Redução da jornada de trabalho e o novo desafio político do governo Lula

Proposta permitirá mais qualidade de vida ao trabalhador

Pedro do Coutto

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate nacional e, desta vez, com forte potencial de impacto político, econômico e social. A proposta de emenda constitucional que prevê a diminuição da carga semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, representa uma das medidas de maior apelo popular em análise no Congresso Nacional nos últimos anos.

Em um ambiente pré-eleitoral, o tema oferece ao governo do presidente Lula da Silva uma bandeira social poderosa, capaz de dialogar diretamente com milhões de trabalhadores submetidos a jornadas extensas, especialmente em setores de comércio, serviços e indústria.

PERÍODO DE TRANSIÇÃO – A proposta relatada na Câmara estabelece um período de transição de 14 meses para adaptação das empresas e fixa prazo de 60 dias para regulamentação após eventual promulgação da PEC. O texto também mantém os salários integrais, evitando perda de renda dos trabalhadores e reforçando o caráter social da medida.

Politicamente, poucos temas conseguem reunir simultaneamente forte aderência popular, discurso social e simbolismo trabalhista como a redução da jornada. O governo percebe isso claramente. Desde 2025, o Palácio do Planalto vem sinalizando apoio gradual à revisão do atual modelo de trabalho, inclusive reduzindo para 40 horas semanais a carga de milhares de trabalhadores terceirizados da administração federal.

A medida dialoga com uma transformação silenciosa do mercado de trabalho global. Em diversos países, governos e empresas passaram a discutir produtividade associada à qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Testes realizados na Europa e em partes da Ásia indicaram que jornadas menores não significam necessariamente queda de produtividade. Em muitos casos, houve aumento de eficiência, redução de afastamentos e melhora nos índices de satisfação dos funcionários.

COMPLEXIDADES – No Brasil, porém, o debate possui complexidades próprias. Especialistas em relações trabalhistas avaliam positivamente a existência de um período de transição justamente para evitar impactos abruptos sobre pequenas e médias empresas, especialmente aquelas intensivas em mão de obra. O texto busca criar uma implementação escalonada, permitindo reorganização operacional, revisão de escalas e adaptação contratual.

Há também preocupação legítima de setores empresariais com aumento de custos. Segmentos ligados ao varejo, alimentação, logística e serviços sustentam que a redução da jornada poderá exigir contratação adicional de pessoal ou ampliação de turnos. Em contrapartida, sindicatos argumentam que o modelo atual, especialmente em regimes próximos da escala 6×1, tornou-se socialmente desgastante e incompatível com padrões modernos de qualidade de vida.

Outro fator importante é que a proposta atinge majoritariamente trabalhadores de renda média e baixa. A ressalva prevista para salários acima de R$ 21 mil mensais alcança parcela muito pequena do mercado formal — algo inferior a 3% dos assalariados brasileiros, segundo estimativas discutidas durante a tramitação da matéria. Isso amplia ainda mais o alcance popular da medida e reduz resistências políticas mais amplas.

ANÁLISE PELO SENADO – Mesmo com ambiente favorável, o Senado ainda precisará analisar a PEC. A tendência predominante, contudo, é de aprovação, ainda que com possíveis ajustes de redação e negociação sobre regras de implementação. Nenhum grupo político deseja assumir o custo de se posicionar frontalmente contra uma proposta percebida por grande parte da população como melhoria direta das condições de vida.

O tema também produz um reposicionamento ideológico relevante. Durante décadas, reformas trabalhistas no Brasil estiveram associadas sobretudo à flexibilização de direitos e ampliação de mecanismos de adaptação empresarial. Agora, pela primeira vez em muitos anos, o centro da discussão passa a ser a redução efetiva da jornada sem perda salarial — uma inversão simbólica importante no debate econômico nacional.

Há ainda um componente eleitoral impossível de ignorar. Em um cenário de disputa polarizada, a pauta oferece ao governo um discurso concreto, de fácil compreensão popular e com forte capacidade de mobilização social. Diferentemente de debates técnicos sobre arcabouço fiscal, juros ou reforma tributária, a redução da jornada toca diretamente o cotidiano do trabalhador comum. É um tema que entra na casa das pessoas, altera rotinas familiares e produz identificação imediata.

SEGURANÇA ECONÔMICA – O desafio do governo será transformar o ganho político inicial em segurança econômica e previsibilidade regulatória. Caso consiga equilibrar proteção ao trabalhador e adaptação empresarial, a proposta poderá se tornar uma das marcas sociais mais relevantes do atual mandato presidencial.

Mais do que uma simples alteração na legislação trabalhista, a discussão revela uma mudança mais profunda no imaginário político brasileiro: a ideia de que desenvolvimento econômico não pode mais ser medido apenas pelo crescimento do PIB, mas também pela capacidade de oferecer tempo, qualidade de vida e dignidade ao trabalhador.

Crise com Vorcaro afasta União Brasil e PP de aliança com Flávio Bolsonaro

Tendência hoje é de neutralidade dos partidos

Fábio Zanini
Folha

Dirigentes da federação formada por União Brasil e PP consideram improvável o apoio formal à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), após a divulgação de detalhes sobre a relação dele com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo um cacique, a tendência hoje é a federação ficar neutra na disputa, mas o martelo só será batido mais próximo do prazo de convenções, que se inicia em 20 de julho. Muito dependerá do surgimento de novos fatos que aumentem o desgaste do senador.

