STJ julga em agosto caso de seu ministro acusado de assédio sexual

PGR defende aposentadoria compulsória de Buzzi

Rafael Moraes Moura
O Globo

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) marcou para o dia 6 de agosto o julgamento do ministro afastado Marco Buzzi, alvo de duas acusações de assédio sexual. A Procuradoria-Geral da República (PGR) defende a aposentadoria compulsória de Buzzi – penalidade máxima prevista atualmente na Lei Orgânica da Magistratura Nacional – dentro de uma sindicância interna do Tribunal. Buzzi nega as acusações.

Em parecer encaminhado ao STJ neste mês, a PGR endossou os depoimentos de duas mulheres contra Buzzi: uma jovem de 18 anos, que o acusa de tentar agarrá-la numa praia de Balneário Camboriú (SC), em janeiro deste ano, durante férias com a família do próprio ministro; e uma servidora que trabalhou no gabinete de Buzzi como secretária e relatou sete episódios de assédio e importunação sexual ocorridos entre 2023 e 2025.

ABORDAGENS – Os episódios de assédio incluem abordagens de Buzzi com toques físicos nas nádegas da servidora em ambientes como o corredor do gabinete e na própria sala do ministro, onde ela tentou ajudá-lo a colocar um pendrive no computador. O relato da vítima foi corroborado por familiares, um namorado, assessores e até a chefe de gabinete de Buzzi. Todos os nomes também foram omitidos da reportagem pelo fato do processo tramitar em sigilo e para preservar tanto a vítima quanto as testemunhas que colaboraram com as investigações.

Na avaliação de ministros do tribunal, o parecer da PGR é contundente, expõe a fragilidade dos argumentos de Buzzi e dá força à tese de punição disciplinar numa das maiores crises de imagem enfrentadas pelo tribunal em sua história, em um momento em que o STJ “frequenta” as páginas policiais por conta de outro escândalo – a investigação sobre um esquema de venda de sentenças judiciais. “Acho muito difícil o Buzzi escapar de uma consequência”, prevê um ministro do STJ ouvido em caráter reservado.

LAUDO MÉDICO –  No parecer em que pede a aposentadoria compulsória de Buzzi, a PGR rebateu o laudo médico de disfunção erétil apresentado pela defesa do magistrado e afirmou que a “disfunção sexual moderada” não exclui a possibilidade de assédio.

O laudo médico de “avaliação da função sexual” tem sido usado pela defesa de Buzzi para tentar colocar em xeque a versão das vítimas. Assinado em fevereiro por um especialista em urologia, o documento afirma que “o conjunto de evidências clínicas, laboratoriais e funcionais” do ministro não “respalda hipótese de função sexual exacerbada”.

“Ao contrário, o paciente apresenta comprometimento multifatorial da função sexual masculina, caracterizado por hipoandrogenismo, disfunção erétil moderada, ausência de ejaculação anterógrada e falta de adesão terapêutica e de seguimento médico recente”, afirma o médico Jairo Lyra de Andrade Filho, ao avaliar a o histórico clínico do magistrado.

ALEGAÇÃO – O argumento, no entanto, não convenceu o subprocurador-geral da República José Adonis, que assina o parecer de 57 páginas da PGR que pede a punição do magistrado com a aplicação de aposentadoria compulsória. “O documento, que conclui pela disfunção moderada apresentada pelo paciente, não traz qualquer referência que permita excluir a possibilidade da prática de assédio sexual pelo requerido”, rebateu o subprocurador.

A defesa de Buzzi disse que o laudo destacado pelo “ilustre membro do Ministério Público Federal foi mencionado como se prova única fosse, e não é”. “O processo tramita em segredo de justiça, o que impossibilita, infelizmente, a defesa de revelar detalhes mais apurados, os quais serão apresentados em alegações finais”, afirmaram os advogados de Buzzi.

ÍNTEGRA DA NOTA DA DEFESA DE MARCO BUZZI:

“1- A defesa respeita, embora discorde do parecer da PGR, conforme manifestará nas alegações finais;

2- O médico foi arrolado pela defesa, uma vez que indeferidos os sucessivos pedidos para realização de perícia médica;

3- A defesa está no encargo de comprovar fatos que nunca ocorreram. Para tanto, apresentou testemunhas, registros, vídeos e outros elementos concretos que, em conjunto, comprovam a inocência do ministro. O mencionado laudo destacado pelo ilustre membro do Ministério Público Federal foi mencionado como se prova única fosse, e não é.

O processo tramita em segredo de justiça, o que impossibilita, infelizmente, a defesa de revelar detalhes mais apurados, os quais serão apresentados em alegações finais.”

“Ninguém nos derrotará com mentiras”, diz Lula em artigo no Washington Post sobre tarifaço

Trump transforma o comércio em um labirinto de tarifas e incertezas

Trump cria um comércio de regras móveis

Pedro do Coutto

O novo ciclo de tarifas imposto por Donald Trump ao Brasil revela algo mais profundo do que uma disputa comercial. O problema para empresas e investidores não está apenas no tamanho da sobretaxa, mas na dificuldade de prever qual será a próxima medida, quais produtos serão atingidos e até onde poderá chegar a escalada protecionista de Washington.

É essa instabilidade que começa a alterar o comportamento das empresas. Exportadores precisam refazer contratos, recalcular margens e avaliar se ainda vale a pena manter determinados produtos no mercado americano. Importadores, por sua vez, não sabem se o custo de hoje será o mesmo daqui a alguns meses. O comércio deixa de ser organizado apenas pela lógica da competitividade e passa a incorporar uma variável cada vez mais importante: o risco político.

CAUTELA – A estratégia de Trump funciona justamente porque produz esse efeito. Uma tarifa conhecida pode ser incorporada ao planejamento. Uma tarifa que pode mudar a qualquer momento obriga empresas a agir com cautela. Investimentos são adiados, contratos são revistos e fornecedores começam a procurar alternativas. A incerteza, nesse cenário, torna-se uma espécie de imposto invisível sobre a economia.

O Brasil está particularmente exposto. Os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações brasileiras e representam um mercado relevante para setores industriais e do agronegócio. Mesmo quando determinados produtos são preservados por exceções, a complexidade do sistema tarifário dificulta o planejamento. Empresas precisam entender não apenas a alíquota anunciada, mas também como ela se combina com outras cobranças, classificações e eventuais medidas futuras.

O efeito pode ser mais duradouro do que a própria tarifa. Um comprador americano que substitui um fornecedor brasileiro por outro país pode não retornar imediatamente quando as condições comerciais melhorarem. A perda de mercado, portanto, não acontece necessariamente no momento em que a tarifa entra em vigor. Ela pode se consolidar lentamente, à medida que cadeias de fornecimento são reorganizadas.

CONTRADIÇÃO – Há ainda uma contradição na política de Trump. Ao tentar proteger empresas e empregos americanos por meio de barreiras comerciais, Washington também aumenta os custos e a insegurança para empresas que dependem de cadeias internacionais. O protecionismo pode favorecer determinados setores no curto prazo, mas, quando aplicado de forma ampla e imprevisível, tende a criar distorções que ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos.

