A poesia realista de Ledo Ivo denunciava as injustiças sociais que existem no país

Lêdo IvoPaulo Peres
Poemas & Canções

OS POBRES DA ESTAÇÃO RODOVIÁRIA
Lêdo Ivo

Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela do fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.

Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus, eles temem perder a própria viagem, escondida na névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem o ouvido e o tédio dos psicanalistas, em consultórios assépticos como o algodão que tapa o nariz dos mortos.

Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores nos incomodam mesmo à distância.
E não têm a noção das conveniências, 
não sabem portar-se em público.

O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma, eles vão e vêm, saltam
e seguram malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidas nos guichês,
sussurram palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas
com o ar espantado de quem não sabe o
caminho do salão da vida.

Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê
que doem na vista delicada do viajante
obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?

Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante).
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

Técnico retranqueiro, Ancelotti não teve a sorte dos treinadores Parreira e Felipão

Imagem de PHILADELPHIA, PENNSYLVANIA - JUNE 19: Carlo Ancelotti, head coach of Brazil, during the FIFA World Cup 2026 Group C match between Brazil and Haiti at Philadelphia Stadium on June 19, 2026 in Philadelphia, Pennsylvania. (Photo by James Gill - Danehouse/Getty Images)

Preocupado com a defesa, Ancelotti enfraqueceu o ataque

Carlos Newton

É triste ver o país do futebol nessa situação, jogando na retranca e transformando atacantes em defensores. Já tivemos dois técnicos retranqueiros que venceram a Copa, mas sabiam escalar muito melhor o time, e desta vez não tivemos a mesma sorte, porque nem sempre o acaso sai vencedor no futebol. Por isso, até agora somente oito dos 211 países membros da Fifa conseguiram vencer a Copa.

Em 1994, Carlos Alberto Parreira retrancou o time, mas tinha dois grandes dribladores no ataque, Romário e Bebeto, com o lateral Jorginho subindo pela direita e Branco subindo pela esquerda para apoiar o ataque. Era um time defensivo, mas poderoso e ameaçador.

Oito anos depois, em 2002, Luiz Felipe Scolari também era retranqueiro, o time jogava defensivamente, mas tinha dois laterais que apoiavam o ataque (Cafu e Roberto Carlos) e contava com os dribladores Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno. Dá para comparar com a atual seleção titular?

SUPERSALÁRIO –  Ancelotti chegou cheio de banca, conseguiu o maior salário do mundo para técnicos de seleção (R$ 5 milhões mensais), ganhou mais um dinheirão fazendo publicidades na TV. Marrento, exigiu contrato até a Copa de 2030 e esses caipiras da CBF aceitaram, embora seu retrospecto não fosse primoroso.

Em 17 jogos, só venceu 10, empatou 3 e teve 4 derrotas. Com esse desempenho, nenhuma seleção pode ganhar a Copa. Isso significa que a derrota para a Noruega, que em cinco jogos jamais perdeu para o Brasil (3 vitórias e 2 empates), apenas abreviou o sofrimento do torcedor brasileiro.

A frustração é enorme, porque não faltam craques no futebol do Brasil, que é o maior exportador mundial de jogadores.

MUITOS ERROS – Vaidoso e prepotente, Ancelotti tem o grave defeito de convocar e escalar jogadores que são amigos dele, com os quais está acostumado na Europa. Todos sabem que a melhor zaga do Brasil é formada por Léo Ortiz e Léo Pereira, mas ele preferiu Danilo, que era reserva no Flamengo com o técnico Filipe Luiz, que o contratou, e continua reserva com o substituto Leonardo Jardim.

O grande amigo Casemiro também não disse a que veio, assim como Douglas Santos.  Apenas Bruno Guimarães e Gabriel Martinelli mostraram grandes qualidades, deveriam ter jogado juntos, abastecendo o ataque, mas Ancelotti preferiu ser defensivo…

Mesmo com os erros de convocação, o treinador italiano poderia ter se consagrado na Copa. Bastaria escalar o ataque com três dos quatro dribladores que estavam à disposição (Vini Jr., Luiz Henrique, Neymar e Endrick). Com toda certeza, a seleção levaria à loucura qualquer time adversário. Nenhum outro país tem quatro dribladores deste nível à disposição dos técnicos.