FORÇA DE LULA – Contribui também para isso a força de Lula em estados do Norte e Nordeste, que prejudicaria candidatos dos dois partidos nessas regiões em caso de coligação. Antes do vazamento das mensagens, União e PP estavam próximos de fechar apoio a Flávio, inclusive com a discussão sobre nomes para vice. Eram mencionados, por exemplo, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP).

Dentro da federação, há muito incômodo com a postura de Flávio, que não revelou a existência de conversas com o banqueiro e ainda criticou quem tinha relação com ele. Se União e PP desistirem da aliança com Flávio, a tendência é que ele saia candidato apenas com apoio do PL, uma vez que Republicanos e MDB também devem ficar neutros.

Governantes prostituem o Brasil, um país que doa as terras raras e outras riquezas

Charge mostra Luiz Inácio como cão submisso oferecendo “terras raras do Brasil” a Trump, caricaturado como criança mimada, que exige: “Eu querou seus riqueizas”.

Charge do Artie (Arquivo Google)

Ronaldo Lemos
Folha

Nosso país dá aulas para o mundo sobre como abrir mão do desenvolvimento. O caso dos minerais críticos é um exemplo. Em 1940, chegou ao Brasil o russo Boris Davidovitch. Seu objetivo era explorar monazita nas areias de Guarapari (ES). Em um ano ele dominaria completamente esse mercado de forma predatória, deixando um rastro de destruição.

Davidovitch destruiu cerca de 70 km de praias, incluindo restingas. Montou uma operação de evasão fiscal em que vendia para si mesmo, jogando o preço e os impostos para valores irrisórios. Foi acusado de subornar juízes e desembargadores, de usar trabalho escravo e de continuar exportando clandestinamente mesmo quando suas atividades foram proibidas.

US$ 227 BILHÕES – Em 1954 o prefeito de Guarapari lhe deu uma bofetada na cara. Seu sucessor declarou: “Nasci e me criei aqui. Nunca vi esse homem fazer qualquer coisa em benefício dessa terra”. Em 1956, foi aberta uma CPI onde ele foi intimado a depor.

Tudo isso não serviu para nada. A predação ao Brasil lhe rendeu US$ 227 bilhões. Ele morreu bilionário em Paris em 1960. Após sua morte, seus funcionários enterraram o maquinário da empresa na areia e queimaram todos os documentos.

O que sobrou de monazita extraída em Guarapari foi levado para o bairro do Brooklin em São Paulo, processado pela Orquima e, depois de 1966, pela estatal Nuclemon. Depois da vergonha da monazita, o Brasil finalmente conseguiu dominar boa parte da cadeia de separação das terras raras. Era uma capacidade estratégica rara no mundo naquele momento. Essa capacidade foi desmantelada a partir de 1990 e o que sobrou para o país foram 11 toneladas de resíduo radioativo, apelidado de “Torta 2”. Essa “torta” foi enviada para Caldas (MG). E lá se encontra até hoje.

TERRAS RARAS – A monazita é uma das principais fontes de terras raras do planeta, incluindo o elemento radioativo tório, usado para fazer urânio-233. O problema é que ao ser exportada de forma bruta, seu valor é de banana: menos de US$ 10 por quilo. Com um mínimo de processamento, que o país não consegue mais fazer, o valor aumenta dez vezes: US$ 100 o quilo. Na sua forma final (óxido de térbio) o valor aumenta para US$ 1.000 o quilo.

Analisar a história da exploração da monazita no Brasil revela o tamanho do descaso do país com o desenvolvimento. A monazita brasileira é hoje cobiçada no mundo todo por causa das terras raras. Só que, como toda a capacidade de processamento local foi perdida, o valor agregado é todo gerado no exterior.

TUDO DE NOVO – E o mais irônico: após décadas sem vender monazita bruta por conta da vergonha do passado, o Brasil voltar a exportar monazita bruta nesse ano a partir do Rio de Janeiro, repetindo mais uma vez a história.

O país fica com os buracos, e quem a compra e processa fica com os bilhões de valor agregado. Tudo isso poderia não ser assim. O país teve vozes na história que buscaram refundar nossa política mineral, como o almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, o próprio Juscelino Kubitschek ou o professor Diógenes Moura Breda, da Universidade Federal de Uberlândia.

Seus artigos recentes demolem a lei sobre terras raras em tramitação no Congresso Nacional, que ele chama de “erro estratégico”. Seus escritos merecem atenção.

Possibilidade de “absolver” Bolsonaro gera mais uma crise entre ministros do STF

Discreto sem ser omisso: o estilo de Fachin no julgamento da tentativa de golpe - PlatôBR

Edson Fachin reagiu contra o lobby do grupo de Moraes e Gilmar

Carlos Newton

Desta vez, a crise que atinge o Supremo Tribunal Federal é tão grave que nenhum dos ministros faz comentários. O  desentendimento ocorre exclusivamente nos bastidores e seu desfecho será importantíssimo na política brasileira, porque pode ocorrer exatamente às vésperas das eleições presidenciais, devendo influir em seu resultado.

O motivo da cisão é o próximo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja defesa apresentou um processo de revisão criminal que pode absolvê-lo, embora a maioria absoluta dos ministros do STF não aceite essa possibilidade.

7 VOTOS A 3 – Liderado por Alexandre de Moraes, o grupo de partidários da condenação de Bolsonaro era integrado por Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin, que enfrentaram Luiz Fux, Nunes Marques e André Mendonça. Assim, até agora a condenação do 8 de Janeiro no Plenário teve o placar de 7 votos a 3 no Plenário e de 4 a 1 na Primeira Turma.

Essa situação ocorre porque os réus processados em 2023, antes da mudança nas regras regimentais, são julgados pelo Plenário, enquanto os demais estão sendo julgados na Primeira Turma, como aconteceu com Bolsonaro.

