Código de Ética do STF fica para 2027 em meio ao temor da pressão eleitoral

Fachin aposta na maturação institucional

Mariana Muniz
O Globo

A discussão sobre a criação de um Código de Ética para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) deve ficar para depois das eleições. Embora a proposta continue sendo elaborada sob a coordenação da ministra Cármen Lúcia, integrantes da Corte avaliam que dificilmente haverá condições de levar o texto ao plenário ainda neste ano. Ministros avaliam que o ambiente eleitoral tende a dificultar a construção do consenso necessário em torno de um tema considerado sensível para a imagem do tribunal.

Em conversas reservadas, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, tem afirmado que nunca esperou que a elaboração de um Código de Ética fosse concluída rapidamente. Segundo ele, experiências internacionais mostram que esse tipo de iniciativa costuma demandar um longo período de maturação.

TEXTO FINAL – O ministro cita como exemplos Cortes da Alemanha e dos Estados Unidos, onde discussões semelhantes levaram mais de um ano até resultarem em um texto final. Para Fachin, a legitimidade do documento é mais importante do que a velocidade de sua aprovação. A expectativa do presidente da Corte é que o Código de Ética seja concluído e aprovado ainda no primeiro semestre de 2027.

Embora Fachin atribua o cronograma principalmente ao tempo necessário para construir um texto sólido e legitimado internamente, ministros ouvidos reservadamente afirmam que o contexto eleitoral também reforça a conveniência de deixar a discussão para depois do pleito. A avaliação é que levar o tema ao plenário neste momento poderia ampliar resistências internas e alimentar interpretações políticas sobre uma iniciativa concebida justamente para fortalecer a credibilidade do Supremo.

DEBATE ELEITORAL – Nos bastidores, a percepção é que o próprio STF deve ocupar espaço relevante no debate eleitoral deste ano, tanto por propostas que tratam da atuação da Corte quanto pelo discurso de candidatos críticos ao tribunal. Nesse cenário, a aprovação de um Código de Ética às vésperas da votação poderia acabar sendo utilizada para inflar a disputa política e desviar o foco da discussão sobre o conteúdo da proposta.

O Código de Ética é considerado uma das principais apostas da atual gestão para reforçar a imagem do tribunal após um primeiro semestre marcado por sucessivos episódios de desgaste. O principal deles foi o caso Master, que expôs divergências entre ministros, levantou questionamentos sobre a atuação da Corte e alimentou debates sobre transparência, conflitos de interesse e mecanismos internos de controle.

Integrantes do Supremo avaliam que a adoção de regras próprias de conduta poderá servir como uma demonstração de que a própria instituição é capaz de aperfeiçoar seus mecanismos internos de controle, sem depender de iniciativas externas.

DIRETRIZES – O texto vem sendo elaborado sob a coordenação da ministra Cármen Lúcia e deverá estabelecer diretrizes para a atuação dos magistrados em temas como transparência, participação em eventos públicos e privados, divulgação de palestras, prevenção de conflitos de interesse e outras situações que, embora nem sempre disciplinadas pela legislação, frequentemente geram questionamentos sobre a atuação dos integrantes da Corte.

A ideia não é criar um novo regime disciplinar para os ministros, mas consolidar parâmetros de conduta capazes de orientar situações que hoje dependem, em grande medida, da interpretação individual de cada magistrado. O objetivo é conferir maior previsibilidade às práticas adotadas pelos integrantes do Supremo e reforçar a confiança pública na instituição.

OUTRAS INICIATIVAS –  Desde que assumiu a presidência do STF, em setembro do ano passado, Fachin passou a defender internamente uma agenda voltada ao fortalecimento institucional da Corte. Além do Código de Ética, o ministro instalou um grupo de estudos encarregado de elaborar propostas de modernização do sistema de Justiça. A iniciativa deverá produzir sugestões para o aperfeiçoamento do Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria Pública e da advocacia.

Para ministros que apoiam a iniciativa, a discussão ganha ainda mais importância diante da perspectiva de um ambiente político potencialmente mais desafiador para o Supremo a partir de 2027. Na Corte, há preocupação com a possibilidade de que as eleições deste ano resultem em um Congresso mais crítico à atuação do tribunal, especialmente no Senado, responsável por processar pedidos de impeachment de ministros do STF e analisar propostas que alteram o funcionamento do Judiciário.

Naquele Clube de Esquina, os sonhos de Márcio Borges jamais irão envelhecer

Márcio Borges: 'Para virar meu parceiro tem, antes, que ser meu amigo' -  União Brasileira de Compositores

Márcio Borges, grande compositor mineiro

Paulo Peres
Poemas & Canções

O escritor, diretor do Museu do Clube da Esquina e poeta mineiro Márcio Hilton Fragoso Borges é, sem dúvida, um dos melhores letristas do nosso cancioneiro popular, criador da expressão “os sonhos não envelhecem”.

