
Lula decidiu não participar do debate final da TV Globo
Pedro do Coutto
A poucos dias do primeiro turno, a eleição presidencial brasileira entrou naquela fase em que cada gesto pode produzir um efeito maior do que o inicialmente calculado. A decisão de Lula de não participar do debate final da TV Globo, marcado para 1.º de outubro, retirou do calendário da campanha um dos últimos grandes momentos de exposição direta dos candidatos.
Flávio Bolsonaro estará presente, assim como outros concorrentes, e a ausência do presidente abre espaço para que seus adversários ocupem o ambiente político e televisivo sem a necessidade de uma resposta imediata. A decisão foi confirmada nesta quarta-feira e ocorre num momento em que a disputa entre Lula e Flávio permanece apertada no horizonte de um eventual segundo turno.
MOMENTO DELICADO – O cálculo eleitoral, neste ponto da campanha, é inevitavelmente delicado. Debates podem representar riscos para quem lidera, porque oferecem aos adversários uma arena concentrada para ataques, mas também permitem ao candidato responder, estabelecer a própria narrativa e falar diretamente a parcelas do eleitorado que ainda não consolidaram completamente sua escolha.
A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 28 de setembro mostra que 87% dos entrevistados que já escolheram um candidato consideram seu voto definido. Entre os eleitores de Lula, esse índice chega a 92%; entre os de Flávio Bolsonaro, a 91%. Ainda assim, há uma parcela do eleitorado que permanece potencialmente disponível para mudanças, especialmente quando se considera a transição para um eventual segundo turno.
É nesse ambiente que a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou dimensão eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral colocou em julgamento, nesta quarta-feira, a decisão relacionada às publicações que associaram Flávio Bolsonaro a uma suposta iniciativa de retirar da santa o título de padroeira do Brasil. O episódio já havia provocado decisões conflitantes e novo atrito entre integrantes da Justiça Eleitoral.
IDENTIDADE POLÍTICA – A questão ultrapassa a discussão jurídica sobre o conteúdo das publicações. Em uma campanha extremamente polarizada, símbolos religiosos não funcionam apenas como elementos de fé: também podem ser mobilizados como instrumentos de identidade política. Isso vale para diferentes campos ideológicos e exige cuidado de todos os lados. Quando uma referência religiosa é transformada em arma eleitoral, a disputa deixa de ser apenas sobre propostas e passa a envolver pertencimento, valores e identidades que dificilmente se submetem à mesma lógica de um debate sobre economia, segurança ou políticas sociais.
O problema para Flávio Bolsonaro é que a controvérsia surgiu justamente num momento em que sua campanha precisa ampliar a interlocução para além do eleitorado já identificado com o bolsonarismo. A pesquisa Datafolha de setembro mostra que o eleitorado evangélico apresenta uma distribuição bastante diferente daquela observada entre católicos, enquanto Lula mantém vantagem expressiva entre os católicos. A religião, portanto, não é um território eleitoral homogéneo e tampouco pode ser tratada como propriedade de uma candidatura.
EXPLORAÇÃO POLÍTICA – É preciso, entretanto, evitar uma conclusão precipitada: não há base suficiente para afirmar, apenas a partir desse episódio, quanto cada candidato ganhou ou perdeu eleitoralmente. Pesquisas captam movimentos agregados e não permitem atribuir automaticamente uma oscilação a um acontecimento específico. O que se pode dizer é que a controvérsia acrescentou um elemento de tensão à campanha de Flávio e ofereceu aos adversários uma nova frente de exploração política.
O quadro nacional ajuda a compreender por que cada episódio passou a receber tamanha importância. Na pesquisa Quaest realizada entre 24 e 27 de setembro, Lula apareceu com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, os dois chegaram a 42% cada. Na BTG/Nexus, realizada entre 25 e 27 de setembro, Lula registrou 42% no primeiro turno contra 37% de Flávio; no segundo, 46% a 44%. São levantamentos diferentes, com metodologias próprias, mas ambos mostram uma característica comum: Lula chega à reta final à frente no primeiro turno, enquanto o confronto direto permanece dentro de uma faixa de proximidade muito maior.
