Caiado cobra explicações de Flávio sobre Vorcaro e volta a falar em políticos “contaminados”

Entre patriotismo e traição, tarifaço americano contamina o debate político brasileiro

Clãs políticos voltam à disputa e testam a força de seus sobrenomes nas urnas

Uma poética homenagem a um artista inesquecível, chamado Altamiro Carrilho

Casa do Choro | 100 anos de Altamiro Carrilho - Dudu Oliveira e Regional -  Revista Prosa Verso e Arte

Altamiro Carrilho, o maior flautista do mundo

Paulo Peres
Poemas & Canções

A poeta carioca Marina Fairth (1951-2013) homenageou seu pai, o saudoso e genial músico, compositor e flautista Altamiro Carrilho (1924-2012), que gravou mais de cem discos, compôs cerca de duzentas canções, tendo se apresentado em mais de quarenta países difundindo o choro brasileiro. “É o flautista com maior número de gravações registradas na história do disco no Brasil”, segundo os críticos, “ além de ser um dos maiores flautistas da história do instrumento”.  Era considerado pelo famoso músico francês Jean Pierre Rampal o melhor flautista do mundo.

BRASILEIRO ALTAMIRO CARRILHO
Marina Fairth

Que bom que tenha nascido brasileiro!
E que sua missão fosse a de sempre estar
à frente de todos os passos
que fariam de nossa música
obra de arte de valor incalculável!

Embora seja simples seu modo de se apresentar,
torna tudo aquilo que concebe em realidade.
Faz da sonata um choro leve;
do samba uma festa!
Dos hinos uma euforia,
do maxixe fantasia!
E dos clássicos … uma ode à eterna esperança
vestindo-se de criança
brincando com o Carinhoso em forma de sinfonia!

Que prodígio é este menino!
60 anos brincando de fazer música:
compondo, executando com magistral beleza,
deixando que sua natureza
se manifeste em seu som
tirado da flauta e do flautim,
fazendo um grande festim
das bodas da harmonia
com o brilho do artista!

Altamiro – Brasileiro Carrilho!
Que fala a linguagem universal,
porém única em seu particular sonho criativo,
tornando-se mito em sua terra
e nas terras de além-mar!

Altamiro, com orgulho ofereço
esta página que é minha,
que reflete o meu carinho,
minha honra em ter nascido uma filha
do brasileiro Altamiro!

Deus te abençoe, meu pai,
pelo muito que tem feito,
por ter tirado proveito
do dom sagrado que Deus lhe deu.
E por estar cumprindo
honrosamente sua missão neste mundo:
Fazer brilhar a Luz de Deus
através de sua música!

Nunes Marques não se envergonha de estar renovando a censura política no Brasil

Nunes Marques analisa pedido de Flávio Bolsonaro sobre nulidade de pesquisa  | Blogs | CNN Brasil

Nunes Marques aplaude a criação da censura nas pesquisas

Vicente Limongi Netto

Com vocês, na imunda passarela da censura, desfila o presidente do Tribunal Superior Eleitoral(TSE), ministro Nunes Marques, que suspendeu, em decisão liminar, a divulgação de uma pesquisa do Instituto AtlasIntel, segundo a qual o candidato Tariflávio Bolsonaro caiu 5% nas intenções de voto, depois do vazamento do áudio onde o aloprado Flávio Rachadinha pede dinheiro ao facínora Daniel Vorcaro. 

Lamentável e vergonhoso que o ministro Nunes Marques traga de volta a censura para disputar espaços com a democracia. Nunes Marques quer ser mais realista do que o rei.

DEBAIXO DO TAPETE – Com essa decisão surpreendente e ilegal, o presidente do TSE briga com os fatos. Esconde a imunda verdade debaixo do tapete. Além de desmoralizar a opinião dos brasileiros ouvidos na pesquisa.

Nunes Marques tornou-se ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) por indicação do golpista Jair Bolsonaro, pai do outro golpista, Flávio Achocolatado. 

Neste caso melancólico, trata-se de gratidão cretina e serviçal.  Como magistrado, Nunes Marques não pode nem deve misturar as estações. A toga exige que seja isento.

DIA DOS NAMORADOS – Vem aí o grande dia.   Namorar é viver encantado e feliz. São os laços da ternura com o belo. São gestos suaves anunciando o amor. É o sorriso permanente.  É a tolerância oferecendo flores para o amanhecer. É a energia sublime dividindo emoções com a pessoa amada.

