Lula entra na corrida pelo quarto mandato usando o figurino “paz e amor”

Flávio Dino avança para responsabilizar parlamentares pelas emendas

Nova ofensiva coloca o Congresso na mira do STF

Dora Kramer
Folha

O ponto mais recente que Flávio Dino acrescentou à escrita dele sobre a manipulação no uso das emendas parlamentares não mereceu destaque no noticiário voltado às campanhas eleitorais. Conviria, porém, prestar atenção aos movimentos do ministro.

Dino sinaliza introduzir na cena o conceito de responsabilidade jurídica de deputados e senadores no manejo daqueles recursos, hoje na ordem dos R$ 60 bilhões, em ação em curso no Supremo Tribunal Federal que os equipara a ordenadores de despesas do Orçamento da União.

FRONTEIRAS DA POLÍTICA – Diz que o manejo das emendas ultrapassa as fronteiras da política e se inscreve nos atos inerentes ao Poder Executivo, submetidos aos ditames constitucionais. É quase como se dissesse que os legisladores precisam ter, nesse nosso presidencialismo arrevesado, obrigações semelhantes às do parlamentarismo.

O ministro pede que a Câmara se manifeste a respeito. Não foi um ato isolado. Faz parte de um todo construído por ele desde agosto de 2024, quando um encontro de representantes dos Três Poderes estabeleceu um acordo, não cumprido, pela transparência total no uso das emendas.

De lá para cá, o Congresso recorreu a diversas manobras às quais Flávio Dino reagiu com a abertura de sucessivas frentes: contesta os critérios de rastreabilidade, questiona a constitucionalidade das emendas impositivas e a legalidade daquelas sem controle, as chamadas Pix.

FINANCIAMENTO PÚBLICO – O ministro não conseguiu interditar a farra para esta eleição. Parlamentares ainda podem contar com essa espécie de financiamento público paralelo, que distorce o princípio da igualdade de condições e assegura vantagem aos atuais detentores de mandatos.

Talvez seja a última oportunidade da vigência dessa distorção. Quando a obra do ministro Flávio Dino for concluída, o cerco se fechar, as dezenas de ações em curso do Supremo se completarem e o efeito de materializar em condenações, aí sim, será possível pensar na retomada do equilíbrio, algo harmonioso e independente entre os entes da República.

Michelle é lançada ao Senado, mas falta a ato com Flávio Bolsonaro

Fim do orçamento secreto dá lugar a novo modelo de emendas sem transparência

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Estudo expõe baixa presença de candidatos negros nas eleições para o Senado

Desafio é criar uma Inteligência Artificial capaz de desenvolver a consciência própria

Ilustrada 27 de julho de 2026
Título – O animal metafísico Ilustração de Ricardo Cammarota realizada em técnica mista. O fundo é produzido manualmente com pastel oleoso sobre papel, formando faixas verticais em tons de rosa, vermelho, azul-turquesa, verde-claro e bege, com textura visível e áreas de esfumaçamento. Sobre esse fundo, figuras em técnica vetorial, preenchidas em preto sólido, estilizam seres inspirados na linguagem visual da arte rupestre. As formas simplificadas e os contornos orgânicos remetem a representações humanas e animais, entrelaçadas em uma única composição compacta e abstrata. As figuras não apresentam detalhes internos, apenas silhuetas preenchidas em preto.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

O que vem a ser a metafísica? Segundo José Antonio Antón, em seu “Elementos de Metafísica Tradicional”, seria “como se constitui a realidade, como se articula e determina, a quais princípios e razões obedece, tudo isso é objeto de consideração metafísica”. Portanto, a metafísica, como já dizia Aristóteles acerca da ontologia, é a ciência primeira, a observação e reflexão sistemática acerca do que constitui a realidade mais íntima, enfim, sua substância e dinâmica internas.

ALÉM DA FÍSICA – Como estamos acostumados a pensar, a metafísica é a ciência que estuda o imaterial, aquilo que está além —”meta”— da física ou do material. Tudo passa, a metafísica permanece no tempo histórico. Metafísica é puro luxo. Vamos então entender esse vínculo peculiar entre luxo e metafísica.

Existem dois tipos de produto que nunca se enquadram na categoria de luxo, mesmo que tentem nos enganar. Comida e tecnologia. Ambos são perecíveis e, portanto, não há como se encaixarem como luxo. Onde há luxo, afinal, há permanência.

Comida, mesmo que assinada por chefs famosos, com preços caríssimos e vendida em restaurantes com filas enormes por meses, nada tem a ver com luxo. Aliás, se você é granfino e fica numa fila de espera por meses para ir a um restaurante chique em Estocolmo, está sendo apenas brega e confirmando o atestado de que tem um coração de novo rico.

VIROU FETICHE – Quanto à tecnologia, a Apple conseguiu se transformar num fetiche —tenho Apple, logo existo—, mas luxo não é. Tecnologia, por definição, é escrava do seu tempo. Hoje a inteligência artificial é tudo, amanhã ninguém dará a mínima. Dar bola para a IA será como escrever poesias futuristas e fazer palestras sobre o Waze.

