedades cada vez mais complexas continua sendo o principal teste para qualquer força que pretende governar.

ESPETACULARIZAÇÃO – A questão central para a direita brasileira, especialmente para sua vertente mais radicalizada, não é mais sua capacidade de mobilizar. O problema é que essa mobilização passou a ocupar o lugar que deveria ser destinado à construção de um projeto de país. Ao transformar espetacularização, desinformação, confrontos institucionais e conexões internacionais utilizadas como instrumentos de polarização em eixo da comunicação política, a extrema direita deixa em segundo plano a apresentação de respostas para os problemas concretos do Brasil.

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou apenas uma estratégia de comunicação; expôs um método político. O centro da cena foi ocupado pela reconstrução artificial da presença de Jair Bolsonaro, pela internacionalização da disputa e pelo confronto com instituições.   O que permaneceu ausente foi justamente o elemento que deveria organizar uma candidatura presidencial: uma visão de futuro para o país, com prioridades definidas e respostas para os desafios que estarão diante da próxima administração. 

Lulinha temia ser investigado, fugiu e colocou a mulher para administrar os bens

charge de Thiago Lucas (@thiagochargista), para o Jornal do Commercio. # lulinha #INSS #carecadoINSS #lula #corrupção #saúde #Charge #ChargeDoDia  #JornalDoCommercio #Brasil #chargejornaldocommercio #chargethiagojc  #chargethiagolucas #chargethiagolucasjc ...

Charge de Thiago Lucas (Jornal do Commercio)

Carlos Newton

Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é o filho mais velho do segundo matrimônio do presidente Lula com Marisa da Silva. Nascido em São Bernardo do Campo, não se interessou pela política e seu primeiro emprego foi trabalhar como monitor no Parque Zoológico de São Paulo. Nada indicava que rapidamente fosse ficar milionário, a ponto de o pai considerá-lo um fenômeno empresarial.

Esse sucesso começou em 2004, quando Lula ocupava a Presidência da República pela primeira vez, Lulinha uniu-se aos amigos Fernando e Kalil Bittar, filhos do prefeito petista de Campinas, Jacó Bittar, para criar a empresa Gamecorp, dedicada ao setor de entretenimento digital. De lá para cá, o fenômeno deslanchou.

FAVORECIMENTO – Desde o início, a Gamecorp tornou-se suspeita de favorecimento por tráfico de influência, porque o grupo OI de telefonia resolveu investir R$ 103 milhões na empresa dos jovens petistas, que assim se tornaram milionários da noite para o dia, literalmente.

Para usar uma expressão da preferência do presidente Lula, pode-se dizer que se tratava de uma flagrante maracutaia, mas não houve investigação e os três jovens passaram a curtir a vida adoidado. Afinal, R$ 100 milhões rendem mais de R$ 1 milhão por mês.

Somente na Operação Lava Jato, iniciada em 2014, as autoridades resolveram investigar o rápido enriquecimento desses filhos de políticos petistas. E a Polícia Federal rapidamente encontrou um verdadeiro festival de corrupção.

TUDO EM FAMÍLIA – A investigação comprovou que o tráfico de influência e a lavagem de dinheiro eram  marcas registradas da família Lula da Silva, pois não havia exceção, todos os quatro filhos estavam envolvidos.

Fábio Luís, o Lulinha, foi alvo de análises financeiras e investigações sobre repasses e relações empresariais; Luís Cláudio teve sua trajetória empresarial devassada na Operação Zelotes, na qual respondia a uma ação penal; Sandro Luís também teve empresas e repasses investigados pela Lava Jato; e Marcos Cláudio Lula da Silva foi incluído em inquéritos de varredura patrimonial.

Lulinha era o principal investigado, porque também participara na negociação do sítio de Atibaia, em que seus sócios, os irmãos Bittar, atuaram como “laranjas” do presidente Lula.

IMPUNIDADE TOTAL – Com o conluio para libertação ilegal de Lula em 2019 e a anulação das condenações dele em 2021, os quatro filhos não tardaram a escapar das garras da lei. Assim, em 2022, a Justiça Federal de São Paulo arquivou as investigações da Operação Lava Jato contra Lulinha e seus três irmãos. Um alívio em família.

Apesar do risco que correram, eles continuaram fazendo tráfico de influência e desfrutando a doce vida de milionários. Tudo corria bem, com impunidade garantida, até que a CPI do INSS descobriu que Lulinha movimentara quase R$ 20 milhões em quatro anos.

Conforme dados da quebra de sigilo, o valor engloba cerca de R$ 9,77 milhões em entradas e R$ 9,75 milhões em saídas entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026.

FUGA RÁPIDA – Lulinha viu que desta vez o problema era mais sério, porque o pai não conseguiu controlar o relator no Supremo, ministro André Mendonça. No dia 4 de dezembro, ficou sabendo que integrantes da CPMI do INSS acessaram o depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes (Careca do INSS), que denunciou a mesada de R$ 300 mil que Lulinha recebia do lobista.

O filho de Lula decidiu fugiu para a Espanha. Antes de viajar definitivamente, no começo de dezembro, ele passou a administração de suas empresas para a mulher, Renata de Abreu Moreira.

Agora, com as duas investigações abertas por Mendonça, o filho fenômeno de Lula não vai mais voltar ao Brasil. Se fosse inocente, é claro que não precisaria fugir.