Namorar é dividir anseios e dúvidas. É o abraço apertado que espanta apreensões da alma. É o cotidiano ameno, carinhoso e solidário. É o beijo amoroso de serenidade e respeito.  O namoro preserva, no caminhar da vida, a paciência e a união duradoura. 

Sob comando de indicados de Bolsonaro, TSE já desperta preocupação dentro do Supremo

PF deve rejeitar novamente delação de Vorcaro; informações foram consideradas insuficientes

Anúncio deve ser feito ainda nesta terça-feira

Mônica Bergamo
Folha

A PF (Polícia Federal) vai recusar a nova proposta de delação premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro na semana passada. O anúncio deve ser feito nesta semana, provavelmente ainda nesta terça (9), diretamente aos advogados do dono do Banco Master.

Será a segunda recusa dos termos de colaboração propostos por ele em menos de um mês. Em maio, a PF considerou que a primeira proposta apresentada pelo ex-banqueiro não trazia elementos novos para a investigação e deixava de fora fatos que os investigadores já conheciam.

SEM NOVIDADES – Os argumentos agora se repetem: nesta segunda tentativa, Vorcaro até teria detalhado situações envolvendo políticos e autoridades, sem, no entanto, apresentar novidades em relação ao que já foi descoberto, e sem apontar crimes cometidos por parceiros.

De acordo com autoridades ouvidas pela coluna, a impressão é a de que o ex-banqueiro está apenas tentando ganhar tempo na esperança de que o STF (Supremo Tribunal Federal) sinalize que pode afrouxar as medidas tomadas contra ele e seus familiares.

JULGAMENTO – Nesta semana, a Corte deve retomar o julgamento que decidirá se o pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, seguirá preso. A nova rejeição à delação não significa que as portas da PF estão totalmente fechadas para o dono do Banco Master. De acordo com a lei, ele pode sempre voltar às autoridades com uma nova proposta de colaboração.

Na prática, porém, “ficar nesse vai e vem”, de acordo com um integrante da PF, em nada deve melhorar a situação em que o ex-banqueiro se encontra. A PGR (Procuradoria-Geral da República) também estaria insatisfeita com os novos termos de colaboração apresentados por Vorcaro, mas tem adotado uma postura diferente, de não recusar oficialmente a delação e seguir negociando na tentativa de que ela melhore. Procurada, a defesa de Vorcaro não respondeu à coluna.

Cármen Lúcia prepara código de ética para o Judiciário e defende mais transparência no STF

A política das conveniências e o enfraquecimento da identidade partidária

Casa atingiu o recorde de trocas de partido

Pedro do Coutto

A política brasileira vive um momento que ajuda a explicar muitas das dificuldades enfrentadas pela democracia representativa no país. A poucos meses das eleições de 2026, o Senado Federal se transformou em um verdadeiro tabuleiro de reposicionamentos estratégicos, onde a busca por espaço político, estrutura eleitoral e proximidade com o poder parece falar mais alto do que compromissos ideológicos ou fidelidade partidária.

Levantamento destacado por reportagem de Luísa Marzullo, de O Globo, revela que ocorreram 86 trocas de legenda entre senadores nos últimos oito anos — um número superior ao total de integrantes da Casa, que possui 81 cadeiras. Trata-se de um recorde histórico e de um retrato bastante eloquente da dinâmica política brasileira contemporânea. O fenômeno não é episódico nem casual. Pelo contrário, ele se intensifica justamente em um ano eleitoral marcado pela renovação de dois terços do Senado, quando 54 das 81 vagas estarão em disputa.

MIGRAÇÃO – A explicação imediata parece simples. Diferentemente dos deputados federais e estaduais, os senadores não estão submetidos às mesmas regras rígidas de fidelidade partidária. Como exercem mandatos de oito anos e são eleitos pelo sistema majoritário, possuem ampla liberdade para migrar entre legendas sem risco de perda do mandato. Essa característica institucional transformou o Senado em um espaço particularmente flexível para rearranjos políticos e eleitorais.

Mas o fenômeno vai muito além de uma simples questão jurídica. O que está em curso é uma disputa nacional pelo controle das futuras maiorias parlamentares. O Senado tornou-se peça estratégica para qualquer projeto de poder, seja do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, seja das forças oposicionistas que tentam ampliar sua influência institucional.