Por exemplo, basta ver filmes ou séries de anos atrás com tecnologia e ela será a coisa que mais envelheceu na obra, não? Pense em “Jornada nas Estrelas”, que, entre outras coisas, “previu” o celular. Na série, o que perdura são os temas metafísicos associados ao mistério deste universo.

O que é este universo? Alguém o criou ou é fruto —improvável, para alguns— da contingência? Se a contingência reina cega sobre as coisas, o que será de nós, humanos, que a enxergamos com os nossos próprios olhos? Para onde vamos, então? Quem somos nós nessa rede misteriosa de seres? O que importa mais, a razão representada por Mr. Spock ou a emoção, representada pelo médico Magro? Seria o ideal a mistura delas, na pele do capitão Kirk?

MONOLITO – Já no filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, para além da estética tecnológica radiante, o que permanece intocável é o monolito, misterioso desde a “alvorada do homem”, na pré-história. O objeto é descoberto por primatas e desperta o conhecimento de caçar para comer carne.

O filme aqui replica a ideia do filósofo Francis Bacon, que viveu na virada do século 16 para o 17, sobre o conhecimento ser, antes de tudo, o poder de controlar a natureza que nos cerca.

Para além dessa questão, o filme concebe uma IA, o famoso Hal 9000, que mata um humano para se defender do plano dos dois astronautas de desligá-lo —matá-lo— após identificarem um defeito nele. Aqui avançamos em questões metafísicas atravessadas pelo debate moral.

CONSCIÊNCIA PLENA – A IA poderá chegar à condição, pretensamente humana, ter consciência plena da sua integridade? Por que humanos teriam o direito de matar uma IA? Só porque são humanos? Por que seríamos nós tão especiais?

 

A tecnologia permanece quando propõe questões metafísicas e morais para o seu criador. Estaria a tecnologia a ponto de replicar nossa condição diante do nosso criador?

Esse tema está presente também no filme “Blade Runner”, de Ridley Scott, quando os replicantes, humanos artificias, se revoltam contra a escravidão, como nós fizemos em nossa história, e buscam o seu criador humano a fim de poderem viver eternamente. A finitude como defeito intrínseco à condição humana e consequente busca da sua cura.

CRIAÇÃO ARTIFICIAL – O que faz de nós humanos não poderá um dia ser criado artificialmente pela ciência? Essa fronteira metafísica pode ser ultrapassada sem destruir a nós mesmos? A dimensão prometeica da técnica se repete já há 2.500 anos.

As questões metafísicas permanecem. A técnica é grandiosa só quando nos propõe questões permanentes, porque seu avanço de hoje amanhã estará datado. Aqui reside a metáfora da metafísica como luxo.

O animal metafísico em nós é o que nos torna singulares, mesmo que não signifique nada diante do universo indiferente. Mesmo se a espécie Sapiens tiver desaparecido, a metafísica como problema permanecerá, ainda que em silêncio.

Deputados quadruplicam os gastos para impulsionamento nas redes em ano eleitoral

Todos somos uma bússola sem norte, segundo o poeta Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens, poeta mineiro

Paulo Peres
Poemas & Canções

O juiz, jornalista e poeta mineiro Afonso Henriques da Costa Guimaraens (1870-1921), adotou o nome de Alphonsus de Guimaraens. Sua obra, predominantemente poética, consagrou-o como um dos principais autores simbolistas do Brasil. O poeta Carlos Drummond de Andrade  homenageou Alphonsus em seu centenário em 1970, com o poema “Luar para Alphonsus”.

Seus poemas versavam de maneira obsessiva a morte da mulher amada e apresentavam um ritmo melódico e um misticismo católico, temas centrais em livros como “Câmara Ardente”, com influências barrocas, românticas e decadentistas.

Ele afirma, no soneto “Cantem Outros a Clara Cor Virente”, que somos uma bússola sem norte. 

CANTEM OUTROS A CLARA COR VIRENTE
Alphonsus de Guimaraens

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno…
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos…

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte

PT oficializa Lula e centra campanha na defesa da democracia e da soberania

Michelle amplia poder no PL e assume papel de árbitra do bolsonarismo

No caso de Tereza Cristina, o Centrão voltou a mostrar seu poder de veto

PP anuncia neutralidade, e Flávio fica sem Tereza Cristina

Pedro do Coutto

A frustrada tentativa de compor uma chapa entre Flávio Bolsonaro e a senadora Tereza Cristina tornou-se um dos episódios mais reveladores da pré-campanha presidencial. Mais do que a perda de um nome de peso para ocupar a vice-presidência, o caso expôs os limites da estratégia da oposição para construir uma coalizão capaz de ultrapassar as fronteiras do bolsonarismo.

Ex-ministra da Agricultura durante o governo Jair Bolsonaro, Tereza Cristina reúne credenciais que poucos nomes da centro-direita possuem simultaneamente. É respeitada pelo agronegócio, mantém interlocução com governadores, empresários e lideranças do Congresso e, ao longo de sua trajetória, construiu uma imagem de negociadora pragmática, distante do estilo mais confrontacional que caracteriza parte do bolsonarismo. Sua presença na chapa representaria uma tentativa de equilibrar o discurso político, transmitir maior previsibilidade ao mercado e reduzir resistências entre partidos de centro.