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P.S. –
O Brasil é um país tão surrealista que as autoridades e suas famílias podem se corromper à vontade, porque a impunidade está garantida. Basta ver o que aconteceu a Sérgio Cabral, condenado a cerca de 350 anos de prisão, que está livre, leve e solto, aproveitando os muitos milhões de reais que a Polícia não conseguiu recuperar. Aqui no Brasil o crime compensa. (C.N.)

Abstenção pode crescer demais e preocupa as campanhas na disputa presidencial

Charge do Cazo (Blog do AFTM)

Italo Nogueira
Folha

A estudante universitária Ana Luiza Souza Ferreira, 20, teve um imprevisto nas últimas eleições e precisou se ausentar de Governador Valadares (MG). Ela pagou a multa da Justiça Eleitoral para manter seu título em regularidade. Sem planos de viagem para este ano, ela pretende engrossar de novo as estatísticas de abstenção. “As promessas só surgem em época de eleição. Depois, nada acontece. Prefiro pagar multa.”

A abstenção eleitoral crescente se tornou um desafio para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e entrou no cálculo das candidaturas num cenário de disputa acirrada pela Presidência da República. Especialistas apontam que o maior prejudicado com o não comparecimento às urnas este ano deve ser o presidente Lula (PT), que busca a reeleição. Dados da Justiça Eleitoral e de pesquisas de intenção de voto indicam que o perfil dos eleitores que se abstém se assemelha mais aos do petista.

ENGAJAMENTO FEMININO – Ao mesmo tempo, o maior engajamento eleitoral feminino beneficia Lula, setor mais refratário à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), de acordo com pesquisas. A abstenção vem crescendo desde 2002, primeira eleição geral integralmente feita pela urna eletrônica. Naquele ano, quando Lula foi eleito pela primeira vez para a Presidência, 17,7% dos eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, e 20,4%, no segundo.

O percentual subiu ano a ano até 2022, quando 20,9% não participaram do primeiro turno. Pela primeira vez no período a abstenção caiu no segundo turno, atingindo 20,5%. Especialistas vinculam o movimento à acirrada disputa entre Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O município com a maior abstenção no segundo turno de 2022 foi Maraã (AM), no coração da amazônia onde 45,5% dos eleitores estiveram ausentes. Governador Valadares (MG) teve 27,5% de abstenção, a maior entre as cidades com mais de 200 mil eleitores —municípios em que há segundo turno nos pleitos municipais.

MOTIVOS – Moradores apontaram diferentes motivos para não comparecer às urnas. A advogada Késia Cristina Ferreira, 34, se ausentou da cidade para cumprir compromissos profissionais. “Eu pensei que meu voto não iria fazer tanta diferença para o momento que a gente estava vivendo.” O administrador Neuber Santos, 42, faltou ao último pleito porque teve uma viagem a lazer, mas diz que pretende comparecer. “Tem que votar, né?”

Cientistas políticos afirmam não existir pesquisas que ofereçam um diagnóstico sobre o fenômeno. Descrevem, porém, um somatório de hipóteses para o crescimento discreto, mas constante, da abstenção a cada eleição geral deste século.

As razões podem ir desde a dificuldade para acessar os locais de votações, mais comum na região amazônica e pequenas cidades, desinteresse pela disputa e até desatualização do cadastro de eleitores. Todas as possibilidades, apontam especialistas, se alimentam da punição quase simbólica pelo não cumprimento do voto obrigatório.

IMPLICAÇÃO –  “Se você não entregar a declaração do Imposto de Renda no dia, você sabe qual é a implicação disso para a sua vida. Agora, se você não votar e faltar três eleições sucessivas, você sai do cadastro [do TSE]. Para os eleitores que não vão fazer viagem internacional, não vão fazer concurso, faltar não tem uma implicação pessoal tão grande”, afirma o cientista político Jairo Nicolau, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

O voto é obrigatório para todas as pessoas entre 18 e 70 anos, à exceção de analfabetos. O eleitor pode justificar sua ausência por meio do aplicativo e-Título, do TSE, sem necessidade de documento comprobatório. Caso não o faça no prazo, paga uma multa de R$ 3,51 por turno em que não compareceu. O título é cancelado após três ausências.

Em 2025, 5 milhões de pessoas tiveram o título cancelado após faltarem nos últimos três pleitos. “Se você quisesse realmente ampliar a participação, passaria a multa para R$ 70. Tem uma vertente da Justiça Eleitoral que é a favor do voto facultativo. Isso não é dito. Não foi uma decisão do Legislativo. É [decisão] administrativa da Justiça Eleitoral facilitar a justificativa da ausência e aplicar uma multa que não é reajustada há 30 anos”, afirma Nicolau.

COMO FUNCIONA O SISTEMA – O cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest, avalia que a alta da abstenção, combinada com a queda nos votos inválidos (nulos e brancos) registrada em 2022 para todos os cargos, indica que “as pessoas estão entendendo como o sistema funciona”. “Se você não quer votar em alguém e a punição de não ir é pequena demais, é melhor você não ir do que ir e apertar um botão nulo ou branco. A abstenção se transformou num comportamento eleitoral”, afirma Nunes.

O cientista político Antônio Alkmin aponta ainda para um contingente de pessoas que nem sequer tiraram título de eleitor. “Em 1989 a gente tinha 10% da população que potencialmente poderia ter o título de eleitor e não tinha. Hoje, pelas estimativas, chega a 5%. Parece pouco, mas num eleitorado de 160 milhões, a gente está falando de 8 milhões de pessoas”, aponta.