Mas agora houve uma dissidência, e placar no Plenário pode passar a 6 a 4, porque o presidente Edson Fachin decidiu obedecer às novas regras do Regimento e determinou que o novo processo de Bolsonaro tramite na Segunda Turma.

REGRAS ATUAIS – Fachin agiu corretamente. As normas antigas atribuíam ao Plenário a competência para julgar presidente, ministros, parlamentares etc., mas as regras atuais só preveem julgamento no Plenário quando eles ainda estão no exercício do cargo. Justamente por isso, Bolsonaro foi julgado pela Primeira Turma e não pelo Plenário. E a revisão, portanto, agora tem de ser feita pela Segunda Turma.

Diz o artigo 263: “Será admitida a revisão, pelo Tribunal, dos processos criminais findos, em que a condenação tiver sido por ele proferida ou mantida no julgamento de ação penal originária ou recurso criminal ordinário”.

Notem que o Regimento,  quando cita “Tribunal”, o Regimento está se referindo a “Plenário”, conforme fica bem claro neste artigo, que a facção de Moraes e Gilmar tenta desconhecer.

ERRO NO SITE DO STF – Exatamente por isso, quando foi apresentada a revisão criminal, o grupo a favor da condenação de Bolsonaro “plantou” no site do Supremo a informação de que o julgamento do ex-presidente ocorreria no Plenário, onde ele seria inevitavelmente derrotado.

Como toda informação publicada pelo site do STF é considerada “oficial”, a imprensa praticamente inteira repetiu a informação falsa e anunciou que Bolsonaro agora será julgado no Plenário.

Apenas a Tribuna da Internet, a Carta Capital, em matéria de Leonardo Miazzo, e a Agência Brasil, em reportagem de André Richter, informaram corretamente que a análise da revisão criminal caberá à Segunda Turma, da qual fazem parte os ministros Luiz Fux, Nunes Marques, André Mendonça, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Ou seja, o placar previsto é de 3 a 2 a favor de Bolsonaro, e não cabe recurso ao plenário. 

OUVIDORIA DO STF = Diante dessa grotesca manipulação das normas regimentais no site do STF, no último dia 16 a Tribuna da Internet tomou a iniciativa de denunciar o caso à Ouvidoria do Supremo,  pedindo que a informação falsa seja retirada do site da instituição.

Como até hoje isso não aconteceu, os repórteres e analistas da grande imprensa continuam achando que Bolsonaro será julgado no Plenário. Mas isso não acontecerá, porque o presidente Edson Fachin, ao reagir contra a manobra do grupo de Moraes e Gilmar, determinou o sorteio eletrônico entre os ministros da Segunda Turma, e Nunes Marques foi escolhido relator.

Essa decisão de Fachin confirma que o julgamento não será no Plenário, porque não houve sorteio de ministro-revisor. Em todo julgamento do Plenário é obrigatório haver revisor, uma função que não existe na Segunda Turma nem na Primeira. Por isso, a crise está em curso nas entranhas do Supremo, e Moraes, Gilmar & Cia. vão reagir duramente contra Fachin.

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P.S.
1 – A evolução desse racha institucional vai depender da resposta da Ouvidoria. Caso seja confirmada a informação falsa, será sinal de que Fachin fraquejou e está aceitando descumprir as regras em vigor, para garantir a condenação ilegal de Bolsonaro no Plenário.

P.S. 2 – Cabe aqui uma observação. A Tribuna da Internet não está a serviço de Bolsonaro, Lula ou qualquer outro político. Apenas fazemos questão de defender que todo cidadão seja processado e julgado na forma da lei, sem haver perseguição ou favorecimento, como é exigido pelas normas da democracia. (C.N.)

CGU convoca informante da PF em investigação que envolve Lulinha e Careca do INSS

De aposta presidencial a risco político: Flávio Bolsonaro vira foco de tensão no PL

Moraes quer incluir Flávio e Bolsonaro em investigação ligada a “Dark Horse”

Afinal, o que significa o fato de Flávio ter sido recebido por Donald Trump?

Flávio Bolsonaro se encontra com Trump na Casa Branca - 26/05/2026 -  Política - Folha

Flávio Bolsonaro imitou Lula e foi tirar fotos com Trump

Vicente Limongi Netto

Meus botões perguntam: qual a importância de Flávio Bolsonaro se por acaso foi recebido por Donald Trump? Rigorosamente nenhuma. Trump não vota no Brasil e já percebeu que Jair Bolsonaro e o filho fujão, Eduardo, são cartas fora do baralho, assim como o pai deles, golpista condenado e preso

O candidato ao Senado, em São Paulo, de quem Eduardo pretende ser suplente, está longe dos primeiros colocados nas pesquisas. De mais a mais, a vigilante embaixada dos Estados Unidos certamente já mandou para Trump os áudios nada republicanos do candidato Flávio Bolsonaro com o meliante do Master, Daniel Vorcaro. E todos os dias aparece mais lama ligando o rachadinha ao fraudador Vorcaro.

ALTOS INTERESSES – Tolice achar que Trump tratou bem Lula por causa da tal “boa química” entre eles. Os interesses de Trump estão acima de qualquer coisa. O presidente norte-americano sabe que só com a eleição de um extremista da direita ele poderá dominar e fazer do Brasil um país subserviente.

Todos os elogios a Lula são porque Trump precisa do Brasil. E, na marra, viu que não conseguiria nada. Aos poucos o Brasil está se reabilitando das destruições que Bolsonaro fez ao Brasil e aos brasileiros. 