NEUTRALIDADE – Entretanto, prevaleceu a decisão do Progressistas de preservar sua neutralidade na disputa presidencial. A posição, respaldada pelo presidente nacional da legenda, Ciro Nogueira, não decorre apenas de divergências internas sobre nomes, mas de uma leitura estratégica do momento político.

O partido avaliou que ainda não há elementos suficientes para justificar um alinhamento antecipado a qualquer candidatura presidencial, sobretudo diante de um cenário em que as pesquisas continuam indicando vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva e em que a oposição permanece fragmentada.

A decisão do PP revela um traço histórico do chamado Centrão. Ao contrário das legendas ideológicas, esses partidos costumam privilegiar cálculos de governabilidade e de sobrevivência política. Seu comportamento raramente é guiado por afinidades programáticas; predomina uma lógica pragmática, baseada na avaliação das chances reais de vitória dos candidatos, na capacidade de formar maioria parlamentar e na perspectiva de participação em um futuro governo. Em outras palavras, o Centrão prefere acompanhar o movimento da eleição a antecipá-lo.

ESTRATÉGIA – Essa postura não representa mera indecisão. Trata-se de uma estratégia consolidada ao longo das últimas décadas. Nas disputas presidenciais recentes, partidos desse bloco frequentemente retardaram definições até que o quadro eleitoral apresentasse maior clareza. O objetivo é preservar margem de negociação, evitar custos políticos desnecessários e manter abertas as portas para diferentes arranjos de poder.

Para Flávio Bolsonaro, o episódio produz efeitos que vão além da necessidade de encontrar outro nome para a vice. A recusa de Tereza Cristina dificulta justamente o movimento mais importante de sua pré-campanha: ampliar sua capacidade de diálogo com setores que apoiaram Jair Bolsonaro em 2018 e 2022, mas que hoje demonstram maior cautela diante das incertezas eleitorais e institucionais.

Sem uma figura capaz de simbolizar moderação e ampliar pontes com o centro político, a candidatura tende a permanecer mais identificada com seu núcleo ideológico tradicional, reduzindo sua capacidade de atrair eleitores moderados e aliados estratégicos.

CONCORRÊNCIA INTERNA – O desafio torna-se ainda maior porque a oposição não enfrenta apenas a disputa contra Lula, mas também uma concorrência interna. Governadores como Ronaldo Caiado e Romeu Zema continuam buscando espaço como alternativas dentro do campo conservador.

Embora Flávio Bolsonaro apareça à frente deles nas pesquisas, essa liderança ainda não foi suficiente para produzir um efeito de convergência entre partidos e lideranças regionais. Enquanto persistirem múltiplas opções na direita, legendas de centro terão menos incentivos para assumir compromissos definitivos.

A ausência de uma candidatura claramente hegemônica também reduz o poder de negociação da oposição. Partidos como PP, União Brasil, Republicanos, PSD e MDB observam atentamente não apenas os índices de intenção de voto, mas também a capacidade de cada postulante construir alianças, reduzir rejeição e demonstrar viabilidade eleitoral. Nesse contexto, o veto à composição com Tereza Cristina funciona como um sinal político: parte do centro ainda não considera consolidado o projeto eleitoral liderado por Flávio Bolsonaro.

POSTURA DE ESPERA – Ao mesmo tempo, seria um equívoco interpretar a decisão como um alinhamento automático do Centrão ao governo Lula. O comportamento dessas legendas indica, antes, uma postura de espera. Elas procuram preservar flexibilidade para negociar com quem demonstrar maior capacidade de vitória e de formação de maioria parlamentar. Essa posição reflete uma característica estrutural da política brasileira: em sistemas multipartidários altamente fragmentados, o poder do Centrão não decorre apenas do número de cadeiras que controla, mas da sua capacidade de conceder ou retirar legitimidade política das candidaturas competitivas.

Assim, o episódio envolvendo Tereza Cristina ultrapassa a dimensão de uma simples escolha para vice-presidente. Ele evidencia que, mesmo liderando o campo oposicionista, Flávio Bolsonaro ainda enfrenta dificuldades para convencer o centro político de que sua candidatura representa, neste momento, a alternativa mais viável para disputar o Palácio do Planalto. Enquanto essa percepção não mudar, a oposição continuará encontrando obstáculos para transformar competitividade eleitoral em capacidade efetiva de construir uma ampla frente política.

PF aponta interesse de Daniel Vorcaro em emendas do mercado de carbono

Espetáculo do vazio: como a direita trocou o projeto de país pela guerra política

Flávio opta pela espetacularização em pré-campanha

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A pré-campanha presidencial de 2026 já expôs seu método antes mesmo de apresentar seu programa. Em vez de colocar no centro da discussão propostas sobre crescimento, produtividade, envelhecimento populacional, transição energética ou reforma do Estado, a direita brasileira voltou a organizar sua comunicação em torno da lógica do confronto permanente. O lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, realizado em São Paulo, tornou esse movimento evidente.