Na letra de “Clube da Esquina II”, feita com seu irmão Lô e Milton Nascimento, Márcio Borges fala de um tempo que não existe mais, de um tempo de lutas, de persistência, de não se render. 

Além disso, é um canto de uma juventude que soube compreender seu tempo, seus medos, suas angústias e suas derrotas, mas não desistiu, é um Clube da Esquina, esquina de amigos que estavam tentando vencer na vida, assim como os amigos que tentavam vencer a ditadura, belo paralelo, pois acabou a ditadura, mas o Clube da Esquina, a luta e persistência para vencer na vida, sociedade é algo sempre presente, por isso a música “Clube da Esquina II” será eterna.

A música “Clube da Esquina II” foi gravada por Milton & Lô Borges no LP Clube da Esquina, em 1972, pela Odeon.

CLUBE DA ESQUINA II
Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges

Por que se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem se lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço, aço…

Por que se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos…

E lá se vai mais um dia
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio,
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio…

E o Rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio fio,
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente, gente…

PF aponta que Valdemar direcionou mais emendas do que 99,8% dos deputados

Imprensa faz seu papel no caso do Master, mas falta o STF fazer o dele

Charge do JCaesar: 29 de janeiro | VEJA

Charge do JCaesar (Veja)

Roberto Nascimento

A teia mafiosa tecida pela organização criminosa comandada por Daniel Vorcaro se infiltrou nos Três Poderes. Com muito dinheiro, na ordem dos milhões, o banqueiro fraudador conseguiu comprar a cúpula do Estado, esta é a realidade.

Recursos públicos da aposentadoria de servidores foram dilapidados e entregues na lavanderia do Banco Master para serem usados na compra da consciência das mais altas autoridades do país.

FOI UM FESTIVAL – Dois diretores do Banco Central, agentes da Polícia Federal, vários governadores, como Ibaneis Rocha, Claudio Castro e Rui Costa, diversos senadores, como Ciro Nogueira e Jaques Wagner, deputados federais, presidentes dos Institutos de Previdência de Estados e Municípios, foi um verdadeiro festival.

O jornal O Estado de São Paulo vem publicando uma estrutura chamada de Vorcaroesfera, com detalhes da organização criminosa e a cooptação dos agentes políticos do Congresso, do Executivo e do Judiciário com riqueza de detalhes.

A participação de cada personagem comprada por Vorcaro chega a raia da minúcia. E o trabalho jornalístico do Estadão já começa incomodar gregos e troianos.

CENSURA, NÃO – Citado na reportagem, o candidato do PL ao Senado, por São Paulo, ex-secretário de Segurança do governador Tarcísio de Freitas, o capitão Guilherme Derrite, que é deputado federal, incomodado com a repercussão do caso na sua candidatura, entrou na Justiça de São Paulo requerendo censura do Jornal O Estado de São Paulo.

O pleito do capitão Derrite foi negado, sob o argumento de ferir a liberdade de imprensa. Inconformado, ele ameaça recorrer ao STF alegando perseguição política e risco à sua candidatura ao Senado, em que está bem atrás nas pesquisas, com Simone Tebet e Marina Silva à frente.

E ainda falam em democracia, mas tudo dá boca para fora, assim como o lema Deus, Pátria e Família. No fundo, são adeptos de uma bela ditadura, com censura e prisões de desafetos sem o devido processo legal.

MAIS DENÚNCIAS – Reportagem de O Globo deste sábado, assinada pelo jornalista Rafael Moraes Moura, informa que Vorcaro manipulava até avaliação de aplicativo, obtenção de dossiês, inquéritos sigilosos, ameaças, intimidações, simulação de assaltos, tudo a cargo do capanga “Sicário” (Philippi Mourão), a mando de Vorcaro e do pai, Henrique, o chefe da milícia.

Além do CEO do Banco Itaú, também o dono do Banco BTG Pactual, André Esteves, desafeto e concorrente de Vorcaro, foi monitorado e teve um dossiê preparado para detonar o banqueiro.

É de longe o maior escândalo financeiro e político do país. A imprensa está fazendo seu papel, resta saber se o Supremo fará o dele.

STF muda dinâmica dos julgamentos para fortalecer decisões colegiadas

STF amplia protagonismo do plenário

Felipe Recondo
O Globo

O Supremo superou uma crítica que há anos vinha sendo feita de forma recorrente aos seus julgamentos. Ministros iam para as sessões do plenário com votos prontos, ouviam (mas não escutavam) as sustentações orais dos advogados e depois simplesmente liam seus votos. Ao final, nem os advogados, nem os jornalistas e, por vezes, nem os próprios ministros sabiam exatamente o que fora decidido. Era mais um exemplo a confirmar o isolamento dos ministros na instituição. Esse era o padrão. Havia exceções, mas esse era o quadro geral.

Nos últimos anos — e neste semestre houve exemplos disso — os ministros passaram a debater, no plenário do tribunal, ponto a ponto, os seus votos em decisões construídas colegiadamente, por vezes ao longo de várias sessões e esmiuçando cada um dos argumentos. O tribunal tornou-se mais dialógico nos processos levados a julgamento no plenário físico, e a consequência são decisões que tendem a ser mais estáveis.