Essa diferença entre os dois momentos da eleição é essencial. O primeiro turno ainda é uma disputa por preferência entre vários nomes. O segundo transforma-se em uma escolha binária, na qual entram em cena não apenas os votos conquistados pelos dois líderes, mas também a capacidade de cada campanha de atrair eleitores que escolheram outras candidaturas. Por isso, números aparentemente confortáveis no primeiro turno não podem ser convertidos automaticamente em vantagem equivalente numa segunda votação.
CENÁRIO ELEITORAL – O mapa regional reforça essa complexidade. São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, apresenta hoje um cenário presidencial diferente daquele descrito no texto original. Na pesquisa Datafolha realizada de 22 a 24 de setembro, Flávio Bolsonaro tinha 38% contra 33% de Lula no primeiro turno; no segundo, 49% contra 41%. Ao mesmo tempo, na disputa pelo governo estadual, Tarcísio de Freitas aparecia com 44% contra 24% de Fernando Haddad. São eleições distintas, e misturar os dois números produziria uma leitura equivocada do comportamento do eleitor paulista.
A diferença regional é ainda mais evidente quando se observa Minas Gerais. Na pesquisa Datafolha realizada no mesmo período, Lula tinha 39% e Flávio Bolsonaro, 37%, no primeiro turno. No segundo, o candidato do PL aparecia numericamente à frente, com 46% contra 44%, ainda dentro da margem de erro. O Nordeste, por outro lado, permanece como uma das regiões de maior vantagem de Lula. No levantamento anterior do Datafolha, o presidente tinha 53% contra 22% de Flávio entre os eleitores nordestinos.
É justamente essa geografia eleitoral que torna prematuro transformar a reta final numa narrativa de vitória antecipada de qualquer lado. O Brasil chega ao primeiro turno com dois movimentos simultâneos: de um lado, Lula preserva uma vantagem no conjunto das pesquisas de primeiro turno; de outro, a distância se estreita quando o eleitor é colocado diante de uma escolha direta entre Lula e Flávio. A eleição, portanto, não está definida pela fotografia de nenhum levantamento isoladamente.
CRÍTICAS – O debate da Globo, nesse contexto, teria um significado que ultrapassa sua audiência. Seria um dos últimos momentos em que os candidatos poderiam disputar simultaneamente atenção, contraste e enquadramento político antes da votação. A ausência de Lula permite que os adversários construam livremente suas críticas, mas também retira do presidente a possibilidade de responder em tempo real. O custo ou o benefício dessa escolha, contudo, só poderá ser avaliado depois, quando houver dados capazes de mostrar se houve efetivamente alguma alteração relevante no comportamento eleitoral.
A campanha chega, assim, ao seu ponto mais sensível. A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro deixou de ser apenas uma confrontação entre duas candidaturas. Ela passou a organizar boa parte da eleição em torno de dois campos políticos que continuam profundamente identificados com o lulismo e o bolsonarismo. Ao mesmo tempo, parcelas do eleitorado ainda não estão necessariamente presas a essa divisão e serão decisivas na passagem do primeiro para o segundo turno.
TABULEIRO ELEITORAL – A controvérsia religiosa, o debate ausente, os ataques entre os candidatos e a movimentação das pesquisas são peças de um mesmo tabuleiro. Nenhuma delas, isoladamente, determina o resultado. Mas todas ajudam a mostrar o que está em jogo: numa eleição tão polarizada, a campanha já não disputa apenas votos. Disputa o direito de definir os termos do confronto que virá depois de 4 de outubro.
E é precisamente por isso que os últimos dias podem ser mais importantes para a construção do segundo turno do que para a simples fotografia do primeiro. O eleitorado brasileiro ainda terá de decidir quem avançará e, sobretudo, em que condições chegará ao confronto final. A urna fará a primeira escolha no domingo. A segunda, porém, será construída também a partir de tudo aquilo que os candidatos conseguirem fazer — ou deixar de fazer — até lá.
Dois péssimos candidatos, mas votar no Ladrão é passar atestado de idiotice. O Lula é um cadáver insepulto que precisa ser enterrado definitivamente. Parodiando o que se dizia antigamente sobre a saúva: Ou o Brasil acaba com o Lula ou o Lula acaba com o Brasil.