Na convenção que oficializou o nome do senador pelo PL para a corrida presidencial, sem vice definido e ainda sem uma coligação nacional consolidada, o momento de maior repercussão não foi um discurso sobre economia ou políticas públicas. Foi a exibição de um vídeo produzido por inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, utilizado pelo próprio filho para pedir apoio ao seu nome, mesmo com o ex-presidente submetido a restrições judiciais que o impedem de participar de atos públicos.

REAÇÃO – O episódio provocou reação imediata. A Federação Brasil da Esperança, que reúne o PT, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma representação por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial, distribuída ao ministro Kassio Nunes Marques. No Supremo, a defesa de Bolsonaro argumentou que o ex-presidente sequer teria condições de autorizar o uso de sua imagem diante das limitações impostas pela Justiça. A justificativa, porém, acabou ampliando uma questão central: se o próprio Bolsonaro não poderia validar publicamente a utilização de sua imagem, quem decidiu colocá-lo para “falar” na convenção?

A controvérsia dividiu espaço nas manchetes com outro episódio de forte impacto: a presença do presidente argentino Javier Milei, que utilizou seu discurso para atacar Lula e o ministro Alexandre de Moraes em termos que dificilmente seriam empregados por um político brasileiro em território nacional, protegido pela condição de chefe de Estado estrangeiro. A consequência foi uma crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires, com a convocação do embaixador brasileiro para consultas e uma reação institucional do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que classificou as declarações como desrespeitosas às instituições brasileiras.

Somaram-se ainda mensagens de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, utilizadas para associar a chapa à imagem de uma articulação conservadora internacional. O resultado foi simbólico: o evento que deveria apresentar Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto acabou dominado por controvérsias externas à formulação de um programa de governo — inteligência artificial, tensão diplomática e conflitos institucionais — e não pela apresentação de prioridades para o país.

MÉTODO POLÍTICO – Essa dinâmica não surgiu agora. Ela representa a continuidade de um método político consolidado desde 2018: transformar a política em uma disputa permanente de identidades, ameaças e inimigos, na qual conflitos com instituições, pautas de costumes e ataques simbólicos ocupam o espaço que deveria ser destinado à construção de um projeto nacional.

É preciso reconhecer que esse modelo teve eficácia política. A direita bolsonarista construiu uma identidade forte, mobilizou sua base de maneira consistente e alterou o funcionamento do debate público brasileiro como poucas forças políticas conseguiram fazer nas últimas décadas. Sua capacidade de criar engajamento e influenciar a agenda nacional é um fato político relevante.

O problema está em outro ponto: a mobilização passou a funcionar como substituta de uma formulação programática mais ampla. A extrema direita brasileira demonstrou força para organizar conflitos, mas ainda enfrenta dificuldades para apresentar uma visão de país que vá além da reafirmação de identidades políticas e da permanente busca por adversários.

SIMBOLISMO – A lógica do confronto permanente cumpre, nesse modelo político, uma função específica: manter a base mobilizada a partir de ameaças contínuas e disputas simbólicas que exigem posicionamento constante. Enquanto um programa de governo precisa lidar com escolhas, limites e resultados mensuráveis, a política baseada no conflito depende da produção permanente de novos antagonismos. O adversário deixa de ser apenas um concorrente eleitoral e passa a ocupar o centro da própria identidade do movimento.

No caso de Flávio Bolsonaro, essa limitação aparece de forma mais evidente. O senador foi lançado ao cenário presidencial pelo próprio pai, sem ter construído, até aqui, uma identidade política plenamente independente, e enfrenta dificuldades para consolidar liderança dentro do próprio campo. Pesquisas indicam que Michelle Bolsonaro apresenta maior competitividade entre segmentos como evangélicos e mulheres, enquanto o campo conservador continua marcado por diferentes grupos e interesses.

Ao mesmo tempo, setores do centro político e aliados da direita buscam nomes com maior capacidade de articulação e ampliação eleitoral, enquanto pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa ainda marcada pela vantagem de Lula em cenários de segundo turno. Flávio também carrega o peso de episódios que acompanham sua trajetória política, como as investigações envolvendo crime de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio e questionamentos relacionados à aquisição de imóveis. São temas explorados por adversários e que não desaparecem apenas porque o debate público é ocupado por controvérsias momentâneas.

PRIORIDADES – Uma eleição presidencial deveria ser o momento de confronto entre diferentes visões sobre o futuro do país. Os desafios que estarão diante da próxima administração não pertencem a um único governo nem serão solucionados por uma única gestão. A qualidade da disputa democrática depende da capacidade de apresentar prioridades, escolhas e caminhos para enfrentar problemas estruturais. Quando a maior parte da atenção pública é absorvida por conflitos institucionais, embates simbólicos e disputas de identidade, reduz-se o espaço para discutir como cada candidatura pretende governar.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em diferentes democracias, forças políticas perceberam que a mobilização de ressentimentos, identidades e adversários simbólicos pode produzir resultados eleitorais relevantes. A diferença está no que acontece depois: transformar engajamento político em capacidade de formular políticas públicas diante de sociedades cada vez mais complexas continua sendo o principal teste para qualquer força que pretende governar.