Dados do TSE mostram que a abstenção em 2022 foi maior entre os que possuem escolaridade mais baixa, eleitor mais alinhado à esquerda, de acordo com as pesquisas. Por outro lado, as mulheres, cuja intenção de voto era majoritariamente para Lula, apresentaram uma taxa de abstenção menor —19,96% contra 21,98% dos homens no primeiro turno.

ABSTENÇÃO FEMININA – “A abstenção é desigual pelo território e em termos sociais. […] Foi fundamental para a vitória do Lula o voto das mulheres. Uma alta abstenção feminina é muito prejudicial à esquerda. Teria uma vitória mais forte de Bolsonaro em 2018 e uma vitória mais apertada ou eventualmente até uma derrota em 2022. Então a abstenção faz diferença, sim, porque ela é desigual”, afirma Nicolau.

Os números da Justiça Eleitoral mostram que a queda na abstenção entre o primeiro e o segundo turnos foi mais intensa entre os menos escolarizados. O deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), coordenador do Grupo de Tática Eleitoral do PT, afirma que o tema está no radar do partido.

PREOCUPAÇÃO – “É um motivo de preocupação pelo perfil das abstenções, de baixa renda. Está no nosso radar fazer uma campanha direcionada, mas quem tem que fazer esse trabalho de conscientização do voto e jogar pesado é o TSE. É competência dele dizer qual a importância do voto”, afirmou o deputado. Procurado, o TSE não se manifestou sobre como pretende ampliar a participação do eleitorado este ano.

O cientista político Antônio Alkmin aponta como campanhas podem também atuar no sentido inverso, a fim de desestimular o comparecimento de perfis do eleitorado mais alinhado ao adversário. “A Cambridge Analytica fez consultoria em várias eleições no mundo. Em El Salvador, por exemplo, ela fez uma estratégia de estimular a abstenção entre os jovens com o discurso antissistema”, afirmou.

Após crise, Itamaraty aposta na reaproximação com Argentina e Paraguai

Duas investigações e um mesmo risco, na crise que ronda Lula e Flávio Bolsonaro

Casos Lulinha e Dark Horse pressionam campanhas

Deu no O Globo

A menos de três meses das eleições, duas investigações da Polícia Federal (PF) com potencial de atingir os principais candidatos ao Palácio do Planalto preocupam as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a PF tenta avançar nas apurações sobre a atuação Fábio Luís Lula da Silva, filho do petista, junto ao governo federal e o financiamento do filme biográfico de Jair Bolsonaro Dark Horse, cujo financiamento foi negociado entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Master.

TRÁFICO DE INFLUÊNCIA – Na quinta-feira, Mendonça autorizou investigação para apurar os supostos crimes de tráfico de influência e corrupção pelo filho de Lula, o que ampliou a expectativa da oposição sobre o uso do tema na corrida eleitoral.

Lulinha já era investigado em um dos inquéritos que busca esclarecer as fraudes nos descontos de aposentados do INSS. A PF, porém, abriu um novo caminho ao associar possíveis ilícitos na conduta de Fábio Luís na comercialização de cannabis medicinal, com ligações com servidores do Ministério da Saúde e do gabinete presidencial.

Na semana passada, Mendonça também autorizou a abertura de um inquérito da PF para investigar o financiamento da cinebiografia que retrata a trajetória de Bolsonaro. A apuração busca esclarecer se o dinheiro enviado ao exterior para financiar o longa teve, na prática, outra destinação. A suspeita é que parte da produção tenha sido bancada por Vorcaro, com o envio de R$ 61 milhões.

RESPONSABILIZAÇÃO –  Em entrevista a um podcast, Lula foi perguntado sobre o assunto na noite de quinta-feira, e afirmou que se o filho for culpado terá que pagar “como todo mundo”. Também disse que não usará o seu cargo para proteger Lulinha.

O petista relembrou as acusações que o levaram à prisão durante a Operação Lava-Jato, ao falar da situação do filho, e lembrou a morte de sua mulher, Marisa Letícia, mãe de Lulinha, em 2017.

“Se ele tiver certo, ele vai ter ajuda minha. Se ele fizer a coisa errada, ele sabe o que eu passei. Sabe o que é um pai, com cinco filhos, ver na televisão chamar a família de ladrão o tempo inteiro. Ele sabe que a minha mulher morreu por causa da desgraça da Lava-Jato. Então ele não tem o direito de errar. Ele sabe disso. Ele jura para mim todo dia e eu acredito nele”, disse, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda.

RECURSOS DESVIADOS –  Flávio, por sua, vez, negou que os recursos do filme tenham sido desviados ou destinados ao irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos EUA.

Em nota publicada na ocasião da divulgação dos diálogos com Vorcaro, o parlamentar afirmou que se trata de “falsa a insinuação” e sustentou que “os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos”.

EFEITO POLÍTICO –  Em março deste ano, a CPI do INSS, que tinha o filho de Lula como um dos alvos, foi enterrada com ajuda do governo. Na ocasião, o Palácio do Planalto já temia o impacto eleitoral de eventuais desdobramentos sobre o caso. Durante a investigação parlamentar, um dos reveses sentidos pela oposição foi a decisão de Flávio Dino, do STF, que suspendeu a quebra de sigilo de Lulinha.

Na quinta-feira, a campanha do candidato do PL à Presidência decidiu promover uma nova troca no comando de sua comunicação após seguidos desgastes, inclusive a partir da crise envolvendo as relações com Vorcaro. A avaliação da campanha é que a equipe dispensada demorou a reagir às crises envolvendo Michelle Bolsonaro e Vorcaro e não conseguiu transformar episódios favoráveis em ganhos políticos para o candidato.