Nesse contexto, a movimentação dos senadores segue uma lógica pragmática. A filiação partidária passa a ser vista menos como expressão de identidade política e mais como instrumento para maximizar chances eleitorais. Estrutura financeira, tempo de propaganda, alianças estaduais, acesso a lideranças nacionais e potencial de vitória tornaram-se fatores decisivos na escolha das legendas. Especialistas apontam que as migrações recentes refletem justamente essa busca por melhores condições de competição eleitoral.

RESISTÊNCIA –  O caso de Rodrigo Pacheco ilustra bem essa realidade. Após perder espaço dentro do PSD, legenda pela qual se elegeu para o Senado, o ex-presidente da Casa migrou para o PSB, partido aliado ao governo federal. A mudança foi interpretada por muitos analistas como parte da estratégia de Lula para fortalecer sua presença em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. Entretanto, a resistência de Pacheco em disputar o governo mineiro demonstrou que nem sempre os planos nacionais conseguem prevalecer sobre os cálculos políticos individuais.

A situação de Minas Gerais revela um dos maiores desafios enfrentados pelo Palácio do Planalto. Embora Lula disponha da força institucional da Presidência da República e dos instrumentos inerentes ao cargo, a construção de palanques estaduais competitivos continua sendo uma tarefa complexa. Em São Paulo, o governo aposta na articulação de nomes capazes de enfrentar o grupo liderado pelo governador Tarcísio de Freitas. No Rio de Janeiro, por sua vez, a candidatura de Eduardo Paes é vista como um dos pilares da estratégia governista para 2026.

Por trás dessas articulações existe uma preocupação ainda maior. O governo compreende que a disputa presidencial não será suficiente para garantir governabilidade. A composição do Senado tornou-se central porque a Casa exerce funções decisivas no equilíbrio institucional brasileiro, desde a aprovação de autoridades até a condução de processos de impeachment e sabatinas de indicados para tribunais superiores. Não por acaso, Lula tem enfatizado repetidamente a necessidade de ampliar sua base parlamentar nas eleições de 2026.

SEGUNDO PLANO –  Entretanto, o aspecto mais preocupante desse cenário talvez não seja a movimentação em si, mas aquilo que ela revela sobre os partidos políticos brasileiros. Quando parlamentares transitam com relativa facilidade entre legendas de orientações distintas, a mensagem transmitida ao eleitor é a de que os programas partidários possuem importância secundária. A identidade ideológica acaba substituída por alianças circunstanciais, negociações regionais e cálculos de sobrevivência eleitoral.

Esse processo contribui para aprofundar uma crise de representação que já afeta grande parte das democracias contemporâneas. O eleitor vota em um candidato associado a determinado partido e a um conjunto de propostas, mas frequentemente vê esse mesmo político migrar para outra legenda ao longo do mandato. Embora legalmente legítima, essa prática alimenta a percepção de distanciamento entre representantes e representados.

O debate que começa a surgir no Supremo Tribunal Federal sobre a eventual ampliação das regras de fidelidade partidária para cargos majoritários pode ganhar relevância nos próximos anos. Caso a interpretação avance, senadores, governadores e até presidentes poderiam enfrentar restrições semelhantes às já existentes para parlamentares eleitos pelo sistema proporcional. A discussão envolve princípios constitucionais complexos, mas reflete uma preocupação crescente com a estabilidade partidária e a coerência dos mandatos eletivos.

TROCA-TROCA – Enquanto isso, o Senado segue em intensa transformação. As trocas de legenda provavelmente continuarão até o prazo final das filiações partidárias, redesenhando forças políticas e alterando estratégias eleitorais em praticamente todos os estados brasileiros.

No fundo, o cenário retratado pela movimentação dos senadores expõe uma característica histórica da política nacional: a predominância do pragmatismo sobre a ideologia. Em um sistema onde a sobrevivência eleitoral frequentemente depende de alianças flexíveis e adaptações constantes, os partidos acabam funcionando mais como veículos para projetos de poder do que como organizações programáticas de longo prazo. O resultado é um Congresso permanentemente em movimento, mas nem sempre conectado às expectativas de coerência e representação que grande parte da sociedade espera de seus líderes políticos.