Para o Brasil, a resposta exige equilíbrio. Uma reação automática, baseada apenas em retaliação, pode ampliar o conflito e gerar custos adicionais para empresas e consumidores. Mas uma postura passiva também seria um erro. O governo precisa manter a negociação diplomática, buscar exceções e defender os interesses dos exportadores, ao mesmo tempo em que prepara uma estratégia para reduzir a vulnerabilidade externa.

Esse talvez seja o ponto mais importante da atual crise. O Brasil não deveria limitar sua política comercial à tentativa de adivinhar o próximo movimento de Trump. A questão estratégica é construir condições para que decisões tomadas em Washington tenham impacto cada vez menor sobre a economia brasileira.

DEPENDÊNCIA – Isso significa diversificar mercados, ampliar acordos comerciais, melhorar a infraestrutura de exportação e aumentar a capacidade de vender produtos de maior valor agregado. Não se trata de abandonar o mercado americano, mas de evitar que ele seja uma dependência.

A política tarifária de Trump também expõe uma transformação mais ampla na economia mundial. Comércio e geopolítica estão cada vez mais misturados. Tarifas podem ser utilizadas não apenas para proteger setores econômicos, mas como instrumentos de pressão política e diplomática.

Empresas, portanto, precisam incorporar ao planejamento uma realidade que antes parecia excepcional: decisões políticas podem alterar rapidamente a lógica de seus negócios. É por isso que a questão central não é saber apenas quanto o Brasil pagará para exportar aos Estados Unidos. O verdadeiro custo está na imprevisibilidade.

DESCONFIANÇA– Quando regras comerciais mudam constantemente, o investimento se torna mais cauteloso, a confiança diminui e as empresas começam a buscar segurança em outros mercados. Trump pode usar as tarifas para pressionar parceiros e defender seus interesses, mas também corre o risco de acelerar um movimento de diversificação que, no longo prazo, reduza a centralidade do próprio mercado americano.

Para o Brasil, a lição é evidente. A diplomacia precisa tentar reduzir os danos imediatos, mas a política econômica deve olhar além da crise. Se cada nova decisão de Washington obriga o país a refazer seus cálculos, o problema não está apenas na tarifa. Está na dependência. E essa é uma vulnerabilidade que nenhuma negociação pontual será capaz de resolver.

Diplomatas criticam fala de Flávio sobre urnas e temem questionamentos no TSE

Senador propagou informações falsas

Nathalia Garcia
Folha

Diplomatas presentes em evento com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na última terça (21), avaliaram que a fala do presidenciável propagando informações falsas a respeito das urnas eletrônicas foi inadequada e pode jogar sombra sobre as eleições brasileiras.

À plateia estrangeira Flávio afirmou que as urnas utilizadas na Venezuela são da mesma empresa que fornece equipamentos ao Brasil, o que não é verdade. Ele disse também que, segundo um relatório da CIA (agência de inteligência dos EUA), a Smartmatic estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.

IMPRUDÊNCIA – Para um embaixador participante, ouvido pela Folha sob condição de anonimato, a declaração de Flávio não foi ideal, ainda que o senador tenha ponderado não ter a intenção de questionar a legitimidade do processo eleitoral brasileiro. Na visão desse interlocutor, não caberia ao pré-candidato fazer comparações entre a situação da Venezuela e do Brasil.

Ainda segundo ele, uma apresentação recente feita pelo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Kassio Nunes Marques, a representantes de outros países deixou o sentimento de que as urnas eletrônicas brasileiras são seguras.

A Folha já desmentiu boatos relativos à Smartmatic em 2020. A Justiça Eleitoral declarou, em uma nota naquele ano, que a empresa venezuelana nunca vendeu urnas ou softwares utilizados em urnas para o Brasil, apesar de ter fornecido outros serviços, como treinamento de pessoas para realizar suporte técnico e operacional para as urnas.

DESLEGITIMAÇÃO – Outro diplomata contou que, em um primeiro momento, pensou que Flávio tentou defender a posição de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), deslegitimando as eleições de 2022 e sugerindo que Lula de alguma forma fora eleito injustamente.

Mas, em um segundo momento, disse ter se perguntado se o pré-candidato estava tentando deslegitimar as próximas eleições. Ele argumentou que, em caso de reeleição de Lula, Flávio poderia usar isso para afirmar que alertou sobre a possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas, o que lançaria uma sombra sobre o pleito de outubro.

PREOCUPAÇÃO – Para esse interlocutor, ambas as situações podem estar por trás da atitude. No entanto, ele vê a atitude do senador com preocupação. Questionar a confiabilidade do sistema de votação brasileiro, na visão dele, equivale a questionar a democracia, o que seria nocivo para o país.

Na terça, o senador afirmou que a fala “não coloca em dúvida o processo eleitoral brasileiro”. “O convite para a presença de observadores internacionais segue uma prática adotada em diversas democracias e reforça a transparência no sistema eleitoral”, diz a nota.

Horas depois, a campanha dele divulgou outra nota, afirmando que “não é verdade” que o pré-candidato tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil e que ele se limitou a relatar fatos públicos, como o relatório da CIA. “Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que ‘não está questionando o sistema de votação brasileiro'”.

CONFIANÇA– A nota também diz que ele reafirma “sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro e sua crença irrestrita de que as missões de observação internacional devem ser fortemente estimuladas”.

Flávio participou na terça, em Brasília, de uma rodada de eventos com presidenciáveis promovida pela consultoria Novo Selo Comunicação e pelo site The Brazilian Report. A palestra reuniu “lideranças brasileiras e embaixadores, cônsules, chefes de missão e representantes diplomáticos” de mais de 40 países, segundo os organizadores.

Alguns dos presentes relataram que Flávio demonstrou não dominar muito bem os assuntos internacionais, dando ênfase apenas a questões voltadas para investimentos estrangeiros na economia brasileira. O tarifaço imposto pelos Estados Unidos não foi mencionado pelo senador durante o evento, segundo os participantes.

Modelo das escolas particulares já está servindo para melhorar ensino público

Leia as informações acerca dessa charge sobre educação. a)As imagens sugerem que o aluno em destaque - brainly.com.br

Charge do Junião (Arquivo Google)

Fernando Schüler
Estadão

Semanas atrás, escrevi aqui sobre o sucesso da parceria da Prefeitura de São Paulo com o Liceu Sagrado Coração de Jesus, no centro de São Paulo. A escola é confessional, católica, os alunos são bem atendidos, há disciplina, os professores não faltam e os resultados são bons. A escola é 100% privada, sem fins lucrativos, e sua função 100% pública. Um clássico ganha-ganha.

A prefeitura lançou agora um chamamento público para ampliar o modelo para mais três escolas. Uma em Parelheiros, outra no Jardim Bandeirantes e ainda outra no Jaraguá. É exatamente assim que se faz política pública. O modelo é testado, em menor escala. E vai avançando, se os resultados forem positivos.

CHANCE ÚNICA – De minha parte, vejo algo incrível aí: a chance única de permitir que crianças de famílias pobres possam estudar em escolas similares àquelas frequentadas por seus pares de classe média e maior renda. É isto que temos que fazer, se quisermos de verdade combater as desigualdades, no Brasil.