Tarifas, Trump e Milei: quando a política externa sequestra o debate eleitoral

Mendonça autoriza mais um inquérito contra Lulinha por “tráfico de influência”

Aconchego paterno. Charge de João Spacca para a newsletter desta  segunda-feira (2). #meio #charge #lulinha #inss

Charge Spacca (Arquivo Google)

Luísa Martins
Folha

O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a abertura de um segundo inquérito solicitado pela Polícia Federal para investigar suspeitas de tráfico de influência por parte do empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula (PT).

Desta vez, a PF busca entender se ele agiu junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência), vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, para beneficiar um empresário e prospectar contratos. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela Folha.

FAVORES DO GOVERNO – O relatório da PF cita que o empresário Cleber Ribas de Oliveira, sócio de uma empresa chamada “3structure I”, teria bancado ao menos uma viagem de Lulinha. A suspeita é de que, em troca, tenha recebido favores do governo.

A PF chegou ao empresário ao investigar os desvios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Cleber teria relação com o empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como líder do esquema.

A defesa de Lulinha disse ao jornal O Estado de S. Paulo que a investigação era “pesca probatória”, que ele não atuou em benefício de ninguém no governo federal e que a PF não encontrou provas contra Lulinha.

TRANSPARÊNCIA? – A Dataprev afirmou não ter nenhum contrato com a 3STRUCTURE IT e que pauta sua atuação pela transparência e pela colaboração com os órgãos de fiscalização, controle e investigação. “Caso seja formalmente demandada, prestará às autoridades competentes todas as informações cabíveis, em conformidade com a legislação vigente”, disse.

A defesa de Careca do INSS afirmou não ter conhecimento sobre o pedido e não comentou.

A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa de Cleber. Ao jornal O Estado de S. Paulo ele afirmou ser amigo de Lulinha, negou ter tido negócios com a Dataprev e rechaçou irregularidades na relação com o governo federal.

VIAGEM DE LULINHA – A PF identificou um contrato fechado por Cléber com a Dataprev e uma viagem emitida com o mesmo localizador feita pelo empresário com Lulinha, segundo a publicação. Os investigadores suspeitam que isso seja um sinal de que Cléber Oliveira pagou a viagem do filho do presidente.

A segunda investigação é aberta um dia após Mendonça ter autorizado outro inquérito, conforme revelado pela Folha, para apurar suspeitas dos crimes de corrupção e tráfico de influência em tentativas de obter autorização para a comercialização de cannabis medicinal no Ministério da Saúde.

Neste caso, a suspeita é a de que o tráfico de influência para estas negociações tenha sido exercido junto à pasta e ao gabinete da Presidência, de acordo com informações da PF.

TUDO EM FAMÍLIA – A defesa de Lulinha negou irregularidades e sugeriu haver interesse político por trás do inquérito. Lula afirmou que seu filho não terá privilégios e precisará provar inocência.

Lulinha tem atuação no ramo em parceria com a empresária Roberta Luchsinger, sua amiga, e Careca do INSS. O pedido de abertura de inquérito também cita contatos entre os alvos e servidores, inclusive do gabinete de Lula.

Segundo os investigadores, uma das linhas é de que Lulinha teria atuado com Roberta no mercado de canabidiol a favor da empresa World Cannabis, ligada ao Careca do INSS.

SEM COMENTÁRIOS – Em relação ao inquérito sobre a comercialização de cannabis medicinal, a defesa de Lulinha afirmou que não iria comentar concretamente uma investigação da qual não teve nenhum conhecimento, mas disse ser necessário entender qual é a justificativa para a competência do STF no caso.

Acrescentou ainda que uma nova investigação alheia à Operação Sem Desconto “demonstraria que falharam em encontrar o que injustificadamente buscavam, que é alguma ligação entre Fábio Luís e as fraudes do INSS”, e que ele “nunca teve relação nenhuma com esse escândalo”.

O Ministério da Saúde afirmou que não tem nem nunca teve contrato com a World Cannabis ou com acionistas citados. “Dessa maneira, nunca fez nenhum repasse de recursos públicos a eles”, disse.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O Ministério da Saúde errou ao dar a informação. A pergunta não era sobre a existência de “contratos”. O que a PF quer saber é se houve “contatos”. Parece ser a mesma coisa, mas é muito diferente.  Como dizia Tom Jobim, é a lama, é a lama... (C.N.)

Empresa citada na investigação de Lulinha mantém R$ 55 milhões em contratos com o governo

Campanha de Flávio cria ofensiva para conter avanço de Lula entre evangélicos

Flávio busca apoio de Malafaia para fortalecer campanha

Bela Megale
O Globo

Criticado por concentrar as costuras políticas da campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho decidiu descentralizar algumas frentes, como a do segmento evangélico. O coordenador determinou a criação de um núcleo para fazer o corpo a corpo com o eleitorado evangélico, buscando conter as investidas de Lula sobre esse grupo.

A estratégia traçada é montar uma força-tarefa com cerca de seis lideranças religiosas que não sejam políticas, mas tenham capilaridade no país. Esses nomes estarão constantemente no QG da campanha de Flávio e manterão contato frequente com pastores e evangélicos da base.

