
Paula atuou como secretária parlamentar no gabinete de Frias
Luciana Casemiro
O Globo
A leitura das 150 páginas da decisão do ministro Flávio Dino que autorizou a operação da Polícia Federal, nesta quinta-feira, para investigar desvios de emendas, é desafiadora.
Os nomes se repetem, sem a magia da escrita fantástica de Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão. Um dos nomes que aparece no relatório desempenhando diferentes papéis – de secretária parlamentar a empresária, passando por beneficiária de programa social – é o de Paula de Oliveira Lima.
AGÊNCIA LOOP – Entre fevereiro e abril de 2024, Paula atuou como secretária parlamentar no gabinete do deputado federal Mario Frias, que é um dos parlamentares alvo da ação da PF. Dois dias após sua exoneração, segundo o relatório, ela abriu a Agência Loop, contratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama – que também é responsável pela produção do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro – para a prestação de serviços pelo período de seis meses, no valor de R$ 311.350,00. O contrato estava vinculado a termos de fomento custeados por emendas parlamentares.
A empresa de Paula foi aberta em 4 de abril de 2024 e, no mesmo mês, apresentou proposta comercial ao ICB. Encerrou as atividades em 17 de fevereiro de 2025. O relatório divulgado por Dino destaca que “Agência Loop” não constava como nome fantasia no CNPJ e que o endereço registrado em Pirassununga, no interior de São Paulo, corresponde a um imóvel com características residenciais.
A investigação aponta ainda que Paula Lima foi responsável por outra empresa de mesmo nome, sediada em Brasília, aberta em 2023 e baixada em 2024. Paula também foi beneficiária do Auxílio Emergencial, programa de governo de Jair Bolsonaro, entre maio de 2020 e maio de 2021, mantendo registros de endereço em Rio Branco, no Acre. Mais tarde, entre março e outubro de 2025, trabalhou como supervisora de digitação e operação na Mult Graf Indústria Gráfica, empresa sediada na capital acreana.
Operação da PF desmonta discurso de Flávio Bolsonaro sobre ‘Dark Horse’
Ontem a Polícia Federal fez buscas na casa do dublê de ator e deputado Mario Frias. Apreendeu sete armas, incluindo uma carabina eslovaca e uma espingarda de cano duplo, estilo Velho Oeste.
Como secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, Frias voltou a mira contra os artistas. Disparou insultos contra Chico Buarque, Caetano Veloso, Anitta, Taís Araújo, Ivete Sangalo e outros nomes que ousaram criticar o capitão.
Para mostrar fidelidade ao chefe, o ex-galã de “Malhação” também abriu fogo contra a Lei Rouanet. “A mamata acabou”, repetia, ao defender medidas que sufocaram o principal mecanismo de incentivo à produção cultural no país.
A conversão à extrema direita deu a Frias o prestígio que ele não encontrou na carreira de ator. O astro de “Bela, a feia” fez novos amigos, ganhou seguidores e se elegeu para a Câmara. Teve o triplo de votos do palhaço Tiririca, seu colega no PL paulista.
Como parlamentar, sua atuação mais notável foi como roteirista e produtor executivo de “Dark horse”. Agora a PF apura se ele desviou recursos federais para financiar o filme de propaganda bolsonarista, cujo orçamento faria inveja a Leni Riefenstahl.
De acordo com a investigação, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas para o Instituto Conhecer Brasil, de Karina Gama. Ela também é produtora do filme que exalta o ex-mito.
O caso desmonta de vez o discurso de Flávio, que sempre negou o uso de dinheiro público no filme. A versão já ignorava o fato de que a fortuna de Vorcaro, a quem o senador pediu R$ 134 milhões, foi engordada pelo assalto à previdência de servidores.
O episódio também ajuda a entender por que Frias e seus asseclas se empenharam tanto em demonizar a Lei Rouanet. O objetivo era substituir o mecanismo, que impõe regras rígidas de fiscalização e prestação de contas, pelo faroeste das emendas.
O Globo, Opinião, 11/09/2026 00h45 Por Bernardo Mello Franco