Um grande país se faz com uma Justiça de regras confiáveis e iguais para todos

Justiça nem sempre é cega charge política. Uma mão oferece dinheiro à Justiça e ela remove a venda para parecer gananciosa charge política

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Fernando Schüler
Estadão

“Vai chegar o dia em que a mera defesa da liberdade de expressão será um crime no Brasil”. Me lembro de ouvir isso em um debate, anos atrás. À época, achei exagerado. Mas a verdade é que o dia chegou. Já tratei aqui do caso Monark. Ele fez exatamente isso, em um programa perdido no tempo, defendendo a liberdade de expressão até para um partido nazista.

Semanas atrás, saudei o promotor Marcelo Ramos e o Ministério Público pela manifestação em favor da improcedência da ação”. O argumento de Ramos era cristalino, mostrando que o youtuber havia feito uma defesa — equivocada, na sua visão — da liberdade de expressão. E que isto não poderia ser um crime.

TRISTE ENGANO – “Ótimo”, pensei. Sinal de que estaríamos recuperando algum apreço a direitos individuais. Ou, quem sabe, apenas o bom senso. Triste engano. Dias depois, tudo retrocedeu.

Não apenas o promotor Marcelo foi afastado do caso, como sua decisão foi “substituída” pela de um colega, sob a curiosa justificativa de que Ramos havia se “equivocado”. Para completar, o próprio promotor acabou sofrendo um processo disciplinar, sob a vaga acusação de colocar em risco o “prestígio” da Justiça e a “dignidade” do Ministério Público.

Pelo que entendi, prestigiar a Justiça exigiria que o promotor tivesse confirmado a multa de R$ 4 milhões para o Monark. Mesmo se isso atentasse contra sua convicção sobre o caso. Como decidiu na direção inversa, pode agora ser sancionado, sabe-se lá de que jeito.

DUPLA CENSURA – O que temos agora é uma dupla censura: o MP querendo censurar o Monark. E querendo, de quebra, censurar o promotor que defendeu a liberdade de expressão de Monark. Difícil achar uma imagem mais adequada do país estranhíssimo em que nos transformamos.

Muitas coisas impressionam neste caso. A primeira delas é a curiosa dificuldade com a objetividade da lei e do texto. É perfeitamente inequívoco que Monark não fez apologia nenhuma do nazismo. Sua defesa é de um princípio idêntico ao da Primeira Emenda americana. Pode estar errado nisso. Mas, se isto fosse um crime, há muito não seríamos mais uma democracia.

Impressiona, neste caso, a inversão de valores. O promotor que repõe a realidade dos fatos passa a ser ele mesmo o “culpado”. Para quem gosta de história, foi exatamente o que ocorreu no caso Dreyfus. Quando Georges Picquart assumiu a inteligência francesa e percebeu que o capitão Dreyfus era inocente, foi removido de sua função e logo indiciado. O pecado, à época, não era ser um youtuber anarquista e politicamente incorreto. Era o antissemitismo. Cada época tem lá sua loucura.

TRISTE EXEMPLO – O caso entrou para a história como exemplo de intimidação e corporativismo judicial. O instante triste em que as razões de Estado, que por vezes não passam de mesquinharia, se sobrepõem ao dever de justiça. Coisas que nunca deveriam acontecer em uma democracia baseada em direitos.

O curioso disso tudo é que Monark, com sua fala confusa, pode estar dando uma enorme contribuição à nossa democracia. Seu caso expõe uma fratura entre a objetividade da lei, de um lado, e a politização da Justiça, de outro.

Meu argumento sobre isto é bastante simples: em um mundo fraturado, como o nosso, marcado por um radicalismo difuso que se produz no ambiente tóxico dos meios digitais, precisamos tomar cuidado. Que a sociedade esteja tomada pelas guerras culturais é apenas um fato. Sem lá muito remédio. O que é inadmissível é que isto ocorra com as instituições.

REGRAS IGUAIS – Um grande país se faz com o que o Nobel Daron Acemoglu chamou de “instituições inclusivas”. Instituições que resistem à captura. Seja por parte de identitários ou conservadores. Um sistema de justiça feito de regras iguais para todos, e no qual cada cidadão pode confiar. E, a partir daí, acreditar que vale apostar.

Vale dizer o que pensa, mesmo quando isto signifique criticar as leis, as autoridades e defender uma ideia muito ampla sobre a liberdade de expressão.

E isto sem medo de acordar no dia seguinte arrebentado pelas idiossincrasias de algum agente do poder. Viver em um país com estas virtudes é um direito do qual, por nada, deveríamos abrir mão.