ENCONTRO – Outra ação será encabeçada pelo próprio Flávio Bolsonaro. A ideia é que o senador peça a Silas Malafaia que organize um encontro com líderes evangélicos de diferentes igrejas para demonstrar apoio à sua candidatura à Presidência. O pastor fez o mesmo com Jair Bolsonaro em 2022. O plano é que esse encontro aconteça já nas próximas semanas, com o objetivo de frear as investidas da campanha de Lula sobre o segmento.

A pesquisa Quaest deste mês mostrou que Flávio segue à frente de Lula na intenção de votos do eleitorado evangélico. Mas a diferença, que era de 37 pontos em maio, agora é de 22.

Lideranças religiosas que apoiam Flávio estão pessimistas com o clima captado nas igrejas e templos. Em conversas com sua base, afirmam que hoje há muita dúvida sobre a efetividade da candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto. A avaliação desses líderes é que a postura desse eleitorado é totalmente distinta da de 2022, quando Jair Bolsonaro concorreu contra Lula.

A realidade da favela, trágica e bonita, na visão do sambista Nelson Sargento

Nelson Sargento - Dicionário Cravo Albin

Nelson Sargento, um expoente da Mangueira

Paulo Peres
Poemas & Canções

O artista plástico, escritor, cantor e compositor carioca Nelson Mattos (1924-2021) foi sargento do Exército, daí o apelido que virou nome artístico. Na letra de “Encanto da Paisagem”, mostra a sua visão poética e social sobre a realidade existente nos morros. Este samba intitula o LP “Encanto da Paisagem” gravado por Nelson Sargento, em 1986,  pela Kuarup.

ENCANTO DA PAISAGEM
Nelson Sargento

Morro, és o encanto da paisagem,
Suntuoso personagem de rudimentar beleza.
Morro, progresso lento e primário,
És imponente no cenário,
Inspiração da natureza.
Na topografia da cidade,
Com toda simplicidade,
És chamado de elevação.
Vielas, becos e buracos,
Choupanas, tendinhas, barracos
Sem discriminação.

Morro, pés descalços na ladeira,
Lata d´água na cabeça,
Vida rude alvissareira.
Crianças sem futuro e sem escola,
Se não der sorte na bola
Vai sofrer a vida inteira.

Morro, o teu samba foi minado,
Ficou tão sofisticado,
Já não é tradicional
Morro, és lindo quando o sol desponta,
E as mazelas vão por conta do desajuste social.

A demora que fez Flávio Bolsonaro perder Tereza Cristina como vice

Flávio não se esforçou nas iniciativas e perdeu o timing

Malu Gaspar
O Globo

A negociação com a senadora Tereza Cristina (PP-MS) para ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi adiante por conta da posição do partido dela e de seu presidente, Ciro Nogueira, de manter neutralidade na campanha presidencial. Mas internamente no PL e até mesmo no PP, aliados de ambos apontam um fator que consideram ter feito toda a diferença para o fracasso da iniciativa: a demora de Flávio em procurar a própria Tereza.

Embora a senadora tenha sido citada muitas vezes pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, como a vice ideal para o filho de Jair Bolsonaro, o próprio Flávio nunca tinha conversado com Tereza Cristina até a última quarta-feira, quando ela foi chamada a Brasília às pressas para uma reunião com o candidato e o coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN).

APROVAÇÃO – Nessa conversa, a senadora sinalizou que toparia compor a chapa, desde que a federação formada pelo PP e pelo União Brasil aprovasse – o que o próprio partido rechaçou em uma nota pública em que reafirmou que vai ficar neutro na disputa pelo Palácio do Planalto.

Tereza Cristina foi ministra da Agricultura no governo Bolsonaro e também foi cotada como vice na chapa da reeleição do então presidente, que resistiu à ideia e escolheu o general Walter Braga Netto (PL) a despeito dos apelos de Valdemar e Ciro.

“Foi a primeira vez que alguém da família Bolsonaro colocou esse assunto na mesa. Até então só quem falava sobre isso com ela era Valdemar, que aliás insistiu muito”, diz um interlocutor frequente da senadora. “Aí já era tarde.”

TIMING – O mesmo diagnóstico veio de uma liderança do PL, segundo a qual Flávio tem sido lento nas iniciativas e não toma as rédeas da própria campanha, diferentemente do pai, que comandava pessoalmente as conversas e articulações. “Ele perdeu o timing. Se ele tivesse feito um esforço maior desde o começo, talvez as coisas tivessem tomado outro rumo”.

Para esse aliado, Flávio estava de “salto alto” por aparecer bem colocado nas pesquisas, mas foi atropelado pelo caso Dark Horse. “Ele ficava fechado com Rogério Marinho numa sala tomando todas as decisões, ignorando que no final quem decide mesmo é a política”.

Nesta sexta-feira, Flávio admitiu que as conversas com a senadora do PP fizeram água por decisão do partido, mas disse que ainda vai tentar reverter a situação até o dia 5, quando termina o prazo da lei eleitoral. “Óbvio que eu respeito, mas eu sou brasileiro, não desisto nunca. Vamos continuar nas conversas”, declarou.

PREOCUPAÇÃO – A frustração com o desfecho das conversas com Tereza Cristina reflete o clima geral de preocupação com a falta de rumo da campanha. Nesta mesma semana, Flávio trocou de marqueteiro pela segunda vez. Saíram Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer e entrou Duda Lima, que fez a campanha de Jair Bolsonaro em 2022 e desde então cuida do marketing do PL.