JUIZ DE GARANTIAS – Há vários casos que demonstram esse fenômeno relativamente recente no tribunal. O caso da lei que instituiu o juiz de garantias — separando o magistrado que conduz as investigações daquele que vai julgar a ação penal — é exemplo dessa dinâmica mais dialógica do STF. Nas duas ações, relatadas pelos ministros Luiz Fux e Dias Toffoli, os ministros foram, item por item, construindo o entendimento do tribunal sobre a validade da lei.

O julgamento da ação que regulou operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia — denominada ADPF das Favelas — instituiu outra prática que reforça essa mesma tendência do tribunal. Fora da sessão e sem acompanhamento de advogados, Ministério Público ou imprensa, ministros definiram os termos do processo e levaram para o plenário uma decisão unânime.

Também nessa linha está o caso do piso salarial da enfermagem. Dois ministros assinaram um voto conjunto — algo inédito na história do STF — e levaram a decisão, construída a quatro mãos, a julgamento. Algo semelhante ao visto neste semestre com a decisão do tribunal sobre o teto remuneratório do funcionalismo público e contra os penduricalhos pagos a juízes e membros do Ministério Público.

DEBATE MINUCIOSO – Nas últimas sessões do primeiro semestre, o tribunal analisou e julgou, trecho por trecho, a nova lei de improbidade administrativa. Cada ponto foi debatido minuciosamente pelos ministros, ao longo de várias sessões, com a redação da posição majoritária sendo construída pelo colegiado, e não apenas pelos relatores das duas ações — os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.

O mesmo fez o tribunal num dos casos mais complexos enfrentados nos últimos anos. Ao julgar o Marco Civil da Internet, os ministros também construíram a decisão argumento por argumento. Primeiro no julgamento de mérito, em 2025, e depois na análise dos diversos recursos contra a decisão, no mês passado.

O que gerou essa mudança? Não há um fator isolado nem uma explicação categórica. Mas há hipóteses. Duas delas relacionam-se a questões individuais, de caráter personalístico.

CONSTRUÇÃO COLETIVA – O então ministro Luís Roberto Barroso, quando presidiu o tribunal, fez esse esforço pessoal em prol da construção coletiva das decisões, intercedendo, como presidente que era, nos debates para a definição de uma tese colegiada que se expressasse a partir das discussões em plenário. Um presidente que não era apenas um coordenador dos trabalhos, mas uma espécie de facilitador.

Um segundo fator personalístico é a presença, no colegiado, de dois ministros em especial: Flávio Dino e Alexandre de Moraes. Os apartes às opiniões dos colegas e os votos oralizados — e não escritos e lidos — deram outra dinâmica aos julgamentos.

Algo que estava perdido desde os tempos de Moreira Alves (que se aposentou em 2003) e de Sepúlveda Pertence (2007), ou da época em que ministros iam ao plenário sem pauta de julgamentos definida e precisavam se manifestar sem votos escritos à disposição.

VALORIZAÇÃO DO PLENÁRIO – Outra hipótese é a valorização do plenário como locus principal de decisões, algo manifestado pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin, em seu discurso de encerramento do semestre: “Priorizamos as sessões presenciais de julgamento, por entendermos que o debate direto entre a Ministra e os Ministros qualifica a deliberação colegiada e fortalece a legitimidade das decisões desta Corte”.

Um avanço significativo para um tribunal tão criticado — e por bons motivos — pela fragmentação excessiva. Mas esse aperfeiçoamento do processo decisório do plenário precisa chegar às sessões no ambiente virtual, onde hoje são julgados 98% dos processos de competência do plenário. Sendo atualmente o principal espaço de decisão do STF em volume de processos, o tribunal também precisa cuidar para que, no plenário virtual, os advogados sejam escutados e os votos sejam debatidos, e não apenas depositados. O Supremo avançou e precisa continuar avançando.

Valdemar Costa Neto expõe a engrenagem informal das emendas parlamentares

Cotada para vice de Flávio Bolsonaro propõe Estado mais enxuto e dívida sob controle

A desesperada luta para adiar o tarifaço expôs as fissuras do bolsonarismo

Charge do Weber (Correio Braziliense)

Marcelo Copelli
Revista Fórum  

O tarifaço anunciado por Donald Trump revelou uma contradição que o bolsonarismo já não conseguia administrar. O que durante anos funcionou como demonstração de lealdade política ao presidente norte-americano passou a produzir custos econômicos e eleitorais difíceis de ignorar.

A mobilização de Flávio Bolsonaro em Washington para tentar adiar a entrada em vigor das tarifas simboliza essa inflexão: o mesmo grupo político que fez do republicano uma de suas principais referências agora procura conter os efeitos econômicos e eleitorais de uma decisão tomada pela própria Casa Branca.