Imoralidades tributárias do Congresso criam um país que não pode dar certo

Apesar de limitada, Comissão da Verdade é um passo histórico para consolidar a democracia no Brasil | FUP - Federação Única dos Petroleiros

Charge do Latuff (Arquivo Google)

Hélio Schwartsman
Folha

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas.

ISENÇÃO MÚLTIPLA – Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos.

O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

GRAVES DISTORÇÕES – Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular.

Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Artigo impecável. Mostra as distorções que o próprio Congresso cria. Realmente, não pode prosperar um país que não se preocupa com critérios que poupem os recursos públicos, para serem empregados no que é absolutamente necessário. É lamentável. (C.N.)

Bolsonaro errou feio ao indicar Flávio, que não tem condição de vencer Lula

Tarcísio é a aposta do mercado financeiro para substituir Bolsonaro após  inelegibilidade – CartaCapital

Se tivesse sido indicado, Tarcísio estaria liderando as pesquisas

Carlos Newton

Durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, acompanhei numa visita ao Congresso o então presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho. Além de ser jornalista, ele conseguia ser advogado, procurador, escritor, professor universitário e historiador. Era uma figura realmente notável, sempre de bom humor, e adorava política, tinha sido governador e deputado federal por Pernambuco.

Ele se encontrou com Ulysses Guimarães, que então presidia a Câmara e a Assembleia Constituinte, e com Humberto Lucena, que presidia o Senado. Sua visita foi acompanhada por muitos jornalistas, entre os quais se destacava a premiada fotógrafa Ana Carolina, da revista IstoÉ, que usava uma estonteante minissaia.

UM GALANTEIO – O presidente da ABI não sabia que Ana Carolina era filha de um de seus maiores amigos, o jornalista Helio Fernandes. Quando ela se aproximou  para fotografá-lo, Barbosa Lima, que estava com 90 anos, não conteve o galanteio e arrancou gargalhadas. “Está tudo errado, minha filha. Me passe a máquina, porque eu é devia fotografá-la…”.  

Antes de sairmos, pediu que eu o levasse ao gabinete de Jarbas Passarinho, ao lado do plenário.  Eu não sabia que eram amigos, porque Barbosa Lima se opunha firmemente contra os militares e até foi candidato a vice-presidente na chapa de protesto encabeçada por Ulysses.

“Gosto muito do Passarinho. Entre os militares, é um dos mais preparados e mais dignos, foi o único ministro que assinou a contragosto o AI-5, lembra?”, explicou  

MAL DE FAMÍLIA – A conversa rolou solta sobre a importância da Constituinte e as negociações políticas, e a horas tantas Jarbas Passarinho fez uma revelação que nos surpreendeu. “Para os políticos, o maior problema é a família. Dos amigos, a gente ainda consegue se livrar, mas é impossível se livrar da família…”, disse o senador.

“Os membros da família acham que o político pode lhes dar tudo. Querem emprego de alto salário, vaga na universidade sem fazer vestibular, passagem grátis em avião da FAB, uma chatice, não há quem aguente!”.

Quando saímos, Barbosa Lima comentou: “Também sofri muito esse problema, especialmente quando fui governador de Pernambuco. É um lado podre da política.

ESCOLHA INFELIZ – Lembrei esse episódio ao refletir sobre os rumos da sucessão presidencial. Jair Bolsonaro é um dos maiores influenciadores políticos. Não pode ser candidato, mas tem força para influenciar diretamente o voto de milhões de brasileiros.

Ele poderia ter indicado o governador paulista Tarcísio de Freitas, que é e sua inteira confiança, para formar uma chapa fortíssima com seu filho Flávio, como vice. Se tivesse feito essa escolha, a eleição corria o risco de ser vencida por Tarcísio no primeiro turno.

No entanto, Bolsonaro preferiu um membro da família, embora seja claramente despreparado e com um passado nebuloso, temperado por rachadinhas, negócios imobiliários com dinheiro vivo e lavagem de dinheiro achocolatado. Com isso, facilitou muito a vida de seu arqui-inimigo Lula da Silva, que seria facilmente derrotado por Tarcísio.

