
Charge do Laerte (Folha)
Luiz Felipe Pondé
Folha
A adesão a ideologias deveria já ter sido elencada como uma forma de psicopatologia, causando perda cognitiva, humor histérico, inibição afetiva, incontinência verbal, redução da capacidade semântica, bipolaridade maníaco-depressiva.
Um exemplo claro dessa psicopatologia social é a obsessão com a palavra “fascista” em certos meios, assim como na pandemia existia a obsessão com a defesa da cloroquina como medicamento que salvaria o mundo.
TUDO É FASCISTA – Hoje em dia, para muitos, existem galinhas fascistas, elevadores fascistas, sistemas solares fascistas. Na outra margem do rio dos idiotas, existem galinhas esquerdistas, elevadores esquerdistas, sistemas solares esquerdistas. Minha birra pessoal com essa gente infantil é que perdemos muito do nosso tempo com eles.
De forma mais sistêmica, penso, na base, o equívoco é maior do que parece. Trata-se de um erro filosófico que, como todo processo cultural, tem uma contrapartida nas palavras, textos, gestos, ideias que, com o passar do tempo e a circulação das pessoas, se transformam numa visão de mundo. Este processo se assemelha ao mecanismo epidemiológico de contágio por contato, via o ar que se respira.
Este equívoco específico gira ao redor da invenção da ideia de autonomia. Aliás, um livro que narra este processo de forma magnífica é “A Invenção da Autonomia”, de J.B. Schneewind. Falar da história da filosofia moral moderna é falar de Immanuel Kant, sendo o filósofo o seu grande clímax.
AUTONOMIA MORAL – A ideia é que a autonomia moral humana é uma invenção, fruto de um longo processo europeu de pensamento e debate acerca da concepção de ser humano. Essa história atravessa gigantes da filosofia e teologia desde o século 16 até o século 18. De Maquiavel, Montaigne, Lutero, Calvino, Grotius, Hobbes, Locke, Rousseau, entre tantos outros, até chegar a Kant no final do século 18.
Erguendo-se contra a ideia de “miséria do pecado”, a herança maldita agostiniana, este processo busca superar o marasmo da repetição infinita do mal em nós, para seguir em direção à possibilidade de um aperfeiçoamento da natureza humana via o uso da razão, sem vê-la como um pássaro de asa quebrada, como era vista ao longo da Idade Média.
Enfim, a coruja, ave da filosofia, parceira da deusa romana da sabedoria, Minerva, poderia voar livre, mesmo que só ao entardecer, como diria Friedrich Hegel já no século 19.
LEI RACIONAL – Kant afirmará que somos capazes de introjetar a lei moral racional e agir a partir da condição de “maioridade”. Só devo fazer o que todos podem fazer —imperativo categórico— e, portanto, realizar a razão prática.
A autonomia será, justamente, a superação do trauma de uma crença num livre arbítrio danificado pelo pecado original, em favor da crença numa livre escolha do bem moral, que, por ser um bem moral racional, só pode ser, portanto, de vocação universal.
Trocando em miúdos, somos seres individuais autônomos por sermos racionais, e não movidos por paixões, superstições, fé religiosa cega ou instintos. Este é o indivíduo liberal da economia, crente num homem que faz escolhas racionais em favor da otimização do bem-estar. Liberalismo e utilitarismo de mãos dadas.
ESTÁ PARA NASCER – A utopia socialista crê que só após a superação do capitalismo esse sujeito racional autônomo, de fato, nasceria.
Agora, venha cá. Voltemos ao que falávamos no início desta coluna. Dá para sustentar que empiricamente, ou seja, olhando o mundo à nossa volta, exista esse sujeito autônomo? Não que em alguns momentos, alguns de nós, não consigamos ser racionais em certa medida. Mas é difícil não suspeitar de que esse sujeito racional autônomo seja uma “bela” invenção “colonial” europeia, que nunca existiu, universalmente, nem na própria Europa.
Nelson Rodrigues, me parece, desvendou o mistério da racionalidade quando a comparou a uma ascese dolorosa como a santidade, cujo processo pode mesmo aniquilar o asceta, o devoto.
JAMAIS NA POLÍTICA – Esse sujeito autônomo pode parecer que existe quando escolhe um desodorante em detrimento de outro. Mas, na política, por exemplo, crer num sujeito que vota racionalmente e de forma autônoma é a mesma coisa que crer que a Terra é plana.
Adesão a ideologias é a prova da irracionalidade humana. Todo aderente a ideologia é um infantilizado. Crer que numa empresa a hierarquia escolha uns em detrimento de outros de modo racional, fazendo uso de uma racionalidade meritocrática, é a mesma coisa que crer em lobisomens.
O Homo sapiens é, afinal, uma espécie psicótica estruturalmente, delirante — e a modernidade é o pior dos seus surtos.