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P.S.
Espera-se que a CBF devolva Ancelotti à Europa o mais rápido possível. No futebol e na vida, é preciso que os melhores sejam sempre convocados e colocados em campo para servir à coletividade. (C.N.)

Empresários temem que atuação de Flávio Bolsonaro complique negociação contra tarifaço dos EUA

PEC da escala 6×1 enfrenta impasse no Senado e votação segue sem calendário definido

Presidente da CCJ se reúne com líder do governo

Gabriela Echenique
Folha

O presidente da Comissão de Constituição e Justiça, senador Otto Alencar (PSD-BA), quer se encontrar com a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), nos próximos dias para tratar do cronograma da PEC que prevê o fim da escala 6×1.

Os dois se falaram por telefone na semana passada após Leitão se reunir com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para tratar do tema. Ficou acertado que o governo e o presidente da CCJ discutiriam os próximos passos. Mas, para isso, a matéria precisa ser despachada por Alcolumbre ao colegiado.

ANTES DO RECESSO – A expectativa do governo é que isso aconteça ainda antes do recesso, mas como mostrou a Folha, o presidente do Senado tem dito a aliados que só vai dar andamento à pauta quando se reunir com o presidente Lula (PT).

Enquanto isso, Otto pretende discutir o assunto com o governo entre terça (7) e quarta-feira (8). Ao Painel, disse que não dá para votar o projeto “a toque de caixa”. “Não adianta ter pressa para uma matéria tão importante quanto essa. Vou esperar a PEC chegar à CCJ para definir o relator e, assim, pensar num cronograma aceitável para votar o texto”, disse o presidente da CCJ.

Há ao menos três senadores cotados para relatar a proposta. O nome do senador Omar Aziz (PSD-AM) ganhou força nos últimos dias, mas ele é pré-candidato ao governo do Amazonas e estará em meio à campanha eleitoral. Os senadores Rogério Carvalho (PT-SE) e Rodrigo Pacheco (PSB-MG) também são apontados como possíveis relatores.

O patriotismo seletivo da direita brasileira foi destruído pelos atos de Trump

Charge do Marcelo Martinez (Canal Meio)

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Durante anos, setores expressivos da direita brasileira reivindicaram para si o monopólio do patriotismo. Fizeram da bandeira nacional um símbolo de identidade política, transformaram a defesa da soberania em sua principal credencial moral e acusaram adversários de subordinar os interesses nacionais a agendas estrangeiras. Essa narrativa lhes conferiu força política, mas também criou uma exigência inevitável: a de demonstrar a mesma coerência quando interesses nacionais entrassem em tensão com afinidades ideológicas.

Os acontecimentos recentes envolvendo as medidas anunciadas pelo governo Donald Trump, com potencial de afetar a economia brasileira, não criaram esse dilema. Apenas o tornaram mais visível. Afinal, a defesa da autonomia nacional mantém o mesmo peso quando interesses brasileiros são atingidos por um governo politicamente admirado por parte significativa da direita? Ou esse princípio muda de intensidade conforme a identidade de quem o desafia?

IDENTIDADE VISUAL – Para compreender por que essa pergunta é relevante, basta observar como o patriotismo foi reconstruído na política brasileira ao longo da última década. A bandeira nacional deixou de funcionar apenas como um símbolo da República para tornar-se a identidade visual de um projeto político. O verde e amarelo passaram a dominar manifestações, campanhas eleitorais e redes sociais. O hino nacional ganhou protagonismo em atos públicos. A defesa da autonomia nacional transformou-se em um dos pilares do discurso conservador, acompanhada da ideia de que nenhuma potência estrangeira deveria ditar os rumos do país.