Além das muitas críticas ao tom utilizado nas propagandas, integrantes da cúpula do PL também consideraram que a convenção do partido foi ruim e desorganizada – um exemplo citado várias vezes na conversa foi o fato de o discurso de Flávio Bolsonaro ter acontecido com muito atraso e com o centro de convenções do Pacaembu esvaziado, quando boa parte das caravanas já deixava o local para voltar para casa.

STF pode entrar em cena se TSE não barrar vídeo de Bolsonaro feito com IA

Charge do Aroeira (Brasil 247)

Bela Megale
O Globo

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) já sinalizaram a interlocutores que devem entrar em cena caso o vídeo de Jair Bolsonaro produzido com inteligência artificial, exibido na convenção de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, não seja punido pela Justiça Eleitoral.

A avaliação de três magistrados, em conversa com a coluna, é que a manifestação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de que o uso da inteligência artificial é lícito desde que não prejudique alguém, pode abrir precedentes perigosos.

“LIBERA GERAL” – Segundo os magistrados, se não houver punição aplicada pelo TSE, Kassio fará um “libera geral” para o uso da ferramenta, que precisará ser limitado pelo Supremo. Eles consideram certo que o tema chegará à corte por meio de alguma reclamação.

Ministros do STF e também do TSE, ouvidos pela coluna, apontam que o uso sistemático de materiais produzidos com inteligência artificial envolvendo a figura de Jair Bolsonaro pode, inclusive, configurar abuso de poder, com possibilidade de cassação da chapa. Avaliam, porém, que o vídeo isolado da convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato não tem esse potencial.

“DEEP FAKE” – Esses membros do STF ponderam, no entanto, que o ideal seria o próprio TSE aplicar as punições cabíveis, com a resolução já estabelecida, inclusive na presidência de Kassio Nunes Marques. Para eles, está claro que o material é “deep fake”, técnica que permite alterar vídeos ou fotos com auxílio da inteligência artificial e que é proibida pela Justiça Eleitoral durante o pleito.

Integrantes da campanha de Flávio, entretanto, acreditam que existe a possibilidade de Nunes Marques não enquadrar o material como “deep fake” e manter a legalidade do seu uso. Eles apostam que, nesse cenário, o STF será provocado e terá a palavra final sobre o tema.

Caso Lulinha amplia pressão e cria novo teste político para o governo de Lula

Adversários do presidente devem explorar o episódio

Pedro do Coutto

A autorização para que a Polícia Federal avance em uma investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suspeitas relacionadas a tráfico de influência abre uma nova frente de desgaste político para o governo Lula. O despacho do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que permitiu o prosseguimento das apurações, recoloca no centro do debate uma questão historicamente sensível na política brasileira: a relação entre o poder presidencial e pessoas próximas ao núcleo familiar do chefe do Executivo.

É importante separar os campos jurídico e político. A abertura de uma investigação não representa uma condenação nem comprova irregularidades. Cabe à Polícia Federal levantar informações, ao Ministério Público avaliar eventuais medidas e ao Judiciário analisar a validade das provas. Mas, na política, especialmente em Brasília, a simples existência de uma investigação envolvendo alguém ligado diretamente ao presidente já produz efeitos concretos sobre a imagem do governo.

NARRATIVA PÚBLICA – O principal risco para Lula está menos no aspecto jurídico imediato e mais na disputa pela narrativa pública. Adversários do presidente devem explorar o episódio para reforçar críticas sobre influência, relações pessoais e possíveis favorecimentos no entorno do poder. A estratégia é conhecida: transformar uma investigação específica em símbolo de uma questão política mais ampla, tentando associar o governo atual a práticas que marcaram momentos turbulentos da história recente do país.

Para o Palácio do Planalto, o desafio será impedir que o caso contamine a agenda econômica e social da administração. Governos não são avaliados apenas pelos resultados que entregam, mas também pela capacidade de administrar crises. Uma investigação envolvendo um familiar do presidente exige uma resposta cuidadosa: firmeza no respeito às instituições, mas sem transformar o episódio em uma batalha política permanente.

A situação é particularmente delicada porque o governo Lula busca consolidar uma imagem de reconstrução institucional após anos de forte polarização. Qualquer suspeita envolvendo pessoas próximas ao presidente inevitavelmente reabre debates sobre ética pública, transparência e os limites entre relações pessoais e acesso ao poder.

DESGASTE – A história política brasileira mostra que crises envolvendo familiares, aliados ou integrantes do círculo íntimo de governantes podem causar desgaste mesmo antes de uma conclusão definitiva. O tempo da Justiça é diferente do tempo da política. Enquanto uma investigação pode levar meses ou anos até uma decisão final, a opinião pública forma percepções rapidamente, influenciada pelo noticiário e pela disputa de versões.

Em um ambiente de crescente antecipação eleitoral, o episódio também oferece munição para a oposição tentar atingir um dos pontos mais sensíveis de qualquer governo: a confiança do eleitor. O objetivo dos adversários será apresentar o caso como parte de um problema maior, enquanto o governo deverá insistir que toda investigação deve seguir critérios técnicos e que ninguém pode ser considerado culpado sem provas.

TESTE POLÍTICO – O episódio envolvendo Lulinha representa, portanto, mais do que uma investigação individual. Ele se transforma em um teste político para Lula e sua capacidade de preservar a imagem de seu governo em meio a novas pressões. A resposta mais importante será demonstrar que as instituições funcionam sem interferência, independentemente de quem esteja no centro das apurações.