Mensagens no celular de Vorcaro colocam Cláudio Castro no centro de operação da PF

PF fala em indícios de ‘coautoria’ de Castro em crimes

Deu no G1

A Polícia Federal (PF) chegou ao ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, a partir de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso na “Operação Compliance Zero” e dono de um aparelho celular com conteúdo que tem rendido seguidas operações sobre o caso Master.

No caso desta terça-feira (26) em que Castro foi alvo de buscas, a PF encontrou mensagens que permitiam confirmar encontros entre os dois. Além disso, a condição principal que levou à operação desta manhã: a necessidade de alinhamento político com Castro para concretizar uma interferência indevida no Rioprevidência e, assim, viabilizar um repasse de mais de R$ 3 bilhões ao Master.

INDÍCIOS – A PF encontrou indícios contra o ex-governador quando procurava provas de outros assuntos, ou seja, foi um encontro fortuito, como se chama tecnicamente. “A autoridade policial informa que a presente investigação decorre de encontro fortuito de prova obtido a partir da análise do aparelho celular apreendido com Daniel Vorcaro, no bojo da Operação Compliance Zero”, diz a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que reproduz trechos da investigação da Polícia Federal.

“E que, a partir desse material, teriam emergido indícios de crimes praticados em coautoria com o ex-governador do Rio de Janeiro e outros agentes públicos e privados”, completa Mendonça. As investigações apontaram que Castro e Vorcaro se encontravam e, em seguida, havia indícios de ordem de liberação de dinheiro para o Master.

“A representação aponta sincronismo entre encontros mantidos entre ambos e os aportes financeiros subsequentes do RPPS [Regime Próprio de Previdência Social], além de conversas encontradas no celular de Vorcaro indicando que a liberação de determinados investimentos dependia de alinhamento político com o ex-chefe do Executivo estadual”, diz o documento.

CRONOLOGIA –  A decisão aponta que as mensagens permitiram a fazer a cronologia das suspeitas e a relação entre os encontros de Castro com Vorcaro e os aportes no Master. “O fumus commissi delicti [a fumaça da prática de um crime] está presente. Segundo a Polícia Federal, o acervo até aqui reunido inclui mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, a reconstituição da cronologia de encontros e aportes, os documentos administrativos do RioPrevidência, os registros de credenciamento”, elenca o ministro.

E prossegue: “as referências de auditorias do TCE/RJ [Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro] e da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social, além de elementos que indicam decisões sucessivas em desconformidade com a política de investimentos, com a regulação prudencial e com os deveres de diligência dos gestores. No presente estágio das investigações, tais dados superam largamente a mera conjectura.”

Governo e STF discutem resposta à ofensiva judicial americana contra Moraes

Crise “Dark Horse” força Flávio Bolsonaro a mudar comunicação da pré-campanha

Pré-campanha de Flávio escolhe marqueteiro de Tebet

Luísa Marzullo
O Globo

Após semanas de desgaste provocadas pela crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o filme “Dark Horse”, a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escolheu o jornalista e marqueteiro Alexandre Oltramari para assumir o comando da comunicação e do marketing político do senador. A definição ocorreu nesta segunda-feira, em Brasília, durante reunião da cúpula da campanha coordenada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN).

Flávio não participou das tratativas porque viajou aos Estados Unidos. Ele tenta se encontrar nesta terça-feira com o presidente norte-americano Donald Trump. O encontro marcou a primeira reunião formal do novo núcleo de comunicação após a saída do publicitário Marcello Lopes, o Marcelão, do comando da estratégia eleitoral do senador. Flávio não participou porque está nos Estados Unidos.

NOVA EQUIPE – Além de Oltramari, a campanha também oficializou a entrada do publicitário Eduardo Fischer como consultor estratégico da comunicação da pré-candidatura. Fischer ficará responsável pelas diretrizes políticas, posicionamento público e estratégia macro da campanha, enquanto Oltramari comandará a operação diária de comunicação e marketing eleitoral.

Nos bastidores do PL, a reformulação é tratada como uma tentativa de “tirar Flávio das cordas” após semanas de desgaste provocadas pelo caso Vorcaro. Integrantes da campanha admitem reservadamente que a sucessão de revelações sobre a relação do senador com o fundador do Banco Master produziu danos políticos mais profundos do que o inicialmente previsto e obrigou a pré-campanha a rever sua estratégia de comunicação.

A avaliação interna é que o episódio atingiu justamente um dos pilares que o entorno de Flávio tentava consolidar para 2026: a imagem de estabilidade, previsibilidade e capacidade de diálogo político do senador. O temor hoje dentro do PL é que a crise passe a contaminar a percepção de competitividade eleitoral da candidatura, especialmente junto a setores do mercado financeiro e empresários que vinham sendo cortejados pela campanha.

NOVA ROTA – A reunião desta segunda-feira teve justamente o objetivo de começar a desenhar uma nova rota para a pré-campanha. Segundo interlocutores ouvidos reservadamente, o grupo discutiu mudanças na estratégia de exposição pública de Flávio, reforço da comunicação digital, reorganização do discurso político e formas de reagir ao impacto causado pela crise do “Dark Horse”.

Oltramari chega à campanha carregando um perfil considerado valioso por aliados de Flávio: reúne experiência em jornalismo político investigativo e marketing eleitoral. Antes de atuar em campanhas, construiu carreira em Brasília como repórter especial da Folha de S.Paulo e do Correio Braziliense e passou mais de uma década como editor de Política da revista Veja.

USO POLÍTICO – Ele ganhou projeção especialmente após a reportagem publicada em 2006 sobre o enriquecimento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este conhecimento sobre Lulinha deve ser usado na campanha.