Não se tratou apenas de uma estratégia de comunicação. Foi uma operação política que redefiniu o significado público dos símbolos nacionais. Aos poucos, consolidou-se a percepção de que o patriotismo possuía representantes mais legítimos do que outros, como se o compromisso com o Brasil pudesse ser medido pela intensidade com que alguém empunha uma bandeira ou denuncia interferências estrangeiras. Esse princípio deixou de ser apenas um valor constitucional para transformar-se também em um marcador de identidade política.

Foi essa construção simbólica que os acontecimentos recentes colocaram sob escrutínio. Naturalmente, seria um erro tratar a direita brasileira como um bloco homogêneo. Existem diferenças importantes entre suas correntes, lideranças e interpretações sobre política externa. Ainda assim, parte significativa das manifestações públicas revelou um contraste difícil de ignorar. Em muitos casos, o foco principal das críticas voltou-se para o governo Lula, enquanto as medidas adotadas por Washington foram relativizadas, justificadas ou deslocadas para um plano secundário.

CRITÉRIO – Criticar o governo brasileiro é não apenas legítimo, mas indispensável em qualquer democracia. O problema não está na crítica. Está no critério utilizado para formulá-la. Se a defesa da autonomia nacional perde intensidade justamente quando interesses brasileiros são afetados por um governo ideologicamente próximo, ela deixa de funcionar como um princípio permanente e passa a depender da identidade de quem pratica a ação.

Essa distinção é decisiva. Em política, a coerência não se mede pela intensidade das convicções, mas pela disposição de aplicá-las inclusive quando elas contrariam nossos próprios aliados.

Existe o patriotismo dos símbolos e existe o patriotismo dos princípios. O primeiro manifesta-se em bandeiras, slogans, discursos e demonstrações públicas de pertencimento. O segundo revela-se na capacidade de aplicar os mesmos critérios aos aliados e aos adversários, aos governos que admiramos e àqueles que criticamos. Um fortalece identidades políticas. O outro fortalece instituições.

ORDEM DAS LEALDADES – Esse talvez seja um dos efeitos mais profundos da polarização contemporânea. Ela não elimina princípios; altera a ordem das lealdades. A autonomia do país continua sendo defendida, mas apenas diante de determinados atores. A independência nacional permanece como discurso, desde que não imponha custos às afinidades ideológicas. Os princípios não desaparecem. Tornam-se condicionais.

A seletividade moral não escolhe ideologias. Ela prospera sempre que a identidade política passa a valer mais do que os critérios que cada grupo afirma defender. O episódio recente, contudo, possui uma particularidade. Não porque tenha inaugurado essa contradição, mas porque a tornou impossível de ignorar.

Quem hoje enfrenta esse teste é justamente o campo político que mais reivindicou para si a condição de guardião da autonomia nacional. Quanto mais central é um princípio no discurso de um movimento político, maior tende a ser a expectativa de coerência quando esse princípio é colocado à prova.

PATRIMÔNIO SIMBÓLICO – Talvez o maior erro da política brasileira tenha sido permitir que a bandeira deixasse de representar um espaço comum para transformar-se em patrimônio simbólico de uma facção. Símbolos nacionais cumprem sua função precisamente porque pertencem a todos. Quando passam a distinguir grupos políticos, continuam sendo símbolos. Mas deixam de cumprir sua principal missão republicana: lembrar que a nação é maior do que qualquer governo, partido ou liderança.

O patriotismo nunca é realmente testado quando o interesse nacional coincide com o de aliados políticos. Seu momento de verdade começa quando essas duas escolhas deixam de ser a mesma. É nesse instante que slogans perdem força, discursos deixam de bastar e resta apenas um critério: aplicar aos aliados as mesmas exigências dirigidas aos adversários.

É ali que se mede a consistência de qualquer projeto político. Valores só demonstram sua força quando resistem às conveniências do momento. Se mudam conforme a identidade de quem os desafia, deixam de orientar a ação pública e passam a servir apenas como argumento de ocasião. No fim, nenhuma bandeira é capaz de substituir a coerência. Quando um ideal vale apenas contra os adversários, ele já não orienta escolhas; apenas justifica preferências.