ESPETACULARIZAÇÃO – A questão central para a direita brasileira, especialmente para sua vertente mais radicalizada, não é mais sua capacidade de mobilizar. O problema é que essa mobilização passou a ocupar o lugar que deveria ser destinado à construção de um projeto de país. Ao transformar espetacularização, desinformação, confrontos institucionais e conexões internacionais utilizadas como instrumentos de polarização em eixo da comunicação política, a extrema direita deixa em segundo plano a apresentação de respostas para os problemas concretos do Brasil.

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou apenas uma estratégia de comunicação; expôs um método político. O centro da cena foi ocupado pela reconstrução artificial da presença de Jair Bolsonaro, pela internacionalização da disputa e pelo confronto com instituições.   O que permaneceu ausente foi justamente o elemento que deveria organizar uma candidatura presidencial: uma visão de futuro para o país, com prioridades definidas e respostas para os desafios que estarão diante da próxima administração. 

Lulinha temia ser investigado, fugiu e colocou a mulher para administrar os bens

charge de Thiago Lucas (@thiagochargista), para o Jornal do Commercio. # lulinha #INSS #carecadoINSS #lula #corrupção #saúde #Charge #ChargeDoDia  #JornalDoCommercio #Brasil #chargejornaldocommercio #chargethiagojc  #chargethiagolucas #chargethiagolucasjc ...

Charge de Thiago Lucas (Jornal do Commercio)

Carlos Newton

Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é o filho mais velho do segundo matrimônio do presidente Lula com Marisa da Silva. Nascido em São Bernardo do Campo, não se interessou pela política e seu primeiro emprego foi trabalhar como monitor no Parque Zoológico de São Paulo. Nada indicava que rapidamente fosse ficar milionário, a ponto de o pai considerá-lo um fenômeno empresarial.

Esse sucesso começou em 2004, quando Lula ocupava a Presidência da República pela primeira vez, Lulinha uniu-se aos amigos Fernando e Kalil Bittar, filhos do prefeito petista de Campinas, Jacó Bittar, para criar a empresa Gamecorp, dedicada ao setor de entretenimento digital. De lá para cá, o fenômeno deslanchou.

FAVORECIMENTO – Desde o início, a Gamecorp tornou-se suspeita de favorecimento por tráfico de influência, porque o grupo OI de telefonia resolveu investir R$ 103 milhões na empresa dos jovens petistas, que assim se tornaram milionários da noite para o dia, literalmente.

Para usar uma expressão da preferência do presidente Lula, pode-se dizer que se tratava de uma flagrante maracutaia, mas não houve investigação e os três jovens passaram a curtir a vida adoidado. Afinal, R$ 100 milhões rendem mais de R$ 1 milhão por mês.

Somente na Operação Lava Jato, iniciada em 2014, as autoridades resolveram investigar o rápido enriquecimento desses filhos de políticos petistas. E a Polícia Federal rapidamente encontrou um verdadeiro festival de corrupção.

TUDO EM FAMÍLIA – A investigação comprovou que o tráfico de influência e a lavagem de dinheiro eram  marcas registradas da família Lula da Silva, pois não havia exceção, todos os quatro filhos estavam envolvidos.

Fábio Luís, o Lulinha, foi alvo de análises financeiras e investigações sobre repasses e relações empresariais; Luís Cláudio teve sua trajetória empresarial devassada na Operação Zelotes, na qual respondia a uma ação penal; Sandro Luís também teve empresas e repasses investigados pela Lava Jato; e Marcos Cláudio Lula da Silva foi incluído em inquéritos de varredura patrimonial.

Lulinha era o principal investigado, porque também participara na negociação do sítio de Atibaia, em que seus sócios, os irmãos Bittar, atuaram como “laranjas” do presidente Lula.

IMPUNIDADE TOTAL – Com o conluio para libertação ilegal de Lula em 2019 e a anulação das condenações dele em 2021, os quatro filhos não tardaram a escapar das garras da lei. Assim, em 2022, a Justiça Federal de São Paulo arquivou as investigações da Operação Lava Jato contra Lulinha e seus três irmãos. Um alívio em família.

Apesar do risco que correram, eles continuaram fazendo tráfico de influência e desfrutando a doce vida de milionários. Tudo corria bem, com impunidade garantida, até que a CPI do INSS descobriu que Lulinha movimentara quase R$ 20 milhões em quatro anos.

Conforme dados da quebra de sigilo, o valor engloba cerca de R$ 9,77 milhões em entradas e R$ 9,75 milhões em saídas entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026.

FUGA RÁPIDA – Lulinha viu que desta vez o problema era mais sério, porque o pai não conseguiu controlar o relator no Supremo, ministro André Mendonça. No dia 4 de dezembro, ficou sabendo que integrantes da CPMI do INSS acessaram o depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes (Careca do INSS), que denunciou a mesada de R$ 300 mil que Lulinha recebia do lobista.

O filho de Lula decidiu fugiu para a Espanha. Antes de viajar definitivamente, no começo de dezembro, ele passou a administração de suas empresas para a mulher, Renata de Abreu Moreira.

Agora, com as duas investigações abertas por Mendonça, o filho fenômeno de Lula não vai mais voltar ao Brasil. Se fosse inocente, é claro que não precisaria fugir.