No Brasil, crises políticas raramente são definidas apenas pelos fatos jurídicos. Elas também são disputadas no campo da percepção pública. E, neste momento, o governo Lula terá de enfrentar uma batalha que acontece simultaneamente nos tribunais, no Congresso e na opinião pública.

Onde termina a diplomacia e começa a ingerência

Trump tentar cruzar fronteira da democracia brasileira

Marcelo Copelli
Congresso em Foco

A diplomacia sempre conviveu com uma zona de ambiguidade. Todo Estado observa, comenta e reage aos rumos políticos de outros países — é o que se espera de qualquer ator relevante no sistema internacional. O problema surge quando essa observação deixa de ser análise e passa a ser tentativa de direção. A linha entre as duas coisas nunca foi traçada por lei, mas por um critério decisivo: quem fala, para quem fala e com que propósito.

Um chefe de governo pode, sem qualquer prejuízo às normas internacionais, expressar preocupação com a instabilidade institucional de outro país, criticar uma política econômica ou defender publicamente uma posição sobre direitos humanos. Isso é diplomacia — às vezes desconfortável, quase sempre interessada, mas ainda assim compatível com a soberania alheia.  

INFLUÊNCIA SOBRE ELEITORADO – Um dos sinais mais claros de que a diplomacia se transforma em ingerência aparece quando a manifestação deixa de se dirigir a governos ou instituições e passa a buscar, deliberadamente, influenciar a escolha política do eleitorado de outro país. Nesse momento, muda o interlocutor. E é essa mudança — mais do que o conteúdo da declaração — que transforma um comentário diplomático em pressão política.

A história oferece inúmeros exemplos dessa distinção, ainda que ela raramente tenha sido formulada de maneira explícita. Potências coloniais pressionavam governos recém-independentes por meio de embaixadas, acordos comerciais condicionados e apoio velado a facções internas — mecanismos que, justamente por serem indiretos, preservavam alguma plausibilidade de negação.  

O que mudou no século XXI não foi a existência da prática, mas sua escala, sua velocidade e seu alcance. Hoje, uma declaração de um líder estrangeiro chega ao eleitor comum antes mesmo de alcançar o Ministério das Relações Exteriores do país a que se refere. Ela é replicada por redes sociais, retransmitida pela imprensa e amplificada por influenciadores políticos, sem qualquer mediação diplomática. A ingerência já não precisa de embaixadores. Basta uma conta verificada e um fuso horário favorável.

PROTOCOLOS – Essa mudança de escala altera a natureza do próprio fenômeno. Quando a pressão externa dependia de canais diplomáticos, permanecia, ao menos formalmente, no âmbito das relações entre Estados — sujeita a protocolos, respostas oficiais e a uma linguagem que preservava alguma distância entre quem pressionava e quem era pressionado.  

Quando a mensagem passa a se dirigir diretamente ao eleitor, essa distância desaparece. O que antes era comunicação entre governos transforma-se em comunicação entre um líder estrangeiro e os cidadãos de outro país — e nenhuma instituição diplomática foi concebida para mediar esse tipo de intervenção.

É por isso que reduzir o debate sobre interferência a uma disputa entre simpatizantes e opositores de um governo específico é um erro de análise, não apenas de tom. O critério não pode variar conforme o destinatário da pressão. Um país que aceita a interferência quando ela favorece o governo que apoia e a condena quando prejudica esse mesmo governo não está defendendo a soberania; está usando o conceito como argumento circunstancial. A consequência é previsível: o princípio perde consistência, e as instituições deixam de dispor de um parâmetro confiável para reagir quando o fenômeno voltar a ocorrer, qualquer que seja sua direção política.

EXPOSIÇÃO – O Brasil reúne características que o tornam particularmente exposto a esse tipo de pressão. Sua relevância econômica, sua posição nas discussões ambientais globais, seu protagonismo em fóruns como o BRICS e sua influência regional fazem com que declarações de líderes estrangeiros sobre a política brasileira raramente sejam neutras ou desinteressadas. Isso, por si só, não representa um problema. É a condição normal de qualquer país com peso geopolítico. O problema não está no interesse internacional, mas na tentativa de convertê-lo em influência sobre escolhas que pertencem exclusivamente aos brasileiros.

Reconhecer essa fronteira exige instrumentos institucionais que ainda estão em construção em quase todas as democracias, não apenas na brasileira. Não se trata de blindar o debate público contra qualquer opinião estrangeira — isso seria não apenas impossível, mas incompatível com a abertura que se pretende preservar.  

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida nesse debate. Plataformas digitais, sistemas de recomendação algorítmica e mercados financeiros internacionais operam, cada um por mecanismos próprios, como canais adicionais de influência que não respondem a protocolos diplomáticos nem pertencem a um Estado específico.

INGERÊNCIA – Uma empresa de tecnologia que decide amplificar determinado conteúdo político, ou um fundo de investimento que condiciona decisões de alocação a expectativas eleitorais, pode influenciar o ambiente democrático de um país sem jamais emitir uma nota oficial. Limitar a discussão sobre ingerência aos governos estrangeiros significa ignorar uma parte essencial do problema contemporâneo.

No fim, a distinção entre diplomacia e ingerência depende de um princípio simples: opiniões sobre outro país fazem parte do jogo internacional; tentativas de dirigir a escolha de seus cidadãos, não. Sempre que essa fronteira for cruzada — por um governo, por uma plataforma ou por um mercado —, a resposta não deve depender de quem é favorecido ou prejudicado. Deve começar pela mesma pergunta, em qualquer circunstância: a quem essa mensagem realmente se dirige?

