Vorcaro tentou transformar jornalistas em alvo de ataques
Deu no O Globo
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, encomendou vídeos apócrifos para atacar os colunistas do O Globo Malu Gaspar e Lauro Jardim por coberturas críticas à instituição bancária. Os conteúdos visavam descredibilizar os jornalistas. A informação foi revelada pelo jornal Estado de S. Paulo, que teve acesso a conversas de Vorcaro com a então superintendente de Comunicação e Marketing do Master, Ana Lúcia Matos. O material foi encontrado no telefone dele pela Polícia Federal (PF).
As mensagens do dia 3 de março de 2025 mostram que Matos encaminhou ao banqueiro um rascunho de roteiro e sugeriu que Vorcaro lesse “pensando que seria um vídeo curto com a cara do Lauro voando na tela e essa locução”. Ela, então, pede a opinião do chefe: “Seria mais ou menos isso?”.
“COLABORADOR FIXO” – O texto proposto dizia: “Engraçado, né? O jornalista do Globo parece ter até crachá de acesso ao prédio do Malzoni, em São Paulo – praticamente um colaborador fixo do BTG. O que será que ele faz tanto lá, gente? Café com vista pro Faria Lima? Brainstorm de pauta? Porque, curioso mesmo, é que nas notas dele… do BTG a gente não vê nada”. O Edifício Pátio Victor Malzoni descrito na mensagem é onde fica localizada a sede do BTG Pactual, no Itaim Bibi (SP).
Em resposta, Vorcaro pede para “tirar Globo” do texto e “atacar a física” — uma recomendação de direcionar o ataque ao jornalista e não ao jornal. “Resto ficou excelente”, disse em seguida.
“ALGUMA COISA” – Ana Matos responde: “Vou atrás de montar isso. Eu adoraria cutucar O Globo junto”. Ela, então, escreveu que precisava ver “o que pegar” de Malu Gaspar, mas garantiu ao banqueiro que acharia “alguma coisa”. A funcionária do Master retorna mais tarde com uma ideia de vídeo contra a colunista do O Globo.
“Abaixo seria uma ideia de vídeo com locução e imagem da Malu voando, numa vibe mais mediúnica”, explicou, antes de apresentar o texto da produção: “A Malu Gaspar é a Mãe Diná da Faria Lima. Faz matérias com toda a certeza do mundo… pena que quase nunca se confirmam. E as fontes? Só podem ser disco voador: todo mundo fala, mas ninguém nunca viu!”.
Em seguida, ela encaminhou o vídeo pronto. Embora tenha aprovado o texto, Vorcaro aponta não ter gostado do produto final que lhe foi apresentado. “Ana, o texto ta legal mas esse video nao ta nao. Dois almofadinhas falando”.
FIGURINHA – Vorcaro pede que não inclua uma foto de Lauro Jardim no vídeo, “pq ta na cara que e nosso”. “Vamos pensar. Enquanto isso vou fazer esse modelo que vc mandou. O lauro de crachá vai viralizar. Vira figurinha”, respondeu Ana.
O Globo divulgou a seguinte nota sobre o caso: “O Globo repudia veementemente a campanha de difamação planejada contra os jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim, dois dos mais respeitados profissionais do país. Trata-se de mais uma tentativa de intimidar a imprensa e desacreditar o jornalismo profissional, pilar fundamental da democracia. O Globo e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão apurando e noticiando, com rigor e independência, os fatos de interesse público”.
INTIMIDAÇÕES – Tentativas de intimidação contra os colunistas do O Globo já haviam sido descobertas pela PF. Em março, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou haver indícios de que o banqueiro determinou que se forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para “prejudicar violentamente” Lauro Jardim. O objetivo, diz Mendonça, era, a partir do episódio, “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”.
Já em julho, diálogos obtidos pela PF mostraram que Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, proprietário da agência Mithi, atuaram para tentar impedir o trabalho e violaram dados privados da jornalista Malu Gaspar. A insatisfação surgiu a partir de reportagens que abordaram investigações sobre a instituição financeira devido a operações fraudulentas e manipulação de preços. Após as reclamações de Vorcaro, Miranda afirmou que iria “revirar a vida” da jornalista, e repassou ao ex-banqueiro informações sobre familiares, contas bancárias e endereço da profissional.
O celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelou quem a imprensa “independente” chamava de parceiro.
Reinaldo Azevedo confirmou o patrocínio de R$ 1,2 milhão do Master ao seu podcast, em 12 parcelas de R$ 100 mil, e diz ter recebido sete delas. Segundo as mensagens apreendidas pela PF, a CartaCapital, dirigida por Manuela Carta, tinha patrocínio do banco e chegou a submeter uma reportagem a Vorcaro antes de publicar. Ainda segundo as mensagens, Gabriela Prioli teria assinado um contrato de 12 meses e gravado vídeos revisados pelo banqueiro. Ela nega ter recebido qualquer valor ou ter tido contato com o banco.
Os três dizem que o dinheiro nunca influenciou o que publicaram. Pode ser. Mas quem cobra isenção dos outros deveria ser o primeiro a contar quem paga as contas.
Imprensa que depende do dinheiro de quem deveria fiscalizar, seja banqueiro ou governo, deixa de ser cão de guarda e vira assessoria. A famosa turma Secom/Vorcaro, muito presente aqui na Tribuna.