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P.S. –
O Brasil é um país tão surrealista que as autoridades e suas famílias podem se corromper à vontade, porque a impunidade está garantida. Basta ver o que aconteceu a Sérgio Cabral, condenado a cerca de 350 anos de prisão, que está livre, leve e solto, aproveitando os muitos milhões de reais que a Polícia não conseguiu recuperar. Aqui no Brasil o crime compensa. (C.N.)

Abstenção pode crescer demais e preocupa as campanhas na disputa presidencial

Charge do Cazo (Blog do AFTM)

Italo Nogueira
Folha

A estudante universitária Ana Luiza Souza Ferreira, 20, teve um imprevisto nas últimas eleições e precisou se ausentar de Governador Valadares (MG). Ela pagou a multa da Justiça Eleitoral para manter seu título em regularidade. Sem planos de viagem para este ano, ela pretende engrossar de novo as estatísticas de abstenção. “As promessas só surgem em época de eleição. Depois, nada acontece. Prefiro pagar multa.”

A abstenção eleitoral crescente se tornou um desafio para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e entrou no cálculo das candidaturas num cenário de disputa acirrada pela Presidência da República. Especialistas apontam que o maior prejudicado com o não comparecimento às urnas este ano deve ser o presidente Lula (PT), que busca a reeleição. Dados da Justiça Eleitoral e de pesquisas de intenção de voto indicam que o perfil dos eleitores que se abstém se assemelha mais aos do petista.

ENGAJAMENTO FEMININO – Ao mesmo tempo, o maior engajamento eleitoral feminino beneficia Lula, setor mais refratário à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), de acordo com pesquisas. A abstenção vem crescendo desde 2002, primeira eleição geral integralmente feita pela urna eletrônica. Naquele ano, quando Lula foi eleito pela primeira vez para a Presidência, 17,7% dos eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, e 20,4%, no segundo.

O percentual subiu ano a ano até 2022, quando 20,9% não participaram do primeiro turno. Pela primeira vez no período a abstenção caiu no segundo turno, atingindo 20,5%. Especialistas vinculam o movimento à acirrada disputa entre Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O município com a maior abstenção no segundo turno de 2022 foi Maraã (AM), no coração da amazônia onde 45,5% dos eleitores estiveram ausentes. Governador Valadares (MG) teve 27,5% de abstenção, a maior entre as cidades com mais de 200 mil eleitores —municípios em que há segundo turno nos pleitos municipais.

MOTIVOS – Moradores apontaram diferentes motivos para não comparecer às urnas. A advogada Késia Cristina Ferreira, 34, se ausentou da cidade para cumprir compromissos profissionais. “Eu pensei que meu voto não iria fazer tanta diferença para o momento que a gente estava vivendo.” O administrador Neuber Santos, 42, faltou ao último pleito porque teve uma viagem a lazer, mas diz que pretende comparecer. “Tem que votar, né?”

Cientistas políticos afirmam não existir pesquisas que ofereçam um diagnóstico sobre o fenômeno. Descrevem, porém, um somatório de hipóteses para o crescimento discreto, mas constante, da abstenção a cada eleição geral deste século.

As razões podem ir desde a dificuldade para acessar os locais de votações, mais comum na região amazônica e pequenas cidades, desinteresse pela disputa e até desatualização do cadastro de eleitores. Todas as possibilidades, apontam especialistas, se alimentam da punição quase simbólica pelo não cumprimento do voto obrigatório.

IMPLICAÇÃO –  “Se você não entregar a declaração do Imposto de Renda no dia, você sabe qual é a implicação disso para a sua vida. Agora, se você não votar e faltar três eleições sucessivas, você sai do cadastro [do TSE]. Para os eleitores que não vão fazer viagem internacional, não vão fazer concurso, faltar não tem uma implicação pessoal tão grande”, afirma o cientista político Jairo Nicolau, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

O voto é obrigatório para todas as pessoas entre 18 e 70 anos, à exceção de analfabetos. O eleitor pode justificar sua ausência por meio do aplicativo e-Título, do TSE, sem necessidade de documento comprobatório. Caso não o faça no prazo, paga uma multa de R$ 3,51 por turno em que não compareceu. O título é cancelado após três ausências.

Em 2025, 5 milhões de pessoas tiveram o título cancelado após faltarem nos últimos três pleitos. “Se você quisesse realmente ampliar a participação, passaria a multa para R$ 70. Tem uma vertente da Justiça Eleitoral que é a favor do voto facultativo. Isso não é dito. Não foi uma decisão do Legislativo. É [decisão] administrativa da Justiça Eleitoral facilitar a justificativa da ausência e aplicar uma multa que não é reajustada há 30 anos”, afirma Nicolau.

COMO FUNCIONA O SISTEMA – O cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest, avalia que a alta da abstenção, combinada com a queda nos votos inválidos (nulos e brancos) registrada em 2022 para todos os cargos, indica que “as pessoas estão entendendo como o sistema funciona”. “Se você não quer votar em alguém e a punição de não ir é pequena demais, é melhor você não ir do que ir e apertar um botão nulo ou branco. A abstenção se transformou num comportamento eleitoral”, afirma Nunes.

