Afinal, por que Joaquim Barbosa não aceitou ser a  tão ansiada terceira via?

Ao New York Times, Joaquim Barbosa descarta candidatura política - Espaço  Vital

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Fabio Calsavara
Gazeta do Povo

Nos idos da década de 2010, o então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa parecia ser uma figura grande demais para desaparecer. Envergando sua toga, ele se tornou um dos rostos mais conhecidos do país ao comandar, como relator, o julgamento do caso do Mensalão. Alçado à condição de um quase herói nacional, Barbosa personificava a punição aos poderosos e como magistrado parecia ter amealhado um capital político raro aos seus pares.

 A promessa eleitoral como um nome forte no combate à corrupção, porém, nunca passou disso: uma promessa. Se antes Barbosa parecia alguém que conseguiria converter em realidade qualquer projeto político que abraçasse, há muito que o ex-ministro não desperta o mesmo furor de outrora. Antes cotado como um outsider na política com potencial de vitória, ele se converteu em um outsider da vida pública desde sua saída precoce do STF.

PRÉ-CANDIDATO – O último lampejo de Barbosa ocorreu em maio deste ano, quando foi apresentado como pré-candidato do Democracia Cristã à Presidência da República nas eleições de 2026. A apresentação foi feita por meio de uma animação gerada por inteligência artificial, na qual o ex-ministro — ostentando a toga quase como uma heroica capa — chamava os eleitores para “virarem a página”.

O vídeo divulgado pelo partido não teria sido aprovado por Barbosa nem submetido previamente à sua equipe de articulação política. Tratado como “clandestino” por Aldo Rebelo, outro potencial pré-candidato pelo DC, Barbosa não encontrou o apoio que esperava e desistiu da candidatura.

 Em 2018, Barbosa havia ensaiado sua primeira incursão na política. Filiado ao PSB, chegou a romper a barreira dos dois dígitos em pesquisas de intenção de voto. O ar novidadeiro e a aura de “terceira via” chegaram a empolgar o partido, mas não tardou para que a desistência fosse anunciada, em maio daquele ano.

PERFIL INOPERANTE – No último dia 16 de junho, o ex-ministro postou em sua conta oficial no X o anúncio de seu retorno às redes sociais. Desde então, nenhuma outra manifestação no perfil. Em resposta à postagem, um internauta questionou o fato de Barbosa ter se aposentado de forma precoce da Suprema Corte: “Se o senhor não tinha saúde sequer para ficar sentado no STF, terá para gerenciar o Brasil?”.

Fosse pelo critério da idade, Barbosa ainda poderia ter trajado a toga de ministro do STF até 2024, quando completaria 75 anos e atingiria o teto etário para o cargo. A decisão de sair da corte veio dez anos antes, em 2014. Na sessão de 29 de maio daquele ano, ele anunciou formalmente sua escolha em um discurso.

“Afasto-me não apenas da Presidência, mas do cargo de ministro. Tive a felicidade, a satisfação e a alegria de compor esta Corte, no que é talvez o seu momento mais fecundo, de maior criatividade e de importância no cenário político-institucional do nosso país”, disse o ministro.

LIVRE-ARBÍTRIO – O motivo da saída, além do notório problema de saúde na coluna — que o fazia participar de algumas das sessões em pé, apoiado em sua cadeira — foi, segundo Barbosa, o exercício de seu livre-arbítrio e de suas convicções republicanas. Mas registros da imprensa da época mostram que a decisão pode ter sido tomada por motivos bem menos nobres.

 Sua atuação no julgamento da Ação Penal 470, conhecida como o caso do Mensalão, rendeu-lhe uma série de ameaças públicas e pessoais, virtuais e no mundo real. Frequentador assíduo de um restaurante em Brasília, o então ministro se viu obrigado a mudar de hábitos depois de ter sido hostilizado por um grupo de militantes do PT na saída do estabelecimento.

Nas redes sociais sobravam postagens contrárias ao ministro. Em um perfil apócrifo investigado pela Polícia Federal, o autor dizia que Barbosa “morreria de câncer ou com um tiro na cabeça”. Em outro perfil, mais ameaças: “Contra Joaquim Barbosa toda violência é permitida, porque não se trata de um ser humano, mas de um monstro e de uma aberração moral das mais pavorosas. Joaquim Barbosa deve ser morto”.

CONTRA GILMAR – No STF, um de seus desafetos mais notórios foi o ministro Gilmar Mendes. Em uma altercação entre os dois, em 2009, Barbosa lembrou o colega de que era preciso sair às ruas. Diante da resposta de Mendes, que afirmou “estar na rua”, Barbosa disparou: “Vossa Excelência não está na rua. Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso. Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso”.

Barbosa continuou aparecendo ocasionalmente — em entrevistas, eventos e declarações pontuais —, mas sem construir uma atuação política permanente. Em 2022, por exemplo, foi entrevistado por Pedro Bial e voltou a falar sobre o cenário político brasileiro. Nada, porém, que lembrasse a dimensão de sua presença pública durante o julgamento do Mensalão.

Dez anos depois de deixar o Supremo, fica a pergunta que ajudaria a explicar essa trajetória: onde foi parar Joaquim Barbosa — e por que o homem que chegou a ser tratado como uma das maiores esperanças de renovação da política brasileira nunca conseguiu, ou nunca quis, ocupar o espaço que lhe atribuíram?

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Excelente matéria sobre Joaquim Barbosa, enviada por Mario Assis Causanilhas. É muito oportuna, ao traçar o retrato de um ministro de notório saber e reputação ilibada, que marcou época e que haje faz muita falta à Suprema Corte e também à política brasileira. (C.N.)

3 thoughts on “Afinal, por que Joaquim Barbosa não aceitou ser a  tão ansiada terceira via?

  1. Eleito, Flávio Rachadinha deverá nomear Dudu Bananinha como Embaixador do Brasil nos Estados Unidos — nomeação que o ex-mito tentou fazer em 2019, mas não conseguiu concretizar.

    Ele também deve nomear Carla Zambelli como Embaixadora do País na Itália.

    Acorda, Brasil! Presta atenção!

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