Porque nenhuma democracia permanece plenamente soberana quando a vontade de seus cidadãos deixa de ser formada livremente e passa a ser disputada por atores que jamais responderão às consequências dessa decisão.

Flávio enfrenta risco de disputar esta eleição sem o apoio do Centrão

Reflexões sobre a existência de Deus, que parece punir o Brasil nesta eleição

A crença em Deus subsiste devido ao... Sigmund Freud - PensadorCarlos Newton

Há um velho ditado afirmando que Deus escreve certo por linhas tortas, uma circunstância que abre possibilidade de servir como desculpa para uma quantidade enorme de asneiras e patifarias. Na verdade, a existência de Deus tornou-se um enigma que possivelmente jamais será desvendada. Pode dividir a humanidade até o final dos tempos, que pode ocorrer se um novo asteroide se chocar contra a Terra, como os cientistas preveem, mas só Deus sabe quando…

São poderosas e convincentes as justificativas dos ateus, que não acreditam em Deus, dos agnósticos, que acham não ser possível saber se Deus existe, e dos não-religiosos, que não creem em nada.

NÃO HÁ PROVAS – Esses três ramos contestadores exibem argumentos aparentemente irrefutáveis. O principal é afirmar que não há provas da existência de Deus. Realmente, não existem. Mesmo assim, o número de pessoas que acreditam nele é imenso.

Respeito muito estas contestações a Deus, que incluem razões científicas, porque não existem registros técnicos, medições ou fenômenos testáveis que comprovem ações divinas diretas na nossa vida.

Portanto, a polêmica sobre a existência de Deus pode se prolongar indefinidamente. Da mesma forma, também não há como saber se o homem tem instinto bom ou ruim.

LOBO DO HOMEM – Na Roma Antiga, dizia-se que “o homem é o lobo do homem” (homo homini lupus), significando que o ser humano é inimigo de sua própria espécie, devido ao egoísmo natural, à falta de solidariedade e à necessidade de existirem leis que contenham o lobo dentro de cada um de nós.

O ditado romano foi usado por Plauto (254-184 a.C.) em sua comédia “Asinaria” com essa afirmação: “Lupus est homo hominī, non homo, quom qualis sit non novit” (O homem não é homem, mas um lobo, para um estranho”, ou mais precisamente: “Um homem é um lobo, não um homem, para outro homem que ele ainda não conheceu”).   

Vinte séculos depois, a expressão foi retomada em 1642 pelo portentoso Thomas Hobbes na obra “Do Cidadão”. O cientista e filósofo inglês foi um dos precursores da democracia e no livro “Leviatã” defendia um contrato social, tese que Jean-Jacques Rousseau consagraria no século seguinte.

VISÕES DISTINTAS – A diferença é que Hobbes presenciara guerras e carnificinas, tinha uma visão negativa do homem e entendia que as perversões de cada um somente poderiam ser contidas por governos fortes e implacáveis na aplicação da lei.

Rousseau, ao contrário, achava que o homem seria bom por natureza, mas a carência na sua formação poderia torná-lo maléfico na idade adulta. E assim baseou sua versão da teoria do contrato social.

Mas a opinião de Rousseau pouco significa. O avanço da Psiquiatria, da Psicanálise e da Medicina Legal mostra que o homem pode ser impulsionado pelo bem e pelo mal, indistintamente, dependendo das circunstâncias, como dizia o filósofo espanhol Ortega y Gasset.

FREUD EXPLICA – O gigantesco Sigmund Freud, em “O Mal-Estar na Civilização”, acrescentou que o ser humana não é puramente bom ou maligno em termos morais, mas sim como um ser influenciado por forças conflitantes inerentes à sua biologia. Para ele, o ser humano é movido por um conflito profundo entre as impulsões de vida (Eros) e as impulsões de morte (Tânatos).

Essa dúvida sobre a natureza humana dificilmente será elucidada pela inteligência natural ou artificial. Pode ser que mais lá na frente, o homem tenha evoluído de tal maneira que possa elucidar essa questão e até desviar da rota aquele asteroide, para garantir a perenidade da vida na Terra.

Quanto à existência de Deus, a dúvida científica é muito mais profunda. Freud considerava Deus é uma ilusão psíquica, como projeção da figura paterna para reduzir o desamparo humano e sua necessidade de proteção.

DEUS DE SPINOZA – Por fim, não se pode esquecer a visão panteísta do Deus, imaginada no século XVII pelo filósofo holandês Baruch Spinoza, de família judaico-portuguesa, contemporâneo de Thomas Hobbes.

Segundo Spinoza, Deus e o universo são inseparáveis; a divindade é a própria totalidade da natureza, operando através de leis lógicas, universais e imutáveis.

A tese de Spinoza era a preferida do cientista alemão Albert Einstein, que dizia: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”. 

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P.S. –
Pessoalmente,  também adoto a visão holística de Spinoza. É uma desculpa genial para dizer que Deus existe, quer você queira ou não. A tese faz sentido e se pode acreditar nela.

P.S. 2 – Se Deus não existe, a gente fica sem proteção, exatamente como está ocorrendo agora, nessa eleição a ser decidida entre Lula e Flávio, dois políticos de passado nebuloso, ambos com famílias enriquecidas ilicitamente e, portanto, adoradoras do Deus Dinheiro, que hoje predomina no Brasil, onde até no Supremo há ministros com 129 milhões de motivos para venerar essa falsa Santidade. (C.N.)