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P.S.
A política tem dessas coisas. Qualquer vacilo pode ser fatal, e a família atrapalha muito mais do que ajuda. Agora, tudo piorou. Depois que entronizaram a corrupção e a impunidade, as próprias famílias se encarregam de corromper os jovens. E vida que segue, diria João Saldanha, que faz uma falta danada em época de Copa do Mundo. Com certeza, vai assistir ao lado de nosso amigo Nelson Rodrigues. Um de esquerda, outro de direita, mas ambos democratas. (C.N.) 

PF quer acionar Interpol contra Vorcaro e rastrear recursos ligados ao Master

Rotular facções como terroristas não elimina estrutura do crime organizado

Limite imposto pelo STF não impede explosão de penduricalhos na Justiça paulista

Nunes Marques suspende divulgação de pesquisa que registrou queda de Flávio Bolsonaro

Dividido, STF enfrenta julgamentos que podem influenciar a eleição de 2026

Charge do Clayton (Jornal do Commercio)

Valdo Cruz
G1

Dividido, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem decisões polêmicas pela frente nesta reta final de semestre. Essas decisões podem aprofundar essa divisão, ter influência na política em ano eleitoral e determinar a força do ministro André Mendonça no comando do inquérito do Banco Master.

Esses temas que envolvem, por exemplo, a prisão de parentes do banqueiro Daniel Vorcaro e mudanças na Lei da Ficha Limpa, podem, por outro lado, melhorar a imagem desgastada do STF.

LIMINAR –  O ministro Gilmar Mendes precisa devolver para julgamento a liminar de André Mendonça que determinou a prisão do pai e do primo de Daniel Vorcaro. A expectativa no STF é se o resultado dará mais força ao relator ou pode gerar um empate, caso Nunes Marques e Gilmar Mendes votem contra a prisão dos dois, o que teria reflexos em novas decisões de André Mendonça no inquérito do Master.

Gilmar Mendes também pediu vista no julgamento da ação contra a lei aprovada no Congresso que beneficia políticos que, hoje, estão inelegíveis; entre eles, Eduardo Cunha e José Roberto Arruda.

ELEIÇÃO NO RIO – O STF pode decidir antes do recesso como fica a eleição no Rio de Janeiro, depois de o TSE ter confirmado a inelegibilidade de Cláudio Castro, mas ter reconhecido sua renúncia; fica a dúvida, o Rio precisa ter uma eleição direta ou indireta, mas tudo leva a crer que vai ficar tudo como está, com o desembargador Ricardo Couto ficando no governo até o final do ano.

Além desses itens, outro assunto que gera tensão dentro do STF é a delação premiada do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que entra numa semana decisiva. A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República (PGR) devem dar resposta nesta semana se aceitam ou não a nova proposta de delação de Daniel Vorcaro, depois de a primeira ter sido rejeitada.

Os advogados de Vorcaro dizem que entenderam o recado e mandaram o seu cliente aprofundar nas revelações, o que deve incluir por que e como ele decidiu financiar o filme “Dark Horse”. A depender do que for dito, pode ter influência direta na campanha presidencial, atingindo o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro.

EXPECTATIVA – Entre bolsonaristas, há uma expectativa que Daniel Vorcaro também conte sobre suas relações com o PT da Bahia e nomes de ex-assessores de Lula contratados pelo banqueiro, como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski. Enquanto isso, investigadores continuam pressionando Daniel Vorcaro a contar mais e fazer adendos à sua segunda versão de colaboração premiada.

Seguem dizendo que ele não está contando tudo que sabe e precisa, se quiser mesmo um acordo, realmente colaborar. Em Brasília, o mundo da política continua torcendo para que a colaboração premiada seja recusada.

Big Techs travam nova batalha no STF em meio à ofensiva regulatória de Lula

Ninguém sabe qual será o time na estreia na Copa, daqui a quatro dias

Carlo Ancelotti pega pesado nos treinos do Brasil

Ancelotti precisa definir o time para poder treinar o conjunto

Tostão
Folha

Contra o Egito, o fato positivo foi a marcação por pressão mais eficiente do que nos jogos anteriores, embora aumente os riscos por deixar mais espaços na defesa se não houver a recuperação da bola. Assim saíram os dois gols do Brasil. No primeiro tempo, os quatro do meio campo (os volantes Casemiro e Bruno Guimarães e os meias Paquetá e Raphinha) atuaram muito centralizados deixando os laterais desprotegidos. O Egito criou também algumas chances de gols.