Dias atrás, escutava uma entrevista do professor Ricardo Paes de Barros sobre nossa educação. Ele foi direto ao ponto: nós planejamos, avaliamos, aumentamos os recursos da educação, mas os resultados são “desastrosos”. E não sabemos bem o porquê.

Paes de Barros e Laura Muller realizaram uma importante pesquisa mostrando que, no conjunto analisado, as escolas de tempo integral, vistas por muitos como uma espécie de “bala de prata” da educação brasileira, perderam desempenho entre 2019 e 2023. O Ideb médio dessas escolas caiu de 4,51 para 4,44, enquanto o das demais apresentou pequeno avanço.

ESTAGNAÇÃO – A conclusão mais prudente é a de estagnação. É um quadro semelhante ao revelado pelo Pisa. Considerando a média aritmética das três áreas avaliadas, o Brasil passou de aproximadamente 401 pontos em 2009 para 397 em 2022. Em matemática, a nota caiu de 386 para 379.

O problema começa quando se tenta entender o porquê disso. Em regra, agimos de um modo algo estranho. Admitimos as mais diversas hipóteses, menos uma. Nos recusamos a considerar que possa haver um problema estrutural com o sistema estatal. Rejeitamos uma pergunta bastante simples: não estaríamos basicamente fazendo a mesma coisa e esperando resultados diferentes?

Faz sentido dobrar sempre a aposta e colocar mais dinheiro em um sistema que não funciona? E não porque há um problema com os professores, com os diretores, com o currículo ou o que seja. Não funciona porque insistimos em ignorar a lógica mais elementar dos incentivos.

SEM COMPETIÇÃO – Em primeiro lugar, não há competição. Uma escola privada capricha na gestão por uma razão simples: porque do contrário os alunos vão embora. A segunda questão trata do que os americanos chamam de “accountability”. O fato elementar de que raramente alguém é responsabilizado se os resultados não aparecerem. Os professores podem faltar 15% dos dias letivos que “não dá nada”.

Se os alunos não aprendem ou os pais estão insatisfeitos, a escola não perde nada com isso. Isso vale para diretores, secretários ou governadores, visto que a retórica política é sempre capaz de explicar qualquer coisa.

Há centenas de institutos, fundações e “especialistas” dando sugestões sobre como melhorar o sistema. Mas se ele não melhora, depois de 20 ou 30 anos, ninguém perde uma só noite de sono por causa disso.

ECOSSISTEMA SINDICAL – A verdade é que nossa educação há muito foi capturada por um ecossistema sindical, político e acadêmico cuja obsessão é manter intocado o monopólio estatal sobre a educação pública. O resto, sendo bem direto, importa muito pouco.

É o que vemos agora, a partir da iniciativa da prefeitura de São Paulo. Bastou abrir o modelo e permitir que os estudantes possam estudar em boas escolas de gestão privada, com mais diversidade e resultados significativamente melhores, que o ecossistema do monopólio estatal se põe em movimento.

O PSOL, espécie de porta-voz do grupo, entrou com uma ação na Justiça que simplesmente pode inviabilizar todo o processo. A ação diz que o programa é “ilegal”. Não é. O art. 213 da Constituição é claríssimo ao dizer que os recursos públicos serão aplicados às escolas públicas, “podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais e filantrópicas”.

SISTEMA MISTO – Nossa educação básica é um sistema misto – estatal e não estatal. Esse é o espírito da Constituição, bem desenhado no processo constituinte. Não fosse assim, por que teríamos uma lei, aprovada pelo Congresso, à época da ex-Presidente Dilma, o chamado “Marco Regulatório da Sociedade Civil”, autorizando as parcerias com o setor privado sem fins lucrativos? Exatamente a legislação que a Prefeitura de São Paulo utiliza agora para levar adiante estas parcerias.

O fato é que nossas crianças de menor renda merecem esta oportunidade. A mesma que seus pares de maior renda. Elas não têm lobby, em lugar nenhum, diferentemente da incrível rede corporativa que orbita no entorno do sistema estatal.

O que deveríamos estar discutindo é como fazer com que as parcerias ofereçam o melhor resultado. Na experiência americana com as charter schools, que são modelos de parceria, há dois dados fundamentais, revelados pelo National Charter School Study, feito em Stanford: o modelo como um todo oferece resultados melhores do que o das escolas públicas tradicionais, e há um ganho ainda mais robusto quando as parcerias são feitas com redes de ensino de maior porte, com experiência e capacidade de investir em qualidade.

OLHAR PARA FRENTE – É sobre isto que deveríamos estar discutindo. Olhando para frente, e não para trás. Rompendo com a prisão ideológica em que nos encontramos, e cuja conta é paga por mais de 80% dos alunos brasileiros que dependem das redes públicas.

São Paulo está nos oferecendo uma rara oportunidade de avançar. Trata-se de um avanço voltado não aos filhos de juízes, promotores, políticos e pessoas com renda para matricular os filhos em boas escolas, mas às crianças de Parelheiros e do Jaraguá. E por nada deveríamos retirar delas esta oportunidade.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Mais um artigo magnífico de Fernando Schüler, que está se firmando como um dos mais preparados intelectuais do país. A verdade é que a escola estatal é uma vergonha, embora possua profissionais da melhor qualidade, porque o problema é político e não apenas administrativo. Portanto, está na hora disso acabar e todos fazerem a coisa certa, para melhorar o ensino público no país. (C.N.)

Era só o que faltava! Trump quer imitar Lula e se candidatar a um novo mandato

A 'química' entre Trump e Lula | Diário do Grande ABC - Notícias e  informações

Charge do Gilmar (Diário do Grande ABC)

Carlos Newton

A imprensa noticiou nesta sexta-feira, dia 25, que o presidente americano Donald Trump, “em tom de brincadeira”, afirmou que pretende disputar um novo mandato na presidência do país. A declaração foi dada diante de jornalistas e autoridades em um jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em Washington.

Donald Trump colocou um boné com os dizeres “Trump 2028” e brincou que disputaria um novo mandato, imitando o presidente Lula da Silva, que se aproveitou de uma brecha existente na legislação e conseguiu se candidatar não somente a um terceiro mandato, como também a uma quarta, gestão conforme está acontecendo este ano nas eleições brasileiras.

TOM DE BRINCADEIRA? – A notícia não traz nada de novo, porque Trump já falou antes sobre essa possibilidade. Mas a imprensa internacional, não se sabe o motivo, acrescentou que foi “em tom de brincadeira”.

Os jornalistas entenderam assim, porque a Constituição dos Estados Unidos limita o presidente a dois mandatos, o que impediria de disputar novamente a eleição de 2028. 

“Nenhuma pessoa poderá ser eleita para o cargo de Presidente mais de duas vezes”, declara a 22ª Emenda, aprovada em 1947, devido aos quatro mandatos de Franklin Roosevelt.

IGUAL A LULA – No caso de Lula, o texto da Constituição brasileira é semelhante, no artigo 14, parágrafo 5º – “O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subsequente”.

