
Candidatos buscarão os votos que ficaram pelo caminho
Pedro do Coutto
A confirmação do segundo turno entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro inaugura, a partir desta segunda-feira, uma eleição diferente daquela que terminou nas urnas de domingo. O primeiro turno serviu para medir forças, consolidar candidaturas e definir quais projetos chegariam à etapa decisiva. O segundo, porém, terá outra lógica: nenhum dos dois candidatos poderá contar apenas com o eleitorado que os trouxe até aqui. Será preciso buscar os votos que ficaram pelo caminho.
O equilíbrio já aparecia nas pesquisas da reta final. A Quaest, divulgada na véspera da votação, indicava Lula com 46% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 45%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. O Datafolha, em seu último levantamento, apontava 45% para Lula e 42% para Flávio entre os votos válidos.
SIMULAÇÃO – Na simulação de segundo turno do Datafolha, a diferença também permanecia dentro da margem de erro, com 48% para Lula e 45% para Flávio. São números que não antecipam o resultado das urnas, mas ajudam a compreender a característica central da disputa que começa agora: a distância entre os dois campos é estreita.
É justamente por isso que o dia seguinte ao primeiro turno tem importância política própria. A partir de agora, começam as conversas entre partidos, dirigentes, governadores, senadores e lideranças regionais. Candidatos que encerraram a disputa presidencial terão de decidir se apoiam um dos dois concorrentes, se permanecem neutros ou se procuram construir uma posição própria. O mesmo vale para forças políticas que, durante o primeiro turno, evitaram comprometer-se definitivamente com qualquer dos lados.
O centro dessa movimentação estará nos partidos que não chegaram ao segundo turno. O Centrão, especialmente, volta a ocupar espaço estratégico porque reúne bancadas relevantes no Congresso e lideranças com presença nacional e estadual. Reportagens publicadas antes da votação já registravam movimentos dos dois campos em busca dessas forças. Flávio Bolsonaro, por exemplo, procurou a federação União-PP, enquanto o PT declarou disposição para conversar com outras legendas depois do primeiro turno.
ALIANÇAS – Mas seria um erro imaginar que o segundo turno será decidido apenas em gabinetes partidários. As alianças formais podem ampliar o tempo de televisão, a estrutura de campanha e a presença territorial, mas não transferem automaticamente votos.
O eleitor que votou em um candidato eliminado não recebe uma orientação partidária como se recebesse uma ordem. Pode acompanhá-la, rejeitá-la, votar em outro candidato ou simplesmente não comparecer à segunda votação. A disputa, portanto, será também pela capacidade de convencer um eleitorado que não necessariamente se identifica integralmente com nenhum dos dois projetos.
Esse talvez seja o principal desafio de Lula e Flávio Bolsonaro. O primeiro turno permitiu que cada campanha falasse prioritariamente com seu próprio campo político e tentasse atrair votos pela lógica do chamado voto útil. No segundo, a estratégia precisa ser mais ampla. A pergunta deixa de ser apenas quantos votos cada candidato possui e passa a ser de onde podem vir os votos adicionais necessários para construir uma maioria.
REJEIÇÃO – Nesse processo, a rejeição terá papel tão importante quanto a intenção de voto. Um candidato pode ter uma base consolidada e, ainda assim, encontrar dificuldades para ampliar seu eleitorado se a resistência ao seu nome for elevada. O segundo turno reduz o número de opções, mas aumenta a exposição das diferenças entre os dois concorrentes. O eleitor passa a comparar não apenas propostas, mas também governos, trajetórias, alianças, valores políticos e as consequências que associa à escolha de cada um.
A economia será outro componente decisivo. Inflação, renda, emprego, endividamento das famílias e percepção sobre o custo de vida estarão inevitavelmente no centro do debate. Lula poderá explorar os resultados econômicos e sociais de seu governo; Flávio Bolsonaro terá espaço para insistir nas dificuldades percebidas por parte do eleitorado e apresentar uma alternativa ao modelo petista. Ao mesmo tempo, a segurança pública, que atravessou a campanha, continuará a mobilizar setores importantes do eleitorado.