O cientista político Antônio Alkmin aponta ainda para um contingente de pessoas que nem sequer tiraram título de eleitor. “Em 1989 a gente tinha 10% da população que potencialmente poderia ter o título de eleitor e não tinha. Hoje, pelas estimativas, chega a 5%. Parece pouco, mas num eleitorado de 160 milhões, a gente está falando de 8 milhões de pessoas”, aponta.

Dados do TSE mostram que a abstenção em 2022 foi maior entre os que possuem escolaridade mais baixa, eleitor mais alinhado à esquerda, de acordo com as pesquisas. Por outro lado, as mulheres, cuja intenção de voto era majoritariamente para Lula, apresentaram uma taxa de abstenção menor —19,96% contra 21,98% dos homens no primeiro turno.

ABSTENÇÃO FEMININA – “A abstenção é desigual pelo território e em termos sociais. […] Foi fundamental para a vitória do Lula o voto das mulheres. Uma alta abstenção feminina é muito prejudicial à esquerda. Teria uma vitória mais forte de Bolsonaro em 2018 e uma vitória mais apertada ou eventualmente até uma derrota em 2022. Então a abstenção faz diferença, sim, porque ela é desigual”, afirma Nicolau.

Os números da Justiça Eleitoral mostram que a queda na abstenção entre o primeiro e o segundo turnos foi mais intensa entre os menos escolarizados. O deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), coordenador do Grupo de Tática Eleitoral do PT, afirma que o tema está no radar do partido.

PREOCUPAÇÃO – “É um motivo de preocupação pelo perfil das abstenções, de baixa renda. Está no nosso radar fazer uma campanha direcionada, mas quem tem que fazer esse trabalho de conscientização do voto e jogar pesado é o TSE. É competência dele dizer qual a importância do voto”, afirmou o deputado. Procurado, o TSE não se manifestou sobre como pretende ampliar a participação do eleitorado este ano.

O cientista político Antônio Alkmin aponta como campanhas podem também atuar no sentido inverso, a fim de desestimular o comparecimento de perfis do eleitorado mais alinhado ao adversário. “A Cambridge Analytica fez consultoria em várias eleições no mundo. Em El Salvador, por exemplo, ela fez uma estratégia de estimular a abstenção entre os jovens com o discurso antissistema”, afirmou.

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Casos Lulinha e Dark Horse pressionam campanhas

Deu no O Globo

A menos de três meses das eleições, duas investigações da Polícia Federal (PF) com potencial de atingir os principais candidatos ao Palácio do Planalto preocupam as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a PF tenta avançar nas apurações sobre a atuação Fábio Luís Lula da Silva, filho do petista, junto ao governo federal e o financiamento do filme biográfico de Jair Bolsonaro Dark Horse, cujo financiamento foi negociado entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Master.

TRÁFICO DE INFLUÊNCIA – Na quinta-feira, Mendonça autorizou investigação para apurar os supostos crimes de tráfico de influência e corrupção pelo filho de Lula, o que ampliou a expectativa da oposição sobre o uso do tema na corrida eleitoral.

Lulinha já era investigado em um dos inquéritos que busca esclarecer as fraudes nos descontos de aposentados do INSS. A PF, porém, abriu um novo caminho ao associar possíveis ilícitos na conduta de Fábio Luís na comercialização de cannabis medicinal, com ligações com servidores do Ministério da Saúde e do gabinete presidencial.

Na semana passada, Mendonça também autorizou a abertura de um inquérito da PF para investigar o financiamento da cinebiografia que retrata a trajetória de Bolsonaro. A apuração busca esclarecer se o dinheiro enviado ao exterior para financiar o longa teve, na prática, outra destinação. A suspeita é que parte da produção tenha sido bancada por Vorcaro, com o envio de R$ 61 milhões.

RESPONSABILIZAÇÃO –  Em entrevista a um podcast, Lula foi perguntado sobre o assunto na noite de quinta-feira, e afirmou que se o filho for culpado terá que pagar “como todo mundo”. Também disse que não usará o seu cargo para proteger Lulinha.

O petista relembrou as acusações que o levaram à prisão durante a Operação Lava-Jato, ao falar da situação do filho, e lembrou a morte de sua mulher, Marisa Letícia, mãe de Lulinha, em 2017.

“Se ele tiver certo, ele vai ter ajuda minha. Se ele fizer a coisa errada, ele sabe o que eu passei. Sabe o que é um pai, com cinco filhos, ver na televisão chamar a família de ladrão o tempo inteiro. Ele sabe que a minha mulher morreu por causa da desgraça da Lava-Jato. Então ele não tem o direito de errar. Ele sabe disso. Ele jura para mim todo dia e eu acredito nele”, disse, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda.

RECURSOS DESVIADOS –  Flávio, por sua, vez, negou que os recursos do filme tenham sido desviados ou destinados ao irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos EUA.

Em nota publicada na ocasião da divulgação dos diálogos com Vorcaro, o parlamentar afirmou que se trata de “falsa a insinuação” e sustentou que “os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos”.