Os advogados do PT aproveitaram a expressão “subsequente” para alegar que Lula poderia ser candidato para “um terceiro mandato sem subsequência”, e ele voltou ao poder.

Nos EUA, existe discussão semelhante. Em artigo publicado em 1999, os juristas Scott E. Gant e Bruce G. Peabody levantaram a questão de que a linguagem da 22ª Emenda sobre limites de mandato para um presidente se restringia apenas ao período em que ele foi eleito.

É TUDO VERDADE – Bem, brincadeira tem hora. Quando Trump sugere pela segunda vez essa possibilidade de buscar a nova candidatura, nunca esteve falando tão sério na vida. Ele é uma ameaça aos Estados Unidos e ao mundo.

Por essas e outras, em 30 de abril um grupo de renomados médicos e pesquisadores entregou ao Congresso um documento que pede o impeachment de Trump, reafirmando a advertência feita em 2024 sobre o desequilíbrio mental que ele demonstra.

O documento foi assinado por psiquiatras, neurologistas, psicólogos e especialistas em saúde mental ligados a universidades prestigiadas, como Harvard, Columbia e George Washington. A conclusão é de que Trump sofre de uma grave doença psiquiátrica, a PPN (Paranoid Psychopathic Narcissist). Ou seja, Psicose Paranoide Narcisista, que significa ser um psicopata, a necessitar de tratamento rigoroso.

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P.S. 1 –
Trump ameaça o mundo e Lula ameaça o Brasil. Ambos têm 80 anos e são os governantes mais velhos da atualidade. Nos Estados Unidos, é preciso votar o impeachment de Trump, mas isso só pode acontecer no ano que vem, devido às eleições parlamentares de novembro, se os democratas fizerem maioria na Câmara no Senado.

P.S. 2 – No Brasil, Lula pode chegar facilmente à reeleição, se for para o segundo turno contra Flávio Bolsonaro, devido a essa sinistra polarização que está impedindo o surgimento de uma terceira vida. Em tradução simultânea, quem vota em Flávio Bolsonaro na verdade está elegendo Lula. E o resto é folclore, diria Sebastião Nery. (C.N.)

Pix faz Casa da Moeda perder R$ 63 milhões com a queda na impressão de cédulas

Trabalhadores falam em risco institucional e financeiro

Gabriela Echenique
Folha

Do ano passado para cá, a Casa da Moeda do Brasil (CMB) perdeu cerca de R$ 63 milhões de reais devido à queda da produção do papel-moeda. A redução é referente ao contrato com o Banco Central, o que significa uma média de 7,5%.

Em meio à redução, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da empresa pública cobra uma atuação mais firme da direção em defesa de projetos estratégicos. O vice-presidente da entidade, Roni Oliveira, disse que existe um processo de desarticulação de iniciativas que ampliariam receitas.

PRODUÇÃO DE CÉDULAS – A grande preocupação é a redução da principal atividade da empresa, que é a produção de cédulas para o BC, impulsionada pela expansão dos meios digitais de pagamento, como o Pix.

Por isso, o sindicato defende que a empresa amplie a atuação em novos mercados e fortaleça contratos no Brasil e no exterior. Mas, para a entidade, a atual gestão tem desperdiçado oportunidades.

PERDA DE CONTRATO – Um dos exemplos é a perda do contrato com a Argentina. Segundo Roni, a atual direção tem deixado de lado discussões e projetos capazes de ampliar o alcance da estatal em áreas como rastreabilidade, certificação e controle fiscal.

Em junho, os trabalhadores da Casa da Moeda aprovaram greve por tempo indeterminado em protesto contra medidas adotadas pela direção da estatal. O sindicato quer que o governo federal cobre da atual administração uma estratégia clara de fortalecimento da empresa, com foco na geração de receitas e na conquista de novos mercados.

Entorno de Lula articula com Centrão para deixar Flávio Bolsonaro isolado na eleição

Autor de ação que tornou Bolsonaro inelegível acusa Flávio de repetir erro do pai

Flávio Bolsonaro segue estratégia de radicalização

Johanns Eller
Rafael Moraes Moura
O Globo

O presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), cometeu crime eleitoral ao questionar a lisura do sistema de votação do Brasil e disseminar informações falsas sobre urnas eletrônicas a diplomatas estrangeiros na última terça-feira (21) em Brasília.

Essa é a posição do advogado Walber Agra, autor da ação do PDT que tornou Jair Bolsonaro inelegível em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por ocasião da famigerada reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, a menos de três meses da eleição de 2022.

MESMO ERRO – “Flávio repete o erro do pai, porque a radicalização é uma ferramenta para aglutinar o eleitor radical dele. Vejo método e estratégia para minar a democracia. Isso daí é um infração eleitoral que deve ser severamente punida”, avalia Agra, que vê condições para levar a uma eventual inelegibilidade de Flávio caso o episódio seja alvo de uma ação de investigação judicial eleitoral, as chamadas Aijes, no futuro.

“O que não se pode falar é que houve crime político. O ex-presidente Bolsonaro foi enquadrado por abuso de poder político e econômico porque estava no controle da máquina, o que não é o caso de Flávio agora”, complementou, em referência à transmissão da reunião do então presidente com diplomatas em julho de 2022 pela emissora estatal TV Brasil.

FRAUDES ELEITORAIS – Em um evento organizado por uma consultoria privada na capital federal com a presença de diplomatas, Flávio mencionou documentos tornados públicos pelo governo Donald Trump sobre fraudes eleitorais na Venezuela que vinham sendo explorados nos últimos dias pelo bolsonarismo nas redes.

À plateia com representantes de 42 países, entre eles os Estados Unidos, repetiu uma notícia falsa já desmentida pelo TSE em 2017, 2020 e 2022 sobre o uso de urnas de uma empresa venezuelana e fez um apelo para que “todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro. “É um episódio grave, porque há uma sistematização de descredibilizar as urnas e a própria Justiça Eleitoral”, diz Agra.

PUNIÇÃO – Agra lembra que o Código Eleitoral prevê punição para quem atribui falsamente um crime ao sistema eleitoral ou a seus membros, como a prática de fraude. Também há precedentes do TSE em que o ataque às urnas levou à cassação do mandato e à declaração de inelegibilidade, como aconteceu com o ex-deputado estadual Fernando Francischini (PSL-PR), o primeiro parlamentar a perder o mandato no Brasil por disseminar fake news contra o sistema eletrônico de votação.

No caso, que teve como relator o ministro Luís Felipe Salomão, Francischini foi condenado por realizar uma live na data do primeiro turno das eleições de 2018 denunciando uma suposta fraude em urnas que não estariam computando votos do então correligionário Jair Bolsonaro para presidente, e que teriam sido apreendidas. Horas mais tarde, ele foi eleito como o deputado estadual mais votado do Paraná, mas a Justiça Eleitoral comprovou que o boato era notoriamente falso.

APELOU PARA A CIA  – “Há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela, inclusive utilizando uma documentação do próprio serviço de inteligência americano, a CIA, apontando sobre a possibilidade de vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação”, declarou o pré-candidato à Presidência da República.