Depois de deixar o jornalismo, Oltramari migrou para o marketing político. Sua estreia ocorreu em 2010, na campanha vitoriosa de Marconi Perillo ao governo de Goiás. Posteriormente, participou da pré-campanha presidencial de Aécio Neves e acumulou campanhas consideradas bem-sucedidas eleitoralmente.

Entre os trabalhos mais citados por aliados do PL estão a campanha de Simone Tebet ao Senado em 2014 e as duas campanhas vitoriosas de Wilson Lima ao governo do Amazonas, em 2018 e 2022. Oltramari também mantém relação próxima com Eduardo Fischer, novo consultor estratégico da campanha de Flávio. Os dois trabalham juntos desde 2018, quando integraram a campanha presidencial de Álvaro Dias.

Escândalo do filme sobre Bolsonaro amplia o cerco contra Mário Frias

O significado dúbio das palavras, na visão poética de Malú Mourão

Ilustração reproduzida no Arquivo Google

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, explora poeticamente o significado dúbio das palavras que norteiam o destino de cada um de nós,

PALAVRAS
Malú Mourão

Ah, palavras!…
Palavras de amor,
Palavras de dor…

Ah, palavras!…
Palavras de encanto,
Palavras de espanto…

Ah, palavras!…
Palavras de paixão,
Palavras de traição…

Ah, palavras!…
Palavras escritas,
Palavras ditas…

Ah, palavras!..
De amor?
Ou dor?
De encanto?
Ou espanto?
De paixão?
Ou traição?
Escritas?
Ou ditas?

Palavras surgidas
Que revelam o saber,
De almas incontidas
Buscando viver!…

Operação da PF contra o ex-governador Cláudio Castro aprofunda escândalo envolvendo Banco Master

Valdemar contradiz Flávio ao relatar tentativa de obter novos repasses para “Dark Horse”

Flávio busca foto com Trump para conter desgaste da crise do Banco Master

A sucessão, entre a jornada 6×1 e a polarização eleitoral

Proposta discutida em diálogo com Motta ganhou força

Pedro do Coutto

O governo do presidente Lula da Silva acelera, nos bastidores de Brasília, uma articulação considerada estratégica para tentar consolidar uma das pautas trabalhistas de maior apelo popular dos últimos anos: a revisão do modelo de jornada conhecido como “6×1”, em que o trabalhador atua seis dias para descansar apenas um. A proposta, discutida por aliados do Palácio do Planalto em diálogo com o presidente da Câmara, Hugo Motta, ganhou força nas últimas semanas e pode se transformar em uma Proposta de Emenda à Constituição com forte potencial eleitoral.

A movimentação revela mais do que uma simples tentativa de modernização das relações de trabalho. Ela simboliza a busca do governo por uma agenda social capaz de reconectar Lula às classes trabalhadoras urbanas em um momento em que a polarização política continua dominando o ambiente nacional. A lógica é simples: poucas bandeiras possuem tanto impacto simbólico quanto a promessa de mais qualidade de vida sem redução salarial.

ALTERNATIVAS – A discussão ainda está em fase preliminar, mas setores do Congresso já admitem alternativas que reduziriam a carga semanal para algo próximo de 40 horas, reorganizando a escala atual. O debate tende a encontrar resistência de parte do empresariado, sobretudo em setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços. Ainda assim, o cálculo político é evidente: dificilmente parlamentares desejarão assumir publicamente uma posição contrária a uma pauta apresentada como avanço trabalhista.

O tema também surge em meio à antecipação da corrida presidencial de 2028. Embora ainda distante formalmente, a disputa já influencia decisões do governo, do Congresso e dos partidos. Pesquisas recentes mostram um cenário de polarização consolidada entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas revelam igualmente um contingente relevante de eleitores indecisos — grupo que pode definir o rumo da próxima eleição.

Nesse ambiente, a avaliação predominante entre analistas políticos é de que Lula mantém vantagem relativa porque a fragmentação dos indecisos reduz a capacidade de crescimento imediato da candidatura bolsonarista. Além disso, aliados do senador Flávio Bolsonaro enfrentam o desgaste provocado por associações políticas consideradas sensíveis, especialmente após repercussões envolvendo Daniel Borchara, episódio que atingiu setores conservadores e ampliou questionamentos sobre alianças e coerência discursiva.

RADICALISMO – Enquanto isso, os Estados Unidos seguem funcionando como laboratório político e ideológico para setores da direita global. O radicalismo crescente de movimentos alinhados ao trumpismo continua produzindo repercussões internacionais. Grupos ultraconservadores voltaram a defender pautas extremas e incompatíveis com os fundamentos democráticos modernos, incluindo ataques históricos aos direitos políticos das mulheres — uma conquista civilizatória consolidada ao longo do século XX.

O fenômeno ajuda a explicar por que o debate democrático passou a ser tratado não apenas como uma disputa eleitoral, mas como um confronto entre modelos de sociedade. O slogan “Make America Great Again”, de Donald Trump, transcendeu a política americana e passou a influenciar correntes ideológicas em diversos países, inclusive no Brasil. O problema é que, em muitos casos, o nacionalismo conservador deixou de ser apenas uma plataforma econômica ou moral e passou a incorporar discursos de exclusão institucional e relativização de direitos fundamentais.

CRIME ORGANIZADO – No Rio de Janeiro, outra crise aprofunda a sensação de deterioração institucional. Reportagens recentes apontam o fortalecimento da influência do Comando Vermelho em estruturas sociais e territórios urbanos dominados pelo crime organizado. O avanço de lideranças criminosas associadas a figuras históricas da facção reforça o diagnóstico de que o Estado enfrenta enormes dificuldades para recuperar áreas submetidas ao controle paralelo do tráfico.