EFEITO POLÍTICO –  Em março deste ano, a CPI do INSS, que tinha o filho de Lula como um dos alvos, foi enterrada com ajuda do governo. Na ocasião, o Palácio do Planalto já temia o impacto eleitoral de eventuais desdobramentos sobre o caso. Durante a investigação parlamentar, um dos reveses sentidos pela oposição foi a decisão de Flávio Dino, do STF, que suspendeu a quebra de sigilo de Lulinha.

Na quinta-feira, a campanha do candidato do PL à Presidência decidiu promover uma nova troca no comando de sua comunicação após seguidos desgastes, inclusive a partir da crise envolvendo as relações com Vorcaro. A avaliação da campanha é que a equipe dispensada demorou a reagir às crises envolvendo Michelle Bolsonaro e Vorcaro e não conseguiu transformar episódios favoráveis em ganhos políticos para o candidato.

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Mendonça autoriza mais um inquérito contra Lulinha por “tráfico de influência”

Aconchego paterno. Charge de João Spacca para a newsletter desta  segunda-feira (2). #meio #charge #lulinha #inss

Charge Spacca (Arquivo Google)

Luísa Martins
Folha

O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a abertura de um segundo inquérito solicitado pela Polícia Federal para investigar suspeitas de tráfico de influência por parte do empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula (PT).

Desta vez, a PF busca entender se ele agiu junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência), vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, para beneficiar um empresário e prospectar contratos. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela Folha.

FAVORES DO GOVERNO – O relatório da PF cita que o empresário Cleber Ribas de Oliveira, sócio de uma empresa chamada “3structure I”, teria bancado ao menos uma viagem de Lulinha. A suspeita é de que, em troca, tenha recebido favores do governo.

A PF chegou ao empresário ao investigar os desvios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Cleber teria relação com o empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como líder do esquema.

A defesa de Lulinha disse ao jornal O Estado de S. Paulo que a investigação era “pesca probatória”, que ele não atuou em benefício de ninguém no governo federal e que a PF não encontrou provas contra Lulinha.

TRANSPARÊNCIA? – A Dataprev afirmou não ter nenhum contrato com a 3STRUCTURE IT e que pauta sua atuação pela transparência e pela colaboração com os órgãos de fiscalização, controle e investigação. “Caso seja formalmente demandada, prestará às autoridades competentes todas as informações cabíveis, em conformidade com a legislação vigente”, disse.

A defesa de Careca do INSS afirmou não ter conhecimento sobre o pedido e não comentou.

A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa de Cleber. Ao jornal O Estado de S. Paulo ele afirmou ser amigo de Lulinha, negou ter tido negócios com a Dataprev e rechaçou irregularidades na relação com o governo federal.

VIAGEM DE LULINHA – A PF identificou um contrato fechado por Cléber com a Dataprev e uma viagem emitida com o mesmo localizador feita pelo empresário com Lulinha, segundo a publicação. Os investigadores suspeitam que isso seja um sinal de que Cléber Oliveira pagou a viagem do filho do presidente.

A segunda investigação é aberta um dia após Mendonça ter autorizado outro inquérito, conforme revelado pela Folha, para apurar suspeitas dos crimes de corrupção e tráfico de influência em tentativas de obter autorização para a comercialização de cannabis medicinal no Ministério da Saúde.

Neste caso, a suspeita é a de que o tráfico de influência para estas negociações tenha sido exercido junto à pasta e ao gabinete da Presidência, de acordo com informações da PF.

TUDO EM FAMÍLIA – A defesa de Lulinha negou irregularidades e sugeriu haver interesse político por trás do inquérito. Lula afirmou que seu filho não terá privilégios e precisará provar inocência.

Lulinha tem atuação no ramo em parceria com a empresária Roberta Luchsinger, sua amiga, e Careca do INSS. O pedido de abertura de inquérito também cita contatos entre os alvos e servidores, inclusive do gabinete de Lula.

Segundo os investigadores, uma das linhas é de que Lulinha teria atuado com Roberta no mercado de canabidiol a favor da empresa World Cannabis, ligada ao Careca do INSS.

SEM COMENTÁRIOS – Em relação ao inquérito sobre a comercialização de cannabis medicinal, a defesa de Lulinha afirmou que não iria comentar concretamente uma investigação da qual não teve nenhum conhecimento, mas disse ser necessário entender qual é a justificativa para a competência do STF no caso.

Acrescentou ainda que uma nova investigação alheia à Operação Sem Desconto “demonstraria que falharam em encontrar o que injustificadamente buscavam, que é alguma ligação entre Fábio Luís e as fraudes do INSS”, e que ele “nunca teve relação nenhuma com esse escândalo”.

O Ministério da Saúde afirmou que não tem nem nunca teve contrato com a World Cannabis ou com acionistas citados. “Dessa maneira, nunca fez nenhum repasse de recursos públicos a eles”, disse.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– O Ministério da Saúde errou ao dar a informação. A pergunta não era sobre a existência de “contratos”. O que a PF quer saber é se houve “contatos”. Parece ser a mesma coisa, mas é muito diferente.  Como dizia Tom Jobim, é a lama, é a lama... (C.N.)