“E uma das suspeitas [dos EUA] é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país”, prosseguiu Flávio. “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”.

A Smartmatic, na verdade fundada nos EUA por engenheiros do país caribenho, nunca forneceu urnas ao Brasil. A companhia participou de uma licitação para as eleições de 2020, mas não se classificou. O TSE firmou um contrato com a empresa para o treinamento de funcionários do suporte técnico-operacional nas eleições de 2014, mas sem relação com a produção ou operação das máquinas.

NOTA  – Diante da repercussão, Flávio divulgou uma nota dizendo ter “integral confiança” no sistema eleitoral brasileiro, mas não esclareceu por que citou informações falsas e nem especificou a origem delas.

Na última quarta, o PT acionou o TSE e pediu, em caráter liminar, para que Flávio seja multado em R$ 30 mil e que publicações dos deputados federais Júlia Zanatta (PL-SC), cotada para a vice do presidenciável, e Gustavo Gayer (PL-GO) que distorceram os documentos da CIA sejam retirados do ar. O partido de Lula citou o precedente de Francischini e a própria condenação de Bolsonaro no TSE.

O uso do nome da CIA na divulgação de desinformação faz parte de uma estratégia do governo Trump de requentar acusações de interferência estrangeira nas eleições presidenciais de 2020 cujo pano de fundo é sustentar que Joe Biden venceu o pleito por meio de fraudes em larga escala — tese que foi demolida em diversas Cortes dos EUA mas que o republicano tenta emplacar em seu segundo mandato.

REUNIÃO COM EMBAIXADORES – No paralelo brasileiro, Jair Bolsonaro também organizou a reunião com os embaixadores no Palácio da Alvorada de olho no retrovisor: sem provas, disse que as eleições de 2014 e 2018 no país foram fraudadas – a primeira para fazer prevalecer a então presidente Dilma Rousseff (PT) no embate contra Aécio Neves (PSDB) e a segunda para evitar uma vitória do próprio Bolsonaro já no primeiro turno. Na ocasião, negou ter a pretensão de forjar um golpe desacreditando as urnas e vaticinou que seu objetivo era “exatamente o contrário”.

Três anos depois e com o ex-presidente já inelegível por determinação do TSE, os ataques dele contra as urnas eletrônicas em uma reunião agendada pelo próprio Bolsonaro com diplomatas estrangeiros foram citados entre as evidências da existência de uma trama golpista no núcleo duro do Palácio do Planalto pelo relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Alexandre de Moraes.

As declarações de Flávio aos diplomatas nesta semana foram imediatamente associadas ao episódio que tornou seu pai inelegível. O recuo de Flávio diante da repercussão de suas falas indica que ele quer evitar o risco de seguir o mesmo roteiro.

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Roseana vence o câncer e lança candidatura ao Senado

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Roseana Sarney, 72 anos, ex-governadora, ex-senadora, atualmente deputada federal, se alimenta com a força de Deus. Tem a têmpera de lutas do pai, José Sarney. Não esmorece. Destaca que os ensinamentos de Deus foram fundamentais para enfrentar um tratamento penoso contra o câncer,  para seguir em frente na caminhada política.

“Sei que a luta é árdua, mas nós vamos vencer e recomeçar”, exclama Roseana, candidata ao Senado, pelo MDB, bem pontuada nas pesquisas.  Ela tem participado de eventos políticos no Maranhão. O mais recente foi de apoio a Helena Dualibe, candidata a deputada estadual.

Para Roseana, “em qualquer idade, você tem o direito de se renovar, de sonhar, de persistir naquilo que você mais acredita, que é trabalhar pelo nosso povo”.

TRISTEZA NO SUL – Rastros de agonias crescem com escombros. Garras do desespero secam as lágrimas dos obreiros gaúchos. Chuvas e enchentes fortes voltaram a causar sofrimento e tristeza em cidades do Rio Grande do Sul.  Dilacerando e esmagando a felicidade de famílias inteiras.

Centenas de famílias estão morando em abrigos. Águas do rio GuaÍba avançam sobre Porto Alegre. A teimosa esperança pela vida esmaga a raiva. Penaliza sorrisos. O frio espanta o choro. Travo soluços.  A tensão coletiva não sai da alma. Permanece doendo nos ossos.

Dias e noites surgem tristes. Ninguém prega o olho. O quadro avassalador de tragédias se multiplica. Insiste em voltar.  Humilha o céu. Ninguém sabe quando o sofrimento vai acabar. Continuam a fibra e o ânimo para ajudar os necessitados que perderam tudo. A energia vem de Deus. Ganharia saudável alívio caso São Pedro puxasse as orelhas das açodadas chuvas.

Pensando bem, não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

Título – A ética da extinção Ilustração em técnica mista. As figuras foram desenhadas com lápis carvão sobre papel e, posteriormente, escaneadas e manipuladas digitalmente para formar uma composição em tons de preto, cinza e sépia, sem narrativa linear aparente. Ao centro, um grande círculo em degradê sépia ocupa a maior parte da imagem, sobre um fundo branco. Dentro e ao redor desse círculo distribuem-se diversas silhuetas escuras de primatas e seres humanos, repetidas em diferentes escalas, posições e orientações. Algumas figuras caminham eretas, outras se deslocam curvadas sobre quatro membros; algumas carregam lanças ou galhos, enquanto outras aparecem de cabeça para baixo, como se estivessem refletidas ou invertidas. Nas bordas superior e inferior, as figuras se prolongam para além dos limites do círculo, reforçando a sensação de continuidade. Em um dos extremos, algumas formas humanas parecem gradualmente transformar-se em troncos de árvores com raízes expostas, enquanto, em outros pontos, os corpos sugerem uma transição entre primatas e humanos. A composição não apresenta um percurso de leitura definido nem uma sequência cronológica evidente. As figuras se sobrepõem e se repetem em diferentes direções, criando um padrão visual que remete simultaneamente à evolução, à regressão e à transformação das formas vivas, sem indicar uma interpretação única. A assinatura vertical "Cammarota" aparece na margem direita da imagem.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

“A vida é tão terrível que teria sido melhor não ter nascido. Quem tem tanta sorte? Ninguém numa centena de milhares” – este ditado judeu é citado pelo filósofo sul-africano David Benatar no seu livro “Better Never to Have Been, The Harm of Coming Into Existence”, numa tradução selvagem, “Melhor nunca ter existido, e o mal de vir à existência” —não conheço tradução em português.

Benatar foi entrevistado nesta Folha dia 13 de julho, sobre o tema do antinatalismo, atitude que ele defende, antes de tudo, por razões ontológicas e éticas, e não políticas, a priori —como é o caso hoje em dia.

MAL MAIOR – Aliás, sua posição é próxima do filósofo romeno, radicado na França, Emil Cioran, que considerava ter nascido um “inconveniente”, e do filósofo norueguês Peter W. Zapffe, que via a consciência como um mal maior dentro do mal que já era a vida.