A infiltração criminosa em diferentes escalas sociais tornou-se um dos maiores desafios da segurança pública brasileira. O problema deixou de ser apenas policial. Hoje, envolve economia informal, influência política local, domínio territorial e disputa simbólica dentro das comunidades. A criminalidade organizada passou a operar como estrutura de poder.

Paralelamente, outro dado preocupa especialistas em políticas públicas: o crescimento exponencial dos diagnósticos de transtornos do espectro autista nas escolas brasileiras. O aumento da demanda por acompanhamento especializado expõe a fragilidade estrutural da rede pública de ensino e evidencia um país ainda despreparado para lidar adequadamente com inclusão, acolhimento e suporte pedagógico especializado.

POLARIZAÇÃO – Mas talvez o debate mais delicado dos próximos anos esteja surgindo justamente na interseção entre política, tecnologia e manipulação digital. As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro intensificaram pressões sobre o Tribunal Superior Eleitoral para que a Corte adote regras mais rígidas contra conteúdos produzidos por inteligência artificial, especialmente vídeos manipulados capazes de associar candidatos a escândalos inexistentes ou distorcer declarações reais.

O tema ganhou dimensão global porque as chamadas deepfakes deixaram de ser uma ameaça futura. Elas já fazem parte da disputa política contemporânea. Em um cenário de hiperpolarização, vídeos falsos podem influenciar eleições, destruir reputações e ampliar radicalizações em questão de horas.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – Curiosamente, apesar da rivalidade política extrema, PT e PL convergem em um ponto: ambos reconhecem que a ausência de regulamentação clara sobre inteligência artificial representa risco direto à estabilidade democrática. Isso mostra que a guerra política brasileira entrou em uma nova etapa — menos centrada apenas em palanques e programas partidários e cada vez mais influenciada pela disputa algorítmica, pela manipulação emocional e pela circulação massiva de desinformação.

O Brasil vive, portanto, uma combinação complexa de transformações simultâneas: pressão por novos direitos trabalhistas, antecipação da sucessão presidencial, radicalização ideológica internacional, avanço do crime organizado e explosão tecnológica no ambiente eleitoral. São crises distintas, mas conectadas por um mesmo elemento: a dificuldade das instituições em responder com velocidade a uma sociedade que muda mais rápido do que a política consegue acompanhar.

Entre os salvadores da pátria, escolha o tipo que melhor se adaptaria a você

O único salvador da pátria - Blog do Ari Cunha

Charge do Zappa (humortadela.com)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Hoje, veremos se ainda temos fôlego para um breve exercício de ironia. Tentemos estabelecer uma pequena tipologia antropológica. O primeiro tipo já é um clássico, tratado por literatura especializada desde os anos 1990, mas, hoje, ramificou-se e ganhou musculatura acadêmica e tornou-se viral. Ponha a culpa de tudo nos outros.

Esses “outros” têm múltiplas faces. Os homens (brancos especialmente), o patriarcado, o neoliberalismo, a sociedade, as gerações mais velhas, o cristianismo. A lista tende ao infinito se você quiser eliminar qualquer responsabilidade sua nos seus problemas e do mundo à sua volta.

HÁ CINCO TIPOS – Nos tipos descritos em seguida, não há nenhuma tentativa de negar suas existências empíricas. No caso dos homens, há cinco tipos para o século 21, três negativos e dois positivos —qualquer tentativa de negar esse fato será vista como prova de que você se encaixa num dos três tipos negativos.

Esses tipos estão dentro do profundo debate que tem sido levado por “especialistas em homens” acerca das novas masculinidades e da necessidade de se discutir a masculinidade.

O tóxico, abusivo, que tortura a mulher psicologicamente. O violento que pratica violência física real contra a mulher. O machista estrutural, ou seja, aquele que nasce machista já desde o útero da mãe. Esses são negativos. Já os tipos positivos são: o feministo, mais feminista do que a própria feminista e o efeminado, o homem que parece e se comporta como uma mulher, que alguns, aliás, dizem estar na moda.

E AS MULHERES? – Quanto às mulheres, há as clássicas feministas, tipo positivo, e o negativo, as mulheres conservadoras, que são completamente opacas para as feministas. Se você não se encaixa num deles, procure ajuda profissional. Aliás, chama a atenção o empobrecimento da tipologia feminina nesse caso.

Quanto a preconceitos, há alguns que podem tornar você uma pessoa em dia com o nosso tempo. Considere os evangélicos como gente reacionária, bolsonarista e ignorante. O pior que aconteceu no Brasil nos últimos tempos. Outro preconceito para fazer de alguém um espécime bem contemporâneo é ser antissemita por razões decoloniais e anti-imperialistas.

Em matéria de geopolítica, louve o regime dos aiatolás. Releve a violência, a corrupção, os feminicídios por lá. Torça pelo Irã contra os Estados Unidos. Curta a China como o futuro político e econômico do mundo. Tenha um pôster do Xi Jinping no seu quarto ao lado do pôster do Lula.

OUTROS TIPOS – Um tipo essencial para nossa época é a pessoa que considera sua narrativa sexual, ou de gênero, o centro do universo. Esse tipo, se pudesse, colocaria em dúvida a teoria do heliocentrismo em favor da sua “gendercentrism theory”, e, assim, poderia narrar suas desventuras privadas como revoluções francesas pessoais.