Entre a polarização e a terceira via: o desafio de Zema na corrida presidencial

Não é possível aceitar que Moraes siga atuando como ministro do Supremo

Minha solidariedade pessoal ao ministro'; as reações após anúncio de  sanções sobre Alexandre de Moraes pelos EUA – Money Times

Moraes deveria estar suspenso desde o início do escândalo

Fernando Schüler
Estadão

É bom observar, vez ou outra, o espanto de um estrangeiro com o que ocorre no Brasil e no STF. “É estarrecedor, mas também revelador”, escreveu o jornalista Glenn Greenwald, sobre o ministro “permanecer no STF, continuar julgando e prendendo pessoas”.

Ele se referia às revelações dos diálogos da esposa do ministro diretamente no WhatsApp de Vorcaro, mandando o tal contrato de R$ 129 milhões. Glenn diz que não conhece escândalo judicial pior, mundo afora, na última década. E que “mesmo assim ele permanece impassível, com o mesmo imenso poder sobre o País”.

HOMEM LIVRE – Glenn é americano. Diz o que pensa. Critica figuras de poder, não poupa esquerda ou direita, a partir de suas convicções. E por isso incomoda. Ele faz isso, entre muitas coisas, porque sabe que tem sua liberdade garantida por um País que há 235 anos consagrou seu Bill of Rights. E garante que as pessoas possam fazer exatamente isto: dizer o que pensam.

Greenwald diz que o ministro não deveria mais estar no STF. Pode-se concordar ou não com ele, mas a verdade é que há uma pergunta anterior a fazer. E muito mais simples: alguma coisa será investigada? Alguma iniciativa da PGR? Alguma ação no Congresso?

De minha parte, penso que a resposta já foi dada. Por muitas razões, nos tornamos um estranho tipo de república feita de um núcleo de poder inimputável. Fora do sistema de controles republicanos, que converte em um estranho tipo de ofensa a mera ideia de que algo possa ser suspeito.

SEM REGRAS – E não se trata apenas deste caso. O caso Master traz um componente ético crucial, mas o tema central do Brasil dos últimos anos é o desrespeito à regra do jogo. A longa cauda de flexibilizações legais praticada no País, nos anos recentes.

Quem duvidar poderia procurar saber do destino de Eduardo Tagliaferro. O destino de um cidadão comum que deveria constranger o Brasil. O país que, diante de informações graves e incômodas, parece ter escolhido não apenas empurrar tudo para debaixo do tapete, mas converter o denunciante em réu. E logo, ao silêncio.

Cada um pode ter sobre isso a sua visão. Nós nos convertemos em um País em que você pode denunciar, a Malu Gaspar pode escrever 243 colunas, com fatos novos, aparecerem os contatos, os prints, os valores sem parâmetro de mercado, o que for. A única coisa que sabemos, no fim do dia, é que dificilmente alguma investigação chegará ao núcleo do poder. E que, se você for um “jornalista independente”, ou sem um bom pedigree, é melhor tomar cuidado.

FAZENDO TROÇA – Desconfio que ninguém saiba disso melhor do que Vorcaro e suas equipes de defesa. E por isso procrastinam sua delação e fazem troça com o País há mais de três meses. Porque sabem de nosso incrível retrospecto e conseguem imaginar o que poderia resultar de uma delação “completa” sobre tudo que aconteceu.

O ponto central da frase indignada de Glenn é o estranhamento. O que ele está dizendo é o seguinte: vocês, brasileiros, foram se acostumando. Vocês são como aquele sapo na panela, que foi relaxando, enquanto a água ia esquentando, até serem devidamente cozinhados.

Isto aconteceu por muitas razões. A primeira delas foi o apoio de boa parte da sociedade, que por muitos anos aplaudiu nosso estado de exceção tropical, de fio a pavio, porque era importante “salvar a democracia”. Isto inclui boa parte de nossa “mídia profissional”, que só ligou o modo indignação depois do caso Master. E que hoje denuncia o absurdo brasileiro sobre o que, até há pouco, solenemente silenciava.