Não pretendo discutir a entrevista. Interessa-me a questão em si da proposta de recusa da reprodução humana e a queda da natalidade sustentada já há tempos em regiões mais afluentes da Terra. Nos últimos tempos tem sido comum relacionar a defesa da reprodução humana —tenham filhos! — a figuras políticas do panteão conservador, como faz, aliás, a entrevista citada acima.

De fato, muitos nomes desse panteão como J. D. Vance, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, entre outros, defendem a reprodução humana. J. D. Vance chegou mesmo a dizer que os Estados Unidos eram governados por mulheres solitárias que criam gatos ou algo semelhante.

GATILHO EXISTENCIAL – O tema da recusa de reproduzir a espécie humana é, de fato, um gatilho existencial. Primeiro porque, normalmente, o problema é colocado diretamente às mulheres, quando, na verdade, importa tanto a mulheres quanto a homens. Biologicamente falando, ambos são necessários para a reprodução, no mínimo, no nível dos gametas.

De um ponto de vista moderno, o tema dialoga diretamente com a emancipação feminina, o sexo como lazer, o mercado de trabalho e a possibilidade de formação e carreiras de sucesso para as mulheres. Isto é fato inegável: filhos podem atrapalhar a carreira das mulheres.

Para o homem, também. A recusa da reprodução por parte de homens jovens se refere muitas vezes ao imperativo existencial “filhos hoje, contencioso amanhã”. Este terreno jurídico impacta evidentemente as mulheres também. Nem precisamos lembrar que quem arca com o ônus fisiológico e psicológico da gestação é a mulher.

REAÇÃO RADICAL – Muitas mulheres se sentem agredidas pessoalmente quando a recusa de ter filhos é posta em questão, mesmo que sem nenhuma condenação moral a priori. Acompanho esse tema há muito tempo, quando comparava a fertilidade entre mulheres de adesão religiosa estrita e mulheres seculares, sendo as primeiras muito mais férteis.

Devo dizer que filosoficamente não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta, portanto, não vejo condenação moral para quem se recusa a ter filhos.

A espécie pode muito bem acabar e pronto, o que não significa que esta hipótese não seja em si terrivelmente trágica para a própria espécie. Ao longo do tempo histórico, seria uma catástrofe para quem vivesse esse processo.

Os ditos progressistas não alcançam a questão ontológica da existência em jogo, só querem combater conservadores. Falta aos militantes uma percepção ontológica profunda das coisas, muitas vezes.

FORTES RAZÕES – Filósofos e afins contra a reprodução humana o são normalmente por razões que extrapolam em muito a polarização política. Encabeça a lista o problema do sofrimento intrínseco à condição de ser vivo, como bem aponta Benatar.

A vida se alimenta da própria vida, o que, em si, implica um ciclo infernal de violência. O problema não seria só reproduzir gente, seria reproduzir a vida enquanto tal. A reprodução em si seria um ato imoral.

Outro tema é o envelhecimento como destino maldito —independentemente das tentativas risíveis do mercado motivacional de negar este fato— e tudo que daí decorre como perdas, dores, abandono e adoecimento.

DRAMA IMORAL – O drama da velhice exibe a injustiça dominante na História, a violência da política neste “imenso mundo de tristeza”, como cantou Freddie Mercury.

A suspeita de que a existência enquanto tal seria um drama imoral habita mesmo algumas formas antigas de espiritualidade, como o gnosticismo cristão dos primeiros séculos da era comum.

O antinatalismo é uma das formas mais radicais de pessimismo, por isso não vai bem com pautas progressistas, mais dadas ao otimismo ligeiro com relação à natureza humana. O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos, e a modernidade fez dos filhos um ônus.

Armínio critica irresponsabilidade fiscal de Lula e Flávio, e afirma que prefere  Caiado

Ex-presidente do Banco Central, um dos economistas mais respeitados do Brasil e com grande trânsito no exterior, Arminio Fraga não esconde a preocupação com o país. Os mais de 80 milhões de

Armínio Fraga desistiu de Lula, que vai causar forte recessão

Márcio Juliboni
Veja

Ex-presidente do Banco Central, um dos economistas mais respeitados do Brasil e com grande trânsito no exterior (foi convidado no início de julho por Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, para coordenar o grupo de trabalho que revisará a comunicação da instituição americana), Arminio Fraga não esconde a preocupação com o país.

Os mais de 80 milhões de brasileiros inadimplentes e as dificuldades das empresas em rolar dívidas são sintomas de problemas no mercado de crédito que costumam anteceder a períodos recessivos.

“O próprio governo encurta o perfil de sua dívida, o que é um sinal claríssimo de que a situação está difícil”, diz.

De acordo com Fraga, que é CEO e sócio-fundador da Gávea Investimentos, o presidente Lula é um dos responsáveis pelos problemas. “Dizem que já temos austeridade fiscal demais, mas que austeridade é essa que fez a dívida pública crescer?”, questiona o economista, para quem cortar os gastos requer um compromisso dos três Poderes.

Qual é o aspecto econômico que melhor representa o terceiro mandato de Lula?
As estatísticas de emprego e de crescimento foram boas até agora, mas os ingredientes para que o Brasil possa crescer a um ritmo mais acelerado e sustentável ainda não foram acionados. A taxa de investimento continua muito baixa. Sem isso e sem ganhos de produtividade, o país não vai andar. Nesse meio-tempo, as fragilidades da economia estão crescendo.

Que fragilidades são essas?
A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara e os resultados estão aí. Em termos médicos, o Brasil está com uma baita febre, representada pelo fato de o país pagar uma taxa muito alta de juro para tomar dinheiro emprestado. Esse “febrão” não pode ser confundido com questões de curto prazo, cíclicas ou de inflação, porque os juros de longo prazo também estão altíssimos. Desde 1994, o crescimento per capita do Brasil foi de 1,3%, que é muito modesto, para não dizer medíocre.

Como o desequilíbrio fiscal agrava esse quadro?
Do lado fiscal, as metas que foram definidas no início do mandato nasceram modestas e não foram cumpridas. O fato é que a situação não é sustentável. O mercado de crédito também dá sinais muito preocupantes. Há, pelo menos, 80 milhões de pessoas inadimplentes. Muitas empresas que se endividaram utilizaram instrumentos de securitização e hoje têm dificuldades de rolar suas dívidas. O próprio governo está encurtando o perfil de sua dívida, o que é um sinal claríssimo de que a situação está difícil. Eu entendo que o governo não queira emitir papel de trinta anos pagando inflação mais 8% ao ano, mas, por outro lado, assim ele aumenta o risco de sua própria rolagem.

Ainda que muitos problemas acompanhem o país há décadas, há também a resistência de Lula em cortar gastos. Diante disso, o que se pode prever de um eventual quarto mandato dele?
O presidente mantém uma liderança relevante nas pesquisas e é o favorito hoje para vencer as eleições. A pergunta que deve ser feita é qual será o Lula que teremos em um quarto governo. Sei que é difícil para o presidente aceitar, mas há uma certa semelhança com o governo de Dilma Rousseff, quando foi feito um grande esforço para vencer a eleição, estourando as contas de uma maneira espetacular. A situação atual do Brasil requer muito mais um governo do estilo Lula 1, do que do Lula 3 ou da Dilma. Não tem como tapar o sol com a peneira.