CONCILIAÇÃO DE INTERESSES – Esse movimento vai além da atuação de um integrante da família Bolsonaro. Ele revela que a principal dificuldade da direita brasileira já não se resume ao enfrentamento do governo Lula, mas à conciliação de interesses, prioridades e estratégias que deixaram de convergir automaticamente. Seria um equívoco reduzir esse cenário às reações provocadas pelo tarifaço entre lideranças do bolsonarismo ou às trocas de ataques entre influenciadores conservadores. Esses episódios representam menos a causa da crise do que sua manifestação mais visível.  

Nos últimos anos, o bolsonarismo deixou de gravitar em torno de uma estratégia única e passou a reunir grupos que compartilham objetivos semelhantes, mas seguem caminhos diferentes para alcançá-los. O tarifaço não criou essa tensão. Apenas a trouxe à superfície.

Durante a ascensão do ex-presidente, divergências internas eram absorvidas pela centralidade de sua liderança. Questões econômicas e diplomáticas acabavam subordinadas à lógica da lealdade política, e o alinhamento com Trump tornou-se uma de suas principais marcas identitárias. Mais do que uma aproximação entre governos, consolidou-se uma afinidade baseada em narrativas semelhantes, valores compartilhados e uma visão comum sobre instituições, política internacional e conflitos culturais.

LIMITES – A realidade econômica, porém, impõe limites que a retórica não elimina. Quando decisões adotadas por um aliado internacional passam a produzir custos para exportadores, produtores rurais e setores industriais brasileiros, a fidelidade ideológica deixa de ser apenas um princípio político para gerar consequências concretas. Esse choque tornou-se evidente com a nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos.  

Flávio Bolsonaro argumentou que a medida poderia fortalecer politicamente o presidente Lula da Silva e ampliar prejuízos para segmentos relevantes da economia. Seu significado político, contudo, é claro: o mesmo grupo que transformou Trump em referência política viu-se obrigado a pedir a revisão — ou, ao menos, o adiamento — de uma decisão tomada por seu principal aliado internacional.

A mudança torna-se ainda mais significativa quando comparada a episódios anteriores. Em diferentes momentos, integrantes da família Bolsonaro minimizaram os efeitos de medidas adotadas por Washington em nome da convergência ideológica. Agora, a preocupação deslocou-se para os custos eleitorais e econômicos desse alinhamento. Não houve uma revisão doutrinária, mas o reconhecimento de que a proximidade automática com Trump passou a impor dilemas cada vez mais evidentes à medida que se aproxima a eleição de 2026.

DIVERGÊNCIAS –  As diferenças entre Flávio e Eduardo Bolsonaro ajudam a compreender esse momento sem que seja necessário tratá-las como uma ruptura familiar. Elas refletem a convivência de prioridades distintas dentro do mesmo universo político. Enquanto um procura ampliar o diálogo com setores moderados, empresariais e produtivos, o outro permanece identificado com a internacionalização do conflito político brasileiro e com a manutenção de vínculos estreitos com o núcleo trumpista. A divergência não rompe o bolsonarismo, mas revela que suas principais lideranças já não respondem aos mesmos incentivos nem compartilham a mesma lógica de atuação.

Esse movimento não se limita à família Bolsonaro. Governadores, parlamentares, empresários, lideranças religiosas e influenciadores digitais passaram a responder a incentivos políticos distintos. Para alguns, o objetivo é ampliar a base eleitoral; para outros, preservar a identidade ideológica que impulsionou o bolsonarismo; há ainda aqueles cuja influência depende da radicalização permanente nas redes sociais. O resultado é uma direita menos homogênea, na qual plataformas antes utilizadas para mobilizar apoiadores contra adversários externos passaram a expor disputas por protagonismo e influência.

As críticas públicas entre antigos aliados, portanto, não podem ser reduzidas a episódios de vaidade ou competição pessoal. Elas expressam uma dificuldade crescente em definir quem conduzirá a oposição e qual estratégia prevalecerá nos próximos anos. A lógica do confronto permanente, que durante muito tempo funcionou como elemento de coesão, passou a conviver com a necessidade de dialogar com setores preocupados com estabilidade econômica, previsibilidade institucional e capacidade de governar. O debate deixa de girar apenas em torno de convicções e incorpora, de forma cada vez mais evidente, cálculos de viabilidade eleitoral.

ALINHAMENTO – Isso não significa que a polarização entre direita e esquerda tenha perdido centralidade. O governo Lula continua sendo o principal adversário do campo conservador, e o antipetismo permanece como importante fator de unidade. O que perdeu força foi sua capacidade de acomodar divergências que hoje envolvem liderança, método de oposição, alianças internacionais e prioridades econômicas. A existência de um adversário comum já não basta para manter alinhados atores submetidos a pressões cada vez mais distintas.