PODER DE FATO – Outro ingrediente é o poder de fato. A proatividade ou a indiferença de um núcleo de poder que realmente parece acreditar que flutua acima dos constrangimentos da república. E fazem isso com razão. Porque, de fato, muita gente boa aceitou, no Brasil dos últimos anos, a premissa de que o que vale por aqui não é propriamente a lei ou a Constituição, mas o que um conjunto de autoridades diz que é a lei e a Constituição.

De modo que não se pode praticar a censura prévia. Mas pode. Deve-se respeitar a instância devida. Ou não, a depender do contexto e da interpretação.

Agora mesmo está prestes a virar réu no Supremo um brasileiro que disse alguns impropérios a um ministro, em Coimbra, dois anos atrás. Um brasileiro comum, sem “foro”, mas está lá, processado no STF. Alguém preocupado com isso? O relator do processo é ao mesmo tempo vítima e juiz. Alguém preocupado?

IMPÉRIO DO MEDO – Ninguém se preocupa, sejamos sinceros. O medo cumpre uma função, aí, e é um sentimento legítimo. Se um jornalista foi banido, por que não aconteceria com muitos outros? Se Cleber Cabral, da Unafisco, terminou na Polícia Federal, após uma crítica, por que não aconteceria com outros dirigentes associativos?

Se um deputado é processado por um discurso na Câmara, como os demais deveriam se comportar? É por estas razões que fomos deslizando. Aceitamos que se criasse uma lógica de exceção no País, que agora anda por conta própria.

Nunca me esqueço das lições de Bertrand de Jouvenel: o poder é como um organismo. Uma vez posto em movimento, não recua. E daí a obsessão moderna com os limites, com os pesos e contrapesos. Com tudo isso que assistimos ir perdendo força, no transe brasileiro recente.

OLHAR À DISTÂNCIA – De modo que é bom, vez ou outra, observar o espanto de um estrangeiro. Ele pode conhecer um pouco sobre o Brasil, mas nos enxerga à distância.

O estrangeiro sabe como as justiças americana, italiana e espanhola nos enxergaram, por estes tempos, negando extradições por razões que nos deveriam fazer pensar.

O olhar do estrangeiro tem esta vantagem. Suas palavras, sabe-se lá, nos dão uma pista sobre coisas com as quais não deveríamos, definitivamente, ter nos habituados em nossa vida republicana.

Antibolsonarismo ameaça derrotar Flávio, como o antipetismo derrotou Haddad

Perito da PF foi “contratado” por Vorcaro para anular a apuração do caso Master

Conversas de Moraes com Vorcaro foram vazadas pelo perito

Carlos Newton

Há novidades em relação à reportagem do Estadão, publicada sexta-feira, dia 3, sobre a investigação envolvendo o perito João Cláudio Nabas, da Polícia Federal, que produziu em dezembro dois vídeos sobre as conversas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, que incriminam os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Em maio, a PF afastou o servidor João Cláudio Nabas, especialista em crimes financeiros, que foi identificado como autor dos vazamentos sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Mas agora surgem informações de que está havendo corporativismo na PF, que abriu apenas processo administrativo contra o perito, embora o caso seja tão grave que requeira também inquérito policial.

MAIS SUBORNO – Ouvidas pela Tribuna da Internet no final de semana, fontes da própria Polícia Federal revelaram que o caso precisa ser apurado mais profundamente, porque há fortes evidências de que o perito João Nabas teria sido subornado pela quadrilha liderada por Vorcaro.

As suspeitas surgiram porque o servidor, lotado em Vilhena (Rondônia), adotou um comportamento  afrontoso, como se quisesse ser identificado como autor do vazamento de informações.

Ao invés de agir dissimuladamente, João Cláudio Nabas fez o contrário. Sugeriu a vários policiais da PF que fizessem o vazamento, ninguém aceitou e ele então enviou as informações usando o próprio computador da agência. Ou seja, agia como se quisesse ser apanhado, o que rapidamente acabou acontecendo.