Tudo indica que o adversário de Lula na eleição será o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O que se pode esperar de um eventual governo dele?
O que se pode levar em conta é o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, que foi imensamente problemático, a começar pela própria questão da sobrevivência da democracia, para mim inegociável. Seu pai trouxe um economista liberal para o governo, mas ele próprio não é um liberal, nem do ponto de vista econômico, nem do político. Aquilo criou várias tensões que não podemos esquecer. Foi um governo que não apoiou vacinação, facilitou a venda de armas e munições e não esteve à altura dos desafios sociais do país.

Recentemente, o senhor afirmou que romper a polarização política é essencial para o país voltar a crescer. Há condições de surgir uma terceira via nesta eleição?
Entre os nomes mais conhecidos, eu diria que os governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema talvez pudessem oferecer respostas que contassem com o apoio do Congresso para tirar o Brasil dessa situação. Quero crer que um Congresso que, apesar de alguns traços ideológicos confusos, pode ser visto como de centro-direita se sentiria mais responsável pelo país ao trabalhar com um governo da mesma linha política.

Em março, o senhor declarou apoio à pré-candidatura de Eduardo Leite, ex-governador do Rio Grande do Sul. Sem ele na corrida eleitoral, o senhor pretende apoiar outro nome?
Não pretendo. Eu me expus muito nos últimos anos e não me arrependo. Sou partidário de procurar o melhor voto possível para o Brasil. Eu tenho votado na linha original do PSDB, onde eu a encontrar. Sou um pouco órfão daquele PSDB histórico, pois é o que representava a melhor chance de o país se desenvolver e oferecer mais oportunidade a todos. O governador Eduardo Leite certamente de o país se desenvolver e oferecer mais oportunidade a todos. O governador Eduardo Leite certamente se apresentava nessa linha geral. O governador Caiado tem um histórico mais conservador, mas fez um governo de qualidade em Goiás. Pode ser uma boa opção.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Excelente entrevista de Armínio Fraga, que conhece economia bem melhor do que qualquer petista, especialmente o ex-ministro Fernando Haddad, que apoiou a irresponsabilidade de Lula e endividou o país de uma forma muito perigosa, que tem de ser contida pelo próximo governo. Mas isso só acontecerá se Caiado vencer, porque Flávio Bolsonaro é tão despreparado e irresponsável quanto Lula. Eis a questão. (C.N.)

Trump dá sinais de desequilíbrio mental e pode sofrer processo de impeachment

Portal Panorama | Arcoverde e região | O presidente dos Estados Unidos,  Donald Trump, voltou a provocar repercussão internacional ao sugerir que a  Venezuela poderia se tornar o... | Instagram

Especialistas em doenças mentais estão preocupados

Roberto Nascimento

Donald Trump voltou com tudo na política de tarifação, com decisões sem pé nem cabeça, que já foram refutadas pela Suprema Corte, mas ele insiste em aumentar as alíquotas, com base na interpretação de uma outra lei, criando uma confusão dos diabos.

Seus tarifaços não têm base legal nem lógica, porque atingem inclusive os países que são deficitários no comércio externo com os Estados Unidos, que é justamente o caso do Brasil.

DEMÊNCIA – Trump chegou à presidência acusando de demente seu antecessor Joe Biden, que tinha 81 anos e era o presidente mais velho do mundo. Porém, o castigo veio a cavalo, porque agora é Trump está a caminho dos 81 anos, tomando decisões radicais que colocam em dívida sua saúde mental.  

Ele tenta levar os EUA a se tornar uma autocracia. Só quem manda é ele, como uma nova espécie de Nabucodonosor laranjão. O nível de desaprovação a seu governo só faz aumentar, mas ele mantém a enlouquecida estratégia.

Na política externa, prometeu, mas não conseguiu acabar com a guerra na Ucrânia. Além disso, apoiou prazerosamente a destruição da Palestina por Israel, com mortandade de civis, incluindo crianças, mulheres e idosos. E continua atacado o Irã, numa selvageria realmente incomum.

ELEIÇÕES À VISTA – As decisões radicais e destrambelhadas do presidente americano são incentivadas pela necessidade de vencer as eleições parlamentares de novembro, para dar seguimento à administração. Sem apoio do Congresso, nenhum presidente americano conseguiu conduzir os mandatos sem problemas de governabilidade.

O Comércio mundial virou uma bagunça depois dos tarifaços de Trump, que a Suprema Corte anulou, inutilmente, porque seu governo alega ter encontrado uma brecha jurídica para alterar as tarifas sem aprovação do Congresso.

Parece que o ogro deseja o caos no mundo, e nenhum país está seguro diante dele, que já invadiu a Venezuela e quer dominar a Groelândia, o Canadá e o Oriente Médio.

INSANIDADE – O fato concreto é que Trump dá sinais de problemas mentais. “É nossa opinião profissional, baseada em avaliações anteriores e contínuas, que o estado mental de Donald Trump se deteriorou ainda mais desde nossa declaração de 2024”, começa a carta que um grupo de médicos e pesquisadores da área da saúde entregou ao Congresso em 30 de abril deste ano, reafirmando advertência feita em 2024,.

Os especialistas alertam “para o fato de que o presidente dos EUA representa um perigo crescente para a população”. O documento foi assinado por psiquiatras, neurologistas, psicólogos e especialistas em saúde pública e mental ligados a universidades prestigiadas, como Harvard, Columbia e George Washington.

Cabe ao Congresso aprovar o impeachment, mas isso depende das eleições de novembro. Historicamente, nenhum presidente dos EUA foi destituído, Andrew Johnson (1868), Bill Clinton (1998) e Donald Trump (em 2019 e 2021) sofreram  impeachment na Câmara, mas acabaram absolvidos no Senado. Richard Nixon renunciou em 1974 antes que a Câmara votasse seu processo. Vamos aguardar.

A extraordinária viagem poética de João de Aquino e Paulo César Pinheiro

João de Aquino – Wikipédia, a enciclopédia livre

João de Aquino, grande compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor e poeta carioca Paulo César Francisco Pinheiro é considerado um dos maiores autores da canção popular do Brasil, cuja obra ultrapassa 2 mil músicas compostas, entre as quais, “Viagem”, considerada uma das mais bonitas músicas brasileiras, uma parceria com o célebre violonista João de Aquino (1945/2022), sem amigo de infância.

Vale ressaltar, que Paulo César Pinheiro escreveu a belíssima letra de “Viagem” aos 15 anos e Aquino tinha 19 anos. A música foi gravada por Marisa Gata Mansa, em 1972, produção independente.

VIAGEM
João de Aquino e Paulo César Pinheiro

Óh tristeza, me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar.

Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando
Desde muito longe, lá do fim do mar.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas vai escondida
Querendo brincar.

Senta nesta nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas
Minha poesia, dançam nossa valsa
Pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol.

Oh poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins-do-céu

Mas pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela-guia
Num clarão de lua quando serenar.

Ou talvez até, quem sabe
Nós só voltaremos no cavalo baio
O alazão da noite
Cujo o nome é raio, é raio de luar.