A aproximação das eleições torna esse quadro ainda mais evidente. Até pouco tempo, bastava concentrar as críticas no governo federal para preservar uma relativa unidade. Agora surgem dilemas que não admitem respostas simples: como ampliar o eleitorado sem afastar a militância mais fiel? Como conciliar a herança política de Jair Bolsonaro com as exigências de uma campanha voltada também ao eleitor moderado? Essas questões deslocam o debate da identidade para a estratégia e tornam inevitáveis divergências que antes permaneciam subordinadas à liderança do ex-presidente.

Esse episódio evidenciou uma transição que já estava em curso. Ao tentar conter os efeitos de uma decisão tomada por Washington, Flávio Bolsonaro expôs um dilema que ultrapassa sua atuação individual: conciliar fidelidade política e pragmatismo eleitoral.

REORGANIZAÇÃO – Os acontecimentos recentes revelam, assim, um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira. À medida que a sucessão presidencial se aproxima, cresce a pressão para definir prioridades, construir alianças e formular uma estratégia capaz de reunir grupos que já não compartilham automaticamente os mesmos objetivos políticos. O desafio deixou de ser apenas preservar sua unidade simbólica; passou a ser reconstruir uma capacidade efetiva de coordenação política.

Coalizões raramente entram em crise porque deixam de reconhecer seus adversários. Elas se desgastam quando deixam de concordar sobre os custos necessários para alcançar um objetivo comum.  

A direita brasileira continua compartilhando referências e objetivos comuns, mas perdeu a capacidade de transformá-los em ação política convergente. O que as últimas semanas evidenciaram foi o enfraquecimento do principal fator de coesão do bolsonarismo: a liderança capaz de acomodar interesses diversos sem permitir que as divergências se convertessem em disputas abertas.

É triste ver o Brasil discutir quem é o pior, entre dois corruptíssimos – Lula ou Flávio?  

Charge do Gilmal (Sobral Revista)

Charge do Gilmal (Arquivo do Google)

Carlos Newton

A piada é velha, mas quando contei ao general Leonidas Pires Gonçalves ele caiu na risada. Eu não o conhecia, mas estávamos numa roda de amigos na inauguração do escritório do consultor Darc Costa, ex-coordenador da Escola Superior de Guerra, renomado especialista em estratégia política, econômica e militar, que à época assessorava simultaneamente os governos de Brasil, Argentina e Venezuela.

Incriminado no Mensalão, José Dirceu tinha acabado de ser retirado da Casa Civil, substituído por Dilma Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia, que me impressionara pela rispidez e soberba numa entrevista coletiva na sede da Petrobrás.

MEDO DA DILMA – Na conversa, o ex-ministro do Exército manifestou sua preocupação com a saída de Dirceu, porque julgava Lula despreparado para governar e não sabia se Dilma Rousseff estava qualificada.

Mesmo sem conhecer o chefe militar, fiz questão de interrompê-lo e disse: “Pode ficar tranquilo, general. Existe um velho ditado que explica tudo isso. Diz que o Brasil cresce à noite, quando os políticos estão dormindo e não conseguem atrapalhar”. Todos caíram na gargalhada, é claro.

O ditado continua atual. É impressionante como o Brasil ainda consegue crescer, tendo governantes do nível de Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. São verdadeiros trapalhões, que deveriam ter seguido o exemplo de Itamar Franco, um governo verdadeiramente virtuoso, pois não deu chance à corrupção que depois se instalaria no país com força total e parece não querer mais sair.

RIGOR ABSOLUTO – Itamar foi extremamente rigoroso contra a corrupção. Quando surgiram notícias envolvendo o chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, seu amigo de infância, não teve dúvidas. Imediatamente o demitiu, dizendo:

“Fora do governo, você terá mais tempo para se defender. Assim que você provar sua inocência, voltará à Casa Civil e vou mandar instalar um tapete vermelho para recebê-lo de volta ao Planalto”.

Hargreaves ficou alguns meses fora, provou que não tinha envolvimento com corrupção. E Itamar cumpriu a promessa, recepcionando com todas as horas o retorno do amigo à Casa Civil.

HONRA E COMPETÊNCIA – Itamar Franco foi o único político verdadeiramente honrado e competente que ocupou a Presidência nos últimos 34 anos. Depois dele, tivemos Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e de novo Lula

Esses cinco governantes têm muita coisa em comum. Enquanto elevavam à estratosfera a dívida pública do país, todos eles enriqueceram na política, inclusive Dilma, que desde 2023 recebe o equivalente a US$ 500 mil por ano, no Banco Brics.

Até 2030, quando termina seu mandato, terá recebido US$ 4 milhões, que equivalem a mais de R$ 20 milhões. Nada mal, para uma estocadora de vento que ganhou o concurso de Piada do Ano na ONU, não é mesmo?

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P. S. 1 –
Agora o Brasil está precisando de um novo Itamar Franco. Escolher Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro é pior do que a famosa Escolha de Sofia, do romance de William Styron. Lula e Flávio são dois corruptíssimos políticos. Como se dizia antigamente, um pelo outro e não quero troco.