Há o tipo que “evoluiu” do politicamente correto do final do século 20 para a prática de marketing da pluralidade no mundo corporativo. Esse tipo supõe que misturando “paradigmas de mundo”, por exemplo, ancestralidade indígena e inteligência artificial, chegará a um equilíbrio criativo.

No Brasil há alguns tipos peculiares —essa pequena tipologia se quer cosmopolita, mas os próximos tipos têm sabor nacional. Um primeiro é aquele que considera comunista todo mundo que não pensa como ele.

ROTA DE COLISÃO – Esse tipo, suspeito, poderá estar em rota de colisão com os manuais de como ser atual, porque sua matriz, Bolsonaro, parece condenada ao esquecimento. Ainda que, possivelmente, um resto poderá permanecer nas franjas do baixo clero.

Nesse movimento da revolução dos astros, a matriz desse tipo, Bolsonaro, correrá o risco de voltar à sua condição primeva de baixo clero irrelevante.

Há também o patriota de esquerda, que sonha com uma camisa da seleção brasileira vermelha. Esse tipo usa a palavra “soberania” com frequência para assuntos que, normalmente, não se usam, como, por exemplo, o risco de perda de soberania nacional para uma invasão de mosquitos. Outra prática desse tipo é dizer que vamos fazer isso ou aquilo com a Amazônia, quando nem temos soberania sobre ela.

TERRA SEM LEI – Especialmente interessante é o tipo que afirma que o Brasil não é terra sem lei. Claro, lei há muitas, mas só para os inimigos. A tradicional vocação burocrática do Brasil, no espaço de poder desse tipo, torna-se mais uma arma contra o cidadão.

Aqui, estamos à mercê de vários tipos de abusos. Além do crime organizado em si, o Estado e os governos, comumente, abusam dos cidadãos, ainda que alguns distribuam mesadas a troco de votos.

Há, claro, o tipo artista, que acha que salvará o Brasil com seus filmes, novelas e documentários.

Populismo criou um país endividado que é submetido à agenda da mediocridade

Portal da CSPB | Sindcop-SP: O sumiço de dinheiro e o corte de verbas no Brasil de Temer

Charge do Nani (nanihumor.com)

Fernando Schüler
Estadão

Há coisas que se repetem a cada quatro anos neste país de memória curta e seletiva. Uma delas é o surto populista. Agora mesmo, vemos o governo distribuindo favores, em um clima febril. Há o “Move Brasil”, com seus mais de R$ 20 bilhões em crédito para compra de caminhões e carros de aplicativo.0

Há o Desenrola 2.0, o repetitivo programa em que o governo, via medida provisória, usa dinheiro público para beneficiar devedores, no mercado privado, menos de três anos depois de fazer basicamente a mesma coisa, com a mesmíssima retórica. E sem resultado estrutural algum.

E há a curiosa reversão da taxa das blusinhas. Coisa que o próprio governo criou, dois anos atrás, e agora volta atrás, sem muita explicação.

AUXÍLIO BRASIL – O governo anterior também teve o seu surto. Quem não se lembra da PEC Kamikaze, que aumentou o Auxílio Brasil para R$ 600, criou auxílio aos caminhoneiros, distribuiu R$ 1 mil por taxista e dobrou o “vale-gás”?

Isso a quatro meses das eleições. Imaginemos se Lula, daqui a um mês, resolvesse aumentar o Bolsa Família para 800 reais. Sejamos honestos. O que a oposição iria achar?

Pode-se argumentar que o governo fez isso em um quadro de redução da dívida pública e forte contenção das despesas. A dívida pública chegou a um patamar de 71,7% do PIB e o país fechou o ano com um superávit de 0,5%. Mas as medidas populistas estavam lá, e cada um pode julgar.

DÍVIDA DISPARA – O cenário agora é bastante distinto. Nossa dívida bate 80% do PIB e deve subir algo em torno de 10%, ao longo do atual governo. O déficit é crônico, houve um sistemático aumento de impostos e nenhuma reforma crível na estrutura do setor público.

Em um estudo recente, os economistas Samuel Pessôa e Fábio Serrano alertam que as vinculações à receita dos pisos da saúde e educação, somados à indexação da seguridade social ao aumento do salário-mínimo no atual governo irão gerar um aumento acumulado de R$ 1,397 trilhão nas despesas federais entre 2027 e 2034. Daria para ir longe nisso.

O descontrole das contas públicas, na verdade, vai muito mais longe e tem um componente estrutural. Passa pela retomada em larga escala dos concursos públicos, pelo déficit das estatais, pela novela dos supersalários, pela inércia na revisão dos incentivos fiscais. Isso e toda a gastança brasileira.

ESTADO REFÉM – Dias atrás escutei de um bom economista que o termo “gastança” é inadequado, visto que seriam apenas escolhas da sociedade. Ele tem o seu ponto. Quando os políticos torram R$ 5 bilhões em alguns meses de campanha, no fundão eleitoral, ou uma autoridade voa 140 vezes de jatinho em um ano, sem basicamente nenhuma necessidade, estamos diante de uma típica captura do Estado.

O Brasil é um parquinho de diversões do rent-seeking, feito à base de retórica fácil e de uma sociedade passiva. E nisso meu amigo economista tem lá sua razão.

O sentido disso tudo é uma espécie de troca intertemporal. No curto prazo, distribuímos isenções e gratuidades; no longo, endividamos o País e adiamos reformas difíceis. O resultado é o País estacionado no que se convencionou chamar de “armadilha da renda média”. Com o detalhe incômodo de que estamos envelhecendo. Nossa população com mais de 60 anos simplesmente vai dobrar, indo de 15% a perto de 30% até 2050.