RELAÇÃO ENTRE OS PODERES – A dimensão institucional também deverá ganhar ainda mais espaço. A relação entre Executivo, Congresso e Supremo Tribunal Federal já esteve entre os temas mais sensíveis da campanha. No segundo turno, entretanto, esse debate tende a assumir outra forma: menos relacionado à multiplicidade de candidaturas e mais concentrado na visão de Estado que cada candidato apresenta. A disputa poderá envolver desde a relação com o Judiciário até o papel do Congresso, passando pelas regras fiscais, pelas políticas sociais e pela posição do Brasil no cenário internacional.
Há ainda uma variável que não pode ser desprezada: a campanha será realizada em apenas três semanas. O segundo turno está previsto para 25 de outubro, o que comprime o calendário e aumenta o peso de cada movimento político. Não haverá tempo para longas reconstruções de imagem. Alianças terão de ser negociadas rapidamente, discursos terão de ser ajustados e os candidatos precisarão responder quase diariamente às novas circunstâncias da disputa.
DEBATES – Os debates também ganharão outra dimensão. Diferentemente do primeiro turno, quando os principais candidatos ficaram fora de alguns dos confrontos televisivos mais importantes, a etapa final coloca os dois diretamente diante um do outro. O presidente do PT, Edinho Silva, já afirmou que Lula participará dos debates do segundo turno e que a campanha pretende estabelecer um confronto direto com Flávio Bolsonaro. A presença dos dois tende a deslocar a campanha para um terreno mais comparativo, no qual cada resposta poderá ser utilizada para definir a imagem do adversário.
O resultado das eleições para o Congresso e para os governos estaduais também será relevante. A Presidência não será disputada isoladamente. Quem chegar ao Palácio do Planalto precisará governar com um Congresso que estará sendo formado nas mesmas eleições e com governadores que terão influência sobre a execução de políticas públicas, especialmente em áreas como segurança, saúde, educação e infraestrutura. Levantamentos anteriores à votação já mostravam que Lula e Flávio construíram redes distintas de apoio entre candidaturas competitivas aos governos estaduais.
Por isso, o segundo turno não será simplesmente uma repetição, em escala reduzida, do primeiro. Será uma eleição nova, embora carregue tudo aquilo que foi acumulado durante a campanha. Os votos dos candidatos eliminados, a distribuição regional do eleitorado, a abstenção, o comportamento dos indecisos e as alianças partidárias formarão uma combinação que ainda precisa ser construída.
RETRATOS – O equilíbrio registrado pelas pesquisas ajuda a explicar a dimensão dessa nova etapa, mas não resolve a equação. Pesquisas eleitorais são retratos de determinado momento e não substituem a contagem oficial dos votos. A própria Justiça Eleitoral disponibiliza a totalização em tempo real e os boletins de urna para acompanhamento e conferência dos resultados.
O que começa agora, portanto, é menos uma continuação do primeiro turno do que uma reconstrução da disputa. Lula terá de ampliar sua coalizão para além do eleitorado que já lhe é fiel. Flávio Bolsonaro precisará transformar a competitividade demonstrada na primeira etapa em capacidade de atrair eleitores que não estavam originalmente em seu campo. Ambos terão de falar com um país maior do que suas respectivas bases.
É nesse ponto que a eleição entra em sua fase mais imprevisível. O primeiro turno definiu quem continua. O segundo terá de responder a uma pergunta muito mais exigente: quem consegue construir uma maioria nacional capaz de reunir, em torno de si, eleitores que até ontem estavam separados por outras candidaturas, outras preferências e outras expectativas para o futuro do Brasil. A partir de agora, começa a verdadeira disputa pela maioria.
Será que cientes das cotidianas propositadas nefastas ocorrencias? Não só Pedro, resigna-se a teimosamente continuar a cumprir apocalipse!
Alex, manda ver, em:
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