P.S. 2 – Não pensem que esquecemos as asquerosas matérias com informações manipuladas por O Globo para desmentir a Tribuna da Internet. Como se sabe, o editor-chefe da TI é mais odiento e vingativo do que os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, juntos. Vamos tratar desse assunto amanhã, revelando as boçalidades que a cúpula de O Globo encomendou e publicou, para agradar ao governo Lula. Posso adiantar que a porrada vai ser grande. (C.N.)

Desprezo dos intelectuais não impede que as religiões continuem em expansão

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

As críticas às religiões são largamente conhecidas, inclusive suas matrizes. Segundo Freud, um religioso é infantil e regressivo porque não consegue lidar com o desamparo estrutural da condição humana. Adere a seres imaginários, derivados da expectativa infantil de proteção dos pais, a fim de ser cuidado por esses seres.

Segundo Nietzsche, a crítica se refere à covardia diante da indiferença cósmica e o decorrente ressentimento moral e religioso. Se, para Freud, falta maturidade à pessoa religiosa, para Nietzsche, falta coragem. O abandono cósmico é insuportável, como dizia o escritor grego Nikos Kazantzakis, um leitor aguerrido de Nietzsche.

UM ALIENADO? – Segundo Feuerbach, o religioso é um alienado das próprias potências que ele aloca imaginariamente nos deuses —em Cristo, no caso do cristianismo, especificamente. Para o autor, toda teologia é antropologia filosófica.

Segundo Marx, não muito longe do Feuerbach, o religioso é um alienado que outorga ao clero e sua instituição os poderes sobre si mesmo, sua sociedade e sobre o mundo. Mas, para nosso profeta do fim do capitalismo, essa alienação é material, visto que pagamos por ela.

Compramos das religiões o ópio que nos deixará incapazes de enfrentar a vida com nossos próprios recursos. Toda religião é um delírio que nos custa dinheiro, em algum momento.

MEDO DOS DEUSES – Segundo Epicuro, o mote da adesão aos deuses é o medo deles. Tememos o poder deles sobre nossas vidas, sejam vidas terrenas e históricas, sejam vidas depois da morte.

Ao afirmar seu atomismo materialista, Epicuro nos livrava do terror dos deuses para com a vida após a morte, já que a alma seria puro ar que saia pela boca no último suspiro, portanto, mortal.

Quem sabe, se perdêssemos o medo dos deuses, perceberíamos que nada de ruim nos aconteceria —de ruim digo, algo diferente do que sempre nos acomete. O medo seria o afeto religioso por excelência.

POLÍTICA DO MEDO – Com Spinoza, aprendemos a suspeitar do caráter político das religiões —que o Marx, “doutor em Epicuro”, herdou como parte de sua crítica às religiões. Se para Freud era o desamparo, para o Nietzsche a indiferença cósmica, para o Feuerbach e Marx era alienação, para Spinoza, era uma forma de política do medo.

Segundo alguns darwinistas, as religiões são traços evolucionários que se caracterizam por delírios imaginários organizados objetivamente e que foram adaptativos desde sempre. Seja para temermos os deuses maus, seja para pedirmos ajuda para os bons, as religiões nada mais seriam do que um polegar opositor metafísico.

Segundo o antropólogo Clifford Geertz, as religiões são “apenas” sistemas culturais de sentido como quaisquer outros. Humano, demasiado humano.

A FÉ RESISTE – Entretanto, tais críticas em nada arranharam, até hoje, a fé e a adesão da maior parte dos seres humanos a sistemas religiosos dos mais variados tipos.

Apesar da reconhecida validade de todas essas análises, pessoalmente, sinto que a crítica freudiana é a mais letal e aponta para um elemento complicador, principalmente nos tipos de adesão mais radical a sistemas religiosos. Esse complicador é o vínculo entre a vida psicológica enquanto tal e a dita vida espiritual.

Onde ficaria a fronteira entre eventos estritamente psicológicos ou psicopatológicos e eventos de ordem espiritual-religiosa? Se você tem uma adesão dura a alguma religião que explicaria transtornos de comportamento a partir de uma semântica espiritual-religiosa, a fronteira, seguramente, poderia ficar borrada.

REGRESSÃO FREUDIANA – Se a adesão a sistemas religiosos significa, como pensava Freud, algum tipo de regressão psíquica a estágios mais “primitivos” —no sentido psicanalítico, ou seja, mais próximos da infância psíquica —, na lida com o desamparo e suas consequências, tais como medo, insegurança, sentimento de abandono, estresse material grave, doenças, ou mesmo algum tipo de dependência absoluta tardia, a tendência seria que esta adesão religiosa se caracterizasse por ser inatingível aos esforços da razão.

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —n ão há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo.

A crítica de Marx tem aqui também seu lugar. Qualquer serviço espiritual, principalmente se envolve atos de magia, custa dinheiro, muito dinheiro. Quando as religiões assumem as explicações para os sofrimentos psíquicos, as religiões vendem sua falsa cura para nós, os infelizes.