SERVIDOR EXEMPLAR – Com 20 anos de atuação na Polícia Federal, João Cláudio Nabas era considerado um servidor exemplar. Especialista na investigação de crimes financeiros e fraudes previdenciárias, ele atuava como professor em cursos promovidos pela própria PF.

Jamais houve caso semelhante na corporação. Sempre que algum servidor, agente ou delegado federal se corrompia, invariavelmente tentava esconder de todas as formas os crimes cometidos. Mas o perito fez exatamente o contrário.

A situação está ainda mais estranha, porque a PF não aprofundou a investigação e até agora não apurou se Nabas recebeu suborno de Vorcaro para tumultuar o caso Master, como aconteceu na Lava Jato, cujos réus tiveram as condenações anuladas e os empresários corruptos até receberam de volta muitos bilhões de reais em recursos públicos que haviam desviado.

SEM PUNIÇÃO – Embora o vazamento seja uma falta grave, se não houver amplo processo judicial a punição do perito limitar-se-á à demissão, por quebra de confiança e violação de dever funcional. Desse jeito, não há a menor possibilidade de prisão, pois será enquadrado apenas no art. 325 do Código Penal (“Revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que deva permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelação“).

A condenação máxima é de dois anos de detenção, a serem cumpridos em liberdade, por se tratar de e pena inferior a quatro anos, além de ser réu primário. com bons antecedentes,

No caso da Lava Jato, a operação foi tumultuada e desfeita também com base em provas ilícitas, extraídas em gravações feitas pelo hacker Walter Delgatti Neto, que invadiu ilegalmente os celulares de autoridades, incluindo o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da operação. E agora, sete anos depois, o caso do Banco Master passou a correr o mesmo risco, devido a esse vazamento proposital de provas montadas pelo perito.

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P.S.
Os ministros Moraes e Toffoli sonham em repetir no caso Master o mesmo esquema de impunidade adotado na Lava Jato, que destruiu a maior operação contra corrupção já feita no mundo. Desta vez, porém, há uma diferença – o relator é André Mendonça e a presidência do julgamento, na Segunda Turma, estará a cargo de Luiz Fux. Amanhã, voltaremos ao palpitante assunto, que é mais importante do que a eleição presidencial. (C.N.)

Esposa de Ramagem se afasta da Procuradoria para concorrer nas eleições

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Dino se antecipa a Mendonça em investigação sobre o filme de Bolsonaro

Prisão domiciliar alivia aliados de Bolsonaro, que temem o isolamento político dele

Flávio Bolsonaro vai aos EUA para audiência sobre novo tarifaço

Governo americano deve publicar decisão até dia 15 

Cristiane Noberto
Jussara Soares
CNN

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) embarcou na noite deste sábado (4), pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, para Washington nos Estados Unidos. O parlamentar participa, na próxima terça-feira (7), de uma audiência pública promovida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, na sigla em inglês), órgão responsável pela investigação comercial aberta contra o Brasil.

Flávio será um dos expositores no segundo e último dia de debates sobre a possibilidade de imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A manifestação do senador está prevista para às 10h no horário de Washington (11h em Brasília).

NEGOCIAÇÃO – Segundo o parlamentar, a intenção é defender que a sobretaxa não seja implementada e pedir que os dois países busquem uma solução negociada para o impasse comercial. Na avaliação de Flávio, a medida prejudicaria exportadores e consumidores brasileiros e poderia fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Antes da viagem, o senador encaminhou ao USTR um documento de 86 páginas em que pede a suspensão do chamado tarifaço e solicita que o Pix fique fora da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. A decisão do governo americano sobre a adoção ou não da tarifa é esperada até o dia 15 de julho.

Além de Flávio Bolsonaro, a audiência contará com a participação de Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), que falará em nome da CNI (Confederação Nacional da Indústria), da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional).