PUXA PARA BAIXO – O envelhecimento da população pressiona ainda mais o gasto público (para cima) e a produtividade (para baixo). E ninguém parece lá muito preocupado com isso, em Brasília.

Estas coisas deveriam servir de alerta. O País fez reformas importantes, ainda que em um ziguezague nos últimos 30 ou 40 anos. Ainda nos anos noventa abrimos o mercado de telefonia, e os resultados são conhecidos. Fizemos as concessões de aeroportos, que melhoraram a olhos vistos. Ainda recentemente, fizemos o novo mar

co do saneamento, com um forte aumento dos investimentos. O problema é que logo recuamos. Reformas custam capital político, os resultados demoram a chegar, e boa parte de nosso mundo político carece de qualquer tipo de convicção modernizadora.

PEQUENAS ELITES – Uma hipótese é que, lá no fundo, somos um País confortável para um arquipélago de pequenas elites. Para quem de fato recebe os supersalários, não depende de uma escola ou hospital público, faz 140 viagens de jatinho às custas do contribuinte ou vive do nosso fundão eleitoral, qual seria mesmo a grande urgência brasileira?

 E qual o problema em compensar estas coisas distribuindo auxílios para os “de baixo”, sob o verniz de uma boa retórica? De modo que concordo com Edmar Bacha: somos o País da “mediocridade evitável”. Algo na linha: conhecemos qual é a agenda e como fazer. Mas por alguma razão, hesitamos.

Pela lógica que é própria da política e sua estranha racionalidade, mesmo sabendo o caminho a seguir, optamos, sem muito constrangimento, pela agenda da mediocridade. É sobre isto, no fundo, o debate que o País deveria fazer, neste ano triste de 2026.

Lula critica os juros, mas permite que os banqueiros controlem o Banco Central

Lula retoma cruzada contra Campos Neto e os juros altos - Vermelho

Charge do Cazo (Blog do AFTM)

Carlos Newton

Na era moderna, os economistas se transformaram em verdadeiros ilusionistas. Encontram dificuldades enormes para explicar fatos corriqueiros, citam teorias absolutamente absurdas e inventam conceitos que demonstram sua inesgotável criatividade em enganar os incautos. Na maioria das vezes, porém, existem explicações simples e fáceis de entender.

Por exemplo, não existe milagre em economia. Se um país gasta mais do que arrecada, caminha para um precipício. Mas os governantes não ligam para essa realidade. Lula da Silva, por exemplo, com sua longa experiência na política, é capaz de dizer que “o dinheiro vai sair de onde está e vai ser levado para onde ele deveria estar”.

NOVA TEORIA – Essa revolucionária teoria econômica foi inventada pelo próprio Lula e passou a ser adotada pelo governo, causando um espantoso e desnecessário crescimento da dívida pública.

Mas sempre arranjam alguma desculpa. Dizem, por exemplo, que muitos países importantes estão mais endividados do que o Brasil, que tem uma dívida pública bruta em torno de 91,4% do seu PIB. Países desenvolvidos como Japão (200%), Estados Unidos ( 124%) e França (116%) estão mais endividados que o Brasil nesta proporção.

Mas a falsa justificativa se desmonta sozinha, porque a diferença são os pequenos juros que incidem sobre a dívida deles e os enormes juros que fazem disparar a dívida brasileira.

POR QUE NÃO? – O próprio Lula questiona os juros altos, mas não toma nenhuma atitude para baixá-los. Está certo ao culpar o Banco Central, mas esquece que pode demitir o presidente do BC quando bem entender. Basta mandar que os ministros da Fazenda e do Planejamento lhe encaminhem o pedido, na forma da lei, em nome do Conselho Monetário Nacional, no qual os dois formam maioria. Porém, Lula jamais o fez.

Lula reclamava de Roberto Campos Neto, aquele que confiava tanto no próprio trabalho que deixava a fortuna investida no exterior. Mas o deixou no BC. Agora, reclama de Gabriel Galípolo, nomeado pelo próprio Lula, mas o mantém no cargo. Ora, até as paredes do Banco Central sabem que são os banqueiros que comandam a autarquia.

Somente senta naquela cadeira quem for indicado pela Febraban (Federação Brasileira dos Bancos). O Planalto (leia-se: Lula) é refém da Febraban porque não tem coragem de enfrentar os banqueiros.

TUDO SIMPLES – A questão dos juros é simples. Quem ganha com a alta das taxas? Os chamados rentistas (termo criado por Marx e Engels) e os próprios bancos, que no Brasil não têm nenhum respeito ao interesse público e cobram mais de 400% ao ano nos cartões de crédito, algo inexistente no mundo civilizado.

Se Lula tivesse enfrentado e enquadrado os bancários quando chegou ao poder, o quadro hoje seria diferente. Mas ele é completamente ignorante e vive cercado de imbecis, como os demais presidentes contemporâneos, à exceção de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Itamar Franco.

O Brasil é subdesenvolvido, eivado de favelas, recordista em desigualdade social, mas pode se orgulhar de ter os mais rentáveis bancos do mundo, que dominam a política com mão de ferro. Nenhum candidato pode falar mal dos banqueiros. Se fizer qualquer denúncia, será silenciado de uma forma ou de outra.

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P.S. –
Desculpem o pessimismo, mas é difícil aguentar a realidade do Brasil, onde a riqueza total tenta conviver em paz com a miséria absoluta. O resultado está à vista de todos – a corrupção, a criminalidade, a violência e a insegurança. E ainda há quem culpe a Polícia, que conta seus mortos como se fosse uma estatística de guerra. (C.N.)