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Carta de Bolsonaro sela Flávio como porta-voz e mira dissidências no bolsonarismo

Uma carta que Bolsonaro teria enviado a Flávio, cheia de ternura e de palavrões

🎨 c🖌️ Nesta semana, o convidado do #RodaViva foi o senador Flávio Bolsonaro! Durante a conversa, o chargista oficial do programa, Luciano Veronezi, registrou os principais momentos da entrevista

Charge do Veronezi (Roda Viva)

Vicente Limongi Netto

Não foi fácil, mas driblei redações, redes sociais, plataformas e a famosa X, para conseguir, em primeira mão, a carta original de Bolsonaro para o filho Flávio. Usei toda a experiencia de repórter “bombril”, aquele de múltiplas utilidades.

A caligrafia do ex-capitão é confusa, com palavrões, alguns tão cabeludos de fazer corar o Papa. Se fosse letra bonita, com bom português, não seria o velho Jair. O amoroso texto deverá alcançar muitos corações, porque como se diz à boca pequena, pai é pai. É marcante a preocupação de Bolsonaro com o filho trapalhão.

Bolsonaro tem defeitos. Mas é inegável o carinho que tem pelos filhos. Vamos à histórica carta:

 Porra, Flávio, você não para de fazer cagadas. Fico feliz que você tem meu sangue de batalhador, mas não exagera. Tua candidatura está uma merda. Só é destaque na imprensa quando você faz gol contra.

Teu irmão, Eduardo é outro babaca. Bota puta banca de gostosão nos Estados Unidos, mas não passa de puxa saco do meu amigo Trump. Vocês dois e mais o estúpido do Paulo Figueredo só me dão desgostos.

Puta que pariu, tentem andar nos trilhos. Respeitem o tempo o tempo que ainda tenho de vida. O filho da puta do Lula vai deitar e rolar na televisão com tuas asneiras. Cacete, te manca. Ver se acerta uma. Tente me encher de orgulho.

Ando cansado. Você sabe. Proibido de sair para comer pastel com caldo de cana, andar de moto e jet-ski, e até abraçar os doidos bolsonaristas. Tenho saudades das passeatas com motos. Xandão é escroto. Acabou com o pouco de alegria que tinha.

Ver se te manca, Flávio e procura andar direito. Larga a Michelle de mão. Meu candidato é você. Mas para de fazer merda.  Não tenho dormido direito. Beijos do pai que te ama,

Jair. Brasilia, 11 de julho.

VOLTA, NEYMAR – Acredito que Neymar, com 34 anos, ainda tem futebol para ajudar o Brasil a voltar a jogar sonhando com o hexa, na copa de 2030. Messi está jogando com 39 anos, Cristiano Ronaldo jogou esta copa com 41 anos. A diferença é que ambos nunca sofreram demasiado com contusões, ao contrário de Neymar, saco de pancada dos adversários.

Mesmo que não jogue na copa de 2030 com o vigor físico dos bons tempos, Neymar tem o dom da técnica apurada. Nunca deixará de ser craque. Tem legado de bons serviços ao futebol brasileiro que jamais poderá ser subestimado, como frisou o campeão do mundo, lateral Roberto Carlos.

FAZER BONITO – Pode perfeitamente liderar grupo de atletas para que o Brasil volte a fazer bonito em copas do mundo.

Posso elencar atletas com condições de ajudar a seleção a voltar a conquistar títulos, como Rafinha, Endrich, Wesley, Estevão, Rodrigo, André, Pedro, Gerson, Militão, Alysson, Paquetá, Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Martineli, Richardison, Martineli, Danilo do Botafogo, perto de retornar ao Palmeiras, João Gomes, Rayan, Luiz Henrique, Douglas e Caio Jorge. 

A seleção brasileira precisa ter uma base sólida, ganhar conjunto, ajustar suas linhas, para deixar de ser um bando de jogadores que se conhecem no hall do hotel.

ANCELOTTI ZERO – Por ora, no futebol brasileiro, os resultados práticos do técnico Ancelotti são zero.  Dispõe apenas de observações. 

 Sempre protestei contra a contratação de técnicos estrangeiros para a seleção. Somos pentacampeões do mundo sem eles.

Mas como a CBF renovou o contrato do mister até a copa de 2030, antes mesmo de começar a atual copa, resta torcer pelo sucesso dele. 

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Afinal, de que cor eram os olhos de ressaca de Capitu, musa de Machado de Assis?

Olhos de Capitu: A Magia da Literatura BrasileiraPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Em sua obra, não se sabe de que cor eram os apaixonantes olhos de Capitu, personagem do romance “Dom Casmurro”, que o escritor descrevia como “olhos claros e grandes”. Sem definir a cor exata, ele os imortaliza metaforicamente como “olhos de ressaca” e “de cigana, oblíqua e dissimulada”.

Neste desesperado poema de amor, porém, Machado de Assis é mais preciso e descreve sua paixão pelos olhos verdes de sua musa, uma Capitu que restou paea sempre desconhecida.