Aliadas tentam equilibrar apoio a Michelle e a Flávio Bolsonaro

“Não sei que intensa magia teu corpo irradia, que me deixa louco assim, mulher…”

Astros em Revista: SADI CABRAL - COADJUVANTE DE OURO

Cabral, em cena com Regina Duarte na televisão

Paulo Peres
Poemas & Canções

Sadi Cabral, grande ator e compositor

O ator e compositor alagoano Sadi Sousa Leite Cabral (1906-1986) e seu parceiro Custódio Mesquita imploram o amor de uma certa mulher, tendo em vista a beleza mágica que o corpo dela irradia.

Este clássico fox-canção foi gravado por Silvio Caldas, em 1940, pela RCA Victor.

MULHER
Custódio Mesquita e Sadi Cabral

Não sei que intensa magia
teu corpo irradia,
que me deixa louco assim, mulher.

Não sei, teus olhos castanhos,
profundos, estranhos,
que mistério ocultarão, mulher.

Não sei dizer,
mulher, só sei que sem alma
roubaste-me a calma
e aos teus pés eu fico a implorar.
O teu amor tem um gosto amargo
e eu fico sempre a chorar nesta dor
por teu amor, por teu amor, mulher.

Estratégia de Flávio para conter impacto do tarifaço acaba fortalecendo visão de Lula

Flávio Bolsonaro tem ataque de ‘sincericídio’

Julia Duailibi
G1

A carta enviada por Flávio Bolsonaro (PL) às autoridades americanas tende a causar mais prejuízos do que benefícios à sua estratégia política. Ao pedir que um eventual tarifaço sobre produtos brasileiros seja adiado para depois das eleições, o senador expõe uma articulação que joga contra os interesses do próprio país.

A principal falha da carta está em antecipar publicamente uma estratégia de negociação. Em qualquer processo desse tipo, revelar previamente a intenção de negociar reduz o poder de barganha. Além disso, ao sinalizar que a discussão sobre as tarifas deveria ficar para depois do pleito, Flávio deixa explícita a preocupação com os impactos eleitorais da medida.

“SINCERICÍDIO” – Há um trecho considerado um “sincericídio” político, ao admitir que o objetivo não seria encerrar definitivamente o tarifaço, mas apenas adiar sua implementação. Essa posição reforça a percepção de que a preocupação central é evitar desgaste eleitoral, e não solucionar o impasse comercial.

A carta acaba favorecendo, indiretamente, a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O documento transmite a mensagem de que as tarifas estariam beneficiando o adversário político e sugere um pedido de intervenção para alterar esse cenário.

Outro ponto de destaque é a relação entre o tarifaço e a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro. Embora aliados neguem qualquer vínculo entre os dois temas, o deputado federal Eduardo Bolsonaro comemorou o anúncio das tarifas e participou de articulações nos Estados Unidos em defesa de sanções, o que enfraquece esse argumento.

Presidente do STM quer rever Lei da Anistia e pede perdão pelos erros da ditadura

Disputa de R$ 615 milhões do Fundo Eleitoral coloca Edinho contra a bancada do PT

O custo da falta de sincronização no combate ao crime organizado no país

PF teve de antecipar a Operação Exchange

Pedro do Coutto

A declaração do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, de que uma sanção aplicada pelos Estados Unidos acabou prejudicando uma operação brasileira contra um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) transcende o episódio policial e revela um fenômeno cada vez mais frequente: a crescente sobreposição entre decisões de política internacional e investigações conduzidas por autoridades nacionais.

O caso demonstra que, na era da criminalidade globalizada, cooperação internacional e sincronização institucional tornaram-se tão importantes quanto inteligência policial e capacidade operacional. Segundo a Polícia Federal, a Operação Exchange vinha sendo preparada havia meses para desarticular uma sofisticada rede de movimentação financeira suspeita de lavar recursos provenientes do narcotráfico internacional.