Após os amistosos contra Panamá e Egito, ninguém sabe qual será o time da estreia na Copa devido às muitas experiências feitas por Ancelotti. Os dois jogos não diminuíram nem aumentaram as esperanças de sucesso no Mundial. Tudo continua   incerto.

VAGAS EM DISPUTA – Além das dúvidas nas laterais, a seleção brasileira do meio para frente possui quatro titulares (Casemiro, Bruno Guimarães, Vinicius Junior e Raphinha). Alguns jogadores disputam as outras duas vagas, com diferentes posicionamentos em campo.

Quando Ancelotti fala que o time vai jogar no 4-4-2, independentemente da escalação, deduzo que se refere à fase defensiva, com quatro jogadores na proteção dos quatro defensores. Este é um conceito antigo, presente na maioria das atuais equipes, iniciado com a seleção inglesa campeã do mundo em 1966.

Muitas coisas vão e voltam no futebol. Evidentemente, o jogo hoje é muito mais veloz, intenso, compacto, com as equipes marcando e atacando com muitos jogadores.

DEBATES INÚTEIS – As frequentes discussões se a seleção brasileira deve jogar no 4-4-2, no 4-2-4 ou no 4-3-3 são obsoletas. Os jogadores não param de correr e, a cada instante, é formado um diferente sistema tático na prancheta.

 Os pontas são atacantes quando avançam e defensores quando recuam. Não há diferença entre 4-2-4 e o 4-4-2, vai depender do momento do jogo. Obviamente, as equipes possuem particularidades individuais e coletivas.

Outra discussão diária, desnecessária, é se o Brasil deve jogar com quatro atacantes ou com um terceiro jogador no meio-campo. Matheus Cunha é um armador ou um atacante, pois marca no meio-campo e chega à frente?

MESMA DISCUSSÃO – Antes da Copa de 70, o Brasil jogava com dois no meio-campo (Clodoaldo e Gerson), dois atacantes pelo centro (Pelé e Tostão) e dois pontas abertos e agressivos. Zagallo assumiu o comando e trocou o ponta esquerda Edu por mais um jogador de meio-campo (Rivellino).

As discussões eram as mesmas de hoje, se o time deveria jogar com três no meio-campo ou com quatro atacantes (4-3-3 ou 4-2-4) e se deveria ter um clássico centroavante (Roberto) ou um meia atacante (Tostão) ao lado de Pelé. Zagallo dizia, como muitos defendem hoje, que a equipe não poderia ter apenas dois no meio-campo contra as fortes seleções europeias.

A pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo me escalar não foi explicita como mostra a série “Brasil 70 — A Saga do Tri”, exibido pela Netflix. Se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e nas conversas ao pé do ouvido.

CENA INVENTADA – Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. Eu não fui até Zagallo para dizer que eu tinha de ser o titular, como mostra a série. Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente. Por isso e pelas condições físicas e técnicas era o Pelé, o maior da história.

A série é bem feita, prazerosa de se ver, emocionante, possui ótimos atores, com ótima reprodução dos principais lances e gols, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas para dramatizar uma grande conquista esportiva.

Por fim, meus sentimentos à família de Leivinha, ídolo do Palmeiras, meu companheiro de ataque na seleção brasileira, campeã da Copa das Confederações, no Maracanã, em 1972. Leivinha ocupou o lugar de Pelé, que tinha se despedido da seleção.

Envelhecimento e queda de natalidade formam uma dança macabra no Brasil

Título – A dança macabra Ilustração de Ricardo Cammarota foi realizada em técnica de composição de recortes digitais. A imagem apresenta uma composição formada por diversas partes de esqueletos humanos recortadas e reorganizadas sobre pautas e notas musicais de uma partitura. O fundo é verde-claro e é atravessado por pautas musicais pretas com notas distribuídas por toda a superfície. Sobre elas, aparecem caixas torácicas, colunas vertebrais, pelves, braços, mãos, pernas e pés em tons de preto, branco e cinza. Os fragmentos ósseos estão dispostos em diferentes posições, orientações e escalas, ocupando quase toda a área da imagem e sobrepondo-se às linhas e símbolos musicais.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Um dos grandes desafios contemporâneos é a longevidade como realidade histórica intransponível. No Brasil, o Estado empurra esse fato com a barriga, como tudo mais. O Estado brasileiro só lembra de você no circo da democracia —as eleições— ou para tirar o seu dinheiro.