MUSA DOS OLHOS VERDES 
Machado de Assis                                          

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa

Do eterno devaneio,
Sê minha amante,
os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!

Polarização leva pré-candidatos a desistirem da corrida presidencial

Charge do Babu (Arquivo do Google)

Yago Godoy
O Globo

A pouco menos de três meses das eleições, o cenário acirrado da disputa presidencial, marcado pela polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tem provocado desistências e dificultado os planos de outros pré-candidatos.

Nesta semana, o deputado federal Aécio Neves (MG) descartou a possibilidade de concorrer ao Palácio do Planalto pelo PSDB, enquanto o partido Democracia Cristã (DC) avalia desistir de lançar o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa.

SEM PONTUAÇÃO – Em janeiro, o Democracia Cristã anunciou a pré-candidatura do ex-ministro Aldo Rebelo. Ele foi o nome da sigla até maio, quando, segundo a Genial/Quaest, nem sequer pontuou na pesquisa de intenção de voto. Diante do fraco desempenho, o partido decidiu lançar Barbosa.

No mês passado, ao ser testado pela primeira vez, o ex-magistrado registrou 1% em um eventual cenário de primeiro turno. O percentual é o mesmo de nomes como Samara Martins, da Unidade Popular (UP), e Augusto Cury, do Avante.

DESISTÊNCIA – Presidente nacional do DC, o ex-deputado federal alagoano João Caldas admitiu, na quinta-feira (9), que Barbosa pode desistir de disputar as eleições. Segundo o dirigente partidário, o cenário “não está nada fácil”.

— Ainda estamos tentando, mas não está fácil. Temos até 5 de agosto, prazo para realizar a convenção que pode definir o nome do candidato a presidente, mas está muito difícil — disse Caldas, em entrevista ao site Poder360.

Barbosa foi o primeiro homem negro a ocupar uma cadeira na mais alta Corte da Justiça, onde permaneceu por 11 anos. Ele foi relator dos processos do mensalão, escândalo que marcou os dois primeiros governos Lula e ainda é utilizado por adversários para criticar as gestões petistas.

ESTRATÉGIA –  Em meio aos desdobramentos do caso Master, que atinge tanto nomes do governo — como o senador Jaques Wagner (PT) — quanto da oposição — com a crise causada na direita pelo caso “Dark horse” —, a estratégia do ex-ministro passa por capitalizar o discurso contra a corrupção. Outro objetivo é se inserir nos debates sobre a “moralização” do STF. A definição precisa ocorrer até 5 de agosto, data-limite para as convenções partidárias.

No dia anterior à declaração de Caldas, quem optou por deixar a corrida foi Aécio Neves. Em 2014, ele disputou a Presidência contra a ex-presidente Dilma Rousseff, em uma das eleições mais acirradas do país: o tucano obteve 48,36% dos votos válidos, contra 51,64% da petista. Desta vez, aparece com 2% das intenções de voto, de acordo com a Genial/Quaest.

— Depois de muitas conversas internas, tenho que afirmar, em primeiro lugar, que o PSDB caminha para não ter candidatura própria nesta eleição — afirmou Aécio, em entrevista ao Estado de S.Paulo.

PLANOS PARA 2030 – O ex-deputado ressaltou que, a partir de agora, os planos do partido para uma candidatura presidencial estão voltados para 2030. Antes de decidir entrar na disputa, ele havia convidado o ex-ministro Ciro Gomes. O cearense, contudo, recusou o convite para focar em sua candidatura ao governo do Ceará, onde lidera contra o governador Elmano de Freitas (PT).

Aécio defende se dedicar à reestruturação do PSDB na Câmara, que deve optar por apoiar uma candidatura de centro. O partido decidiu entrar na disputa em meio ao início dos desgastes na pré-campanha de Flávio, provocados pela revelação de sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

CORRIDA ELEITORAL –  A última pesquisa Genial/Quaest mostrou Lula na liderança da disputa pelo Planalto no primeiro turno, com 39% das intenções de voto, contra 29% de Flávio. Depois deles, nenhum candidato ultrapassa 3%, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.

Apontados até o momento como as principais alternativas à polarização, os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) marcaram 3% e 2%, respectivamente. Pelo partido Missão, Renan Santos apareceu empatado com o ex-governador de Goiás.

VOTO DE REJEIÇÃO – Durante agenda no Rio de Janeiro, na quinta-feira, Caiado foi questionado sobre aparecer atrás dos dois pré-candidatos nas pesquisas e afirmou que o cenário é motivado pelo “voto de rejeição” entre os eleitores dos adversários.

— Estamos vendo uma candidatura de rejeitados. São os mais rejeitados que estão aí. “Eu não gosto do Lula, voto no Flávio. Eu não gosto do Flávio, voto no Lula”. Isso é jogo de revanche ou é uma eleição para o país? É sobre quem está mais no noticiário da Polícia Federal, ou quem tem um passado que o credencia, uma vida de luta? — declarou a jornalistas após um almoço com empresários na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

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