FLUXO BILIONÁRIO – A investigação identificou um fluxo bilionário de operações envolvendo criptomoedas, transporte de dinheiro em espécie, empresas de fachada e complexas transações bancárias. Entretanto, a divulgação antecipada das sanções norte-americanas contra um dos principais investigados obrigou a PF a antecipar o cumprimento dos mandados, alterando o cronograma originalmente planejado. O resultado foi a prisão de parte dos envolvidos, mas também a fuga do empresário apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema.

O episódio ilustra uma característica das investigações contemporâneas: o fator surpresa continua sendo um dos ativos mais valiosos das operações contra organizações criminosas. Redes especializadas em lavagem de dinheiro possuem elevado grau de profissionalização, monitoram constantemente movimentações institucionais e reagem rapidamente a qualquer sinal de exposição.

Quando uma informação estratégica se torna pública antes da execução das medidas judiciais, abre-se uma janela suficiente para destruição de provas, ocultação de patrimônio e evasão dos principais alvos. Não se trata apenas de prender suspeitos, mas de preservar a efetividade de meses — às vezes anos — de trabalho investigativo.

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL – Ao mesmo tempo, seria simplista interpretar o episódio como um conflito entre Brasil e Estados Unidos. A cooperação internacional no combate ao crime organizado é hoje indispensável, especialmente diante de organizações que movimentam recursos em diversos países e utilizam sistemas financeiros espalhados pelo mundo.

Sanções econômicas, bloqueio de ativos, troca de inteligência e investigações conjuntas são instrumentos legítimos e frequentemente decisivos para atingir organizações criminosas transnacionais. O problema não está na existência desses mecanismos, mas na necessidade de maior coordenação entre autoridades que compartilham objetivos semelhantes.

O próprio PCC deixou há muito tempo de ser uma organização restrita ao sistema penitenciário brasileiro. As investigações conduzidas ao longo dos últimos anos mostram uma estrutura empresarial sofisticada, capaz de operar cadeias internacionais de lavagem de dinheiro, utilizar plataformas digitais, movimentar criptomoedas e criar empresas aparentemente legais para dissimular recursos ilícitos.

INTEGRAÇÃO – Combater uma organização com esse grau de complexidade exige integração permanente entre polícias, órgãos financeiros e autoridades estrangeiras, mas também protocolos rígidos sobre o momento adequado para tornar públicas determinadas medidas.

A manifestação pública do diretor-geral da Polícia Federal também chama atenção por reconhecer, de forma transparente, que fatores externos podem influenciar diretamente o resultado de operações policiais. Em vez de atribuir o insucesso parcial apenas à capacidade dos investigados, a declaração evidencia que decisões tomadas em diferentes jurisdições podem produzir efeitos inesperados sobre ações cuidadosamente planejadas.

É uma demonstração de como o combate ao crime organizado passou a depender não apenas da competência das instituições nacionais, mas da qualidade da coordenação entre governos que compartilham interesses na repressão às mesmas organizações.

EFEITO COLATERAL  – Esse episódio ainda oferece uma reflexão importante sobre governança internacional. Em um ambiente de criminalidade financeira globalizada, a eficácia das ações depende tanto do compartilhamento de informações quanto da administração criteriosa do tempo. Divulgar uma sanção financeira pode ser essencial para bloquear ativos e impedir novas operações ilícitas; contudo, se isso ocorrer antes da execução simultânea das medidas policiais, o efeito colateral pode ser justamente facilitar a evasão dos principais investigados. O desafio está em harmonizar transparência, cooperação e eficiência operacional sem comprometer nenhum desses objetivos.

Mais do que um incidente isolado, o caso revela uma nova realidade do combate ao crime organizado internacional. As fronteiras entre segurança pública, inteligência financeira e política externa tornam-se cada vez mais tênues, exigindo mecanismos de coordenação muito mais sofisticados do que aqueles concebidos para uma criminalidade essencialmente doméstica.

O sucesso das grandes operações do futuro dependerá menos da capacidade de agir isoladamente e cada vez mais da habilidade dos Estados em sincronizar decisões, preservar o sigilo estratégico e transformar a cooperação internacional em uma vantagem operacional, e não em um fator de risco para as próprias investigações.