Logo, alguém muito inteligente dirá que a longevidade é um problema de saúde pública ao qual se deve aplicar fórmulas epidemiológicas. Ao lado dela, e causada pelo mesmo fenômeno histórico-social conhecido como modernidade, a queda da natalidade — motivo até de um alerta atrasado e inútil da ONU — é o outro extremo da curva demográfica, descrevendo uma dança com tons macabros.

MUITOS MOTIVOS – Essa dança se refere ao encontro desses dois movimentos demográficos paralelos que, por serem consequência de processos sociais concretos, não devem desaparecer. Por um lado, há o avanço da medicina científica, gerando longevidade; do outro, o mundo da emancipação feminina gerando queda da natalidade.

Em breve, as famílias serão mais atomizadas e reduzidas na rede de proteção dos seus integrantes. Assim, muitos idosos abandonados de um lado, jovens em extinção do outro. Daqui a pouco a população de idosos vivendo em situação de rua será gigantesca.

Recentemente, num bairro de alto padrão da cidade de São Paulo, houve uma batalha inimaginável até tempos atrás. Uma associação de moradores iniciou um movimento, com vitórias iniciais, para expulsão de casas de repouso de longa duração para idosos da região, sob vários argumentos que soam bastante desumanos.

BRIGAS JURÍDICAS – Essas casas estariam fora do espectro permitido para bairros residenciais. O assunto deve ser resolvido —se assim o for— pela prefeitura, seus alvarás de funcionamento e os advogados do segmento.

Dizer que o aumento da longevidade é uma realidade histórica intransponível é dizer que a longevidade é algo que, em termos históricos, tem a consistência da lei da gravidade. Não há como contornar esse fenômeno. Só há como cuidar dele, criando melhores condições de vida em saúde —seguros saúde para idosos são impagáveis, o destino é o SUS—, cuidado psicológico e social. Falar é fácil, realizar são outros quinhentos.

As famílias seriam a instituição na primeira linha de combate. O Estatuto do Idoso exige, legalmente, o investimento das famílias na solução do fenômeno, com ameaça de criminalização dos entes familiares que não empenharem esforços no cuidado, criação de condições de vida digna e garantias do cotidiano do idoso.

ESTADO OMISSO – Como sempre, a lei no Brasil funciona no sentido de pressionar o cidadão para que o Estado, lave as mãos e siga seu caminho que é continuar espremendo a sociedade para que ela sustente os luxos de seus dignatários. Trocando em miúdos, a ideia é não gastar dinheiro público com os idosos e usá-lo apenas com viagens, eventos, jantares, emendas e afins.

O fato sociológico intransponível é que essa família quase não existe mais. Não há lugar nem dinheiro para as famílias atomizadas cuidarem dos seus idosos, o que não implica que eles não o mereçam.

As mulheres que sempre arcaram, na maioria dos casos, com a lida cotidiana dos idosos, estão em outra. Como filhas da modernização, elas querem liberdade, carreiras, estudos, viagens, enfim, querem ser felizes. E quem em sã consciência pode lhes tirar a razão? Não há lugar para os idosos, e, cada vez menos, para crianças.

ESPERA DA MORTE – Políticas públicas quase não saem do blábláblá, parecendo mesmo, às vezes, que a única política pública de fato é esperar —já que são idosos — que morram logo.

O resultado, como sempre, é que o mercado vem acudir essas famílias com um exército de cuidadoras, que muitas vezes se transforma em contencioso trabalhista.

Ou, ainda, empresas oferecem a essas famílias serviços terceirizados — muitas vezes, como forma de proteger dos conflitos trabalhistas essas mesmas famílias.

CASAS DE REPOUSO – Oferecem também casas de repouso de longa duração — essas mesmas que muita gente quer expulsar do seu bairro, em nome do valor imobiliário das suas residências; do cenário de ambulâncias e carros funerários na região; e dos gemidos e choros dos idosos, buscando empurrar essas instituições para a periferia da cidade. Enfim, aos indesejáveis, a periferia.

 

A verdade é que esses serviços que o mercado oferece são caríssimos, normalmente acima das condições financeiras das famílias atomizadas. Portanto, a exploração se instala. Não há rota de escape nem para as famílias, nem para os idosos.

Como sempre na selva disfarçada de país que é o Brasil, as hienas se instalam e gargalham, num constante salve-se quem puder.