Lula defende mais investimentos nas Forças Armadas diante de “loucos” que querem guerra

A democracia está diante da ameaça do avanço dos políticos autoritários

O tarifaço como instrumento de pressão: quando o comércio vira arma política

Charge do J.Bosco (O Liberal)

Pedro do Coutto

A nova sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros representa mais do que uma decisão de natureza comercial. Ao acrescentar 12,5% às tarifas que já incidiam sobre parte das exportações brasileiras, Washington eleva a pressão sobre o Brasil e transforma a relação econômica entre os dois países em mais um capítulo de uma disputa que há muito deixou de ser apenas tarifária.

A medida, que se soma à alíquota de 25% anunciada anteriormente, cria um ambiente de crescente tensão e expõe a fragilidade de uma relação bilateral submetida, cada vez mais, à lógica do confronto político. O argumento apresentado pelo governo norte-americano para justificar a nova cobrança é particularmente controverso.

JUSTIFICATIVA – Segundo a justificativa divulgada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), países afetados pela medida teriam falhado em impor e aplicar de maneira efetiva uma proibição à importação de produtos fabricados com trabalho forçado. No caso brasileiro, a acusação provocou reação imediata do governo, que considerou a justificativa descabida e sem fundamento.

É preciso, portanto, separar duas coisas. O combate ao trabalho forçado é uma pauta legítima e universal, que deve ser defendida por qualquer democracia. O problema surge quando uma questão de direitos humanos é utilizada como fundamento para uma política comercial unilateral sem que estejam claros os critérios objetivos, as evidências e a proporcionalidade da punição aplicada. A defesa dos direitos trabalhistas não pode ser seletiva, tampouco transformar-se em instrumento de coerção econômica.

A nova tarifa também precisa ser analisada dentro de um contexto mais amplo. A política comercial do governo de Donald Trump tem recorrido sistematicamente às tarifas como mecanismo de pressão sobre parceiros e concorrentes. Nesse modelo, a barreira alfandegária deixa de ser apenas uma ferramenta de proteção econômica e passa a funcionar como instrumento de negociação diplomática e, em determinadas circunstâncias, de pressão política. É justamente aí que está o aspecto mais preocupante para o Brasil.

DESAFIO – Quando tarifas são impostas com justificativas que ultrapassam a esfera estritamente comercial, o país atingido precisa responder com equilíbrio. Não basta reagir com indignação, mas também seria um erro aceitar passivamente uma escalada que pode prejudicar empresas brasileiras, trabalhadores e setores inteiros da economia. O desafio é construir uma resposta que combine firmeza diplomática, proteção aos exportadores e diversificação de mercados.

O Brasil tem razões para questionar a medida. A economia brasileira possui uma relação comercial relevante com os Estados Unidos, mas não depende exclusivamente do mercado norte-americano. O país tem condições de ampliar sua presença na Ásia, na Europa, no Oriente Médio e em outras regiões.

A diversificação, porém, não acontece da noite para o dia. Empresas que construíram cadeias produtivas e relações comerciais ao longo de décadas não conseguem simplesmente substituir um mercado por outro a partir de uma decisão governamental. Por isso, o tarifaço representa um problema imediato, mas também uma oportunidade para o Brasil rever sua estratégia de inserção internacional.

CAUTELA – A resposta brasileira não deveria ser uma guerra comercial movida pela emoção. Retaliações podem ser necessárias em determinadas circunstâncias, sobretudo quando mecanismos multilaterais e negociações bilaterais fracassam, mas precisam ser calculadas. Uma escalada indiscriminada poderia atingir consumidores brasileiros e setores que dependem de produtos, componentes e tecnologias importados dos Estados Unidos. O caminho mais inteligente é combinar diplomacia, direito internacional e política econômica.

O Brasil deve contestar as medidas nos fóruns adequados, negociar diretamente com Washington e, ao mesmo tempo, acelerar uma estratégia de abertura de novos mercados. Também precisa fortalecer sua indústria, agregar valor às exportações e reduzir a dependência de uma pauta baseada predominantemente em commodities. Quanto maior a capacidade brasileira de exportar produtos de maior valor agregado, menor será sua vulnerabilidade diante de decisões unilaterais tomadas por grandes potências.

A nova tarifa, nesse sentido, revela uma contradição importante da política comercial norte-americana. Os Estados Unidos defendem, com razão, padrões elevados de direitos humanos e combate ao trabalho forçado. Mas a credibilidade dessa defesa depende da consistência com que esses princípios são aplicados. Se o argumento humanitário aparece apenas quando serve para justificar barreiras comerciais, sua força moral inevitavelmente diminui.

COMBATE PERMANENTE – O Brasil também precisa fazer sua parte. Não há espaço para negar problemas reais relacionados ao trabalho escravo contemporâneo ou às violações trabalhistas que ainda existem no país. O combate a essas práticas deve ser permanente, independentemente de qualquer pressão estrangeira. Mas reconhecer problemas internos não significa aceitar que outro país estabeleça unilateralmente sanções econômicas sem transparência suficiente sobre os critérios utilizados.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre tarifas e passa a envolver soberania. Nenhum país deve ser indiferente às consequências de suas políticas comerciais. Mas também nenhuma nação pode aceitar que relações econômicas sejam utilizadas como instrumento para impor decisões políticas ou interferir em assuntos internos. O comércio internacional precisa de regras, previsibilidade e mecanismos multilaterais de arbitragem. Quando cada potência passa a impor unilateralmente suas próprias condições, o sistema internacional se torna mais instável e imprevisível.

ERROS PERIGOSOS – O Brasil, portanto, precisa evitar dois erros igualmente perigosos: a submissão e o nacionalismo inconsequente. Submissão seria aceitar qualquer medida externa por medo de represálias. Nacionalismo inconsequente seria responder a toda provocação com uma escalada que prejudique a própria economia brasileira. Entre os dois extremos existe uma política externa madura, capaz de defender interesses nacionais sem transformar cada conflito em uma crise permanente.

A nova sobretaxa de 12,5% é um sinal de alerta. Somada à tarifa de 25% anunciada anteriormente, ela amplia significativamente a pressão sobre as exportações brasileiras e mostra que a relação entre Brasília e Washington entrou em uma fase de maior complexidade.

O governo brasileiro precisa compreender que o problema não será resolvido apenas com discursos. Será necessário negociar, contestar, diversificar e proteger. Ao mesmo tempo, é preciso comunicar à sociedade, com clareza, quais setores serão afetados e quais medidas concretas serão adotadas para reduzir os impactos.

INSTRUMENTO DE PRESSÃO – No fundo, a questão central não é apenas quanto o Brasil pagará para vender seus produtos aos Estados Unidos. A questão é até que ponto o comércio internacional continuará sendo regido por regras compartilhadas ou se será progressivamente transformado em instrumento de pressão das grandes potências.

Se prevalecer a segunda hipótese, o Brasil terá de estar preparado. Porque, quando tarifas deixam de ser apenas tarifas e passam a funcionar como armas de pressão política, a resposta de um país não pode ser improvisada. Ela precisa ser estratégica.